Procuro uma mulher chamada Alexandra.

Procuro uma mulher chamada Mafalda.

Através de um arco baixo, entrei no pátio interior de uma antiga casa lisboeta, coberto de poças de água deixadas pelas primeiras chuvas da primavera. Já era o quarto pátio por onde passava. Um pequeno parque infantil resistia num dos cantos baloiços de ferro enferrujado, miúdos jogavam hóquei com um disco improvisado que espalhava lama sempre que era golpeado. Ninguém se importava com as poças.

Fiquei um instante à sombra da arcada, olhando o pátio. Desejava tanto que a memória agarrasse qualquer detalhe, que me trouxesse ao de cima recordações do passado, aquelas pequeninas coisas que, nos momentos de solidão, impelem a continuar. Mas, aqui, tudo já não era como então. Claro, tantos anos haviam passado. Antes, por todo o pátio apenas se viam cordas esticadas com roupa a secar, pequenos barracões improvisados sob as janelas, moitas de jarros e bancos simples de madeira, onde as donas de casa conversavam ao entardecer.

Agora…

Bem, com o tempo tudo mudou, ou, melhor dizendo, não havia maneira de não ter mudado.

Ninguém parecia notar a figura desconhecida de um homem idoso, há muito com ar citadino, envergando um boné de fazenda forrado a pêlo. Por estas quatro casas do pátio, muitos quartos eram arrendados a estudantes ou imigrantes de passagem. Lisboa…

Precisava do edifício à direita da entrada; disso estava certo. Era impossível ter mudado de posição. Lembrava-se que o apartamento era no segundo andar, num prédio de três pisos. Da escada ao fundo do corredor, segunda porta à direita, encostada ao canto. Ainda recordava o trinco de latão desgastado, a campainha de cores diferentes e as etiquetas com sobrenomes dos velhos moradores da casa de quartos.

Lembrava-se de cada detalhe lá dentro cada dobra dos cortinados, o trinco torto da janela, a cor verde do bule esmaltado, o estalar do soalho antigo, e até a perseguição ao escaravelho que tentaram caçar durante dois dias. A memória era uma nau, navegando nesses recantos fechados do passado Mas já não sabia o número da porta, nem ao certo o do prédio. Apenas sabia a rua. E por entre tantos pátios iguais, era fácil perder-se. E não se recordava sequer em qual entrada Todos os prédios daquele bairro estavam feitos pelo mesmo construtor, com o mesmo traço, e pareciam-se tanto, como irmãos gémeos.

Assim, caminhava entre pátios…

O edifício à direita, segunda entrada ou, como se diz em Lisboa, o segundo portal segundo andar, porta ao fundo… Seria a quarenta e três? Ou…

Se estivesse um intercomunicador, marcava 43.

Boa tarde, procuro a Mafalda. Pode dizer-me…

Interrompiam-me, dizendo que ali não morava nenhuma Mafalda, outras vezes faziam-me repetir a pergunta.

Perdoe, mas é mesmo importante. Sabe se, em 1980, não morava aí uma senhora chamada Mafalda? Preciso mesmo de saber.

Ao fim de três pátios, comecei um caderno de notas.

“16 ninguém respondeu, 24 não conhecem, 32A venderam recentemente…”

Eram tantos os pátios, era preciso voltar àqueles onde não me responderam, onde ninguém abriu, onde ficavam dúvidas.

Subia lentamente os degraus gastos do portal grande e escuro. As janelas altas deixavam entrar uma luz baça, cheirava a gato. O cheiro mantinha-se igual àquele tempo. Lembro-me tão bem…

Boa tarde! cumprimentei.

Uma senhora idosa, de casaco cinzento e saco de compras de ráfia, cruzava-se comigo.

Boa tarde, vem a quem? perguntou, desconfiada.

Para o segundo andar. Procuro a Mafalda, uma senhora perto dos sessenta. Por acaso sabe se vive aqui?

E em que porta?

Num canto. Mas foi há muito, nos tempos das casas de quartos. Nem me lembro do prédio exato…

No canto? Não. Lá vivem os Fernandes marido, mulher, dois filhos. Mafalda, nunca ouvi falar disso. Vivo aqui desde menina.

Obrigado. Baixei a cabeça e comecei a descer os degraus gastos.

A mulher veio atrás.

Desculpe, qual é o apelido dela?

Se soubesse, já a teria encontrado pelo registo… Mas não lembro, ou melhor, nunca soube.

E quem é ela, se não leva a mal? insistiu, curiosa.

Hesitei, sem saber que responder.

Ela?… Não existe definição para o que foi. Talvez tudo o que me resta.

A minha interlocutora não fez mais perguntas. O olhar dela, tocado por um arrepio de compaixão, dava a entender: eu procurava alguém que me era imensamente caro.

Continuei para o próximo pátio. Os sapatos já ensopados. Toquei, bati, enfrentei respostas frias e, noutras vezes, conversas longas, confusas, justificando-me. Depois, outro pátio, e mais outros…

Ao fim do dia, caí exausto no quarto do Hotel Mundial, nem tirei o casaco. Doíam-me os pés, as costas. Mal respirava. Mas, logo de manhã, voltei à procura.

***

Foi num daqueles outonos chuvosos, quando as ruas de Lisboa se cobrem de folhas douradas e a cidade se transforma em cenário de quadros outonais. Pequenos negócios enchiam as ruas, barracas de comes-e-bebes, bancas improvisadas. O comércio era livre, só dependia da coragem de cada um.

Eu e o futuro sogro tínhamos vindo do Porto, em trabalho, a propósito de umas conferências sobre construção civil, exigidas pela renovação democrática e económica em vésperas do boom dos anos oitenta.

Para ele, engenheiro-chefe da câmara municipal, cada passo era uma etapa da ascensão a Lisboa; para mim, simples adjunto vindo do norte, a vida era ainda uma coisa leve. Tinha sido escuteiro, ativo, de repente descobri-me braço direito do secretário-geral do partido lá no Porto. Mas não fazia grandes planos; limitava-me a trabalhar.

Na província, supervisionava uma nova fábrica. Era jovem e a responsabilidade parecia-me facilmente domável como se pudesse mudar de rumo quando quisesse.

Em Lisboa, tudo era novidade. O patrão atirava-me para essas diligências. E foi, a sair do metro do Rossio, que ouvi uma melodia de violino a ecoar nas arcadas húmidas, e fui na sua direção.

Uma jovem frágil, cabelo em caracóis, boina azul e lenço de tule, tocava. Tinha um pequeno casaco axadrezado, botas curtas, pernas finas como bailarina. Diante dela, uma caixa de violino aberta, onde alguns transeuntes lançavam moedas.

Fiquei ali, imóvel. A cena impunha-se dor e beleza misturadas. O azul do lenço, as mãos vermelhas do frio, a sonoridade triste. Na correria da cidade, poucos paravam, mas eu fiquei.

Ela terminou a peça, agarrou o violino sob o braço, esfregou as mãos encarnadas e ajeitou as mangas. Depois, pousou novamente o violino ao ombro e, com um gesto ágil, iniciou uma dança outonal com o arco. Fechou os olhos dava-se inteira à música, como se lhe despedisse lavando uma ferida.

E então…

Um miúdo aproximou-se, de fininho, pegou a caixa das moedas e fugiu. Roubou, roubou! berrou uma vendedora. A rapariga continuou a tocar, de olhos fechados, desfeita de emoção.

Eu corri logo atrás do rapaz. Alguém lhe fez frente, empurrou-o, abandona a caixa, lança-se por entre carros. Não persegui mais. Juntei as moedas, deito-as na caixa partida. Ela subiu, aflita, as escadas.

Ele atirou-a ao chão, partiu, tentei remediar, entregando-lhe as moedas.

A caixa já estava partida, obrigada. Não procure mais.

Ela parecia abatida, mas isso não vinha do incidente. Algo mais fundo a oprimia.

Acontece-lhe muitas vezes isto? perguntei, buscando conversa.

Mas ela não estava disposta.

Acontece, respondeu, e partiu pela rua.

Não consegui evitar segui-la, até ela parar numa ponte sobre o Tejo, fitando a água, com o lenço esvoaçando. Pousou o violino sobre a mão, pendurado fora do gradeamento.

De súbito, percebi ia deitá-lo à água, num gesto de adeus. Corri.

Não! Não faça isso, peço-lhe!

Ela hesitou, olho surpreso, hesitando. Segurei a caixa; ficou suspensa entre nós.

Não posso permitir, não merece…

Eu envergonhei-a. Prometi à minha mãe…

A sua mãe foi severa a mais. Nunca ouvi um violino verdadeiro até hoje… Se não viesse ao túnel, não ouviria nunca…

Ela ia-se embora; insisti:

Já percebeu que sou mesmo tonto. Espere, venha amanhã, eu espero por si, prometo!

Mas no dia seguinte, só consegui escapar do trabalho à tarde. Esperei horas; ela não apareceu. Na manhã seguinte fui logo, uma vendedora avisou-me: não tinha vindo nem ontem nem hoje.

Como esperei. Como ansiei! Quando finalmente voltou, fingiu não me ver. Montou-se para tocar. A vendedora ofereceu-me um banco, dizendo: “Já esperou tanto por esta menina”.

Ouvi-a tocar horas. Quando terminou, depositei notas do meu bolso no estojo.

Está louco? exclamou, É muito dinheiro!

Pago o que quero. É meu direito.

Ela recolheu as notas e enfiou-mas nas mãos.

É perigoso. Venha depressa.

Ao subirmos, cruzamo-nos com dois homens ameaçadores. E logo as “taxas” impostas eram exigidas.

Paga o teu cavalheiro sugeriram.

Houve briga. Os homens eram duros, mas a rapariga fugiu e trouxe a polícia. Os agressores dispersaram. Sentei-me num canto, tocado pela dor. A rapariga não sabia onde era a esquadra, mas insistiu:

Venha a minha casa. Trato-lhe dos ferimentos.

Subimos até ao pequeno apartamento de duas divisões. Estores descidos, móveis antigos, cheiro a cebola e pó, um retrato a preto-e-branco de uma mulher; livros por todo o lado, um piano forrado a renda.

Falámos até tarde, chá e bolachas secas. Contei-lhe de mim, do Porto, da fábrica, do futuro incerto; ela, da saída do conservatório, da vida dura. “A vida agora não pede músicos… Vou trabalhar para o mercado, ajudar uma vizinha no quiosque”.

Voltei com sacos do supermercado. Ela resmungou, sorriu. Fui embora, mas sabia que voltaria.

Dias depois, vagueámos por Lisboa, entre chuva e risadas. Repetia aos desconhecidos: Sabia que esta menina é uma virtuosa do violino?

Lemos poesia. Bebemos café quente partilhado num copo. Na despedida, convidei-a para o Porto, para se casar comigo.

É o fim do nosso conto, citou da Cecília Meireles, entristecida.

Nada de despedidas, tu vens comigo!

Fica comigo esta noite…

Durante a noite, o telefone chamou, exigiam-me à receção. O patrão estava a par. Problemas legais: “Investigação. Assinou papéis errados. Só se casar com a minha filha é que o salvo”.

Disse-lhe que amava outra.

O medo venceu-me, partir era o único caminho. No comboio, entre lágrimas, ouvi uma música de violino ao longe.

***

Já conhecia bem o poder das senhoras sentadas nos bancos dos pátios: ali podiam saber tudo.

Mafalda? as velhotas olharam-se. É aquela que morreu na primavera? Lembras-te, veio o filho num carro grande…

Senti uma dor tremenda, agarrado ao peito.

Não, não era Mafalda, era Teresa. Morava noutro prédio… corrigiu a outra.

Continuei a bater nas portas, já cansado, quase a desistir. Até que, de repente, vi de costas uma mulher com lenço azul ao pescoço igual. Corri, toquei-lhe no ombro:

Mafalda!

Mas ela virou-se: não era. Parecida, sim, mas mais nova.

Desculpe, enganei-me.

Nada, também me chamo Mafalda, sorriu.

Por momentos, a esperança desvaneceu-se.

Nesse dia, planeava desistir. Mas, ao levantar-me tarde, decidi tentar mais uma vez. O acaso levou-me à montra de uma loja de instrumentos musicais.

Procura algo em especial? perguntou uma jovem vendedora de nariz arrebitado.

Gostaria de ver esse violino.

Vai experimentar?

Não. Conheci uma violonista, vivia aqui. Mafalda…

Mafalda Dias? respondeu a rapariga.

Isso, talvez. Conhece-a?

Vive nestes prédios, com o marido e um filho. Tem trinta e poucos anos.

Posso sentar?

A miúda olhava-me, estranhando. Saí e, do outro lado da rua, vi os velhos choupos, únicos, por trás de um pátio esquecido. Era ali. Entrei, ainda titubeando. Perto, um casal idoso passeava.

Procuro uma senhora de sessenta anos, Mafalda, tocava violino…

A senhora olhou para o marido:

É a filha da D. Matilde! A Mafaldinha…

Ela ainda vive aqui? perguntei, sentindo o coração acelerar.

Não, foi-se embora há tempos, mas a filha vive lá, naquela porta. Dizem que é famosa.

Toquei à campainha, sentia-me incrivelmente perto.

Sim? voz masculina no intercomunicador.

É para os Dias…

A minha sogra? Entre.

No segundo andar, quase perdi as forças. O genro amparou-me, levou-me para o sofá, médico de profissão, estava preocupado.

Entrou então Ela. A mesma que quase chamei na rua. De bata comprida, expressão doce. O menino de oito anos entrou após ela.

Como te chamas, campeão?

Miguel. O papá chama-se Luís. E a mamã, Mafalda.

Gosta de chá? sorriu ela, preparando uma infusão. Sozinha na cozinha, olhou-me nos olhos:

O senhor é… meu pai?

Senti um baque. Não sabia, não podia saber. Disse, humilde:

Deus é testemunha, só agora percebi…

Falámos da infância: tempos difíceis, a mãe lutando para criar a filha sozinha, horas de trabalho, os quartos alugados, todo o esforço. Fiquei embargado.

Porque nunca voltou? quis saber ela.

Foi a vida, os medos, as circunstâncias. Mas pensei em vocês toda a vida.

Ligou à mãe, mas pedi:

Deixe, eu preciso mesmo ir pessoalmente.

O genro levou-me até ao prédio novo, nos subúrbios. Entregou-me a chave do portão.

Subi quase a arrastar-me. Porta 5A. Toquei. A porta abriu-se sem perguntas. Ela estava ali. Mafalda. O cabelo mais branco, a silhueta mais cheia, mas os olhos os mesmos.

Ficámos um tempo calados, depois caí de joelhos:

Mafalda, perdoa-me…

Ela também ajoelhou, rindo e chorando:

Como esperei este momento. Eu sabia que voltarias.

Demorei, sou um tolo…

“Eu, à noite, penso numa outra tarde, que futuro me reserva, e presentigo uma nova oportunidade, um encontro inevitável”…

Fomos no carro do genro para o hospital. De mãos dadas, como dois miúdos, chorando baixinho. Eu tinha a estranha alegria de quem, mesmo tarde, chega onde devia.

Agora não te vou largar, Mafalda.

Não chores, já passou. Agora vai ser tudo diferente… Juntos.

E, pela cidade molhada, o carro avançava, levando dois velhos apaixonados ao seu reencontro eu tinha finalmente chegado ao meu destino.

Ainda fui a tempo do meu próprio milagre.

***Enquanto íamos, Mafalda pegou na minha mão e sentou-se mais perto, como antigamente, com um sorriso matreiro.

Sabes? Nunca deixei de tocar. Ainda guardo o violino velho, mas comprei outro. Por vezes o meu neto escuta, diz que tenho mãos de fada. Sou eu que lho digo: O verdadeiro mágico foi o teu avô, que chegou para me resgatar de mim mesma, mesmo tantos anos depois.

Sorri, a garganta apertada.

Eu não sou mágico, Mafalda. Só fui teimoso em procurar respondi. E tu, foste sempre mais forte.

Ela apertou a minha mão, e naquele toque senti os anos de solidão lavarem-se, como se Lisboa nos devolvesse enfim o eco antigo dos outonos passados juntos.

O tempo não nos espera, mas às vezes abranda sussurrou. Para dar lugar ao reencontro.

Do vidro do carro, as luzes de Lisboa difumavam-se em rios dourados. Era como se a chuva tivesse limpado a cidade apenas para nós, reconstruindo todos os percursos para nos cruzarmos outra vez.

Do hospital, ela desviou-me e pediu ao motorista um pequeno desvio.

Só quero passar pelo Rossio, disse. Sinto o cheiro da infância, da minha Lisboa.

O motor parou junto às arcadas molhadas. Mafalda saiu, eu apoiei-a no braço, como se a juventude nos emprestasse mais um instante.

Ali, debaixo das antigas arcadas, parou um violinista de rua rapaz magricela, cachecol vermelho, boina torta. Ele ergueu o arco e deixou soar as primeiras notas. Mafalda ficou quieta, depois encostou-se em mim. Trocámos um olhar cúmplice e, como se o passado fosse só um intervalo, dançámos devagar, sem pudor, as botas na calçada cheia de brilho.

Senti a música girar à nossa volta, e pela primeira vez compreendi: era sempre por isto que tinha voltado não para encontrar o tempo perdido, mas para dar futuro ao amor que resistiu.

Nesse instante, Mafalda puxou o neto pelo braço. Os três rodámos, toscamente, no compasso do violinista, rimos alto. O som ecoou leve, como promessa, pelas luas e varandas do velho bairro.

A chuva parou. Lisboa, talvez por milagre, deu-nos aquele fim de tarde azul, quente, impossível. Mafalda pousou o rosto no meu ombro.

Vieste a tempo, amor. Finalmente, vieste a tempo.

E foi ali, sob a luz macia daquele velho Rossio, que entendemos: algures entre a saudade e a esperança, é sempre tempo de recomeçar.

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