Quando o Medo Vai Embora

Quando o Medo Vai Embora

Mãe, já cheguei! disse Constança, entrando devagarinho no apartamento e pousando cuidadosamente a mochila junto à porta. Inspirou fundo, tentando acalmar o coração acelerado o regresso a casa depois das aulas era sempre um tormento, pois nunca sabia em que disposição encontraria a mãe. Sentia o peito apertado, como se o coração pudesse saltar-lhe do peito, e as mãos húmidas de nervoso.

No silêncio da casa, soou cortante a voz de Guilhermina, a mãe:

Então? O que foi desta vez? Outra negativa?

Constança estremeceu dos pés à cabeça e baixou o olhar para os ténis gastos. Tinha apenas doze anos, mas já se habituara àquele tom ecoava-lhe nos ouvidos quase todos os dias, obrigando-a a encolher-se e esconder as emoções, como se as enterrasse no fundo da terra. O peito doía, como se uma mão gelada lhe apertasse o coração, e a respiração ficava entrecortada.

Não, mãe Foi um quatro a Matemática respondeu num fio de voz trémula, evitando encarar o olhar da mãe. Por pouco não foi um cinco

Guilhermina levantou-se do sofá, onde folheava uma revista, e acercou-se da filha a passos largos. O rosto torcido de aborrecimento: as sobrancelhas franzidas, os lábios numa linha dura, os olhos com um brilho frio.

Quatro?! Isso é a sério? a voz tilintava de indignação. A minha filha não tira quatros! Percebes que pareço uma mãe má? Achas que posso andar de cabeça erguida se nem um cinco consegues trazer?

Eu esforcei-me murmurou Constança, sentindo um nó na garganta. O exercício era mesmo difícil Ontem estive ali horas, mas não consegui acabar tudo.

Difícil! escarneceu a mãe com ironia. Isso é preguiça! Ficaste foi agarrada ao telemóvel outra vez, não foi? Sempre a perder o tempo com disparates.

Agarrou na mochila da filha e sacudiu-a, deixando cair os cadernos pelo chão do hall, tal qual pássaros assustados. O estojo abriu-se e lápis e canetas fugiram nas direcções mais inesperadas. Constança ficou estática, barriga contratida pela injustiça, e lágrimas a quererem romper. A verdade é que passara a noite inteira a tentar resolver os exercícios, a reler o manual e até a procurar exemplos na internet…

Sem dar ouvidos às tentativas tímidas de explicação, a mãe enxotou-a porta fora:

Enquanto não perceberes como se resolvem esses problemas, não voltas a pôr aqui os pés! Chega de desculpas e chega de quatros! Está entendido?

A porta bateu de rompante. Constança ficou sozinha no patamar, abraçada a um caderno que sobrevivera ao caos. Os olhos transbordaram, as lágrimas manchando a capa dos trabalhos de casa.

“Porque é que tem de ser sempre assim?”, pensava, descendo lentamente as escadas, cada degrau parecendo uma muralha. Abraçou-se para tentar aquecer o corpo, que tremia com o frio o casaco ficara em casa.

Fazia-lhe tanta falta o pai! O pai, João, sempre soubera acalmar a mãe, encontrar as palavras certas, desfazer as tempestades em harmonia, fosse com uma piada, fosse com um afago. Mas ele trabalhava longe em Trás-os-Montes, numa barragem em construção, e vinha poucas vezes. Ligava uma vez por semana, perguntava como estava tudo, prometia lembranças… Mas agora não estava ali, e a solidão pesava-lhe sobre os ombros.

A primeira vez que a mãe lhe gritou tinha ela nove anos, por uma nota má a Português. Recordava a mão da mãe a apertar-lhe o braço, o medo, e a vergonha:

Estás a envergonhar-me! Como é que hei de encarar as pessoas? Vão pensar que sou uma péssima mãe, que não te ensinei nada!

Nessa altura, Constança fugira para o pai, contou-lhe tudo. João ficou fora de si, discutiu com Guilhermina, exigiu respeito pela filha, explicou que as notas não eram tudo. Mas na manhã seguinte, mal o pai partiu para o trabalho, a mãe chamou-a ao quarto e ditou sentenças:

Se voltas a queixar-te ao teu pai, faço com que te arrependas, percebeste? Aprende a estar no teu lugar. E deixa lá o homem em paz com os teus dramas de criança!

Desde então, Constança calara-se. Tornou-se uma sombra, esforçando-se para fazer tudo bem, mas os motivos de censura nunca faltavam. O ritual repetia-se: cada manhã inspecção ao caderno de notas, cada tarde interrogatório exaustivo. Dava por si com receio de entrar em casa, como se avançasse sobre gelo fino e prestes a estalar a qualquer momento.

Certo dia, enquanto arrumava o quarto, deparou-se com a mãe numa conversa telefónica em alta voz, com a amiga Rosa:

Eu nunca quis ter filhos, Rosa. A voz de Guilhermina soava demasiado dura. O João insistiu sempre: uma família precisa de filhos. E eu, com medo de o perder, lá acedi. Se ao menos tivesse nascido um rapaz… mas nasceu a Constança, e ele só tem olhos para ela, anda com ela para todo o lado! Já nem liga a mim!

Então estás com ciúmes da tua própria filha? estranhou Rosa.

Ciúmes não, mas… ela estraga tudo! Por causa dela só discutimos! Melhor era que não tivesse nascido… as palavras da mãe cortaram-na como lâminas.

Constança ficou pé atrás da porta, sentindo a alma reduzir-se a um fio. Foi esconder-se no quarto, enfiando o rosto na almofada para abafar os soluços. Desde então, passara a ser cada vez mais invisível. Mas nem isso servia: a mãe encontrava sempre desculpa para mais palavras frias, mais castigos.

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Constança? O que fazes aí sentadinha? ouviu de repente, atrás de si, uma voz doce.

Virou-se e deu de caras com Dona Mariana, a vizinha do rés-do-chão. Era uma senhora idosa, simpática, de cabelo cinzento e encaracolado, sempre com um sorriso sereno e olhos bondosos. Vestia robe florido e chinelos de pompons: parecia feita para acolher os outros.

A mãe pôs-me fora murmurou, o nariz a fungar de tristeza.

Mais uma vez por causa das notas? suspirou Dona Mariana, examinando-lhe cuidadosamente o rosto molhado de choro. Havia tanta compaixão e calor naquele olhar que Constança sentiu vontade de desabar de novo. Anda comigo. Está frio na rua e não podes ficar aqui a congelar, ainda te constipas!

Pegou-lhe na mão e levou-a para o seu apartamento quente, onde pairava o aroma do chá de tília e bolo acabado de cozer. Os vasos de gerânios davam vida à janela.

Senta-te, minha querida, já preparo umas sandes disse Dona Mariana, pondo o bule ao lume. Agora, conta-me lá o que se passa.

Constança sentou-se à mesa, mirando a toalha com margaridas. As mãos tremiam-lhe ligeiramente.

Só um quatro… choramingou. Ela diz que a envergonho, que sou preguiçosa, inútil. Que raio de mãe é ela por minha causa…

Não ligues a essas coisas atalhou a vizinha, fatiando o pão com convicção. Tu és uma miúda esperta e dedicada. A tua mãe anda cheia dos próprios receios e descarrega tudo em ti. Queres que eu fale com ela? Digo-lhe que não se faz assim!

Por favor, não, abanou Constança a cabeça, limpando os olhos à manga. Seria pior O pai ajudaria, mas está longe

Dona Mariana passou-lhe a mão pela cabeça, tal um abraço invisível, e logo a ansiedade suavizou como se um manto invisível a resguardasse.

Por vezes, até os adultos precisam de um empurrãozinho, disse com delicadeza, pondo as sandes de queijo e fiambre num prato. Talvez o teu pai precise de saber. O amor dele é evidente.

Constança ergueu os olhos. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se realmente compreendida. Provou a sandes: simples, aconchegante, o chá de ervas aquecia-lhe as mãos.

O pai prometeu vir nas férias confessou Constança, olhando para o fumo do chá. Só que está tão longe E a mãe não lhe dá espaço para se meter na educação. Diz que sou dela e que sabe o que faz.

Dona Mariana anuiu com ar pensativo:

Educar não é castigar e gritar. É apoiar, confiar. A tua mãe não sabe fazer de outra maneira, mas nunca é tarde para mudar.

Ficou um momento em silêncio, depois sorriu:

Sabes que mais? Acho que vou ligar eu mesma ao João. Conto-lhe tudo. Ele há de querer ajudar.

Constança paralisou. A ideia de alguém finalmente intervir, de o pai saber tudo, assustava e animava em igual medida. Limitou-se a acenar, apertando com força a caneca entre as mãos frias.

*************************

Duas semanas depois, aconteceu o improvável.

Constança chegou da escola e petrificou no corredor. Os sapatos do pai estavam ali cheios de lama seca! Teria vindo mais cedo? O coração saltou-lhe uma batida, dilatando-se com saudades e também uma onírica preocupação.

Da sala vinham vozes exaltadas:

Não podes simplesmente ir embora! Somos família! gritava Guilhermina, com uma nota algo histérica.

Família? replicou João cansado, numa firmeza inédita. Que família é essa, se infernizas a vida da tua filha? Falei com os professores, com a Dona Mariana Sei como tens sido para a Constança! Sei de tudo: do medo, dos castigos, do desprezo.

Não sabes nada! É ela que inventa histórias guinchou Guilhermina.

Sei, sim. Sei o quanto a magoas, como a arrastas para o chão, como a fazes sentir-se inútil. Noção tens tu do que destruíste na infância dela? Do terror de abrir a porta de casa, como se fosse uma prisão? De proibires que se queixe de ti?

A culpa é tua, que lhe dás todas as facilidades! atirou Guilhermina. A vida não é fácil! Não se elogia qualquer coisa!

Mas o preço não pode ser a alma dela! João soou mais duro que nunca. Não tens direito a destruí-la.

Se te fores embora, não a voltas a ver! ameaçou Guilhermina, olhos desesperados.

Quem disse que ela fica contigo? João respondeu a frio, olhando-a com um desprezo gelado. Não permitirei mais que a humilhes!

Então saiu para o corredor e viu a filha. O rosto suavizou-se, há tanto amor naquele olhar que a constança ficou sem palavras. Pôs-se ao nível dos olhos dela, e tomou-lhe as mãos, quentes, conhecidas:

Filha, nunca te deixarei. Prometo. Está tudo tratado.

Abraçou-a, e ela, pela primeira vez em muitos anos, sentiu-se verdadeiramente segura. Quis contar-lhe tudo cada lágrima, cada insulto, o medo e as noites em que preferia não existir. Mas bastou estar ali, sentir que já não estava sozinha.

Pai, murmurou, encostando o rosto ao ombro dele, inalando aquele cheiro familiar a casaco velho. Vamos poder viver só os dois?

Claro que sim, sorriu João, uma alegria luminosa rompendo todas as sombras do passado. Já aluguei um apartamento perto. E tenho novo trabalho. Vais continuar na mesma escola. À noite vamos cozinhar juntos, ver filmes, conversar sobre tudo e mais alguma coisa. Combinado?

Constança acenou, sorrindo por entre lágrimas. A esperança começava, tímida mas viva, a tomar conta dela. Agarrou-se ainda mais ao pai, sentindo finalmente o peso a aligeirar-se.

Obrigada sussurrou. Por existires.

João afagou-lhe o cabelo:

Quem agradece sou eu, filha. Farei tudo para que sejas feliz.

A chuva acalmou e um raio de sol entrou pela janela, iluminando a rua com um dourado suave. Constança sorriu há quanto tempo não sentia que o futuro podia guardar felicidade?

Nesse instante, Guilhermina irrompeu da sala, consumida pela fúria, olhos flamejantes e um sorriso retorcido. Era como se toda a amargura se houvesse exteriorizado.

Vão arrepender-se! sibilou, a voz tremendo de raiva. Julgam que se livram de mim assim? Vou fazer-vos a vida negra! Não acabam comigo!

João ergueu-se, colocando-se diante da filha. Determinação inabalável nos olhos:

Guilhermina, deixa-nos em paz. Eu decidi. A Constança e eu vamos viver em paz, e não vais impedir. Não é um pedido, é um facto.

Impedir? a mãe soltou uma gargalhada estranha, quase grotesca. Eu vou destruir-vos! Hão de rastejar a pedir-me perdão!

Constança apertou-se ao braço do pai. O velho medo ainda ameaçou voltar, mas João apertou-lhe o ombro suavemente e isso bastou para que recuasse.

Vamos, Constança disse ele, calmo mas firme. Este lugar já não é nosso.

Levou-a pela mão até à porta, enquanto Guilhermina se detinha no limiar, imóvel, de punhos cerrados e rosto revolto.

Ainda vão ouvir falar de mim! gritou-lhes ela. Hei de dar-vos o troco! Hei de estragar-vos a vida!

A porta bateu. O passado ficou para trás. Constança inspirou, sentindo o corpo relaxar pouco a pouco.

**********************

Os dias seguintes pareceram a Constança e ao pai como um sonho: instalaram-se num T2 simpático em São Domingos de Benfica, paredes claras e grandes janelas com vista para freixos e plátanos. João conseguira emprego como engenheiro numa construtora de Lisboa era muito apreciado.

As manhãs cheiravam a café acabado de fazer, canela e laranja, e começavam sempre com sorrisos trocados à mesa: Constança fatiava fruta para o iogurte, João cozinhava ovos mexidos e pão torrado. Ao fim da tarde iam ao parque, davam pão aos patos, jogavam cartas ou viam filmes enrolados na manta da sala. Pela primeira vez em muito tempo, Constança sentia-se mesmo feliz: leve, livre, viva.

Numa dessas manhãs, Constança mostrou o caderno ao pai, mãos meio trémulas:

Olha, pai tirei cinco a Matemática! havia tanto orgulho na voz que o coração de João se apertou, mas agora de ternura.

João examinou o caderno, depois sorriu largo:

Bravo! Estás a ver como tudo corre melhor quando não há stress? Que orgulho em ti! És uma campeã.

Constança sorriu e abraçou-se ao pai. Não precisava mais de pedir desculpa, de ter medo, de se esconder. Ali, era amada, sentia-se importante, acolhida.

Pai disse baixinho, um dia podemos ir ao Jardim Zoológico? Gostava tanto de ver as girafas, e os macacos…

Claro que sim! riu João, despenteando-lhe o cabelo. Já este sábado. Levamos lanche, fotografamos todos os bichos até alimentamos os pombos. Combinado?

Combinado! riu Constança; o riso ecoou leve, como um riacho da primavera.

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Enquanto isso, Guilhermina vagueava pela casa agora vazia. A solidão era ensurdecedora, e lá dentro só restavam mágoas e raiva, uma raiva que lhe parecia corroer o peito.

Sentada à mesa da cozinha, ideava vinganças, a mente cheia de azedume:

Vou arranjar maneira de lhe arruinar a vida naquela empresa. Ligo para os patrões, invento que não presta, que atrasa obras E à Constança, ainda a meto em trabalhos. Acuso-a de roubar coisas na escola, mando cartas anónimas…

Pegou no caderno e começou a rabiscar ideias, a mão furiosa. Cada plano parecia suficientemente amargo.

Foi então que a mãe dela, Dona Graça, entrou devagarinho baixinha, cabelos brancos, olhar meigo mas carregado de preocupação.

Guilhermina, o que estás a fazer? perguntou, lendo uma das páginas rabiscadas.

Guilhermina estremeceu e fechou o caderno rapidamente, aflita.

Nada, mãe. Só listas de tarefas tentou, mas a voz traía-a.

Tarefas? Dona Graça leu melhor e empalideceu. Queres vingar-te do teu marido e da tua filha? Isso é loucura!

Eles traíram-me! gritou Guilhermina, a mágoa a transbordar. Ele foi-se embora, levou a Constança, desfez a nossa vida!

Foste tu mesma que destruíste a família disse Dona Graça, séria. Só pensas em ti! Ignoras a tua filha, e precisas de ajuda. Recomendo-te que procures um psicólogo urgentemente.

Achas? Terapias? Não sou eu a maluca! queria desvalorizar, mas algo, dentro dela, vacilou.

Não, não és maluca, insistiu a mãe. Mas se não procurares ajuda, vais destruir o que resta da tua vida e magoar quem mais amas!

Guilhermina tentou protestar, mas sentiu as forças esvaírem-se. Sentou-se derrotada, ombros caídos, olhos rasos de lágrimas.

Mãe nem sei o que me aconteceu. Vivi estes anos sempre zangada, com inveja da relação deles Culpei a Constança por tudo Sem querer, virei-me contra ela confessou.

Dona Graça abraçou-a:

Queres mudar, começa por pedir ajuda. Ainda vais a tempo por ti, pela Constança, por todos nós.

Guilhermina assentiu. Pela primeira vez, percebeu que talvez, só talvez, ainda não fosse tarde.

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Nessa noite, João e Constança juntaram-se no sofá, vendo desenhos animados. A pequena encostou-se ao pai, ouvindo-lhe o coração bater pausado no silêncio do serão; da janela vinha o som das gotas de chuva ténue.

Pai perguntou Constança, a voz tímida achas que algum dia a mãe muda? Que algum dia vai gostar de mim?

João acariciou-lhe os cabelos, uma tristeza funda no olhar.

Sabes, Constança começou , as pessoas podem mudar, mas têm de querer muito, perceber os próprios erros. A tua mãe está confusa, triste, perdida, mas não é má pessoa. Precisa de tempo e da ajuda certa.

Ela suspirou, aconchegando-se mais ao pai.

E se nunca mudar? Se continuar a não gostar de mim?

Mesmo que não mude, apertou-lhe a mão lembra-te: tu vales muito, és inteligente, bondosa e sensível. O valor de alguém não depende dos outros. O que importa é que tens a mim e eu a ti. Amo-te, e estarei sempre aqui.

Constança levantou o olhar, agora húmido não só de dor, mas principalmente de alívio.

Obrigada, pai. Às vezes parece-me que estou só no mundo. Mas tu, tu encontras sempre palavras certas…

Porque te adoro, filha. E quero que saibas: nunca estarás sozinha. Somos uma equipa. Um dia, se a mãe quiser reaproximar-se, estaremos cá para ela mas apenas se aprender a respeitar-te.

Constança assentiu, olhos brilhantes, enquanto no ecrã as personagens dançavam numa alegria contagiante. Pela primeira vez, permitiu-se imaginar um futuro onde talvez a mãe venha a mudar. Quiçá um dia possam abraçar-se de verdade.

Pai, amanhã posso convidar a Matilde? Já tenho saudades dela, anda sempre a perguntar quando a posso chamar

Claro que podes! sorriu João. Fazemos uma festa: bolachas caseiras, desenhos animados, jogos de tabuleiro. O que achas?

Vai ser tão bom! Constança sorriu. Antes a mãe não deixava dizia que só distraiam dos estudos.

Agora tudo mudou piscou-lhe o pai. Terás muitos amigos, dias felizes. Que a escola venha sem pressões. O importante é que sejas feliz.

Constança sorriu, sentindo algo calmo e quente crescer no peito como uma flor que rompe devagar a terra gelada na primavera. Agora, sim tudo haveria de ser diferente.

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