Quando a Matilde foi buscar o filho ao jardim de infância, ele correu para ela, agarrou-se ao pescoço e sussurrou com entusiasmo:
Mãe, mãe, vamos levar a avó do Tiaguinho para nossa casa!
O quê? Que avó? Do que é que estás a falar? perguntou Matilde, sem perceber nada. Anda, despacha-te a vestir, o pai já está à nossa espera no carro.
Aquela avó ali! O Diogo apontava insistentemente para uma senhora de cabelo grisalho, que acompanhava um menino devagarinho até à saída. A do Tiaguinho! É o que estou a dizer!
Não digas disparates, filho. Aquela avó é de outra criança.
E depois? começou a lamuriar-se o Diogo. Pede-lhe, por favor, para ela ser minha avó também. Só desta vez
Mas tu já tens as tuas avós. E não é só uma, são duas! Para quê outra? Já chega de tanta imaginação! Anda lá, põe as calças.
Ó mãe O Diogo fez um ar mesmo triste enquanto lutava para vestir as calças quentes. As minhas avós não são avós a sério. A do Tiaguinho é que é. A do Tiaguinho é verdadeira.
Como assim, as tuas avós não são verdadeiras? sorriu Matilde sem jeito. Pois claro que são! Elas são mães do teu pai e minha, não como essa senhora aí.
Pois, mas isso não interessa! O Diogo olhou para a mãe com olhos pidões. Terem sido vossas mães não as faz avós de verdade.
Ai não? Então como é que é isso? Tu és nosso filho, logo as nossas mães são tuas avós!
Mas eu não quero avós automáticas, mãe. Eu quero avós mesmo, do coração
Mas afinal, como são as avós do coração?
Como a do Tiaguinho.
E o que tem ela de especial?
A avó do Tiaguinho deixa-o chamá-la alto de avó, sabes? Uma das minhas obriga-me a chamar-lhe só Graça, e a outra chateia-se se eu grito avó no prédio
Como assim chateia-se?
Diz que é nova demais para ser chamada de avó, que é uma vergonha, mãe! Essa é a avó Lurdes.
A minha mãe diz-te isso?
Sim. E ainda falou que tu deixas tudo para ela tomar conta de mim. E a do Tiaguinho está sempre a dizer que ele é o melhor que ela tem na vida. Eu também gostava que alguém dissesse isso de mim.
Não pode ser que a minha mãe tenha dito isso Matilde olhou para o filho, aflita, e num tom mais brando, tentou apressá-lo: Vá lá, despacha-te, filho. Senão o pai fica à espera. E a avó Graça, ela também se chateia quando lhe chamas avó?
Não, mas nem responde, só quando lhe digo Graça, aí já fica toda contente comigo. Olha, mãe, porque será que as minhas avós não querem fazer comidas de avó?
Como assim? Matilde ficou mesmo confusa. Não me digas que ficas com fome quando ficas com elas
Pois claro que fico!
Isso não é nada verdade! Elas fazem tudo o que nunca fizeram comigo, tudo do melhor para ti!
Pois dão-me fiambre, raviolis de lata, saladas frias Isso não é comida de avó!
Então, que comida é suposto ser?
Panquecas.
Panquecas? repetiu Matilde, sem acreditar.
Sim. Ou filhoses. Hoje ouvi a avó do Tiaguinho prometer que ia fazer filhoses acabadinhas de sair da frigideira, com mel e compota, e ainda falou de quando fizeram compota juntos no verão O Tiaguinho ficou todo contente. Eu com as minhas avós nunca fiz compota
Oh, Dioguinho Matilde olhou para o filho com pena. Olha, hoje ao jantar, vamos tomar chá com compota. Vamos comprar já.
Compota de supermercado não presta, mãe
Como sabes?
Já pedi às avós Elas já compraram.
E filhoses, já pediste?
Pois claro Diogo encolheu-se ao fechar o casaco, desolado. Dizem que dá muito trabalho, que é melhor irmos à pastelaria. Mas lá são frias e o doce é enjoativo A avó do Tiaguinho diz que nada supera filhoses acabadinhas de fazer.
Pois é disse Matilde, sonhadora, enquanto pegava na mão do filho e o levava para o carro, onde o pai já esperava. Eu também me lembro da minha avó me fazer dessas coisas boas
No caminho para o estacionamento, Matilde foi buscar o telemóvel e ligou à melhor amiga.
Olha, Rita, tás em casa? perguntou, com voz envergonhada.
Estou, sim. Que se passa?
Olha, não te rias, mas preciso pedir-te um favor
Diz lá.
Disseste um dia que fazias filhoses tão boas que o teu Gonçalo comia todas. Podes dar-me a tua receita?
Olha, vem antes cá a casa! Ensinas-te melhor ao vivo!
E é já, ou quê?
Se quiseres, sim. Traz o miúdo, assim ele conhece o Gonçalo. Espero por vocês. Até já! Desligou e pronto.
No dia seguinte, Matilde até pediu dispensa no trabalho. Foi ter com a mãe e lá se pôs a ensinar-lhe como se fazia filhoses. A mãe resmungava que já ninguém tinha tempo para essas coisas, que hoje em dia as avós têm muito que fazer, mas Matilde foi firme:
Ouviste, mãe? Se a tua vida é assim atribulada, eu já nem trago mais o Diogo cá a casa. Sabes dizer-me qual é a diferença entre ser avó a sério e não ser? E porque é que nunca fazes compota no verão? Olha que já tens neto!
A mãe de Matilde ia lançar uma resposta torta, mas em vez disso engoliu em seco ao ver a cara decidida da filha, e ficou quieta Só por precaução.
Quando a Vera foi buscar o filho ao jardim de infância, ele correu para os seus braços e sussurrou-lhe apaixonadamente ao ouvido:







