Pessoa Difícil

Homem Difícil

Valha-me Deus, Jorge! Mas que homem complicado que tu és! Como é que é tão difícil lidar contigo? Não podias simplesmente fazer como te pedi?

A jovem mulher que repreendia o marido era de uma beleza rara. Melhor dizendo, magnífica! Pernas longas, olhos azul-escuro e curvas tão perfeitas que todos os homens perdiam a compostura ao vê-la passear pelos jardins do hotel em Cascais.

Jorge, o seu marido, era de uma feiura peculiar. Quase uma cabeça mais baixo que a mulher, fazia lembrar um pequeno barril. Braços compridos, pernas curtas e já com entradas pronunciadas no cabelo. O único traço belíssimo que Jorge ostentava eram mesmo os olhos. Vivos, inteligentes, pareciam ver através das pessoas. Por isso, ainda soava mais estranho vê-los juntos: uma belíssima e mimada mulher com o homem que parecia compreender tudo sobre ela.

Comparavam-nos a Hefesto e Afrodite. Mas, em vez do martelo do ferreiro, Jorge tinha quase sempre a filha nos braços. A pequena Lurdes era tão parecida com o pai que ninguém teria dúvidas quanto ao parentesco. Da mãe herdara apenas o azul do olhar e um cabelo cobre em caracóis rebeldes, que a mãe já nem tentava domar. A menina, com cinco anos, corria pelo hotel como um raio ruivo, olhando para trás pela promessa da companhia do pai.

Cristina, se queres mesmo ir ao passeio, vai tu. Acho que a Lurdinhas ainda é pequena para esse tipo de programa. É longe, faz calor, ela vai aborrecer-se e chorar, ficará tudo estragado para ti, sabes disso! tentava Jorge argumentar.

E tu serves para quê? Jorge! Vim para aqui com marido. Já não posso dar um passo sem que me olhem de soslaio. Não te incomoda?

A voz de Cristina já roçava a histeria. Lurdes abraçou o pai, enfiando o rosto na curva do seu pescoço.

Ai, meu amor, morro de ciúmes por ti! Jorge sorriu e fez uma festa nos caracóis da filha. Vamos antes procurar outra aventura? Queres ir de barco na baía, ou experimentar mergulho? O que te apeteceria?

Só quero ver os Jerónimos! cortou Cristina, virando-se para o lado. Não querem ir, não vão! Vou eu sozinha!

Jorge sabia que o drama tinha sido ensaiado à perfeição e só restava encolher os ombros quando ela marchou para a piscina, esquecendo-o a ele e à filha.

Mas já estava habituado. Viviam como tantas famílias que conhecia: ele abastado, sempre ocupado; ela, linda e jovem, deixando-se amar.

Como Jorge foi parar à categoria de maridos da moda, nunca percebeu bem. Com mulheres, nunca fora afortunado e não por falta de charme. Se não fossem colegas ou parceiras de negócios, não sabia bem com elas. Era cortês, atento, de fina ironia. Bastava apaixonar-se e transformava-se noutro; não sabia onde pôr as mãos, o que dizer, como cativar quem gostava. Sofria de tal maneira que, com o tempo, desistiu. Dedicou-se ao trabalho, às idas ao Alentejo visitar a mãe, e convencera-se de que, se calhar, tinha nascido para estar só.

Raras eram as escapadelas só por saúde, como a mãe dizia.

E assim continuaria, não fosse a Dona Inês Maria, sua mãe, decidir que lhe cabia arranjar netos.

Jorge, já te admirei o suficiente. Se depender de ti, nunca te casas. Precisamos de uma casamenteira.

Uma quê?! Jorge engasgou-se no chá com doce de framboesa e molhou a camisa nova na varanda da casa de Sintra onde a mãe vivia.

Estragaste roupa boa meditou Inês Maria, avaliando-o. Jorge, és excelente pessoa, culto, realizado, mas só eu é que lucro com isso! Isso não está certo. Conseguiste tanto, muito mais do que sonhavas, mas andas infeliz. Vê os olhos com que olhas os filhos da tua prima Margarida. Ela é um caos, mas como mãe é maravilhosa, nisso não teimo. E eu, mais que tudo, queria embalar os meus netos e não só: queria ver-te com a tua filha ou teu filho nos braços. Vais perceber o que é ser feliz. Olha à tua volta: material, tudo isto? Isto é pó. Só a vida é eterna. Porque tem alma, tem memória, tem amor

Mãe, entendo. Mas para que queres uma casamenteira?

Porque tu não te desenrascas! Desculpa a franqueza. Sabes que nunca fui de papas na língua. Não sabes lidar com mulheres. Falha minha, bem sei. Por isso é que vai ajudar quem percebe. Toma aí! Papel e caneta.

O quê?

Escreve tudo sobre a mulher que desejas. Cor dos olhos, tudo.

Nesse fim de tarde, sentados até à noite, Jorge cooperou por teimosia incapaz de negar quando a mãe se determinava. Acabou por espantar-se com o que saiu do seu inconsciente, até com o que tinha até medo de confessar.

Gente assim não existe.

Veremos! sentenciou Dona Inês, levando o papel.

Arranjou-lhe noiva. Cristina era exatamente o que Jorge descrevera: parecia saída dos seus sonhos. Só que o que trazia dentro teve de ir descobrindo com o tempo.

Depressa percebeu: o casamento era só um contrato social. Entre vários conhecidos, viu que não era caso raro. Cristina não queria ficar em casa a fazer sopa para Jorge. Estava ocupada consigo mesma. No casarão em Oeiras, tinham quartos separados; ela dizia que ninguém dormia com o ressonar dele. Jorge nem sabia se roncava. Que importava? Para ela, faria qualquer coisa.

Cristina recusava bem a ideia de filhos. Mas como o acordo implicava descendência, pediu-lhe dois anos.

Sou nova, quero viajar, conhecer o mundo, vais permitir, amor?

Jorge cedeu. Viajavam, conviviam, organizavam a vida e quase que se toleravam.

O nascimento de Lurdes aproximou-os temporariamente. Jorge sentiu-se pleno de felicidade, correndo para casa sempre que podia, ansioso por pegar na filha. Só ficava triste por Cristina ser uma mãe tão indiferente.

Não amamento! Deformar o peito para depois? Nunca! Arranja alguém ou dou-lhe leite em pó. Foste criado assim e não te fez mal, segundo tua mãe

Nem a mãe de Cristina nem Jorge a convenceram. Lurdes afagava o biberon contente e Jorge procurava uma ama.

Vou gritar de desespero! Fechada entre quatro paredes com uma bebé a berrar é loucura! Tu no trabalho, com os teus, eu aqui sozinha. Querias que enlouquecesse? atirava Cristina.

Quando a sogra, D. Natália, soube da ama, impôs-se.

Para quê? A tua mãe não pode, mas eu posso ser avó. Não metam uma estranha em casa.

Jorge agradeceu. Foi a primeira discussão séria com Cristina.

Queres cá minha mãe, para me passar sermão? Estás a brincar comigo? Pedia-te ajuda e tu Jorge, é impossível lidar contigo. Não me amas!

Amo. E amo a minha filha também! Nenhum de vocês se aproxima dela! Pelo menos terá alguém para a amar, além de mim.

De facto, Cristina pouco ligava à filha. Bastava-lhe que Lurdes tivesse brinquedos de qualidade, roupas bonitas e um quarto digno de revista, mostrado às amigas. Era cenário, só. Desde pequena, a menina dormia sempre no quarto do pai, com tudo ali à mão.

Amo a minha filha como posso e sei! chorou Cristina, naquele dia. Jorge não a consolou.

A tua mãe fica. Vigia a neta até decidires envolverte. Fala-se novamente se mudares de ideias. Por agora é assim.

Cristina percebeu que uma trégua valia mais que o conflito, e Natália não era má escolha para ganhar a tão desejada liberdade. Instalou-se em casa do genro e Lurdes ganhou uma segunda estrela no seu céu, a seguir ao pai. Sabia quem era a mãe, ficava no colo dela uns minutos protocolares para impressionar visitas, mas corria sempre buscar o pai ou a avó, ali nunca havia dúvida de ser amada.

E assim passavam os anos. Lurdes cresceu. Primeiro ballet, depois um jardim infantil privado, a avó transportava-a. A menina já conhecia meio mundo com os pais, habituara-se a hotéis e aviões, sempre com quem a aceitava.

Esta viagem seria igual a tantas outras, não fora o dia em que Lurdes teve febre e se queixou de dores de cabeça.

Lá se foi o descanso Cristina andava a passos largos, à espera do médico chamado por Jorge.

Do que falas, Cristina? A miúda está doente!

Uma gripe, só. Não devias tê-la mimado com gelados. És sempre a dar-lhe tudo o que quer. És pai do ano, e agora?

Esperamos o médico.

O tom de Jorge calou Cristina.

O médico não viu problema algum.

Cansaço, descanso e sono. Passa.

Assim que ficou só, Jorge foi peremptório:

Vamos para Lisboa.

Então e porquê?! O médico disse

A opinião dele não é lei. Não gosto do que vejo. Criança de cinco anos não deve sentir uma dor de cabeça assim. E ela já diz o que sente. Sem discussão. Faz as malas.

Os exames na clínica deixaram claro: Jorge tinha razão. E a vida parou, a tentar encaixar aquele golpe.

Uma, duas, três clínicas. Lurdes não melhorava nem piorava. Jorge delegou tudo e ficou a tempo inteiro com a filha, só indo a casa para o mínimo. Cristina também ia, mas os médicos cedo viam que aquela mulher, tão bonita e delicada, era só adorno. Não sabia nada da filha, limitava-se a esconder as lágrimas.

Na verdade, Cristina não sofria pela filha. Estava aliviada pelo empenho dos médicos e consciente de que ali nada dependia dela. Angustiava-se pela liberdade perdida. Detestava os cheiros dos hospitais, mesmo que Jorge conseguisse as melhores clínicas privadas de Lisboa.

A gota caiu quando soube da venda da casa.

Porquê, Jorge? Não tens dinheiro?

Não.

Disse-o com uma firmeza que a desconcertou.

Tinhas tanto então era isso o que te mantinha aqui, era o dinheiro? Agora não há. O tratamento da nossa filha custa rios de euros. É necessária uma cirurgia, aqui ninguém arrisca, vamos para o estrangeiro. Tudo à venda. Casa, empresa, o que for preciso. Faço tudo pela minha filha!

E eu? E que faço eu? Cristina chorava, compreendendo o que viria a seguir. Caprichosa, inquieta, mas não tola.

E tu? Achas que não reparo no teu sofrimento? Dou-te liberdade. Ficas com o preciso, casa, carro, tudo. Só peço que vás ao hospital ver a Lurdes algumas vezes e que nos acompanhes quando voarmos para lá. És mãe, por muito que me custe dizê-lo, e ela precisa de ti, egoísta! Ao menos finge que te importas!

Pela primeira vez Jorge levantou a voz, sem poupar nem a si nem à esposa. Estava tomado de medo, puro. Ali, no quarto onde discutiam, estava tudo o que lhe restava. Um corpinho enrolado sobre si, o boneco preferido, o bracinho esticado com a agulha no soro. Entre ele e Cristina restava apenas a filha.

Basta! Vai lavar o rosto, não assustes a Lurdes. Deves tudo o que quiseres, mas tens de te esforçar. Entendeste? Agora, mexe, Cristina. Não te repito.

O que terá mudado naquele homem pequeno e estranho, a quem Cristina sempre olhara de cima para baixo? Se alguém lhe perguntasse, não saberia responder. Sentiu apenas que Jorge crescera, ficou enorme à sua frente, tornando-se muralha inexpugnável onde tudo se desfaz mas, para quem está atrás dessa muralha, não há medo nenhum

Cristina virou costas, foi recompor-se e já não viu Jorge abrir a porta do quarto. A ruivinha movia-se na almofada.

Pai

D. Natália, sentada junto à neta, levantou-se, apertando o livro que lia à menina, e chamou Jorge ao corredor.

Jorge, posso ficar convosco?

Oh, D. Natália, mas que pergunta! Abrace-a. Não imagina o que seria sem si.

Tenho tanta culpa, Jorge Tanta Falhei. Era esperta, bonita, dizia e fazia sempre o que convinha. Agora parece-me ter perdido a filha que criei. Ou será que sempre fui cega? Onde falhei?

Quem dera sabermos onde vamos cair, para colocar palha Também podia ter percebido antes. Será que não gosta mesmo da Lurdes? Sempre lhe deu o exemplo certo! Eu nem entendo nada disto Como é que não me engano igual com a Lurdes?

Só nos resta ir preparando terreno, Jorge D. Natália limpou os olhos, ajeitou o cabelo. Vá, não vamos ser chorões. A Lurdes apanha logo, e arma um escândalo que até nos faz dançar marcha popular. Não pode preocupar-se. Eu ponho-a a dormir e tu vais ao supermercado. Ela quer tanto gelado. Não comeu nada ao almoço, ao menos pode ser que alegre. E deixa as coisas irem com calma, está bem? Dá tempo à Cristina. Não quero acreditar não quero.

Dois meses depois, Lurdes foi operada. D. Inês deixou o emprego, acompanhando Jorge e a neta, ajudando sempre.

Passou meio ano até Lurdes regressar a casa, com o pai e as avós. Cristina ficou na Europa.

Dois anos de recuperação. A esperança que mantinha de pé Jorge e aquela pequena família ora brilhou como fogo, ora ardeu só a custo, mas nunca se apagou, até ao dia em que o médico, já sem óculos, cansado e sorridente, lhe disse:

Conseguiram

E a vida, então, voltou a hesitar um instante, mudou de trilho, ergueu-se com novo vigor.

Cristina voltaria no dia do décimo quinto aniversário da filha. Tão bela e cuidada como antes, beijou a sogra, acenou ao ex-marido e foi dar com os colegas de turma, onde ecoavam parabéns.

Filha

Olhos igualmente azuis, semi-cerrados, analisaram o rosto materno.

Mãe

Cristina apressou-se, começou a explicar não se sabe bem o quê, mas Lurdes interrompeu-a:

Vai com calma. Agora não. Depois falamos.

Mas eu queria

Sei. Fica para depois.

Lurdes, por favor

Pronto. Vem comigo.

Lurdes acenou aos convidados e arrastou a mãe até ao escritório do pai. Ali puxou a cortina, sentou-se com as pernas no parapeito e encolheu os ombros.

Pronto. Ouço.

Que aparência a tua, igual ao teu pai

O que queres dizer, mãe? Que sou também um osso duro de roer?

Não era isso que queria transmitir

Pois eu era isso sim. E sabes que mais? Aquele homem que achaste indigno, a quem magoaste e abandonaste, nunca disse mal de ti. Percebes? Nunca! Nem trouxe ninguém à nossa casa, para não me perturbar. Nem se divorciou, sempre falou que eu tinha mãe. Mas, na verdade, nunca tinhas estado cá. Sabes o que eu penso, mãe?

Diz Cristina sussurrava, olhando para aquela jovem sentada à frente.

O que ele me ensinou de mais importante foi o perdão. Disse-me para não guardar rancores. Não sei se sou boa nisso. Mas sou filha dele, e tudo o que começo, acabo. Não sei se vou conseguir conviver contigo. Mal me lembro de ti, nem faço questão. Tenho pai, duas avós, ensinaram-me tudo o que preciso. Não preciso de ti. Mas, por ele, dou-te uma oportunidade. Vou deixar-te tentar mostrar que mereces ser chamada de mãe.

E antes isso foste o quê?

O que quiseste: boneca, capa bonita, vazio por dentro Estou a ser dura? Queres o quê? Era pequena, mas lembro-me de adormecer no hospital ao som das avós, de mãos dadas com o pai. Lembro-me quando raparam o meu cabelo, a avó Natália chorou, a Inês trouxe-me um chapéu cor-de-rosa horrendo. Rimos tanto que quase não cheguei à casa de banho a tempo. E tu não estavas. Lembro-me do primeiro dia de escola, um ano atrasada. Foi duro, as avós faziam os deveres comigo porque o pai trabalhava até tarde. Quando a avó Natália me fez o tule de bailarina, mesmo sabendo que nunca mais dançaria. Dancei só para elas e a ovação que me deram calou até o Teatro de São Carlos. Outra vez, a avó Inês trouxe-me um mundo de tintas, pincéis, e ficámos até de madrugada a pintar. Gosto de pintar, sabes? Aquela tela é minha, dei ao pai de presente, ganhou prémio. E tu, ausente…

Mas agora estou aqui

Para quê? Porque vieste?

Para estar contigo

E por que não acredito em ti? Lurdes desenhava no vidro com o dedo. Lá fora, Jorge contemplava a filha. Ela acenou e virou-se para a mãe. Sabes? Pois eu também não sei. Por isso, não vou pensar nisso agora. Prova-me que ainda preciso de ti como mãe. Se conseguires, talvez pondere perdoar. Por agora Sê bem-vinda. O bolo corta-se dentro de uma hora. Tenho de ir aos convidados. Com licença.

Saltou do parapeito, ajeitou as cortinas e já de saída perguntou:

Mãe, achas-me também um caso perdido?

Cristina ficou a olhar, com medo de perder aquela ténue esperança.

Ainda bem! Quer dizer que sou mesmo igual ao meu pai. Obrigada! Melhor elogio que poderias dar-me. Talvez esteja pronta para considerar Adeus, até já!

O fogo ruivo dos caracóis brilhou, desaparecendo atrás da porta. E Cristina aproximou-se da janela, pousando a mão no vidro, onde restavam as marcas dos dedos da filha.

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