Era como se eu estivesse à deriva num sonho estranho, o relógio correndo para trás e o cheiro do arroz doce pairando no ar. De repente, a mãe do meu marido, Dona Graça, surgia como uma tempestade na sala, esbracejando com as palavras enroladas:
Mas ninguém me avisou! Nem fiz caldo verde, nem arranjei o bacalhau! Sabem quanto custa receber visitas, minha filha?! gritava, com voz feita de vento e cerâmica.
Eu, apenas uma mulher comum, sem coroa, tentando segurar as pontas da vida e do salário. Vivíamos os dois, eu e o Tiago, num apartamento miúdo em Lisboa: tudo comprado à custa de prestações, contas por pagar, o trabalho que começa antes dos pardais e acaba quando só restam as luzes da cidade.
Já Dona Graça e a cunhada Beatriz viviam numa aldeia perto de Évora, rodeadas de oliveiras e gatos que miavam de madrugada. Até podia ser tranquilo, se não achassem que o nosso cantinho em Lisboa era um resort para escapadelas de fim de semana. No início, parecia até uma ternura de família:
Que tal passarmos aí no sábado?
Vai ser só um saltinho, prometo!
Ora, somos família, não é?
Pois o saltinho vinha com malas, tachos vazios e olhos que só esperavam banquete. No curto do sonho, todos os sábados viravam um ciclo: depois da faina, eu corria ao Mercado da Ribeira, arranjava peixe fresco para o arroz de marisco, limpava, punha a mesa com toalha bordada pela avó, sorria nos cantos da boca e depois como se o tempo escorresse feito azeite lavava louça até ao nascer do novo domingo.
Dona Graça sentava-se e comentava, com as palavras em caracol:
E este arroz sem gambas?
Na aldeia, a sopa tem mais couve!
Isto não é como se faz lá.
E Beatriz suspirava, afundada na cadeira:
Ai, cansei-me tanto da viagem…
E sobremesa não há?
Nunca uma palavra doce. Nem obrigada, nem precisas de ajuda?
Num fio de nevoeiro, um dia perdi a paciência. Sussurrei ao Tiago, com voz diluída como café:
Não sou criada, nem quero ser empregada da tua família aos fins de semana.
Pois, se calhar está na altura de mudar isto…
Então, surgiu-me uma ideia, como se um pacote de farinha se abrisse dentro da cabeça.
No sábado seguinte, Dona Graça liga, voz de pressa:
Vamos passar por aí.
Ai, este fim de semana temos planos, disse, com serenidade de quem sonha acordado.
Mas que planos?
São nossos.
E sabem? Fomos mesmo mas não para nenhum sítio exótico. Fomos até à aldeia de Dona Graça. Num sábado quase líquido, estávamos eu e Tiago no quintal dela. Dona Graça abriu a porta, os olhos gigantes de admiração.
O que é isto?!
Viemos visitá-la. É só um saltinho.
Mas ninguém me avisou! Nem fiz caldo verde, nem arranjei bolos! Sabem quanto custa receber visitas?!
Olhei para ela, a voz embrulhada em sonho repetido:
Vê como é? Assim vivo eu todos os fins de semana.
Ah, então querias ensinar-me uma lição?! Atrevida!
O barulho foi tanto que até os galos pararam de cantar. Voltámos para Lisboa, com cheiro de figos a escorrer no ar.
O que foi mais surreal? Nunca mais vieram sem convite. Acabaram-se os fins de semana na minha cozinha, os saltinhos surpresa, e o meu tempo passou a ser só meu. Às vezes, para alguém nos escutar, basta mostrar-lhe o caminho dos nossos próprios sonhos.
E tu, diz-me: teria feito o mesmo? O que fariam nesse sonho tão português e estranho?







