Vendeu tudo para conseguir formar os filhos — vinte anos depois, eles regressaram vestidos com uniformes de pilotos e levaram-na a um lugar que ela nunca sonhou conhecer.

Dona Matilde tinha 56 anos e era viúva.

Os únicos filhos eram Gonçalo e Tiago.

Viviam num bairro modesto nos arredores de Setúbal, numa pequena casa de paredes por rebocar e telhado de zinco, erguida ao longo dos anos com o esforço do marido, pedreiro de profissão, nas obras das cidades próximas.

Certo dia, tudo mudou.

O marido morreu num acidente numa construção, quando uma viga cedeu de repente. Não houve indemnização justa. Não houve justiça célere. Só silêncio… e dívidas.

Desde então, Matilde tornou-se mãe e pai ao mesmo tempo.

Não tinham negócio, nem possuíam grandes poupanças. Restava aquela casinha e um pequeno terreno herdado da família do marido, nas redondezas da vila.

Cada manhã recordava-lhe a solidão. Mas também lhe lembrava o motivo de luta: dar futuro aos filhos.

E se houve sonho a que Matilde nunca permitiu morrer foi o dos seus rapazes, Gonçalo e Tiago.

A MÃE QUE DEU TUDO PELOS FILHOS

Todos os dias, às quatro da manhã, Dona Matilde levantava-se para preparar pastéis de nata, pães de Deus e leite-creme, que depois vendia na feira do bairro.

O vapor do leite-creme embaciava-lhe os óculos. O calor do forno queimava-lhe as mãos. Mas ela nunca se queixava.

Pastéis de nata quentinhos! gritava com voz doce por entre as bancas.

Por vezes voltava a casa com os pés doridos, outras sem sequer provar o que cozinhava. Mas trazia sempre algum alimento para os filhos levarem para a escola.

À noite, quando faltava luz pela falta de dinheiro para a conta da EDP, Gonçalo e Tiago faziam os trabalhos à luz de uma vela.

Numa dessas noites, Gonçalo falou.

Mãe… quero ser piloto.

Matilde pousou a costura.

Piloto.

Uma palavra grande. Tão distante quanto cara.

Piloto, filho? perguntou, tentando não mostrar o medo.

Sim. Quero voar aviões grandes, como os do Aeroporto de Lisboa.

Matilde sorriu, mesmo que o receio lhe apertasse o peito.

Então vais voar, meu filho. E eu vou ajudar-te.

Mas sabia: estudar aviação era coisa de ricos.

Ao terminarem o secundário e serem aceites numa escola de aviação, Matilde tomou a decisão mais difícil da sua vida.

Vendeu a casa.

Vendeu o terreno.

Despediu-se da última recordação material do marido.

E agora, mãe, onde vamos viver? quis saber Tiago.

Matilde respirou fundo.

Onde der, enquanto vocês estudarem.

Mudaram-se para um quarto alugado, junto ao mercado. Partilhavam casa de banho com várias famílias. O telhado deixava passar água quando chovia.

Matilde lavava roupa para fora, limpava apartamentos em Lisboa, continuava a vender pastéis e ainda fazia consertos de roupas de crianças por encomenda.

As mãos encheram-se de gretas. O corpo doía-lhe todas as noites.

Mas nunca deixou que os filhos desistissem de estudar.

ANOS DE LUTA E DISTÂNCIA

Gonçalo terminou primeiro o curso de aviação. Tiago seguiu-lhe os passos.

Mas para serem pilotos comerciais em Portugal, era preciso somar horas de voo, certificações, experiência.

A oportunidade surgiu… mas fora de Portugal.

Ambos conseguiram trabalho em companhias aéreas estrangeiras, para angariar as horas de voo.

Antes de partirem do Aeroporto Humberto Delgado, abraçaram a mãe longamente.

Mãe, vamos voltar prometeu Gonçalo.

Assim que cumprirmos o nosso sonho, tu serás a primeira a voar connosco disse Tiago.

Matilde apertou-os como se não houvesse amanhã.

Não se preocupem comigo. Tenham é cuidado, meus meninos.

E começou a espera.

Vinte anos.

Vinte anos de chamadas espaçadas, de mensagens de voz, de videochamadas que aprendeu a usar graças à vizinha Alda.

Vinte anos de aniversários em silêncio.

Sempre que ouvia um avião rasgar os céus de Setúbal, saía à soleira a espreitar o firmamento.

Talvez vá ali o meu filho… sussurrava.

O cabelo perdeu a cor e o passo ganhou peso, mas a esperança jamais se perdeu.

O DIA MÁGICO

Numa manhã como qualquer outra, enquanto varria a entrada da sua casa modesta agora sua de novo, fruto da poupança acumulada, bateram à porta.

Matilde pensou ser o padeiro.

Mal abriu, faltou-lhe o ar.

Dois homens altos, de farda azul, com insígnias douradas ao peito, estavam diante dela.

Mãe… disse um, com a voz embargada.

Era Gonçalo.

Ao lado, Tiago.

Com farda da TAP.

Flores nas mãos. Lágriams nos olhos.

Matilde levou as mãos ao rosto, sem acreditar.

São vocês? Mesmo?

Apertou-os contra o peito, como se o tempo voltasse atrás.

Os vizinhos vieram à rua ao ouvir o choro.

Voltámos, mãe murmurou Tiago.

E desta vez, era verdade.

O VOO DA PROMESSA

No dia seguinte, conduziram-na ao Aeroporto Humberto Delgado.

Matilde andava devagar, olhando tudo à volta como se fosse a primeira vez.

Vou mesmo entrar num avião? perguntou, nervosa.

Vais, sim respondeu Gonçalo. E hoje és a nossa convidada especial.

Já sentada, antes do avião descolar, Gonçalo agarrou o microfone.

Senhoras e senhores passageiros, hoje voa connosco a mulher que tornou este voo possível. A nossa mãe vendeu tudo por nós. Dedicamos-lhe este voo.

O silêncio cobriu a cabine.

Tiago continuou:

A mulher mais corajosa que conhecemos não é famosa, nem rica. É uma mãe que acreditou em nós quando não tínhamos nada.

Os passageiros bateram palmas.

Muitos choravam.

Matilde tremia por dentro, tocada pela emoção.

Quando o avião ganhou altura, fechou os olhos.

Estou a voar… murmurou.

E sentiu que todo o sacrifício fazia, por fim, sentido.

O GRANDE PRESENTE

Após o voo, os filhos levaram-na de carro até ao Douro, junto ao rio, rodeada de vinhas e montanhas.

Pararam diante de uma casa bonita, com vista para o rio.

Mãe disse Gonçalo, estendendo-lhe umas chaves , esta casa é tua.

Não trabalhas mais acrescentou Tiago, com os olhos húmidos. Agora cuidamos de ti.

Matilde caiu de joelhos, chorando.

Valeu a pena… cada pastel vendido, cada noite sem dormir tudo.

Entrou e correu as mãos pelas paredes.

Recordou o telhado de zinco. O quarto alugado. As noites frias.

E percebeu algo profundo:

Nunca foi pobre.

Sempre foi imensamente rica… de amor.

O PÔR-DO-SOL DE UMA MÃE

Nesse entardecer, os três sentaram-se a apreciar o sol a morrer sobre o Douro.

O céu tingia-se de laranja e púrpura.

Abraçaram-se.

O vento suave parecia trazer o carinho do passado, quase como se o marido sorrisse lá do alto.

Agora posso finalmente descansar sussurrou Matilde.

Porque os filhos aprenderam a voar.

E a verdadeira lição do sacrifício.

Matilde descobriu, então, que quando uma mãe semeia amor…
a vida retribui, multiplicando em asas.

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