Urgentemente Precisa-se de um Marido
Mãe, tens mesmo de encontrar um novo marido, e quanto antes! Mesmo urgente!
Emília quase deixou cair a chávena de café, espalhando uma gota escura sobre a toalha bordada, que parecia líquida e viva. Colocou-a na mesa com cuidado ausente, limpou a garganta, e olhou para a filha com olhos tão redondos e espantados como as fatias de laranja no sumo de domingo.
Explica-me o que se passa pediu ela, tentando manter a voz a planar, como se falasse noutro tempo. O que é que te dá para vires mandar nisso?
A menina mudou o peso de um pé para o outro, os dedos a desenhar círculos repetidos no tapete azul, onde ondas se fundiam em peixes. Beatriz estava acanhada, mas uma obstinação líquida brilhava-lhe nas pálpebras.
Percebes… hoje contei ao pai que tinhas namorado novo suspirou fundo, o som a sair como buzina de elétrico ao amanhecer de Lisboa. Ele chateou-me tanto! Sempre a perguntar se já tinhas alguém. Eu dizia não, e pronto, voltava ao discurso comprido e torto sobre como fizeste mal em deixá-lo. Que eras parva em ter perdido homem tão formidável!
Olhou para a mãe; nos olhos dançava uma raiva transparente, confusa, zangada com um eco que não era só do pai.
E ele repete sempre o mesmo: que vais perceber o erro e voltar. Que ninguém melhor vais encontrar. E pronto, perdi a paciência. Falei que já tinhas conhecido outro.
Emília passou os dedos pelo cabelo curto, sentindo o cheiro de mar e a voz do ex-marido, Manuel, a surgir debaixo do couro cabeludo. Sempre aquela certeza sonsa, aquele jeito de transformar cada conversa num sermão sobre si próprio.
Já imagino as palavras coloridas com que se descreve, murmurou ela, irónica, mesmo agora não aceita ter sido largado. Às vezes, acho que só te chama aos fins de semana para monologar, alimentar a vaidade.
Beatriz mergulhou para o sofá, as pernas dobradas por baixo do corpo miúdo, e foi riscando com a mão o veludo das almofadas, como a procurar lembranças que não doíam.
Eu acho o mesmo disse ela, olhando para um canto onde o sol tardeava. Passo hora e meia a ouvir que ele é brilhante. O resto do tempo, como se eu fosse uma folha esquecida; nem como vou na escola lhe interessa, nem se preciso fosse do que quer que fosse…
Falava com a calma de quem enumera tarefas diárias: acordar, pequeno-almoço, escola, TPC. A Bea habituara-se já tanto à ausência de surpresa que cantarolava os defeitos do pai tal como quem soletra o abecedário.
Reclinou-se, espreitando o estuque manchado do teto, a repetir no pensamento a conversa de há pouco. Começara, como sempre, com uma grande vitória do pai: hoje, fora uma negociação que parecia nunca mais acabar. Seguiu-se uma descrição dos planos para o futuro, das batalhas no banco, dos equívocos de toda a gente menos ele. No relógio, a menina marcou, como de costume, o tempo: uma hora e meia de eu, eu, eu.
Quando tentou partilhar sobre a Olimpíada de Matemática que vencera, Manuel acenara vago, trocando no mesmo instante o tema de volta ao seu império pessoal: Parabéns, mas aos meus anos já eu…, e vinha nova onda sem fim.
Beatriz encolheu os ombros às memórias. Já nem magoavam. Manuel só conhecia o seu próprio cheiro, o seu papel de protagonista exclusivo; tudo o que não fosse ele ocupava lugar nas margens pouca coisa à margem da sua importância universal.
As conversas com a mãe ou a filha eram sempre desviadas a um novo capítulo de autobiografia. Se Emília se queixava de cansaço, logo Manuel relatava o seu extenuante martírio bancário. Se Bea falava das amigas, ele desfiava em tecnicolor aventuras escolares, sempre melhores, mais épicas. As dores alheias tornavam-se insignificantes ou invisíveis.
Para Beatriz o espanto vinha de outros lados: como terá a mãe aguentado quinze anos com aquele homem? Só por sua causa, talvez, para que ela crescesse com pai. Em pequena, achava mesmo que um dia Manuel mudaria, seria atento, companheiro. Mas o tempo passou, e nada. E, depois do divórcio, assombrou-se ao perceber que viver sem Manuel era infinitamente mais sossegado! O oxigénio já não era todo dele.
Então e porque devo eu, de repente, arranjar companheiro à pressa? perguntou Emília, sem disfarçar o tom de irritação fina. Disseste o que disseste; que há de fazer?
É que, ouve, quando o pai ouviu, pareceu que estava a levitar! Bea encolheu-se, a abraçar uma almofada como quem segura flutuantes num rio sem margens. Primeiro ficou branco, depois vermelho, começou a gritar tanto que a Dona Odete de cima apareceu. Até me assustei.
Fez pausa. Voltaram-lhe imagens do pai: a voz fina e descontrolada, os punhos cerrados de papel, os olhos a fugir pela divisão.
Queria saber o nome do tal homem, a descrição toda, cada pormenor continuou Beatriz, a dedilhar o fio solto da almofada. Eu disse que tu me pediste segredo, principalmente a ele Não me admiro que ele te vá ligar a armar confusão.
Emília virou-se devagar, encostou-se na janela e espiou a filha. Que dia estranho e dançante se avizinhava Já podia imaginar a tempestade de Manuel Bela ajuda, filha querida, não há dúvida
Emília sentou-se ao lado de Beatriz, suspirou com peso nos ossos e envolveu a miúda num abraço.
E porque inventaste essa? perguntou baixinho, embalando Beatriz. Vivíamos tão bem assim… Agora lá vou eu aguentar histerias ao telefone. Dá vontade é desligar tudo.
Bea escapou suavemente do embalo, endireitou o corpo e olhou a mãe com uma determinação quase brutal e cristalina.
Porque tu és fantástica! afirmou, confiante como uma fadista de Alfama. Bonita, inteligente, cheia de amigos és admirada por homens! Achas que não reparo? E o pai passa a vida a dizer-te mal! Farto-me disso!
Emília afagou-lhe os cabelos lisos com ternura e um desassossego hesitante.
Percebi, meu raio de sol murmurou ela, Achava até que tu não ias querer que eu voltasse a ter alguém a sério, sabes? Só passaram seis meses do divórcio
Foi custoso dizer isto. Temia que a filha visse num novo romance uma traição ou tentativa de substituir Manuel. Por isso examinou-lhe o rosto, à procura do menor sinal de mágoa.
Disparate! soltou Beatriz, o tom resoluto a iluminar o rosto da mãe num sorriso espontâneo. O importante é que sejas feliz!
Braços cruzados, sorriso de lado, Bea parecia adulta madura para lá do que as mãos pequenas deixavam supor.
A inquietação de Emília foi cedendo, ao ouvir a convicção sólida da filha. Talvez pensasse demasiado no ontem, temesse demasiado o amanhã
És de uma inteligência rara disse Emília, puxando-a de novo para si, aquecendo o espaço entre elas. Obrigada por cuidares assim da mãe.
Beatriz encostou-se como se o mundo inteiro fosse só as duas. E naquela torrente de silêncio morno, sentiram-se mais fortes, unidas, firmes como um barco que não se afunda porque ambas remam ao mesmo tempo…
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Emília estava na secretária do gabinete, a tentar espremer sentido de um relatório fluido. As linhas das folhas esbatiam-se e uma dor surda, orquestrada e marinha, pulsava-lhe nas têmporas. Massajou as fontes com gestos repetidos, que já faziam parte de si como respirar.
Com indecisão líquida, pediu a uma colega para lhe comprar comprimidos na farmácia do outro lado da rua, numa Lisboa surreal onde cada loja dava para um porto. Quando tos adquiriu, engoliu-os com água de um jarro, mas foi inútil: a cabeça pesava, os ruídos giravam (as teclas, o ar condicionado, os passos no corredor) como notas desafinadas de um acordeão louco.
Nesse instante, o segurança espreitou à porta, com uma cara que oscilava entre a deferência e o pânico de peixe fora de água.
Dona Emília, está cá uma visita disse, abrindo a porta só para meio mundo. O seu ex-marido quer vê-la. Quer que o acompanhemos lá fora, ou desce?
Emília congelou, riscando a mente de impropérios que não cabem numa sala de reuniões. Suspirou fundo pela janela aberta, forçando-se a parecer tranquila.
Já vou, desculpem o incómodo.
Murmurou para dentro, Logo hoje, Manuel, logo hoje, enquanto caminhava como se pisasse algas presas no piso. No corredor, a azáfama parecia de feira: colegas a correr, piadas junto à máquina de café, debates animados à frente de um quadro cheio de post-its com recados que só fazem sentido em sonhos.
No átrio, viu Manuel. Ele movia-se como gaivota atrapalhada: para a frente, para trás, gesticulando com violência molhada, berrando aos seguranças, olhos a faiscar. Os homens do barulho trocavam olhares de tédio, sempre prontos a intervir, caso um sapato voasse.
O que é agora? Emília atirou, sem salamaleques, a voz seca a desenhar-se entre eles como um muro. Que teatro montaste agora? Queres que chame a PSP a conhecer-te melhor?
Manuel virou-se, rosto vermelho escuro, olhos ardendo num fogo desengonçado, meio cómico, meio assustador. Avançou, a apontar-lhe o dedo como se fosse arma.
Tu! gritou. Tu! A Beatriz contou-me tudo! Passaram seis meses e já encontraste outro homem?
Na voz dele misturava-se incredulidade, mágoa e um ciúme ridículo, como sardinhas a saltar de um balde.
Emília arqueou uma sobrancelha, inclinando a cabeça, postura felina, fria.
Queres fidelidade vitalícia? disse, plana. Até depois do divórcio? Tens uma lata…, sobretudo quando nem em casar sabias ser fiel!
Manuel ficou mudo breves instantes, o braço a cair-lhe como saco roto. O olhar mostrava agora uma hesitação insólita: nunca vira Emília assim, calma, distante como quem vê o Tejo da outra margem.
Pessoas circulavam: uns observavam, outros faziam-se distraídos. Mas todo o átrio parecia encolhido à volta deles, isolando o eco de mágoas, ameaças e medos antigos.
Tu tu és começou, mas Emília interrompeu.
Poupemos o escândalo, Manuel o tom dela tornou-se quase suave, mas implacável. Se tens algo a discutir, que seja em privado. E com educação.
Escândalo? Eu MOSTRO-TE o que é escândalo!
E Manuel quase gritava, a voz reverberando nas arcadas do prédio empresarial, veias do pescoço marcadas, punhos duros de raiva. Avançava, recuava, como quem luta com a própria sombra.
Não admito que a minha filha viva com homem desconhecido! bramava, ignorando as atenções crescentes. Tiro-te a Bea! Nunca mais lhe pões a vista em cima!
Aquelas ameaças soavam tão patéticas que Emília mal ergueu uma sobrancelha, indiferente.
Já acabaste? murmurou ela, irónica. Parece o Dom Quixote no circo.
O que se passa aqui?
Manuel calou-se, virando-se para o novo intruso: um homem de fato azul-escuro, postura solta, olhar firme. Os seguranças esticaram-se, como se sentissem o vento virar. Era visível a aura de quem mandava.
Não se meta! atirou Manuel, irritado, sem controlar o medo no timbre.
O homem não respondeu logo. Aproximou-se, parando a meio, com um meio-sorriso de quem já viu muitos dramas destes.
Privado é privado quando não se faz público, retorquiu ele calmamente. Aqui já é público.
Emília observava, sentindo a atmosfera ficar mais densa, como melde abelha no verão. Não esperava a intervenção de António Morgado, o diretor-geral, mas caiu-lhe bem que se alguém viesse baralhar Manuel, melhor.
Manuel deu um passo para encarar o homem, mas este não vacilou. Olhou-o de cima, um olhar de gelo. Chegou até Emília, pousando-lhe suavemente a mão na cintura, pleno de intenção.
Quem sou eu? disse António, a voz baixa, glacial. Sou aquele que faz a Emília feliz. Não admito gritos com a minha mulher. E se quiseres, posso levar-te à polícia pessoalmente. E se tentares usar a filha como moeda de troca… já entendeste, não?
Manuel petrificou, toda a raiva a escorrer pelo terno amarrotado. Procurou reação nos olhos frios de António, mas só encontrou firmeza. O mundo desfez-se em silêncio.
Por fim, rangeu os dentes, largou um resmungo ininteligível e afastou-se apressado, o orgulho derretido a cada passo. A despedida saiu-lhe ténue:
Da pensão nem penses!
Nem me faz falta! atirou Emília, com leveza, uma espécie de gozo contente. Ao menos a Bea não terá de ir de fim de semana para o drama!
Só então percebeu que a mão de António, quente e confiante, ainda lhe repousava à volta da cintura. Corou, baixou os olhos, e afastou-se devagar, procurando parecer natural.
Com um sorriso meio perdido, virou-se para o seu inesperado cavaleiro:
Muito obrigada mesmo, António. Ajudou mais do que imagina!
O olhar dele suavizou, como ondas quando baixam a maré.
Vamos conversar melhor ao almoço? sugeriu, estendendo-lhe a mão.
Emília hesitou breves segundos, vozes velhas a murmurar que talvez fosse cedo, mas empurrou o receio para longe. António era correto, sincero, e apetecia-lhe falar longe do ruído.
E havia uma curiosidade quente: quem era aquele homem por trás da pose, por trás da intervenção? Porque é que escolhera defendê-la assim?
Claro respondeu ela, deixando a mão pousar na dele, sentindo um calor inesperado subir-lhe para o ombro.
Depois, sentados numa tasca pitoresca do Bairro Alto, a luz amarela a fazer sombras largas, António falou com a tranquilidade dum rio antigo.
Queria falar-te há muito, confessou, mexendo o café. Via-te sempre tão fechada, tão séria Sabia que passavas uma fase difícil, nunca quis pressionar.
Emília ouviu, saboreando cada palavra sem pressa, sentindo uma sinceridade rara.
Mas hoje, ao ver aquele homem a berrar contigo não consegui ficar quieto António remexeu o açúcar, o cenho franzido.
Ela sorriu, surpresa por reconhecer sinais antigos que agora faziam sentido. António agradava-lhe, mesmo só nunca teria ousado dar o primeiro passo.
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Três meses depois, num mês de setembro azul e quente como promessa, Emília e António casaram-se, celebrando numa quinta entre vinhas e azinheiras. António realizou-lhe todos os sonhos qualquer capricho era concedido sem hesitar.
Beatriz estava radiante. No dia do casamento, ajudou a mãe a arranjar o véu e os sapatos, conferiu o bouquet, endireitou cada laço. No momento das alianças, sorriu e abraçou os dois com força de maré cheia.
Estou mesmo feliz por vocês! murmurou, com brilho dourado no olhar.
Mas foi sempre honesta: não chamaria António de pai.
Gosto de ti, António, explicou ela numa noite calma. E gosto de ver a mãe assim contente. Mas pai… Pai já tenho, goste ou não goste.
António assentiu, sem mágoa nenhuma.
Claro, Beatriz. O importante é estarmos juntos.
Manuel recebeu convite para o casamento era mais ironia que generosidade. Emília hesitou, mas quis mostrar-lhe sem palavras que a vida continua.
Claro que Manuel não apareceu. Em vez disso, passou os dias seguintes ao telefone, a rebentar de azedume para toda a gente conhecida.
Podes crer, convidou-me para o casamento! Depois disto tudo! desabafava, sem esperar resposta completa.
Os amigos mostravam-se neutros ou indiferentes: uns encolhiam os ombros, outros soltavam frases feitas, e a insistência monocórdica de Manuel tornava-se cada vez mais patética e vã.
Depois, mudava o disco:
Passaram só seis meses… Não há amor assim! É só para me provocar, para me esquecer de vez
De repente, mudava ainda outra vez:
Nem deu hipótese para eu tentar arranjar as coisas! Se falássemos, eu… eu…
Às vezes, reclamava uma gratidão impossível:
Tantos anos juntos, e ela nem um obrigado. Só se foi, levou-me a miúda!
Mas os amigos, quando respondiam, destacavam o óbvio:
Porquê agradecer? Casados eram, isso é obrigação. Agora cada um segue o rumo
E assim Manuel foi sentindo o próprio discurso vazio, sem eco no mundo real.
Farto, cansou-se de telefonar. Ficou, por fim, à janela, sozinho com as quinquilharias da vida antiga: uma mola esquecida, um álbum de fotos esmaecidas, um vestido demasiado pequeno para o tempo. Percebia como um eco que a vida segue, mesmo quando não se tem lugar nela de momento.
E assim, a vida de Emília, António e Beatriz fluiu: tranquila, ritmada, cheia de pedaços doces jantares a três, tardes no jardim, discussões sobre filmes que ninguém via até ao fim. Como se o sonho de amor pudesse mesmo existir, estranho e surreal, algures no coração de Lisboa, com cheiro a mar e a esperança.







