– Beatriz, minha querida, eu entendo, mas não temos alternativa. Vai ter de ser. Somos obrigadas a vender a casa. Depois de vender e dividir, só vai dar para um apartamento noutro bairro. Eu também gostava de ficar aqui, mas não vai dar… Helena segurava as mãos da filha e limpava-lhe as lágrimas, ora dela, ora suas próprias.
Foi um período duro para as duas.
Helena e o António estavam juntos há quase dezassete anos. Passaram por muita coisa, claro, mas havia amor e até as discussões nunca chegavam a durar. Desde pequena, criada pela avó Maria do Rosário, Helena ouviu a máxima que lhe ficou de geração em geração: Em casa tem de haver calor! Para que o teu marido não precise de procurar outro lugar onde seja compreendido, acolhido, onde se sinta melhor do que contigo. Faz de tudo para que a tua casa seja boa para todos: marido, filhos, visitas, até os bichos. Sem exceções!
Helena acenava, sem perceber bem, mas sentia que a avó lhe queria passar o exemplo do que ela própria tinha vivido. Até o avô morrer ao salvar o filho e a nora num acidente no rio ali ao lado da casa de campo. Era um riacho, parecia inofensivo, só que os locais sabiam bem dos poços e redemoinhos, evitavam nadar fora das zonas seguras. A Maria do Rosário nunca se perdoou por não ter perguntado, não ter falado com os vizinhos. Achava que, se o tivesse feito, os filhos e ela tratava a nora como filha do coração e o marido ainda cá estariam. Helena anos e anos repetiu-lhe que não era culpada, mas a avó não aceitava.
Focou-se na neta e guardou a dor só para si. Maria do Rosário sabia que a menina precisava de viver, não de luto eterno. Só no cemitério, umas poucas vezes por ano, se permitia chorar tudo o que tinha guardado. Quando acabava, conversava com os que ali estavam, contava da vida de Helena, e prometia sempre que ia fazer de tudo para que a neta fosse feliz.
Deu-lhe uma casa cheia de amor, um bom ensino, casou-a, chegou a ver a bisneta Beatriz antes de adoecer e partir. Helena ficou sozinha no mundo.
Mais tarde percebeu que a avó tinha razão no que era preciso em casa, mas só em parte. Era verdade: devíamos criar um lar acolhedor. Quanto às exceções…
Helena e António não tinham muitas razões sérias para discutir. Normalmente só havia uma: a sogra.
Leonor, mãe do António, era dessas mulheres que só sabem ser Mãe com M grande. Tinha aquela postura de a minha opinião é lei, não me peçam para mudar.
António foi o sexto filho mas o único que sobreviveu e nasceu saudável toda a atenção e carinho dela caíram em cima dele.
Ele adorava a mãe e talvez por isso não lhe soubesse dizer que não, embora tentasse, como o pai. Tinham a tática de ouvir calados tudo o que ela dizia e depois faziam à sua maneira.
António atrasou ao máximo apresentar Helena à família, porque já sabia no que ia dar. Conheceu a avó Rosário logo ao início, mas nunca explicou os seus motivos até ela se zangar:
Estás a esconder-me? Achas que não sou digna de conhecer a tua família? Porque é que para a tua avó és tudo, até já falas do casamento, e aos teus nem sequer me apresentaste?
António suspirou, beijou-a e respondeu:
Tenho medo que te vás embora
Parvo! Vou casar contigo, não com a tua família!
Se ela soubesse o que aí vinha…
Leonor olhou-a de alto a baixo e perguntou brevemente:
Filha, de que família és?
A mãe era professora na Faculdade de Medicina, o pai era médico. Mas morreram cedo, só me lembro por histórias. Fui criada pela minha avó.
Está bem…
E por aí ficou naquela noite. Apesar da tática do marido e sogro resultar (ou assim parecia), Helena via o sofrimento do António a tentar manter a paz. Com o tempo, cansou-se de forçar uma proximidade impossível e pediu ao marido para limitarem os encontros ao mínimo. António anuiu e abraçou-a.
Desculpa…
Piorou tudo à morte do pai de António. O homem sucumbiu ao cancro num mês e Leonor foi direta: agora eras tu, António, que respondes por mim. E ele não precisava que lho dissessem. Passou a ir a casa da mãe todos os dias. Chegava a casa tarde, via pouco a filha. Isso é que motivou a revolta da pequena Beatriz. Com só três anos, começou a afastar-se do pai, magoada.
Ela sente tua falta, António. Só te vê ao fim de semana. Helena sabia que era difícil, mas não podiam esperar que a filha deixasse de sentir a falta do pai.
Helena irritou-se. Afinal, a sogra era saudável, ainda trabalhava, ia ao teatro, a exposições, arrastava o filho para todo o lado. Uma coisa era ajudar, outra era roubar o pai à filha. Helena até suportava ficar sozinha, aguentava por um tempo, mas a Beatriz não merecia.
António, esta situação não pode continuar. A tua filha precisa de ti. Eu também…
O escândalo foi grande, mas António impôs-se e ficou decidido: só duas visitas semanais à mãe. A sogra lá aceitou, ou pelo menos fingiu.
Houve um dia em que na escola deram trabalho de casa: desenhar a família como personagens de conto de fadas. Beatriz fez o seu melhor, depois do jantar, toda concentrada. Quando Helena foi ao quarto da filha e viu o desenho, chamou o marido:
António, tens de ver isto!
Ele mal parava de rir. Beatriz, ofendida, não percebia a piada. Desatou a chorar:
Esforcei-me tanto! E vocês
Só mais tarde percebeu o porquê das gargalhadas o pai era um cavaleiro, a mãe uma fada, o avô um gnomo, a bisavó uma árvore de maçãs douradas e a avó… um dragão de três cabeças! Claro que as cabeças demoraram para desenhar, era por isso que o lápis amarelo para as chamas tinha partido…
Beatriz nunca simpatizou com a avó Leonor. Sempre que aparecia (normalmente só nas festas), Beatriz queria vê-la pelas costas. Instintivamente percebia quando alguém não gostava da mãe. Era cordial mas, depois de cada visita, a mãe acabava triste, a chorar. Quis proteger a mãe, uma vez até tentou impedir a avó de entrar em casa o pai pegou-lhe ao colo. Leonor não perdoou.
A tua filha não tem educação nenhuma, António! O que se pode esperar!?
Depois disso, poucas vezes voltou lá a casa o próprio António achou melhor assim.
Beatriz cada vez mais percebia a dureza da avó, a frieza. Sentia que ali não havia ar para respirar. Só de verdade compreendeu tudo ao perder o pai.
António morreu subitamente, um enfarte no trabalho. Tinha só quarenta e quatro anos
A notícia chegou num telefonema, na ourivesaria onde Helena trabalhava. Desmaiou, partiu a vitrine ao cair, assustou todas as colegas. Chamaram a ambulância, cuidaram dela como puderam.
O mundo parou para Helena. Não conseguia pensar em mais nada. Amigos do António ocuparam-se de tudo. Não se lembrava depois quem foi, mas nunca deixou faltar nada nem à mãe nem à filha.
Umas semanas depois, Helena sonhou com a avó.
Avó! Que saudades… tentou abraçá-la, mas Maria do Rosário afastou-a, séria.
Achas que estás a fazer tudo bem?
De quê, avó?
E a Beatriz, onde está?
Na cama, deve estar a dormir…
Vem comigo. Chama-a ao quarto e aponta a neta: Dizias que dormia? Está a chorar debaixo dos lençóis. Acorda, Helena!
Abriu os olhos, ainda não percebendo bem se era sonho ou realidade. Ouvia o choro baixinho da filha. Um instante depois deu-se conta que era verdade e correu ao quarto:
Calma, meu amor! Estou aqui, sempre vou estar!
Beatriz virou-se para ela, abraçou-a com força.
Obrigada, avó Como deixei isto acontecer? Estavas sempre comigo, e eu… Agora vou tratar de tudo
De manhã levantou-se cedo. Beatriz acordou com o cheiro às panquecas da mãe, aquelas com aroma de baunilha. Enrolada na manta, apareceu na cozinha.
Mãe?
Bom dia! Helena, já sem a fita preta de luto, sorriu. Vai lavar a cara para virmos tomar o pequeno-almoço. Depois levo-te à escola.
Já é hora?
Desligou o fogão, deu-lhe um abraço.
Está na hora, filha! O pai não queria que andássemos a chorar pelos cantos. Queria-te feliz, com alegria, cheia de vida. Amava-te tanto… uma pausa forçada por emoção, mas Helena recompôs-se. E amava-me a mim também. Se era isso que ele queria, então assim será. Bora lá, senão chego atrasada ao trabalho!
Aos poucos, recomeçaram a vida. O trabalho de Helena, a escola para Beatriz. Agora ela tratava de ajudar mais em casa; Helena chegava, e a filha já tinha limpado, até deixado um jantar leve preparado.
Meses depois, Beatriz tirou o cartão de cidadão e festejaram discretamente com um bolo.
Olha, pai, já sou crescida! mostrou o cartão ao retrato do António na sala. Aposto que me chamavas de miúda e puxavas-me a trança…
Helena puxou-a para um abraço.
Uma semana depois, Leonor bateu-lhes à porta.
Boa noite, Helena. Precisamos de conversar.
Não se viam desde o funeral. Nesse dia, Leonor aproximou-se da nora e, quase a sussurrar, disse:
Foi culpa tua! Se não fosses tu, ele ainda estava vivo! Sempre a pedir, pedir… Foi assim que ele se desgastou… Culpa tua!
O amigo do António, Francisco, percebeu tudo, tirou Helena dali:
Não ligues! O destino é assim. O António adorava-vos às duas…
Ela anuiu. Já nem aguentava em pé. Estava de rastos. Ele ajudou-a a sair, sentaram-se no banco frente ao Mosteiro onde decorreu a missa.
Só quando se recompôs regressou. Recordava bem, até as palavras pesadas que Leonor lançou quando passou, sem pudor pela neta.
Agora ali estava à mesa, sem gritos, mas com as mãos a tremer, olhos fundos, rosto pálido de exaustão.
Queres chá? tentou Helena.
Não. Vim resolver: o que fazemos com a casa?
Achou que tinha ouvido mal.
Como assim?
A casa que ela e o António construíram com o suor, durante anos, grávida de Beatriz, a fiscalizar os pedreiros, o António a rir: Com a Helena nem tentem batotas!
O dia em que entraram na casa nova ficou na memória com todos os detalhes. Era o ninho dela, tudo feito ao pormenor.
Helena, essas cortinas são iguais às outras! Mesmo pano!
Não percebes nada, o tom é diferente!
Agora diziam-lhe, a frio, que ia ter de sair.
Não. Leonor finalmente firmou as mãos e encarou-a. Esta casa tem de ser vendida. Quero a minha parte da herança.
Que herança?
A que me pertence por lei. E quero- tudo, até o último cêntimo.
Nenhuma delas viu Beatriz, parada na porta da cozinha.
Vai-te embora! gritou a menina, fechando os punhos.
Como?
Vai embora! E nunca mais voltes aqui.
Como falas comigo desse jeito? Achava que te tinham educado mal, mas isto…
Sai ao pai! a voz da Beatriz ecoou.
Não. Sai é à mãe…
Nunca mais ofendas a minha mãe! Ainda pensas que sou pequena, que não entendo? Mas eu percebi tudo. Vai-te embora. E nós vamos pensar como fazer para nunca mais te vermos.
Da raiva, Beatriz dirigiu-se a ela por você sem reparar.
Helena abraçou a filha, levou-a dali.
Obrigada, meu amor. Agora vai para o quarto, eu trato disto. beijou-lhe a testa e empurrou-a suavemente. Vai lá.
Beatriz foi. Helena respirou fundo, voltou.
O que foi isto? Viraste a miúda contra mim!
Eu não virei ninguém. Foste tu quem fez isso.
Leonor ia responder, mas Helena travou-a e, pela primeira vez, manteve-se firme:
Chega! A Beatriz tem razão. Não és bem-vinda aqui. Vou falar com um advogado e depois digo-te. Levas o que te pertence e nunca mais te incomodamos.
Nem penses! retorquiu Leonor.
Nem me passa pela cabeça. Apenas vou cumprir. Sabe, tenho pena de ti. Vais ficar sozinha…
Não te interessa! Leonor agarrou a bolsa e saiu disparada.
Beatriz ouviu a porta bater e foi ter com a mãe à cozinha, que estava de cabeça nos braços.
Mãe?
Estou aqui, querida… Helena limpou as lágrimas e olhou a filha.
Ela fala a sério? Vamos ter mesmo de sair?
Não sei. Vamos esperar. Está… Porquê vieste já para casa? Tinhas mais aulas hoje!
Cancelaram matemática e a mãe do Pedro deu-me boleia. Nem liguei, achei que não importava.
Então pronto Tiveram muitos trabalhos?
E foram mudando de assunto, aliviando a tensão criada pela visita da Leonor.
Mãe, porque é que as pessoas não se gostam? Porque é que há tanto ódio…?
Elas estavam no sofá, coladas uma à outra, com um filme a passar sem ninguém ver: era só um pretexto para estarem juntas.
Há muita razão. Estás a falar da avó?
Sim. Porque é que ela não gosta de ti nem de mim?
De mim, percebo. Não gostou de mim desde o início. Não podia.
Porquê?
Porque achou que vim roubar-lhe o filho.
E eras?
Claro que não… Só queria uma família, queria dar, não tirar. Queria dar-te a ti E pensava que os pais queriam netos.
Mas de mim ela também ficou de costas!
Não foi bem assim. Ela ficou feliz quando tu nasceste. Espera… Helena levantou-se, voltou com uma touca bordada e uma manta. Olha isto. Ela fez para ti.
Beatriz examinou o bordado.
Isto deve ter dado muito trabalho… E a manta é mesmo bonita. É croché?
Sim, olha só os pontos… Isto não faz quem não tem nada no coração, percebes? Estas coisas só se fazem para quem se espera com amor.
A rapariga ficou pensativa.
Porque é que a avó é assim agora?
Não sei, filha. Acho que é da tristeza, da solidão. Nem todos conseguem lidar. Há quem fique amargo, ache que todos são maus porque se sente mal. Não fiques zangada com ela. O que ela faz… É a dor a falar. O melhor é ter pena, filha. Nós temos-nos uma à outra, e ela não tem ninguém.
Beatriz acariciava a manta.
No dia seguinte, Helena falou com o Francisco, pediu um advogado. Percebeu que ia mesmo ter de vender a casa, não havia outra maneira. Já não tinha poupanças, tudo foi investido na casa.
À noite falou com Beatriz sobre as opções.
Mas a Beatriz fez planos. De manhã, fingiu ir à escola e foi bater à porta da avó.
O que fazes aqui? espantou-se Leonor.
Sem dizer nada, Beatriz estendeu-lhe a touca e a manta.
O que é isto…? A avó não conseguiu disfarçar o estremecer da voz.
Está muito bonito. Eu sei que fez isto para mim.
Entra lá…
À noite, Beatriz foi até à mesa da mãe, que procurava casas na internet.
Mãe!
Hum? Helena de olhos postos no portátil.
Não precisamos de mudar de casa.
O quê? Helena desviou o olhar.
Não precisamos de sair. Falei com a avó.
Helena ficou em choque:
Fizeste o quê?
Fui falar com ela. Vai abdicar da herança.
Não percebo nada
Disse-lhe que não queria que ela ficasse sozinha… Dei-lhe escolha: ou insiste, mas nunca mais olho para ela, ou abdica e eu continuo a visitá-la.
E ela…?
Olha… Beatriz pousou um embrulho à frente da mãe.
Helena abriu-o e soltou um suspiro:
Meu Deus, que maravilha!
Pois! Vou usá-lo no baile de finalistas! Nessa altura deve-me servir.
Era um vestido longo, rendado, feito à mão. Observando melhor, percebeu que era renda de agulha.
Sabes o tempo e trabalho nisto?!
Sei, mãe… Sei… Ela sente-se mal e tem muitas saudades do pai. Chorou, mãe…
Chorou? A Leonor?
Sim…
Helena não encontrou palavras. A sala ficou em silêncio, até o telefone tocar Helena deixou-o a carregar na sala.
Olá, Leonor.
Olá, Helena. A Beatriz contou-te da nossa conversa?
Acabou de contar.
Então percebes que não vou reclamar a casa.
Obrigada. E pelo vestido também. É mesmo lindo, tem mãos de ouro!
Não exagere! Amanhã, à uma no escritório do notário. Mando o endereço. Vou assinar a renúncia à herança. E, Helena…
Sim?
A Beatriz é uma miúda muito bem educada.
Helena demorou a pousar o telefone. Depois voltou à cozinha, abraçou a filha com força.






