Prazer Caro

Caríssimo capricho

Beatriz, outra vez? Até quando? Já começo a achar que só trabalho para o teu gato!

O gato, que Beatriz tentava enfiar à força na transportadora, escapuliu-lhe das mãos com um salto ágil, caiu no chão da entrada e foi-se enfiar num canto, soltando um miado tão fundo e desesperado que parecia vir das entranhas da noite. Pelo ar altivo, o gato, aquele mesmo a quem Beatriz há muitos anos dera o nome pomposo Camões , parecia disposto a valorizar ao máximo o que, para Ricardo, era uma vida sem préstimo.

Já lá iam uns dez anos desde que Camõezinho, como Beatriz o tratava carinhosamente, partilhava casa com ela. Ninguém sabia ao certo a idade do bicho. Beatriz recolhera-o da rua, já adulto, embora ainda viçoso foi o que disseram na clínica veterinária à mãe dela.

Foi precisamente para lá que D. Leonor, mãe de Beatriz, correu naquele dia, apertando o gato embrulhado num cobertor velho.

Salve-nos este bichano, pelo amor de Deus!

Onde arranjou esse monstro? torceu o nariz a veterinária de serviço. Isso é um gato de rua!

E então? É o meu gato! Ajude-o, não vê que ele está mal? Por acaso o dinheiro que tenho na carteira vale menos do que o de quem traz para aqui gatos de raça?

Nessa altura, D. Leonor estava furiosa e a veterinária achou melhor não lutar com ela. Fez muito bem.

Leonor Silva era de uma teimosia rara. Também, com a vida que teve! Experimentem ser mãe solteira, cuidar de dois idosos, tudo com o ordenado de educadora de infância. Haja unhas para isso.

Saber defender-se era nela um instinto. Mas era de bondade imensa. Amava crianças e gatos até alguns cães, de quem, desde pequena, inexplicavelmente, tinha medo.

Com todos era assertiva: com as vizinhas, com os pais das crianças da sala no infantário, com qualquer estranho que julgava encontrá-la desprotegida por ser franzina e sozinha.

Mas tinha um dom raro: nunca levantava a voz, nem discutia. Encontrava sempre o argumento certeiro que desarmava quem a afrontava, virando a maré a favor dela. Num instante, o agressor que se indignava com Leonor acabava a lamentar-se, ela a ouvir, cabeça a pesar, solidariedade pronta. E, geralmente, era agradecida, recebia desculpas e seguia caminho.

Nem Leonor sabia de onde vinha esse poder: talvez porque ela era das que realmente escutavam os outros.

Contudo, esse seu dom falhava com os mais próximos. O marido fugiu-lhe uma semana depois do casamento. A mãe de Leonor até ironizou, dizendo que ele até aguentou bastante.

Magoadíssima, Leonor acabou por admitir que a mãe tinha alguma razão talvez não desse para formar vida a sério com alguém trapalhona como ela. O marido, ao sair, ainda zombou:

Tu és mulher como eu sou fadista!

Claro que Leonor ficou muito em baixo.

Mas passado pouco tempo, soube que ia ser mãe. E acalmou. Afinal, mulher era ela! Só faltava passar a prova dos nove.

A gravidez foi uma luz na sua vida meio desbotada. Contava os dias até ao nascimento da filha como quem espera o Natal.

A mãe de Leonor, porém, não aprovou:

Para quê, Leonor? Só um peso! Tu és nova, até gira, e tens alguma esperança de futuro. Vais passar a vida a pão e água, tu e a tua filha. Filhos são um luxo caro! Um dia vês!

Mas, mãe, nós não vivemos sempre assim?

Pois! E achas bem?

A dúvida ensombrou Leonor. Mas, nunca como daquela vez, sentiu dentro dela uma resistência invencível. Bastava imaginar a possibilidade de não ter o filho e era como se um nevoeiro negro lhe tapasse o ar e as ideias. Como destruir aquilo que já era parte dela? Ela podia ser mulher e mãe e alguém queria tirar-lhe o direito de o ser.

No fim, a avó materna apareceu de rompante na cidade, com o lenço de festa e tudo, e disse, no seu tom de comando:

Leonorinha, tens de ter a criança! Eu ajudo!

Avó, e o avô? Fica lá sozinho na aldeia!

Deixa-te disso, minha filha, ele é rijo e aguenta. Senão, trazemo-lo também!

Depositou sobre a mesa um embrulho limpinho, o velho pano de linho que Leonor bordara em miúda para a avó.

Vê lá! Reconheces?

Nunca Leonor vira tanto dinheiro junto.

O avô vendeu a casa dos pais agora que a estrada passa na aldeia, os terrenos valem ouro. Aqui estão também as nossas economias. Dá para uma casa pequena. Depois, fazes tu a tua vida.

Avó, não posso

Podes tudo, Leonorinha! Não é por ti, é pelo bebé. Agora segue em frente!

Esse embrulho foi o ponto final na relação de Leonor com a mãe.

Então, quando pedi ajuda disseram que não havia! Agora aparece a comodidade toda num pacote?!

A avó pôs Leonor fora do quarto, conversou com a filha, mas não conseguiu convencê-la. A mãe de Leonor nunca entendeu porque é que a filha, com o seu comportamento estranho, mereceu tudo: apoio, casa, segurança mais que ganhar o Euromilhões!

Leonor questionou-se. Teve filha por casamento, não andou na gandaia. Se as coisas correram mal, culpa de ambos. Bem dizia a avó: “Se a carroça emperra, não é só culpa do burro da frente!”

Falando em frente: a avó, que sempre vendera nas feiras, arranjou um T4 maravilhoso no Bairro das Avenidas, velho e a precisar de obras mas disso tratou uma equipa de mestres das obras, liderados pelo mestre Zé do Mouraria e, claro, a infalível avó. Quando tudo ficou pronto, Leonor entrou descalça no sótão e chorou, emocionada ao ver o berço.

Anda, anda que está na hora de estrear a nova cozinha! comandou-lhe a avó, limpando-lhe o nariz.

Beatriz nasceu antes do tempo. Leonor teve medo no início mas tudo correu bem. Beatriz era saudável, forte, de uma ternura invulgar e Leonor soube logo que nunca seria para a filha a mãe que ela própria tivera.

Só tens olhos para tua avó! Fez-te a vontade e até te comprou casa! Eu não sirvo de nada!

Ó mãe, aparece quando quiseres. Só não faças escândalos, a Kika assusta-se!

Que disparate! É só um bebé, não percebe nada!

Mãe, tu não falas: tu gritas e quase chorava, mas a mãe não ouvia.

Só lhe vinha à cabeça: Serei diferente! Serei melhor mãe!.

Fácil de dizer. Difícil de cumprir.

Leonor sentia-se sempre insegura, mas Beatriz não era teimosa, apenas decidida, sabia o que queria.

Mamã, posso comer um rebuçado?

Só depois do jantar!

Nem um bocadinho?

Nem pensar.

Então e se comer tudo? Dá-me dois?

Leonor ria-se, mas dava-lhe dois depois do prato limpo.

E assim formava-se o carácter da pequena: sabia negociar, e com a avó era igual. Qualquer birra era derretida por uma piscadela de olho: Ó avó, não ralhes, fazes rugas e depois não ficas bonita!. A avó calava-se, sentada na poltrona, Beatriz no colo a passar-lhe os dedos pela testa e olhos: Vês, já estás nova outra vez!.

Com o tempo, a vida estabilizou.

Leonor trabalhava, a avó e o avô, que vendeu tudo e mudou-se, cuidavam da neta.

Ficou difícil quando a avó adoeceu. Os médicos não davam esperanças, mas Leonor dispensava prognósticos.

Avó, vamos a Lisboa ver especialistas?

Não vale a pena, filha. Eu vivi tanto! Só me custa deixar-vos e ao avô. Não o abandonem, sim?

Não digas isso, avó!

Naqueles dias, Beatriz apareceu em casa com o gato.

Naquela tarde, Beatriz desaparecera à saída da escola. O avô, que ia buscá-la, só pisou o mesmo passeio uns minutos depois.

Toda a vizinhança mobilizou-se. Procuraram em cada recanto. Nada.

Mas Beatriz voltou por si. Apareceu a chorar, uma expressão de terror e ternura no rosto. Leonor nem perguntou embrulhou o gato ofegante no cobertor da filha:

Estás bem, filhota? Dói-te alguma coisa?

Não, mamã, a ele é que dói!

E Leonor voou para o veterinário. A dita clínica era ali ao lado, mas foi tempo suficiente para perceber que o gato era já de casa.

Não foi grave, afinal um susto, umas dentadas de cão, mas ficou bem. Custou-lhe, no entanto, ver o orçamento que a veterinária lhe passou.

Por este valor, comprava dois gatos de raça… murmurou, mas pagou.

De volta a casa, contando tostões, percebeu que não chegava ao fim do mês. Faltavam medicamentos para o gato e para a avó, e ainda o presente de aniversário de Beatriz.

Mamã, deixa estar os presentes, posso ficar com ele? Ele é o meu presente…

Leonor abraçou a filha e olhou para o novelo cinzento enrolado nos seus pés. Tentou deitá-lo numa caixa, mas ele fugia para ela, enrolava-se na pantufa e fazia ronronar o velho frigorífico.

Foi assim que Camõezinho ficou com elas.

E engraçado: aquele gato escanzelado, de ruas de Alfama, adaptou-se depressa à casa aquecida, amou os idosos, não largava a avó um minuto.

E, sem que percebessem, começou a mudar tudo.

Ao pagar mais um tratamento veterinário, Leonor fartou-se da vida apertada. Decidiu despedir-se arranjou trabalho como ama numa família recomendada por amiga, e nunca mais lhe faltaram propostas. Com cada criança que cuidava, o salário subia, e as referências multiplicavam-se.

De noite, de volta, Leonor fazia festas ao gato.

Camões, obrigada! Se não fosses tu…

O gato ronronava, tocava-lhe na mão e vigiava Beatriz. A dona era Leonor, mas de Beatriz era devoto. Passava horas ao lado dela: enquanto estudava, Camões sentava-se em cima dos cadernos, velava-lhe o sono, e assistiu em silêncio aos piores momentos: a morte da avó, a do avô pouco depois, esteve sempre presente.

Estava também quando Leonor, já meio resignada, foi finalmente feliz com alguém. O novo amor viu em Leonor o que nem ela sabia ter. Proibira a sogra de importunar, e conquistou-a oferecendo-lhe boleia no carro sempre que fosse preciso, o que era motivo de orgulho para a ex-sogra.

O meu genro leva-me à horta dizia às vizinhas, toda inchada.

Beatriz, agora crescida e no politécnico, quis manter-se na casa da infância.

E foi ali que levou o namorado, Hugo:

Forte casa, Beatriz! Cabe cá meio mundo!

É velha mas é minha.

E aquilo, o que é?

Da porta do quarto, uma bola de pelos irrompeu, arqueada e a bufar. Hugo gritou, tentou esquivar-se ao gato que o investia.

Tira-o daqui!

Beatriz lá acalmou o gato, mas Camões e Hugo nunca se entenderam. O namorado zangava-se, tocava-lhe quando a namorada não via, e o gato retribuía.

Depois de um ano, casaram-se. Mas com a convivência, Hugo tornou-se desagradável, repetindo-lhe frases que a mãe de Beatriz diria:

Beatriz, isto é jantar? Nem para sopa dá! Que mulher és tu?

Mas quem lhe ensinou receitas foi a avó, e Beatriz não era nenhuma desastrada.

O resto da vida conjugal seguiu sem sobressaltos, até ao dia em que Camõezinho adoeceu.

O quê, tanto pelo tratamento do bicho?! Estou maluco ou quê? Hugo ficou em choque com a factura do veterinário. Beatriz, gastas mais com este gato do que comigo!

Hugo, o Camões é família!

Isso não é família minha! Era o que faltava. Mais um escândalo destes, mando-o porta fora!

Beatriz, nessa manhã, tinha descoberto que ia ser mãe. Calou-se, esperando para conversar depois.

Mas Camões, já velhote, adoeceu de novo, e ela preparava a ida à clínica quando Hugo entrou da corrida matinal.

Zelava pela saúde, comia direitinho, fazia correrias e culpava Beatriz por não perceber o essencial: saúde em primeiro lugar!

Sabendo do novo tratamento do gato, conseguiu perder a cabeça e declarou:

Chega! Este animal tem de desaparecer! Não gasto mais um cêntimo! Rua com ele!

Então só vais se eu for também! retorquiu Beatriz, de súbito firme.

Pois vais! Estou farto! Porque é que hei de aguentar isto?

Algo ficou suspenso no ar e se partiu para sempre entre os dois. Beatriz sentiu que não queria aquela vida para si e para o filho.

Nem lhe lembrou que a casa era dela. Apenas estendeu a mão, tirou da jaqueta do marido o molho de chaves, abriu a porta e virou-se para Hugo:

Estou grávida. Não posso ter stresses, nem discussões. O Camões percebe isso, tu não. Sai, por favor. Vai-te embora. Quando quiseres conversar a sério, sabes onde me encontrar. Mas já não quero viver contigo. Se és capaz de despachar da minha vida, assim de ânimo leve, quem me diz que não farás o mesmo comigo? Não quero mais isto. Nem eu, nem tu precisamos do peso do que já passou.

Hugo não respondeu: enfiou os papéis do carro e a jaqueta no saco de ginásio e saiu, furioso.

Beatriz percebeu, sem mágoa, que ele nem ouviria falar do bebé. Estava obcecado com o gato.

Por isso, Beatriz pousou a transportadora no chão, esperou que Camões entrasse, agora sem resistência, e perguntou-lhe:

Pronto para ir? Está na hora de mudarmos tudo. A começar por ti!

O gato melhorou. O tempo pesava, haveria sempre mais idas ao veterinário, mas Beatriz jurou que enquanto fosse possível, Camões teria colo, casa e carinho. E viria a filha, que se tornaria a dona da patinha felpuda, à qual o gato deixava fazer tudo o único no mundo a ter esse privilégio.

E Beatriz nunca teria melhor ama-de-leite: em dez minutos, Camões punha a menina a dormir, com a patinha sobre a almofada, uma cópia risonha de Leonor. Pensou dar-lhe o mesmo nome, mas a mãe dissuadiu:

Este filho é dos dois, falem sobre isso. Mesmo separados terão sempre esta menina. Agora é tempo de fazer mais. Não será fácil, mas vale a pena.

E Beatriz ouviu a mãe, para espanto do ex-marido.

Afinal, tens juízo de mulher.

Se calhar estou a crescer. Vais ajudar?

Obrigado, Beatriz.

Obrigada por não pores o orgulho à frente do bem da miúda. Vais ser um bom pai.

E cumpriu.

A pequena Madalena viveu entre duas casas, sem perceber porquê. Tinha dois quartos, dois coelhos de peluche um em cada casa e duas avós favoritas: Leonor e Graça. Mas amor, só um, mesmo que dividido, a envolver a todos e Madalena, sentindo-se rainha, não via ali estranheza alguma. E transmitiu isso a todos, à sua maneira terna, como a mãe em criança fizera, unindo quem antes se olhava de lado.

Só o velho Camõezinho sabia a verdadeira história mas guardou-a para si, não por segredo, mas porque não era preciso dizer nada.

Afinal, todos sabem: se a gata é carinhosa, os gatinhos ficarão bem.

E a pequena Madalena, com isso, cresceu plenamente. E chegará o dia, num sonho dentro de um sonho, em que ela mesma dará nova vida ao mundo, se inclinará sobre o berço do seu bebé, tocar-lhe-á o rosto, como fazia a mãe e, antes disso, a avó, e dirá:

Olá, meu pequenino. Esperei tanto por tiE ao seu lado, como noutros tempos numa casa de Avenidas, há de estar um gato ou uma gata talvez resgatado de uma esquina qualquer, talvez herdeiro de Camões deitando-se no tapete do quarto para vigiar sonos e sonhos. E de cada vez que Madalena, já crescida, olhar aquela criatura felpuda a dormir ao colo da filha, ouvirá, em surdina, vozes de mulheres que vieram antes dela: a mãe, a avó, a bisavó mulheres para quem cuidar foi sempre luta, mas nunca peso.

Nesse instante, compreenderá que a vida, com todos os seus caprichos, não é feita só de dores, rompimentos ou fomes: é feita também de persistências mansas, de lugares que se tornam casa porque ali se amou sem reservas, de pequenos milagres com nomes felpudos e olhos brilhantes. E perceberá enfim que tudo aquilo que nos amarra às vezes um gato, às vezes uma mão pequenina, às vezes a coragem inesperada de dizer não é precisamente o que acaba por nos libertar.

Talvez, então, de olhos húmidos de ternura, Madalena sorria para o seu rebento e sussurre sem que ninguém mais ouça, exceto quem sabe escutar aquela velha lição de família:

Aqui, meu amor, nunca faltarão abraços, histórias nem gatos para aquecer os pés.

E assim continuará: de colo em colo, de bicho em bicho, de amor em amor geração após geração, como um caríssimo capricho passado ao coração seguinte.

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