Procura-se Marido com Urgência

Procura-se Urgentemente um Marido

Mãe, precisas mesmo de arranjar um marido novo. Muito, muito depressa!

Helena quase deixou cair a chávena de café, e algumas gotas mancharam a toalha de linho bordada. Pousou-a sobre a mesa, pigarreou e fitou a filha com uma expressão entre o choque e a curiosidade.

Explica lá porquê, pediu, tentando manter um tom calmo. De onde vem esse pedido assim tão… urgente?

A menina mudou o peso de uma perna para a outra, baixou os olhos e ficou a brincar com o desenho do tapete. Mariana sentia-se desconfortável, mas estava decidida absolutamente certa do que fazia.

Sabes hoje disse ao pai que tinhas alguém suspirou fundo, com um peso no peito. Ele não me largou com perguntas! Só sabia perguntar se já tinhas encontrado alguém. Eu sempre dizia não, e ele começava logo um discurso interminável, a dizer que fizeste um erro terrível em deixá-lo. Que perdeste o melhor homem da tua vida, e que não percebes nada destas coisas.

Levantou então o olhar para a mãe. Havia nos olhos dela desgosto, perplexidade, mas também uma pontinha de cólera dirigida ao pai.

E ainda ainda está sempre a dizer que tu vais acabar por perceber o erro que cometeste, e vais voltar para ele. Que não há ninguém melhor do que ele. Por isso, desta vez passei-me. Disse-lhe que já tinhas conhecido alguém especial.

Helena passou a mão pelo cabelo castanho-escuro. Instantaneamente, recordou os velhos tiques do ex-marido aquela confiança forçada, aquela mania de transformar qualquer conversa num monólogo sobre as próprias qualidades.

Consigo imaginar os nomes bonitos que usou para me descrever, comentou Helena, com uma pitada sarcástica. Até hoje não aceitou que o tivesse deixado. Às vezes pergunto-me se ele ainda te chama só para poder fazer discursos sobre si próprio. Não é para passar tempo contigo é para alimentar o próprio ego.

Mariana largou-se no sofá com um suspiro pesado, escondendo os pés debaixo das almofadas. Mexendo distraidamente na bainha do estofo macio, tentava organizar os pensamentos.

Sim, eu também acho, murmurou, olhando de esguelha para a janela. Uma hora e meia a ouvir que ele é espetacular. Depois já nem liga mais nem me pergunta como estou, se preciso de alguma coisa, se estou a estudar bem

Falava nisto como quem enumera as tarefas do dia: acordar, tomar o pequeno-almoço, escola, trabalhos de casa. Para Mariana, aquilo já fazia tanto parte da rotina que nem conseguia sentir tristeza ou irritação era simplesmente a norma.

Deitou-se para trás e ficou a olhar para o tecto, revendo mentalmente a conversa com o pai. Como sempre, começa a vangloriar-se das proezas no trabalho, das negociações brilhantes, dos planos futuros, de quanto é subestimado Uma hora e meia de monólogo. Mariana até marcou o tempo, só para depois contar à mãe.

Quando tentou partilhar a vitória no concurso de Matemática, o pai apenas acenou vagamente e logo voltou a discorrer sobre as glórias do seu passado. Parabéns, claro, mas na tua idade eu já e voltava a ser tudo sobre ele.

Mariana deu de ombros, espantando a recordação desagradável. Sempre tinha sido assim, desde que se lembrava: o pai absorvido em si próprio. O resto da família existia apenas nos bastidores presentes, mas nunca no foco principal. Ninguém conseguia competir com a sua pessoa.

Qualquer problema dos outros ele transformava em exemplo para mostrar que os seus sempre tinham sido piores e logo recomeçava a história interminável de superação.

Mariana nunca percebeu como a mãe aguentou quinze anos ao lado daquele homem. Devia ter ficado apenas por causa dela, não querendo criar uma filha sem pai. Em miúda, Mariana acreditava que um dia o pai mudaria que se interessaria, perguntaria, cuidaria delas. Mas os anos passaram e nada mudou. Depois do divórcio, para surpresa da filha, a vida ficou bem mais tranquila. Em casa ninguém mais monopolizava a atenção, e cada emoção era respeitada.

E porquê, afinal, tenho eu de correr a arranjar um namorado? a voz de Helena soou um pouco mais aguda do que pretendia. Disseste e pronto. Não é o fim do mundo.

É que tu não imaginas como ficou o pai! fez uma careta Mariana, agarrada a uma almofada. Primeiro ficou branco, depois vermelho, e depois começou a gritar de tal maneira que a vizinha lá de baixo subiu a ver o que se passava! Fiquei mesmo assustada.

Calou-se por um momento, rememorando a cena: o tom de voz do pai, estranho e agudo, os punhos fechados, a expressão descomposta. Parecia que ia rebentar de tanto sentimento enclausurado.

Queria que eu lhe dissesse o nome do homem, que o descrevesse nos mínimos detalhes, continuou Mariana, brincando com a franja da almofada. Não disse nada, disse que tinhas pedido para não comentar, especialmente com ele Não me admirava que ele te começasse a ligar para implicar.

Helena virou-se devagar, apoiando-se no parapeito da janela, fitando seriamente a filha. Bem, parecia que ia ter um dia em cheio já imaginava o escândalo do ex-marido…

Voltou ao sofá e sentou-se ao lado de Mariana, abraçando-a com força. Agora nada a fazer as palavras ditas não se voltam atrás.

E porque é que inventaste isto? perguntou baixinho, acalentando Mariana nos braços. Estávamos tão bem, e agora vai ser só mais um barraco atrás do outro. Só me apetece desligar o telemóvel.

Mariana soltou-se suavemente e sentou-se direita, o olhar sério e determinado.

Porque tu mereces! disse, com uma convicção brilhante nos olhos. És linda, és inteligente, tens amigos que gostam de ti, e toda a gente vê como os homens olham para ti! Achas que eu não reparo? Já chega de ouvir o pai a falar mal de ti. Cansei-me!

Helena acariciou os cabelos da filha com ternura, passando os dedos pelas madeixas finas, um misto de ternura e surpresa nos olhos.

Percebi, amor, percebi, murmurou meigamente. Para ser sincera, achava que a filha ainda não estaria preparada para a ver com outro homem, logo agora que só tinham passado seis meses desde o divórcio.

Estas palavras custaram a sair. Temia, lá no fundo, que a filha sentisse um novo namoro como uma traição ou substituição do pai. Examinou com atenção o rosto de Mariana, tentando descobrir qualquer sinal de desconforto.

Disparate! resmungou Mariana, e na sua expressão havia tanta maturidade e decisão que Helena não conteve um sorriso. O importante é tu seres feliz!

Cruzou os braços, sorrindo com firmeza para a mãe. Por um instante, Mariana parecia muito mais velha sábia e pronta a defender as suas convicções.

Helena fitou a filha e, devagar, sentiu a ansiedade dissolver-se dentro de si. Mariana falava com tanta certeza e carinho que os antigos receios se afastaram. Talvez pensasse demasiado no passado Talvez, só talvez, fosse mesmo tempo de arriscar um futuro novo.

És uma menina extraordinária, sussurrou Helena, puxando a filha ainda mais para perto. Obrigada por cuidares assim de mim.

Mariana aconchegou-se debaixo do braço da mãe. Nesse momento, as duas sentiram que o pequeno mundo que habitavam se tornava mais seguro, mais forte como se nada nem ninguém pudesse destruí-lo.

***************************

O relógio marcava três da tarde. Helena estava na empresa, pousada à secretária, a tentar concentrar-se num relatório que não avançava. As palavras dançavam no ecrã, a dor de cabeça latejava nas têmporas, abafando qualquer possibilidade de raciocínio. Massajou as têmporas devagar já repetira aquele gesto uma dezena de vezes nesse dia.

Por fim, pediu à colega do lado que lhe trouxesse comprimidos da farmácia, ali mesmo à esquina. Engoliu-os com água do garrafão, mas não conseguiu voltar ao trabalho: o barulho dos teclados, o burburinho do corredor, ressoava-lhe na cabeça como navalhas.

Nesse momento, bateu à porta um segurança alto e simpático, mas de olhar apreensivo.

D. Helena, tem visita avisou, entrando com cautela. Está cá o seu ex-marido. Diz que precisa mesmo de falar consigo. Quer que lhe diga para ir embora, ou desce?

Helena ficou imóvel, o irritação a misturar-se com o cansaço. Respirou fundo para não mostrar abalo.

Eu desço. Desculpe o incómodo, respondeu, tentando recompor-se.

Por que raio ele tinha vindo ali? Não podia ligar? Precisava mesmo de fazer um teatro, no meio de colegas e desconhecidos? Ia mesmo transformar o escritório num palco?

Saiu devagar, passos contidos, evitando movimentos bruscos para não piorar as tonturas. Os corredores estavam cheios de gente risos perto da máquina de café, conversas à volta da fotocopiadora, papéis apressados. Helena sentia uma pressão nos ombros, cada passo mais pesado.

No átrio viu logo o ex-marido Eduardo de um lado para o outro, agitado, a gesticular, quase a berrar para os seguranças. Os funcionários olhavam-no com aborrecida tolerância prontos a agir se o necessário.

O que vens cá fazer? Helena foi direta, sem rodeios. O tom era calmo mas gelado. Tens mesmo de armar esta novela? Queres experimentar falar com a polícia? Posso já tratar disso.

Eduardo virou-se num salto ao ouvir a voz da ex-mulher. O rosto dele vermelhou, os olhos brilhavam de raiva reprimida. Avançou para ela, dedo em riste, como se a acusasse de um crime.

Tu! gritou. Tu! A Mariana contou-me tudo! Passou só meio ano e já arranjaste outro homem?

Havia naquela voz uma mescla de incredulidade, ciúme e dor magoada. Parecia que, até aquele instante, se convencia de que a filha mentia, ou de que era apenas uma estratégia para o atingir. Mas olhando para Helena, percebeu que era sério.

Helena ergueu uma sobrancelha, cabeça ligeiramente de lado, expressão neutra, olhos frios.

Também querias que eu te guardasse luto para sempre? atirou, sem tremer. Especialmente vindo de ti, que nunca valorizaste a fidelidade enquanto estiveste casado

Por um instante, Eduardo vacilou, o braço a cair ao lado do corpo, a perplexidade na expressão.

Funcionários e visitantes cruzavam o átrio, alguns olhando de soslaio, outros fingindo que nada se passava. Mas naqueles segundos, Helena e Eduardo eram o centro do universo um palco de mágoas e memórias antigas. E ele, de súbito, parecia perder o chão.

Tu gaguejou Eduardo, mas Helena levou a conversa adiante.

Não faço questão de mais cenas, Eduardo. Queres falar, falamos mas não é aqui e não é assim.

Achas que me calo? Eu não permito que a minha filha more com um estranho! Eu tiro-te a Mariana! Nunca mais a vês!

As palavras chegavam impacientes, quase histéricas, mas Helena não transparecia medo algum. Rapidamente, surgiu um sorriso irónico e controlado.

Já falaste tudo, artista? respondeu, num tom quase divertido. Se quiseres ir ao circo, eu dou-te um bilhete.

Passa-se alguma coisa aqui? interrompeu uma voz grave e segura.

A conversa parou Eduardo virou-se. À entrada do átrio estava um homem elegante, fato azul-escuro bem cortado, olhar calmo e sério. Os seguranças endireitaram-se: era o Dr. Manuel Esteves, o Administrador do grupo.

Não se meta, Eduardo lançou-lhe um olhar hostil, ainda vermelho de raiva. É assunto meu.

O Dr. Manuel avançou devagar, o sorriso cortês mas imponente, parando de frente para os dois.

É pessoal até certo ponto, respondeu com serenidade. Mas quando se faz uma cena num sítio público como este, deixa de ser privado. Torna-se um incómodo para todos nós.

Helena não esperava intervenção do patrão, mas sentiu uma estranha sensação de alívio. Pelo menos, Eduardo embrulhava-se todo com a presença daquela autoridade.

Eduardo hesitou, tentando manter o orgulho.

O senhor não tem nada a ver com a minha vida.

O Dr. Manuel deu à mulher um abraço seguro pela cintura, sem hesitar gesto discreto mas muito claro.

Quem sou eu? respondeu, numa voz gelada. Sou quem faz a Helena feliz. Levantas a voz à minha companheira e não admito. Se quiseres problemas, a polícia trata. E se pensas em usar a tua filha como moeda de troca, pensa outra vez. Não vou deixar.

Eduardo desarmou. O rosto perdeu a cor, os olhos saltavam entre eles, sem perceber como perdera completamente o controlo daquela situação. O silêncio foi pesado; ele abriu e fechou as mãos, desejando responder mas incapaz de articular palavra.

Por fim, murmurou qualquer coisa indistinta, virou bruscamente as costas e afastou-se, tentando não mostrar o embaraço. Antes de sair, lançou um último aviso:

Podes esquecer a pensão de alimentos!

Não preciso, retorquiu Helena, quase a rir. O importante é a Mariana já não ser obrigada a ir passar fins de semana a casa do pai.

De súbito, Helena percebeu que a mão do Administrador ainda envolvia a sua cintura. Sentiu um rubor no rosto, buscou o olhar dele o embaraço transformando-se numa nova energia.

Obrigada, Dr. Manuel. Nem imagina o quanto me ajudou.

O homem arregalou um sorriso subtil.

Falamos melhor ao almoço? sugeriu, oferecendo-lhe o braço.

Helena hesitou ligeiramente, mas não pensou muito mais havia uma confiança inesperada no olhar dele, uma serenidade que a fez aceitar. Lá dentro, sentiu uma ponta de expectativa: quem seria, na verdade, aquele homem? Porque se expôs por ela? O que esconderia detrás da pose imponente?

Sim, vamos, respondeu, pousando a mão no braço firme.

O toque era seguro, genuíno, sem pressas. Helena sentiu o corpo relaxar, como se a tensão dos últimos meses começasse, finalmente, a dissipiçar-se.

No restaurante acolhedor, à luz branda dos candeeiros antigos, a conversa ganhou novo tom. Entre partilhas e risos tímidos, Helena percebeu que o patrão tinha sentimentos profundos por ela nunca confessados. Falava com simplicidade, sem jogos nem promessas falsas como se aquilo fosse natural, quase inevitável.

Nunca tive coragem para me aproximar, admitiu, mexendo o café na chávena de porcelana. Parecias inatingível, tão forte E sabia que ainda estavas a passar por muito.

Helena ouviu com atenção. Em cada palavra havia apenas sinceridade e respeito.

Mas ver aquela cena Manuel levantou uma sobrancelha, e um breve incómodo passou-lhe pelo rosto. Não consegui ficar parado.

Helena sorriu devagar de repente tudo fazia sentido. Notara já os olhares dele, mas nunca pensara que a diferença de postos, de vidas até, pudesse ser ultrapassada daquela forma.

**********************

Três meses depois daquela tarde turbulenta, Helena e Manuel tornaram-se oficialmente marido e mulher. A boda, realizada numa quinta solarenga em Sintra, foi de sonho: Manuel não poupou nada para concretizar cada desejo da noiva.

Mariana era a menina das alianças ajudou a mãe a vestir-se, retocou-lhe o cabelo, garantiu que nada, nem um botão, falhava. Quando ouviu o sim e viu o beijo dos noivos, abraçou-os com força.

Estou tão feliz por vocês! murmurou, os olhos brilhando com uma alegria contagiante.

Nos primeiros serões a três, Mariana foi clara e direta:

Gosto de ti, Manuel, e estou feliz por saber que a mãe não está sozinha. Mas chamar-te pai ainda não consigo. Para bem ou para mal, pai já tenho.

Manuel sorriu, nem um traço de ressentimento:

É o mais natural, Mariana. O importante é estarmos juntos.

Eduardo recebeu o convite para a boda mais por ironia do que por convicção. Custou a Helena enviar o envelope, mas quis mostrar-lhe que seguira em frente, e que a felicidade dela era real. O convite foi lacónico, direto ao assunto, sem floreados.

Obviamente, Eduardo não foi ao casamento. Não contemplou sequer a ideia. Em vez disso, passou dias a ligar a velhos conhecidos, repetindo sempre a mesma história:

Imagina ela convidou-me para o casamento dela! Depois de tudo

Ouvia-se do outro lado uma neutralidade incómoda respostas mornas, educadas mas distantes.

Só passaram seis meses! Quem arranja novo amor em tão pouco tempo? Ela só quer escapar à realidade. Tenta esquecer-se de mim, percebe?

Depois mudava o tema, atirando-se para as queixas do costume:

Nunca me deu uma segunda hipótese! Se tivesse querido, resolvíamos tudo!

Ou então:

Eu sempre fiz tudo por ela, e ela nada! Nem agradeceu levou a miúda e foi-se embora!

Ao longo das semanas, Eduardo percebeu, com amarga frustração, que ninguém lhe dava razão. Iam-lhe respondendo que cada um segue a sua vida, que era natural. Ninguém qualificava Helena como insensata nem apressada. Pelo contrário, parecia que todos sentiam que ela merecia recomeçar.

Cansado de pregar no deserto, Eduardo acabou por desistir das chamadas. No seu apartamento, admirava silenciosamente as velhas relíquias esquecidas: uma mola de cabelo, um álbum de recordações, vestidos apertados demais para Mariana. Vida seguia sem ele, inexoravelmente.

E assim, enquanto Eduardo se perdia em lamentos, a vida de Helena, Manuel e Mariana deslizava em harmonia: jantares tranquilos, passeios de fim de semana, pequenas disputas sobre qual filme ver à noite Mas acima de tudo, uma nova paz, construída a cada dia, sobre a certeza de que, afinal, era possível recomeçar.

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