A avó fazia distinção entre os netos
E para mim, avó? perguntava baixinho.
Oh, Matilde, tu já tens saúde de sobra. Olha só essas bochechas rosadas!
As nozes são para o cérebro, o Tiago precisa de estudar, é homem, vai ser o pilar da família.
Vai lá, menina, limpa o pó das prateleiras. Uma rapariga tem de se habituar ao trabalho.
A sério, Matilde? Ela está mesmo a partir. Os médicos disseram mais dois dias, se tanto Talvez horas
O Tiago está à porta da cozinha, remexendo com nervosismo as chaves do carro. O seu ar não podia ser mais carregado.
Estou mesmo a falar a sério, Tiago. Queres um chá? Matilde nem se vira, continua a cortar a maçã para a filha. Senta-te, faço já um.
Chá, Matilde? O irmão avança para dentro da sala. Ela está ali deitada cheia de tubos, quase não respira
Chamou por ti esta manhã. Matilde!, diz ela, onde está a Matilde? O meu coração quase parou. Não vais mesmo lá?
É a nossa avó! Última oportunidade, percebes?
Matilde põe as fatias na travessa, só então olha para o irmão.
Para ti, é a avó. Para ela tu és o Tiaguinho, a luz dos seus olhos, o único herdeiro, o orgulho da família.
E eu eu para ela nunca existi.
Achavas mesmo que preciso desse adeus?
O que é que havia para falar, Tiago? O que é que eu lhe perdoo? Ou ela a mim?
Esquece lá esses ressentimentos de infância! Tiago bate com as chaves na mesa. Sim, ela gostou mais de mim do que de ti. E então?
Ela era uma senhora de outra geração, sempre cheia de ideias feitas. Mas agora está de partida! Não podes ser tão fria.
Não sou fria, Tiago. Só não sinto nada por ela. Vai tu. Fica lá com ela, segura-lhe a mão. A tua presença vale cem vezes mais do que a minha.
Tu és o seu querido, o orgulho dela. Sê isso até ao fim.
Tiago encara a irmã, vira costas e sai, fechando a porta com estrondo.
Matilde suspira, pega na travessa das maçãs e vai ao quarto da filha.
***
Naquela família, tudo sempre foi bem repartido. Não, os pais gostavam de ambos, Matilde e Tiago.
Em casa era sempre barulho, alegria, cheiro de bolos e de passeios sem fim.
Mas a Dona Eulália, a avó, era de outra fibra.
Tiaguinho, anda cá, meu passarinho, sussurrava ela quando iam passar o fim de semana. Olha o que tenho aqui guardado para ti.
Nozes, descascadas por mim! E as línguas de gato fresquinhas!
Matilde, que na altura tinha sete anos, ficava ao lado a ver a avó tirar das gavetas antigas o saquinho guardado.
E para mim, avó? arriscava ela, baixinho.
A avó Eulália cravava-lhe um olhar espinhoso.
Matilde, tu estás muito bem assim. Olha as bochechas, já comeste o que chega.
As nozes são para o entendimento, o Tiago vai estudar, é rapaz, é o alicerce.
Limpa lá o pó das prateleiras, que a mulher tem de saber trabalhar.
O Tiago, envergonhado, pegava no saquinho e ia saindo de mansinho para o corredor, enquanto Matilde ia de pano na mão.
E não ficava ressentida. Por estranho que pareça, a pequena Matilde via aquilo como quem vê o tempo: ora chove, ora faz sol, ora a avó gosta mais do Tiago. É assim e pronto.
No corredor, o irmão escondia o tesouro para lhe dar metade das línguas de gato e um punhado de nozes.
Não comas à frente dela dizia, sussurrando que já sabes.
Tu é que precisas mais sorria Matilde. Para seres esperto.
Que se lixe isso Tiago encolhia os ombros Ela é um bocado doida, vamos lá comer isto depressa.
Sentavam-se juntos na escada do sótão e devoravam aquele doce proibido. O Tiago partilhava sempre, com tudo.
Quando a avó lhe dava notas escondidas para o gelado, ele corria logo ter com Matilde:
Ouve, dá para dois gelados Epa e ainda sobra para aquelas pastilhas autocolantes! Vamos?
Tiago foi sempre o pilar dela, o seu afeto compensava tanto o frio da avó que Matilde nem notava falta.
Os anos passaram. Eulália envelhecia. Aos dezoito anos do Tiago, ela anunciou solenemente que passava para ele o seu T2 no centro de Lisboa.
O homem da casa deve ter um canto seu proclamou em reunião de família. Para trazer a esposa como deve ser e não andar aos caídos.
A mãe só suspirou. Conhecia o feitio da avó e não quis discutir, mas à noite, foi ao quarto da Matilde.
Filha, não te preocupes. O pai e eu já pensámos, aquele dinheiro que tínhamos para trocar de carro e para juntar para obras, vamos dar-te a ti.
Para começares a comprar casa, para ser justo.
Oh mãe, deixa lá Matilde abraçou-a. O Tiago precisa mais, está quase a casar com a Inês. Eu arranjo-me na residência.
Não, filha. Não pode ser. A avó tem as suas ideias, mas nós somos pais. Não fazemos distinção. Por isso aceita, não discutas.
Matilde não aceitou.
Tiago mudou-se logo para o apartamento herdado da avó, mal casou, e a casa dos pais pareceu maior.
Matilde ficou com o quarto do irmão, pôs lá os livros, o cavalete, e sentiu pela primeira vez o que era viver onde o carinho não se dividia entre o certo e o errado.
O assunto da herança nunca afetou a relação com o irmão, antes a fortaleceu. Tiago ficava incomodado com isso.
Vai lá a casa, Matilde dizia ele, já depois de casado A Inês fez bolo. E a avó bem, sabes como é, ontem voltou a ligar-me, a perguntar se já gastei o dela em coisas tuas.
E que disseste?
Que gastei tudo nas máquinas de música e no melhor vinho do Porto riu Tiago. Ela resmungou tanto que nem te digo!
Claro, mal de quem fui eu ria Matilde.
***
Quando Matilde casou com o Rui e tiveram uma filha, o problema da casa voltou à baila. A mãe, de novo, encontrou uma solução.
Ouçam, filhos, temos um T3. O Tiago tem o T2 da avó. Vocês estão a alugar. Que tal: vendemos o nosso e compramos um T1 e um T2. No T1, o pai e eu, e vocês, Matilde, ficam com o T2.
Mãe interrompeu Tiago da minha parte, abro mão da minha parte da casa dos pais. Fiquem com tudo, vocês precisam mais, têm a menina.
Tiago, estás bem? o Rui quase não acreditava. Isso é muito dinheiro.
Estou! Sempre partilhámos tudo. Tu, Matilde, sempre recebeste menos da avó. Por isso nem discutam.
Nessa altura, Matilde chorou. Não de felicidade por mais espaço, mas pelo irmão ser o melhor rapaz do mundo.
Acabaram por trocar as casas e todos ficaram bem.
A mãe ajudava muito com a neta, Tiago e família vinham todos os fins de semana.
E Eulália vivia sozinha. Tiago levava-lhe compras, arranjava tudo, ouvia as queixas e críticas à ingrata da Matilde.
Ela já te ligou? perguntava a avó, de olhos duros. Já perguntou pela minha tensão?
Avó, tu é que nunca a quiseste perto dizia Tiago, com calma. Nunca lhe disseste uma palavra doce em vinte anos porque havia de ligar?
Só queria educá-la! respondia orgulhosa. Mulher tem de saber o seu lugar. Agora, tomou conta da casa, pôs a mãe na rua.
Tiago apenas suspirava; explicar era impossível.
***
Matilde está na cozinha, as imagens do passado sempre a vir ao pensamento.
A avó a afastar-lhe a mão da compota. E a elogiar o desenho torto de Tiago, enquanto ignora o diploma da neta.
No casamento do Tiago, rainha; no de Matilde, nem apareceu, disse que estava doente.
Mãe, porque é que não vamos à casa da avó Eulália? pergunta a filha, espreitando. O tio Tiago disse que ela está muito doente.
Porque a avó Eulália só quer a companhia do tio Tiago, amor Matilde afaga-lhe o cabelo. Assim ela sente-se mais tranquila.
Porque, é má? a filha franz uma sobrancelha.
Não, filha Só não sabia gostar de todos ao mesmo tempo. O coração dela só tinha lugar para um. Às vezes é mesmo assim.
À noite, o irmão liga de novo.
Já está, Matilde. Foi há pouco.
Lamento, Tiago. De verdade.
Ela ainda te esperou até ao fim mente ele. Matilde sabe que é uma mentira amiga, só para os juntar nesta despedida. Disse: Que a Matilde seja feliz
Obrigada, Tiago Vem cá amanhã. Fazemos o lanche juntos. Faço um bolo.
Vou, sim Matilde, não te arrependes mesmo? De não teres ido?
Matilde não mente.
Não, Tiago. Para quê fingir? Nem ela queria ver-me, nem eu a ela
O irmão fica calado.
Talvez tenhas razão suspira. Foste sempre a mais sensata. Até amanhã.
O funeral foi calmo, Matilde esteve presente por causa da mãe e do irmão. Colada ao casaco preto, olhava para o céu baço e pesado, como quando enterra alguém.
Quando desceram o caixão, não chorou.
O irmão aproximou-se, abraçou-a pelos ombros.
Estás bem?
Estou, Tiago. A sério.
Olha hesitou ele na casa dela encontrei uma caixa. Fotografias antigas. Tu também lá estás. Muitas. Recortadas à parte das outras. Guardava-as sozinhas.
Matilde ergueu as sobrancelhas.
Mas para quê?
Não sei. Talvez sentisse algo, mas não soubesse mostrar? Pensasse que se gostasse de ti, eu ia ficar sem o dela? Os velhos são esquisitos
Talvez encolheu os ombros. Já não importa.
Saíram do cemitério abrigados debaixo do mesmo guarda-chuva. Tiago, alto e forte; Matilde, frágil, mas leve.
Sabes disse Tiago, já junto aos carros estou a pensar vou vender a casa dela. Compro um T3 para mim, ponho de lado um T1 para cada um dos miúdos, e o resto abrimos um fundo? Ou ajudamos o hospital pediátrico? Que o dinheiro da avó traga alguma felicidade a alguém, só porque sim
Matilde olhou o irmão e, pela primeira vez em dias, sorriu de coração.
Sabes, Tiago Seria a melhor vingança para a Eulália. A vingança mais bonita do mundo.
Então está combinado?
Combinado!
Foram cada um para seu lado. Matilde guiava pela cidade, com música ao fundo, sentindo finalmente serenidade interior.
O irmão tinha razão. Que parte daquele dinheiro salve uma criança. Assim tudo fica como devia justo.







