Pedro cresceu numa família numerosa. O pai, apreciador de um copo, saltava de emprego em emprego, enquanto a mãe se desdobrava entre a estação dos CTT e as lides da casa, fazendo tudo para alimentar os três filhos.

Olha, deixa-me contar-te uma história que podia ser de qualquer aldeia portuguesa do interior, mas é desta, junto à Serra da Estrela, perto de Gouveia. O Pedro cresceu numa família numerosa, sabes? O pai, homem dado ao vinho, saltava de um emprego para outro, nunca era certo onde andava. A mãe, a D. Lurdes, esfalfava-se nos correios e ainda dava conta de toda a lida da casa, só para ter pão na mesa para três filhos.

Pedro era o mais velho. Por isso, dava sempre o braço à mãe tomava conta das irmãs mais pequenas, ia buscar água à fonte e partia lenha. Quando as miúdas cresceram, também começaram a ajudar. Mas nessa altura o pai já tinha morrido, envenenado por uma qualquer zurrapa que bebia com os compadres na taberna do Manel.

Não te vou dizer que as coisas melhoraram. A vida continuou dura. A mãe às vezes lamentava-se, coitada:
Olha, o teu pai sempre era um bêbado, mas nunca levantava a mão. E ainda trazia uns trocos Óh cabeça oca Em quem é que nos foste deixar!

Para não ouvir os desabafos da mãe, o Pedro despachava-se com as tarefas e fugia de casa ao cair do dia. Ia ter com os rapazes junto à velha casa devoluta na entrada da aldeia. Aquilo ali era o quartel-general do grupo as escadas largas e robustas serviam de banco corrido. Sentavam-se todos como pardais e começavam a comer tremoços ou sementes de girassol, enquanto iam contando histórias algumas inventadas, outras bem verdadeiras.

Pedro nunca tinha dinheiro para comprar sementes; a mãe nem sonhava em comprar essas coisas, poupava tudo o que podia. Mas a Luciana, vizinha e amiga de infância dele, arranjava sempre maneira de lhe encher as mãos com uns punhados de sementes salgadas e aromáticas. Ela fazia aquilo com uma simplicidade carinhosa, quase sem ele dar por isso. Pedro agradecia-a baixinho, deliciado, e mastigava as sementes devagar, como toda a malta.

Ao início ainda se sentia acanhado, mas passado pouco tempo já era tradição sentar-se ao lado da Luciana. Mas olha, o Pedro nunca conseguia aceitar coisas de graça, era teimoso e honesto. Então começou a ir ter com a Luciana depois do almoço, quando ela estava a trabalhar na horta, a mondar as ervas. Perguntava sempre se os pais estavam, recebia a resposta de que estavam no trabalho, e metia mãos à obra ao lado dela, enquanto conversavam de tudo e de nada.

Luciana nunca lhe dizia que não, até gostava da companhia com ele, o trabalho até parecia menos duro. Depois, levava um bule de chá quente lá para o quintal e um prato com broas, bolachas ou rebuçados. Pedro ainda fazia fita a recusar, mas ela não o deixava ir sem um mimo.

Doces na casa do Pedro só havia no Natal ou nos anos. Por isso, olha, ele ficava eternamente grato à Luciana e ao seu coração. Ele também se esforçava na escola, não era dos melhores, mas fazia por não ser o pior. Isso sim, em tudo o que fosse desporto ele era imbatível. Por isso, depois do nono ano, foi para o curso técnico de Desporto em Gouveia. Luciana foi para enfermagem.

Já adultos, raramente se viam só quando voltavam à aldeia nos feriados. Pedro já não era aquele miúdo franzino; tinha-se feito um homem atlético. Luciana, com os mesmos olhos clarinhos e aquele sorriso de quem nunca esqueceu a felicidade do campo.

Ela casou cedo, depois de perder os pais num acidente procurava consolo e queria formar uma família, esquecer as tristezas. Foi aí que Pedro soube que ela se casou, às pressas, com o João rapaz falador, boa pinta, mas sem juízo. Ele achou aquilo estranho, nunca os tinha imaginado juntos, mas pronto. Passado um ano, nasceu-lhes um filho.

Pedro não tinha pressa de casar. Até a mãe se admirava, mas a verdade é que ele se empenhou tanto no trabalho que, cedo, foi nomeado diretor do pavilhão desportivo em Seia. As irmãs casaram-se bem, mudaram-se para cidades maiores. Já a vida da Luciana com o João tornou-se uma tormenta sempre bêbado o homem, sempre fora de casa. A mãe do Pedro comentava:
Aquilo é como o nosso Faustino… Bebe, desaparece dias seguidos Nem o filho nem a mulher lhe dizem nada.

Pedro ficava doido. Batia com força na mesa:
Mas porque é que ela foi casar com esse traste? Antes vivia bem Lembro-me do meu pai, só desastre.

Pois, ele agora leva tudo de casa: o rádio, a roupa, até os copos de cristal que eram dos pais dela, e já vai nas toalhas também. E ainda há quem lhos compre, para mais uns copos de aguardente.

Ela precisa? Tem vindo pedir dinheiro? perguntava Pedro.

Não pede, mas vive na miséria. O ordenado mal chega. Do marido, então, nem vê um tostão

O Pedro andava ansioso, a matutar. A mãe, ao perceber que contou demais, pediu:
Não te metas, filho. Cada um sabe de si, sabes lá o que se passa numa casa. Se ela ainda vive com ele, é porque quer.

Nessa noite, Pedro abriu-se com a mãe. Contou-lhe como a Luciana lhe dava sempre sementes e doces, e como lhe custava vê-la agora passar mal, sozinha com um filho. A mãe assustou-se:
Olha lá, nada de chatices com o João, ou és tu preso ou ele Mais vale ajudar como podemos, sem confusões.

Pedro assentiu e voltou para a cidade. Mas poucos dias depois estava de volta, com o carro cheio dois sacos enormes, caixas, pacotes. Entregou tudo à mãe.

Isto é tudo para mim? Vais viver cá, Pedro? Olha que bom! ria a mãe, emocionada.

Não, mãe, é só para te abasteceres e para dares um jeitinho à Luciana, sem fazer barulho. Não convém ser eu a dar-lhe nada sabes como é.

Nos sacos, sementes de girassol das boas. Depois nas caixas: leite condensado, arroz, massas, farinha, bolachas e um saco cheio de rebuçados. Tudo cuidadosamente dividido para a mãe e para a Luciana. O Pedro sempre gostou de mimar a mãe também lhe trazia chocolate, peixe fresco da lota quando podia. Mas desta vez, foi uma festa.

És um santo, filho Mas por onde é que anda a tua felicidade?

A mãe fez o que o filho lhe pediu. Começou a passar na casa da Luciana à noitinha, e deixava um embrulho escondido. Ao início, a Luciana ainda resistia. Mas quando recebeu um balde cheio de sementes, percebeu logo de quem era a ideia.

Chorou, agarrou nas sementes como quem recebe um tesouro, e disse à mãe do Pedro:
Diga ao Pedro que nunca me esqueci dele, nem do coração bom que tem. Mas para não se preocupar tanto Já pedi o divórcio há duas semanas. Isto vai acabar, há-de acabar.

A D. Lurdes foi-se embora, sem saber muito bem o que pensar. Agora a Luciana ia ser livre e o Pedro continuava sozinho.

O tempo passou, a mãe do Pedro continuou a ajudar a Luciana com discretos mimos semanais cafézinhos, pacotinhos de arroz, ou um cacho de uvas. Às vezes, sentavam-se a lanchar juntas e a Luciana sempre prometia devolver tudo quando pudesse.

A mãe sossegava-a:
Não é para ti, é para o teu menino! Deus ajuda pelos amigos não negues um mimo a quem precisa.

A Luciana divorciou-se do João e, passado um ano, já estava mais animada, a casa ganhou cor, o filho começou a ir ao infantário, era igualzinho à mãe olhos claros e sorriso fácil.

Muitas vezes, era a D. Lurdes que cuidava do pequeno Miguel, que até lhe chamava avó. O Pedro, sempre que vinha de Seia, trazia brinquedos para o miúdo. Encontravam-se ocasionalmente em casa da mãe, punham a conversa em dia, riam das recordações, mas nunca tocavam no passado infeliz da Luciana. Silêncio total, como se aqueles anos jamais tivessem existido.

Nos últimos tempos, o Pedro aparecia mais vezes. Acordar da mãe:
Então, a Luciana já cá veio hoje? E o Miguelito, está aqui?

Oh filho, pergunta primeiro da minha saúde, ao menos sorria ela, já habituada.
Desculpa, mãe Estás bem? Queres alguma coisa?
Vai, vai até à Luciana. Ela também deve estar à espera. Vocês andam feitos gato e rato! A aldeia já nem fala de outra coisa, sabias?

Pedro ria-se:
É sempre assim aqui, nem pensamos e já está a família toda a fazer planos!

De repente, abraçou a mãe:
Foste sempre uma mãe especial, sabes? Obrigado por tudo.
A mãe benzeu-o e foi até ao oratório, enquanto o Pedro, já nervoso, pegava num ramo de crisântemos brancos.

Saiu de casa, atravessou a rua, passou pelo portão de madeira. Pensava para os seus botões: Se ao menos ela me quiser, eu dou-lhe o mundo

E nem dava conta que, atrás da cortina rendada, a Luciana espreitava, coração aos pulos, a ver o Pedro a chegar com flores anos depois, como no tempo das sementes, ele a cuidar dela, ao seu jeito.

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Pedro cresceu numa família numerosa. O pai, apreciador de um copo, saltava de emprego em emprego, enquanto a mãe se desdobrava entre a estação dos CTT e as lides da casa, fazendo tudo para alimentar os três filhos.