Perdoa-me, filho.
Esta é a história de uma família considerada problemática, como se ouve muito por cá. A mãe cria o filho sozinha, sem marido, separou-se quando o rapaz tinha menos de um ano. Agora ele tem 14 anos, ela 34, trabalha como contabilista num pequeno escritório em Coimbra.
No último ano, a minha vida virou um inferno. Até ao 5º ano, o Tomás era bom aluno, mas depois apareceram os suficientes. Depois, só piorou. Só queria uma coisa: que ele concluísse o 9º ano e ficasse com alguma formação.
As chamadas constantes à escola já eram rotina: durante as reuniões, a diretora de turma não tinha papas na língua, fazia-me críticas à frente de todos os professores, que também aproveitavam para falar das faltas do Tomás e do seu mau aproveitamento. Volto para casa esmagado, irritado e sentindo-me impotente para mudar seja o que for. Os meus discursos e repreensões ele ouvia em silêncio, sempre com olhar fechado. Continuava sem estudar e não ajudava em casa.
Hoje aconteceu o mesmo. Cheguei e o quarto dele estava, mais uma vez, desarrumado. De manhã, antes de sair para o trabalho, tinha sido claro: Quando chegares da escola arruma a casa!
Depois de pôr a chaleira ao lume, comecei, contrariadamente, a arrumar tudo. Ao limpar o pó, percebi de repente que faltava o jarro de cristal, aquele que as minhas amigas ofereceram no meu aniversário a única coisa de valor em casa (eu próprio nunca teria dinheiro para comprar tal coisa). Fiquei parado. Teria levado? Vendido?
Os pensamentos começaram a atropelar-se. Tinha visto o Tomás, há pouco tempo, com uns rapazes de aspeto duvidoso. Quando perguntei quem são?, ele só respondeu a resmungar e no rosto vi logo escrito não te diz respeito!. Aquela companhia não me cheira nada bem! pensava eu, angustiado. Oh Deus, será que lhe fizeram alguma coisa? Ele não é assim! E se ele anda a fumar, ou? Desci as escadas a correr. No largo do prédio já era noite, passava pouca gente.
Voltei para casa devagar. A culpa é minha, toda minha! Ultimamente nem o deixo respirar. Até de manhã o acordo a ralhar! E à noite, passo o jantar inteiro a gritar Sentei-me, chorei, chorei como há muito tempo não chorava. Depois, obriguei-me a arrumar a casa não tinha forças para ficar parado.
Enquanto limpava atrás do frigorífico, encontrei um velho jornal. Ao puxar, ouvi o som do vidro a tilintar: enchendo-me de coragem, desfiz o embrulho e lá estavam os cacos do jarro de cristal. Partiu Partiu-o! percebi, finalmente. E chorei de novo, mas desta vez de alívio. Não vendeu nada, não me roubou escondeu. Agora, tolinho, não tem coragem de vir para casa! Mas não, de tolo ele não tem nada. Imaginei-me a encontrar o jarro partido e, claro, imaginei também a minha reação furiosa Suspirei fundo, fui preparar o jantar, pus a mesa com todo o cuidado, estendi as toalhas, pus os pratos.
O Tomás chegou quase à meia noite. Parou à porta, sem dizer nada. Corri para ele: Tomás! Onde andaste tanto tempo? Fiquei tão preocupada! Estás gelado! Segurei-lhe nas mãos geladas, aqueci-as nas minhas, beijei-lhe a face e disse: Vai lavar as mãos, fiz-te o teu prato favorito. Sem perceber nada, foi lavar-se.
Quando chegou à cozinha, disse-lhe: Na sala já está a mesa posta. Ele entrou e percebeu que ali estava tudo arrumado, limpo, quase bonito. Sentou-se com cuidado. Come, filho! ouviu a minha voz num tom meigo. Já nem sabia há quanto tempo não lhe falava assim. Sentou-se, com a cabeça baixa, sem tocar em nada.
Então, Tomás?
Levantou os olhos e respondeu, com a voz trémula:
Fui eu que parti o jarro.
Eu sei, filho respondi. Não faz mal. Tudo se parte, um dia.
De repente, ele desatou a chorar sobre a mesa. Abracei-o pelos ombros e chorei também, baixinho. Quando se acalmou, disse-lhe:
Perdoa-me, filho. Grito contigo, ralho. Custa-me, meu querido. Sabes, vejo que vestes diferente dos outros miúdos. Estou exausta, o trabalho nunca acaba, até trago papelada para casa. Perdoa-me, nunca mais te vou magoar!
Jantámos em silêncio. Fomos dormir, finalmente calmos. No dia seguinte, não precisei de o acordar. Levantou-se sozinho. Quando se preparava para sair, pela primeira vez não disse olha que eu dei-lhe um beijo e disse: Até logo, filho!
À noite, ao chegar a casa, vi o chão lavado e o jantar pronto batatas fritas, o seu prato preferido.
A partir daí proibi-me de falar sobre a escola ou sobre notas. Se para mim já custava ir à escola, como não custará a ele?
Quando, passado uns meses, ele anunciou, confiante, que iria seguir para o 10º ano, não demonstrei surpresa. Um dia espreitei o caderno e não havia negativas.
Mas o dia mais marcante foi aquele em que, depois do jantar, espalhei as minhas contas para pagar e ele sentou-se ao meu lado a dizer que me ajudava a somar. Depois de uma hora, senti a cabeça dele encostar-se ao meu ombro.
Fiquei imóvel. Quando era pequeno, sentava-se ao meu lado, cansado, punha a cabeça no meu colo e adormecia assim. Percebi que tinha recuperado o meu filho.
Tudo o que aprendi com isto foi que, por vezes, o amor e o perdão valem mais do que qualquer jarro de cristal, e nenhum erro é mais valioso do que o vínculo que nos une.







