Ó pá, mas estás maluco? indignou-se o homem. Eu ando aqui a tratar e a dar de comer à tua mulher, e ainda me falas assim alto? Isto realmente!
Foi meia hora nisto. Gritavam um ao outro homem e ave até o corvo ficar rouco e o homem completamente esgotado
Isto começou numa manhã igual a tantas outras. O Tiago regressava do turno da madrugada na fábrica dos arredores de Setúbal. Já só pensava no fim de semana, era quase como se o descanso já lhe estivesse a bater à porta. Mas não era só por isso que ele vinha de sorriso no rosto. No sábado tinha marcado um encontro com uma mulher que conhecera online. Finalmente iam sair juntos.
Há um mês que trocavam mensagens. Falavam do trabalho, dos gostos, dos sonhos e desilusões conversas normais de quem está a descobrir o outro. Agora só faltava reservar mesa num restaurante acolhedor ali pelo Barreiro e escolher uma roupa decente.
Ainda a pensar na vida, Tiago quase chegava ao prédio um daqueles prédios altos à antiga portuguesa, cheios de azulejos partidos, onde ele morava sozinho num T1, no quarto andar. Faltavam uns 50 metros para a porta, e ele já imaginava que ao passar aquela esquina podia acontecer-lhe tudo e mais alguma coisa. E não é que lhe aconteceu mesmo?
À porta do prédio, de um sobreiro antigo que ele nunca tinha dado por ali, caiu-lhe de rompante uma gralha mesmo aos pés. A ave rimou-se toda, crocitava sem parar, e pelas árvores em volta um bando inteiro fazia um escarcéu de meter medo.
Pronto, era mesmo disto que eu precisava resmungou Tiago.
A gralha tentava pôr-se de pé mas a cada tentativa tombava de novo. Tiago viu logo que a pata direita estava em mau estado, toda torta.
E agora, o que faço contigo? perguntou em voz alta, sem esperança.
Não conseguia simplesmente ignorá-la. Envolveu a gralha com o casaco, para ela não fugir, pegou nela com cuidado e subiu as escadas. Atrás de si, o bando não parava de reclamar.
Em casa, pô-la em cima da mesa da cozinha e tentou analisar a asa partida. No mesmo segundo, levou uma bicada valente no dedo.
Raios partam! praguejou, segurando-a com jeito e prendendo-lhe o bico com um pano.
Ligou para várias clínicas veterinárias, mas em nenhuma tratavam aves selvagens. Nem os conhecidos sabiam o que fazer. Então, lembrou-se: era bom a mexer nas mãos, trabalhava com máquinas, havia de improvisar alguma coisa.
Arranjou-lhe uma caixa de cartão, forrou com toalhas, e deixou-a junto à janela. Chamou-lhe logo Clara. Nunca tinha tido animal de estimação, mas Clara, pareceu-lhe nome de quem sobrevive a tudo.
Durante horas, Tiago improvisou uma tala: esculpiu um encaixe com duas ripas, fita cola e ferramentas de trabalho. Quando acabou, libertou-lhe o bico.
A Clara tentou logo bicar outra vez, teimosa.
Devagar, rapariga, estou a ajudar suspirou ele. Isto agora é assim, vais ter de comer e beber.
Na pesquisa online, percebeu que tinha de ir ao mercado comprar minhocas e à farmácia buscar uma pinça e uma seringa. Passou à ação na pescaria, lá trouxe uns quantos bichos, na farmácia garantiu os apetrechos. À noite, tentou alimentar a gralha; era uma luta, forçar-lhe o bico aberto para meter comida, dar-lhe uns mililitros de água. E a Clara, nada simpática cuspia, gritava, batia as asas.
Acabaram exaustos ela acabou por adormecer, rendida, e ele também foi directo para a cama.
Na manhã seguinte, repetiu-se o cenário: ele dava-lhe de comer, ela a protestar com cada gesto. Só que desta vez, viu encostado ao vidro do parapeito um corvo enorme devia ser macho mesmo a espreitar para dentro.
Sem saber porquê, Tiago abriu a janela.
És capaz de ser o marido da Clara, não? Anda, entra. Vê por ti. Só quero ajudar.
O corvo grande analisou a situação, inclinando a cabeça, atento à Clara. Depois deu uns passos, entrou e aproximou-se dela.
A Clara soltou um som baixinho. O corvo virou-se para o Tiago, abriu as asas e soltou um berro impressionante.
Ó homem, então, porque é que me gritas? respondeu Tiago. Eu trato e dou de comer à tua esposa, e ainda me vens levantar a voz? Isto não se faz!
Ficaram nisto meia hora homem e corvo às turras. Até um e outro ficarem sem forças.
No fim, Tiago empurrou para o corvo as caixas de comida minhocas e larvas sem precisar dizer nada mais.
O corvo examinou o lanche, desconfiado, mas de seguida atirou-se àquilo com vontade.
Ah, pois claro! riu-se Tiago. Mesmo, comprei foi para ti disto tudo.
Farto, bem alimentado, o corvo foi até à Clara e começou a ajeitar-lhe as penas com o bico, cheio de mimo.
Eh pá, afinal isto é amor suspirou Tiago, surpreendido. Vai correr tudo bem, prometo. Vá lá, convence-a a portar-se bem e comer direitinho, sim?
Nessa noite o corvo voou para fora, mas na manhã a seguir apareceu de novo, bateu ao vidro, esperou que o deixassem entrar, foi inspecionar a Clara, e depois tomou o pequeno-almoço com eles.
Bom dia, companheiro cumprimentou Tiago. Já começamos a perceber-nos, não é?
Enquanto alimentava a Clara e tentava evitar que ela o bicassse o corvo só observava, tranquilo.
De repente, Tiago recordou-se.
Bolas murmurou, pondo as mãos à cabeça. Aquele encontro! Esqueci-me de ligar, de reservar mesa
Agarrou no telemóvel, marcou o número.
Olhe, desculpe, foi sem querer começou a explicar. Contou honestamente o que se tinha passado, e que o jantar ficou esquecido por causa da confusão.
Ai sim? Então quer dizer que uma gralha tem mais valor para ti do que eu? interrompeu a mulher do outro lado, ofendida.
Não é isso As coisas Foi importante, não consegui evitar
Então fica com a tua gralha! respondeu ela, seca, e desligou.
Lá se foi o encontro antes de começar desabafou Tiago para o corvo.
Nisto, o corvo grande saltou para cima da mesa, abriu as asas e fez uma pose destemida, vaidoso.
Tiago riu-se.
Olha, não percebi metade do que disseste, mas esse ar de apoio sente-se. Achas que não devo desanimar, é isso? Cabeça erguida?
Naquele instante, tocaram à campainha. Era a vizinha do quinto, a Dona Mafalda, sempre simpática e sorridente no elevador.
Desculpe incomodar, começou ela tímida mas anda aí um bando de gralhas pelos vossos lados, a rondar as janelas. Está tudo bem? Não aconteceu nada, pois não?
Isto não se explica assim de repente Entre e veja por si.
Ela entrou, e ficou boquiaberta ao ver o cenário.
Uau Está a salvar uma gralha?
Chama-se Clara corrigiu Tiago.
Então o corvo é o Carlos! riu-se Mafalda alto.
O riso dela, tinhoso e sincero, preencheu o quarto. Tiago deu por si a pensar que não ouvia algo tão reconfortante há imenso tempo. Olhou-a com carinho, e pensou: que se lixe o tal encontro.
O Carlos passeou-se novamente pela mesa, espalhafatoso, e Mafalda não aguentou e riu-se outra vez.
Daquele dia para a frente, tudo ficou mais fácil. O Carlos derretia-se de amores sempre que via a Mafalda mal ela chegava, punha-se todo janota e tentava aproximar-se. Ela ria-se, corava.
A Clara começou a aceitar a comida, menos defensiva, e a recuperar depressa. Tiago confiou-lhe uma cópia da chave a Mafalda para ir cuidar da ave quando ele não estava.
Tiago cada vez gostava mais dela. Já só pensava no passo seguinte, convidá-la para jantar, quando houve outro episódio marcante.
Numa noite, depois do turno, voltava a casa. Tinha ido comprar um presente para Mafalda uma corrente de prata com um pequeno coração vermelho, dessas que só se encontram nas ourivesarias junto ao Tejo.
Caminhava apressado, já a imaginar a surpresa dela, quando de repente sob a luz de um candeeiro surgiram dois tipos.
Despacha-te, dá a carteira, o telemóvel e o relógio! ameaçou um, mostrando uma faca.
E tira o casaco, rápido! acrescentou o outro.
Nem teve tempo de pensar. De súbito, caiu-lhes em cima um enxame de asas negras, berros, gritos mais de vinte gralhas e corvos a atacar os assaltantes.
Correu que nem louco para casa. No dia seguinte de manhã
Bateu-lhe à porta a Mafalda, lívida, a tremer.
Meu Deus! abraçou-se a ele Estás bem? Pensei que tinhas sido tu, ouvi dizer que houve ataques esta noite
O que aconteceu? perguntou ele suavemente, acariciando-lhe o cabelo.
Durante a noite, dois indivíduos foram atacados por um bando de gralhas. Quase os matavam à bicada! Estão internados, muito mal.
Ele sorriu e, lembrando-se do presente, tirou-o do bolso.
Comprei-te uma coisa.
Oh, não era preciso Mafalda ficou encabulada.
Mas assim que viu a corrente de prata com o coração, sorriu e deu-lhe um beijinho na bochecha.
Que giro, gosto mesmo! Obrigada.
Mal tocou no presente, deu-se o inesperado.
Num flash, o Carlos surgiu, apanhou a corrente do Tiago, e foi pousá-la, triunfante, ao lado da Clara quase recuperada.
Tiago e Mafalda fartaram-se de rir.
Eu compro outra prometeu ele.
O Carlos abriu as asas, encheu o peito, e gritou um valente Craaac!. A Clara pegou delicadamente na corrente e escondeu-a na caixa.
Tiago e Mafalda beijaram-se mesmo à porta de casa.
E afinal, que interessa mesmo?
Isto sim, são coisas de famíliaEnquanto lá dentro a Clara e o Carlos trocavam presentes e arrulhos, Tiago ficou abraçado à Mafalda, sentindo o calor do momento e do futuro que se abria. Cá fora, no sobreiro que ele nunca tinha reparado antes, dezenas de gralhas e corvos faziam vigília, guardiões improváveis e fiéis. O céu parecia mais leve, como se um pacto antigo se tivesse renovado naquela rua perdida do Barreiro: a generosidade paga-se em dobro, e às vezes, o amor voa onde menos se espera.
No sopé da árvore, entre os azulejos partidos e o cheiro doce-doce das tardes vizinhas do Tejo, Tiago percebeu que a sorte, afinal, sabia sempre onde pousar. E enquanto o corvo e a gralha finalmente batiam asas juntos, livres e cúmplices, Tiago sorriu para Mafalda e sussurrou, baixinho:
Se calhar, este foi mesmo o melhor encontro da minha vida.
As risadas deles confundiram-se com o crocitar das aves a subir céu acima, e por um breve instante, tudo à volta pareceu possível.







