– Procuro uma mulher chamada Alexandra.

Procuro uma mulher chamada Benedita.

Através de um arco baixo, entrou num pátio fechado, ainda coberto com as últimas poças de neve derretida. Era já o quarto pátio. Havia um parque infantil, baloiços, rapazes a jogar hóquei numa área encharcada. O disco fazia salpicos em redor, mas para os rapazes não importava.

Ficou parado debaixo do arco, vasculhando o pátio com os olhos. Como queria que a memória puxasse por algo, alguma coisa concreta, um gesto, uma sombra. Mas ali tudo era diferente do que guardava nas profundezas da lembrança. Natural, tantos anos tinham passado. Antes, só havia cordões com roupa a secar, casotas improvisadas sob as janelas, arbustos de amores-perfeitos e uns bancos velhos e agora…

Tudo mudava com o tempo. Mais: era impossível não mudar.

Ninguém prestava atenção ao homem elegante, já com idade e de boina com forro de lã. Ali, onde quatro prédios se debruçavam sobre o pátio, muita gente alugava quartos. Lisboa…

Tinha de subir ao prédio à direita do arco. Isso não mudara. Recordava que era no segundo andar, numa moradia de três andares. O apartamento era no fundo da escada, segunda porta à direita, no canto. Na ombreira da porta, vários botões de campainha de vários tamanhos e cores mostravam os nomes dos moradores da antiga casa de quartos.

Recordava cada pormenor daquele interior: a cortina franzida, a janela empenada da varanda, o verde do bule, o rangido do soalho e até a barata que perseguiu com Benedita durante dois dias. Lembrava tudo, tudo o que se escondia naquela casa

Mas não sabia o número da porta, nem o do prédio. Ficara apenas com a rua, vaga na memória. Era impossível distinguir os pátios: em cada quarteirão do bairro do Campo de Ourique, os pátios fechados sucediam-se uns aos outros. E, para cúmulo, nem do acesso ao prédio tinha a certeza talvez o segundo. Tinham sido certamente feitos pelo mesmo empreiteiro, todos tão iguais.

Foi batendo, foi perguntando.

Prédio certo, segunda entrada ou seria a segunda porta chique, como se dizia ali , segundo andar, porta ao fundo Número quarenta e três? Ou…

Se havia intercomunicador, discava 43.

Bom dia, procuro a dona Benedita. Será que…

Muitas vezes, nem o deixavam terminar: não vive cá nenhuma, por vezes até nenhum. E lá tinha de ligar outra vez.

Desculpe, é mesmo importante. Olhe, e nos anos oitenta, será que aí morava a Benedita? Preciso mesmo de saber.

Depois de três pátios, tirou o bloco de notas:

“16 não atende ninguém, 24 de certeza que não, 32A não sabem, compraram

Os pátios eram muitos, teria de voltar a onde não atenderam, às campainhas em que não deu resposta, às portas que ainda precisavam de perguntas.

Foi subindo escadas largas, o átrio escuro, as janelas altas e com pó, um odor intenso a gatos. Também o reconheceu, era o mesmo de antigamente.

Boa tarde! saudou, curvando-se levemente.

De frente vinha uma mulher idosa, casaco cinzento de lã e sacola de compras nas mãos.

Boa tarde, a quem procura? perguntou.

Subo ao segundo, procuro a Benedita. Uma senhora com cerca de sessenta. Sabe se ainda mora por aqui?

Em que apartamento?

O do canto direito. Era assim há muitos anos, ainda nos tempos das casas de quartos…

O canto? Não, agora moram lá os Silvas, marido e mulher, e os dois filhos. Nunca ouvi falar de nenhuma Benedita. Vivo aqui desde miúda.

Obrigado baixou os olhos e começou a descer lentamente as escadas gastas.

A mulher seguia-o.

Diga, lembra-se do apelido?

Se soubesse, já tinha encontrado pelo livro de telefones, ou na Junta. Mas não me lembro, não nem sei.

E quem é ela para si? a mulher teimava em conversar.

O homem hesitou, olhou de soslaio, confuso.

Ela?…

E quem era ela, afinal?

Benedita Beninha Dita

O amor não tem definição certa. Ou existe ou não existe. O resto são imagens subjetivas, com os sentimentos e as suas consequências.

Manuel Duarte passou a vida a sonhar que o amor era frágil; que não sobrevivia a uma ausência tão longa, que desaparecia. Os surtos de felicidade, que às vezes vinham ao recordar episódios do tempo deles, ajudavam, davam força, mas doíam.

Sentia-se culpado. Quarenta anos vivera com uma deficiência no coração.

Provavelmente, foi esse passado que alimentou o coração; embora… foi o coração o primeiro a fraquejar. Quando morreu a mulher, com quem partilhara a vida inteira e que nos últimos tempos já mal se entendiam, limitavam-se à rotina , de repente, o coração doeu e o enfarte chegou.

Nunca discutiram, nem se zangavam. Só que, a dada altura, passaram a viver cada um no seu quarto, a conversar apenas pelo trivial.

A esposa achava que a casa era dela, e ele apenas… um apêndice, dizia ela às vizinhas idosas:

E onde é que o punha, coitado? Fica por cá

O excesso de quadros emoldurados a ouro, cristais, móveis entalhados de luxo e bugigangas coloridas espalhava-se por todo o lado. Ao centro da sala, um piano branco, por cima uma jarra de flores artificiais.

O piano era autêntico: um Steinway & Sons americano. Mas, para Manuel, simbolizava a hipocrisia: ninguém sabia tocar ali e a jarra nunca saía do tampo.

Logo que o compraram, a mulher chamou músicos para uns serões. Mas o instrumento não fazia sucesso; preferiam o rádio com música popular.

Era só o suporte para o vaso, e custara como um apartamento de três assoalhadas em Lisboa.

Chegou a tentar aprender, com um professor. Não terminou as aulas; nunca levava nada até ao fim, exceto massagens e manicures.

Nem com uma gravidez. Não era culpa dela. Mas Manuel sentia que, por egoísmo, a mulher não quisera ser mãe.

Nos últimos anos, pensava muito nisto. Sabia de uma mulher cujas mãos faziam música no piano. Mas tinha saudades mesmo da esposa. Nos últimos anos, melhoraram. Ambos adoentados, passeavam nos jardins, alimentavam patos no lago perto de casa. Manuel apaixonou-se pela pesca. Já não havia nada para provar.

Porque nunca viemos antes, Lurdes? É tão bom… sentados junto ao lago.

Parvos sorria ela.

Mas antes estavam sempre a correr para todo o lado. Manuel trabalhava como dirigente na câmara, levado pela mão do sogro, um homem influente. Nem dava tempo de se habituar a uma função, já subia outra.

E era promoção merecida: ele trabalhava bem, era inteligente, com fibra de líder. Gostava de arriscar, organizar, exigir. Tal genro era um sonho para o conselheiro António Madureira, chefe do departamento de obras públicas.

No início, quase o perdeu. Só anos depois, a mulher contou-lhe as manobras do sogro quando engrenou uma zanga com a mãe pela herança, soube do sucedido. Protegiam-na, aquela filha mimada e sensível.

… E a senhora, é de família? insistia a idosa nas escadas.

Ela? … Ela é tudo o que me restou, talvez.

A mulher conteve as perguntas. Teve um arrepio de empatia com aquela dor nos olhos dele. Ele procurava alguém muito importante.

Avançou para o próximo pátio. Os pés encharcados, chamava, batia, levava com indiferença e má vontade. Outras vezes, conversava durante muito tempo, desembaraçando a história do passado. Depois seguia para outro pátio, outro…

Voltou para o quarto do hotel esgotado. Caiu na cama, nem despiu a gabardine, fechou os olhos. Doía-lhe o corpo todo. Mas no dia seguinte, novamente a andar à procura.

***

Aquele outono em Lisboa desaguava em chuva. Cores douradas no passeio, chuva e poças. Bancas e quiosques, tudo à venda, como nos tempos da célebre liberalização.

Vieram ele e o sogro de Coimbra para uma conferência sobre novas políticas de habitação e urbanismo.

Era um evento crucial; Madureira ansiava por uma promoção para Lisboa. Manuel Costa apenas ia cumprindo: fora de líder associativo a braço direito do chefe do distrito. Não fazia grandes planos: só trabalhava.

Supervisionava a construção de uma fábrica nova. Mas era novo ainda, sentia o futuro nas suas mãos.

Por isso, em Lisboa, aproveitou o tempo livre. Tinha o coração leve. O sogro pedia-lhe mil favores. E naquela tarde, ao passar pelo Rossio, Manuel ouviu uma melodia doce, vinda da entrada do metro.

Uma rapariga frágil, boina azul e lenço esvoaçante, tocava violino. Atrás, a parede húmida. Usava uma gabardina aos quadrados, botins curtos, pernas finas como de bailarina. No chão, a caixa de violino aberta; as pessoas deixavam moedas.

Manuel ficou imóvel. Tudo era estranho e belo: a música atormentada, o azul do lenço, cabelo encaracolado, mural sujo e as mãos vermelhas de frio. Percebia-se que o vento cortava, mas parecia que aquilo só a fazia tocar melhor.

Vendedores, compradores, gente que passava e largava trocos ninguém parava muito. Só Manuel ficou.

Terminada a melodia, a rapariga afastou o violino, esfregou as mãos doloridas, puxou as mangas do casaco. Logo de seguida, colocou o violino ao ombro com um gesto enérgico. Fechou os olhos. Como se desse tudo de si, como se oferecesse o seu último suspiro à arte.

E quanta tristeza naquela música, quanta tragédia e dor! A melodia deslizava pela parede cinzenta, subia, querendo provar qualquer coisa indizível.

Manuel deixou-se levar. Até que…

Um rapaz de quinze anos aproximou-se, agachou-se junto da rapariga e, num instante, desapareceu com a caixa.

Roubo! Roubo! Agarrem-no! gritou uma vendedora, interrompendo a melodia com a algazarra.

A rapariga, olhos cerrados, tocava ainda mais furiosamente.

Manuel foi o primeiro a correr atrás do ladrão. Galgou os degraus, nunca o perdendo de vista:

Apanhem-no!

Um homem bloqueou-lhe o passo, o miúdo largou a caixa e fugiu pelo meio do trânsito. Os carros guinaram, travaram, o miúdo pulou e sumiu.

Manuel agradeceu, apanhou as moedas espalhadas. A caixa estava partida. Por trás, subia a violonista, confusa.

Aqui está. Ele largou, estragou. Manuel recolhia as moedas no asfalto, Aqui, é tudo o que apanhei.

Não procure mais, a voz grave apesar do corpo delicado, Já estava partida, quase sempre parte. Obrigada.

Ela parecia triste, mas não parecia ser do roubo.

Isto costuma acontecer? tentou Manuel conhecê-la.

Às vezes, respondeu secamente, afastando-se pelo Largo.

Manuel devia ir noutra direção, mas seguiu atrás dela. Ela abrandou até parar numa ponte. Olhava a água, o lenço azul esvoaçava ao vento.

De repente, suspendeu a caixa sobre o gradeamento da ponte. Ia deitá-la ao rio, Manuel correu:

Não faça isso! Por favor!

Ela hesitou, surpresa. Manuel prendeu a caixa entre ambos.

O seu violino resiste. Tem de fazer música, é o destino, colocou a caixa no chão, ajeitou o instrumento, Porque o quer atirar fora?

Não devia tocar na rua… prometi…

A quem?

À minha mãe…

Não devia ser tão rígida. Olhe que é a primeira vez que ouço um violino a sério. E se não viesse hoje à estação…

Ela já se afastava.

Onde vai? Estou aqui para protegê-la dos ladrões!

E ela:

A minha mãe morreu há dois meses.

Oh, desculpe, sinto muito… Agora começo a compreender…

Calaram-se. O vento sacudia as folhas, fazia voar o chão dourado. Ela falou primeiro:

Toquei a vida inteira só para ela. Agora já não faz sentido tocar nem viver.

Mas veio tocar à passagem, foi o coração que pediu música, não foi?

Foi a fome. Não me restava nada para comer…

Isso resolve-se! Veja aqui… Manuel remexeu na carteira, Não é muito, mas posso trazer mais amanhã!

Ela olhou-o, séria.

Acha mesmo que lhe aceitaria dinheiro? Não me siga mais…

Acelerou o passo.

Desculpe, já viu que sou mesmo tolo! Amanhã espero-a no mesmo sítio! Venha, prometo protegê-la!

No dia seguinte, Manuel demorou-se. Só depois do almoço pôde ir ao Rossio. Não estava. Nem de manhã.

E esperou. Três horas, num nervoso de esperança. Finalmente, viu-a. Instala-se e toca. A vendedora trouxe-lhe um banco. Todos ali já sabiam para quem Manuel esperava.

Sentou-se em frente ao violino.

Duas horas. Quando a rapariga terminou, Manuel aproximou-se e colocou notas na caixa.

O que é isso? ficou alarmada. Tire. É demasiado.

Pago o que quero, tenho esse direito.

Ela devolveu-lhe as notas.

Tolo! Isto aqui é perigoso. Vamos sair daqui, apressou-se a empacotar o violino.

Logo cruzaram-se com dois homens. Ela suspira:

Chegaram…

Nessa Lisboa, anos 80, pagava-se renda pelo espaço público. Ele não sabia; os capangas não gostavam de forasteiros.

Qual é a tua dívida? ameaçaram.

Que pague o teu namorado!

Começou a luta. Manuel sabia dar uns murros. Mas vieram mais…

A jovem não se atrapalha e corre à loja mais próxima, daí sai polícia. Desviou-se o desastre.

Mais tarde, ela limpava as feridas de Manuel. Chá e bolachas duras. Pôs-lhe remendos na roupa.

Ela partilhava a vida. Tinha deixado o conservatório, ia ajudar no mercado.

Mas toca maravilha! espantou-se Manuel.

Não é tempo para músicos. É assim.

Riu, deram-se bem. Ele voltou, com mais comida. Ela resmunga, mas aceita. Promete-lhe visitas.

Feliz, Manuel olha para a janela dela. Era o segundo andar, havia um velho sabugueiro ao pé.

O sogro, ao vê-lo maltratado, destilou raiva:

Se te apanho… Andaste em sarilhos?! Ficas ao pé de mim, não me escapas!

Mas Manuel deu um salto e voltou. Trazia bolo e compras.

Nessa tarde, passearam por Lisboa, sob a chuva, de abrigo em abrigo. Ele apresentava-a como grande violinista aos passantes; ela recitava poesia ao vento. Partilharam uma caneca de café quente. Felicidade.

Beijaram-se. Ele pediu-lhe para ir consigo para Coimbra, casar.

Ela recitou um poema triste:

É a canção do último encontro.
Olhei para a casa apagada.
Só na sala ardiam velas
Com a sua luz dourada…

Dita, não digas isso Último? Falo a sério. Vem comigo…

Na casa dela, à noite, ela tocava um hino alegre no piano, ambos caçavam a barata em comunidade; depois, a noite fundiu-se em amor.

Na janela, a chuva era cortina, ela lia versos de desespero:

A natureza cai em ruína, os sons calam por culpa da distância… de mim para ti.

Vens comigo, ouviste? Nada de separação! prometeu ele.

No outro dia

Chamam pelo telefone cedo. O vizinho bate à porta. Pedem Manuel. Todos já sabiam onde estava.

O sogro, do outro lado, voz fria e pesada.

Vão acusar-te criminalmente, Manuel!

Dita olhava com estranheza.

Eu volto. Resolvo tudo e volto. É engano…

Voltas… Claro que sim. Eu acredito e, enquanto ele se vestia, ela declamava:

Magicamente conjuro o futuro, se o anoitecer é azul, antecipo um segundo encontro, até logo, Manuel!

Se alguém dissesse a ele que era tudo uma farsa… não acreditava. Tudo arranjado: atas, factos, números, acusações de fraude, corrupção.

Faltava-lhe experiência, assinava papéis sem ler.

E tudo conveniente para o sogro. Um verdadeiro especialista.

Sabes o que isto é? Vinte anos de prisão, e bem pesada… Julgas que quero isso? Que não vou ajudar? Mas tens de fazer a tua parte. Vou para Lisboa. Casa com a Lurdes. Faço tudo, mas… casa.

Manuel ergueu os olhos.

Não posso. Amo outra.

Quem, lá de Coimbra? És de fora, aconteceu. Esquece. Se cada vez que Agora, desenrasca-te tu. Eu lavo as mãos.

E Manuel teve medo. O inspetor apareceu nesse próprio dia, a fazer perguntas certas. No dia seguinte, Madureira enfiou-lhe o bilhete na mão: “Foge já! Sem ti, resolvemos”.

Na estação, tocava um violino ao longe. Manuel escondeu-se atrás do edifício, esmurrando a parede. Chorava, pela primeira vez.

***

Manuel percebeu que senhoras idosas nos bancos eram as melhores aliadas em buscas.

Benedita? duas idosas entreolharam-se. Não será aquela que morreu na primavera? Ainda veio cá o filho de um carrão.

Manuel sentiu um aperto no peito. Era o maior dos seus medos. Medo de que ela não o tivesse esperado. Que tivesse morrido, e então talvez também ele.

Tu assustas as pessoas! ralhou a amiga. Ele disse a porta da direita, não foi? A Antonieta é que morreu, não a Benedita! E morava ali noutros prédios. Fique descansado, senhor…

Pois, tens razão, Antonieta

Tornou a bater, a entrar em casas, a perguntar, já sem esperança. Não encontrou o sabugueiro; deve ter sido abatido. A cabeça não raciocinava. Caminhava para o hotel, exausto, daquelas recordações e buscas.

Na rua avistou ao longe uma mulher, cabelo preso pelo lenço azul, o andar

Benedita! quis gritar, mas a voz sumiu-se, Benedita!

Ela não virou. Correu atrás, tocou no ombro:

Benedita!

A mulher voltou-se. Parecida parecida, mas

Desculpe, enganei-me.

Não faz mal. Acontece. E olha que me chamo Dita, até o timbre de voz

Meu Deus, quem procura ele? Devia procurar uma senhora de sessenta, não uma jovem. Alucinações…

Chegou ao hotel desfeito.

No dia seguinte, era a sua última tentativa.

Demorou-se na cama até tarde. Os efeitos dos comprimidos, talvez excesso, roubavam-lhe as forças. Apenas chá, nem coragem para o café. Chamou um táxi; hoje não conseguiria andar pelos pátios.

Chegou. Ficou de frente para o pátio, de olhos no céu de primavera. Pensou em desistir. E, então, viu uma loja de instrumentos musicais. Na montra, só cordas.

Entrou.

Posso ajudar? perguntou a jovem de uniforme.

Queria ver aquele violino

Ela tirou, ofereceu-o.

Vai experimentar?

Não, não toco. Conheci uma grande violinista ali naqueles prédios. Benedita…

Benedita? Não será Benedita Rebelo?

Não lembro o apelido… Conhece-a?

Claro, deve ser ela. Ainda mora por aqui. O senhor é parente?

Ela mora? Está casada?

Tem família. Um filho pequeno, uns oito anos…

Que idade tem a Benedita então?

Não sei, trinta e tal.

Posso sentar-me?… Não encontrei, outra vez… disse Manuel, saindo atordoado.

A rapariga via-o, pasmada.

Saiu e avistou os velhos sabugueiros no único pátio. Só num. Por que sempre pensou que era dois?

Encontrou um casal idoso.

Procurava uma Benedita, senhora dos sessenta, viveu aqui nos anos setenta, tocava violino…

Os senhores entreolharam-se.

Era filha da Dona Maria… Benedita Rebelo. Claro…

Manuel esteve quase a cair. Sentaram-se juntos.

Moravam naquela porta, segundo andar.

Houve um sabugueiro, certo?

Sim, arrancaram agora tudo. Fizeram obras. Benedita ficou sozinha, chegou a lavar escadas. Mas criou a filha, sua cópia, uma artista.

E onde está a Benedita?

Mudou-se. Não sabemos para onde.

Mais uma esperança desfeita.

Mas a filha mora cá. Fale com ela.

Aqui?

Mesma casa, agora só família dela.

Manuel, pernas de algodão, subiu e tocou à porta.

Sim? voz de homem.

Para os Rebelo…

Quem deseja?

Procuro a Benedita. Deve ser sua sogra…

O homem abriu a porta. Logo descia as escadas.

Está bem? Precisa de ajuda?

Ajudou-o a entrar.

Não tire os sapatos, sente-se no sofá.

Logo chegou Ela. A jovem que vira na rua. Vestido largo como de noite caseira. Iguala à mãe. Era a filha. Já lhe mediam a tensão, penduravam máquinas.

A tensão está alta; já teve enfarte?

Sim…

Tenho de chamar uma ambulância.

Só quero o endereço da sua mãe A Benedita está bem?

Está. Quer chá medicinal, precisa descansar. Unimos dois quartos para salas, comprei o edifício anos atrás. Agora é só família.

Preciso vê-la. Diga, que idade tem mesmo?

Ela sentou-se, sorriu triste:

Nasci em oitenta e um, julho. Chama-se Manuel, não? É meu pai?

Manuel apanhou-se pela mão ao peito.

Meu Deus, nunca soube, filha. Devia ter sabido.

Foi até à cozinha, espaçosa e clara.

Aqui não há baratas?

Nem pensar. Tenho pavor

Pena. A tua mãe era destemida.

Sentaram-se. Ele limpava as lágrimas.

E a vossa vida, foi difícil?

Sim, mas mamã dizia que foi salva pelo meu nascimento. Trabalhou imenso, tivemos hóspedes, foi normal para o tempo…

Fui tão injusto!…

E a vossa separação? Mãe diz que era destino, que o queria muito, mas ficou. Esperou sempre. Mas agora, vamos ligar-lhe!

Não! Quero ir, preciso de vê-la eu.

O genro apareceu:

Levo-o, mas depois hospital obrigatório!

Combinado. Ouves, Sacha (nome dela), como deves obedecer!

Desceram. Ele contemplou filha e neto, dois Sachas.

Vivi assim, e tinha uma família assim o coração acelerava.

Chegaram a um prédio novo.

É aqui. Precisa que suba?

Deixe-me tentar sozinho.

No quinto andar, apartamento cento e dezoito. Tocou…

Desta vez, a porta abriu logo.

Ali estava ela, Benedita. O cabelo mais manso, bochechas lisas, não tão magra, mas o mesmo olhar. Dois dias juntos fora pouco; mas parecia uma vida.

Ficaram sem palavras.

Benedita, eu… perdoa-me! ajoelhou-se, exausto.

E ela ajoelhou também:

Manuel! Levanta-te, sentes-te mal?

Juntos, no chão da entrada, mãos apertadas.

Encontrei-te! Porque esperei tanto? Nem sabia da filha… Percebes?…

Sossega, Manuel, está tudo bem. Eu sabia que regressarias. Nunca deixei de esperar.

Devia ter voltado

Recordas aqueles versos?

Palavra por palavra: “A natureza cai em ruína…” e Benedita completou:

… os sons calam por culpa da distância… de mim para ti…

Mas não eram esses. Deixa ligar ao genro, Manuel…

Ele está lá em baixo, apontou Manuel.

Como?

Foi ele quem me trouxe…

Logo o genro os levou de carro para o hospital.

Iam de mãos dadas no banco de trás. Ele inspirava melhor, e as lágrimas corriam-lhe de emoção.

Não quero ir para o hospital, agora que te encontrei.

Fico ao teu lado. Agora juntos… afagou-o.

E ele chorava de bastar tudo ter sido possível mas só agora. Podia ter vindo mais cedo, podia…

Choras? Calma, agora vai tudo correr bem… confortou ela.

E recitou baixinho:

“… Magicamente conjuro o futuro, se o anoitecer é azul, antecipo um segundo encontro, inevitável reencontro contigo…”

Por Lisboa passava o carro apressado, levando Manuel para o lugar onde os sonhos de uma vida ainda podiam ser realidade, juntos com a mulher que sempre amou.

Não chegou tarde à própria felicidade. Chegou a tempo.

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– Procuro uma mulher chamada Alexandra.