Durante 7 anos, ela cuidou sozinha da sogra “paralisada”, limpando-lhe os sanitários enquanto o marido estava sempre ausente no trabalho. Mas um dia instalou uma câmara escondida por segurança e viu algo que, numa só noite, a fez cortar estas pessoas da sua vida para sempre.

Oh amiga, nem imaginas o que te vou contar Isto parece de novela, mas, acredita, aconteceu mesmo com uma conhecida minha, a Benedita. Olha, a rapariga é um exemplo de paciência, sempre ouvi o marido, o Nuno, a dizer-lhe aquelas coisas doces: Benedita, és um anjo. Se não fosses tu, a minha mãe já tinha acabado num lar qualquer. Devo-te a vida, meu amor. E lá ia ele todo compenetrado, mala de pele ao ombro, pronto pra mais um dia no escritório. E ela ficava, sozinha, ali a olhar a cozinha, com aquele ar cansado que só quem cuida de outros percebe.

Repara, a Benedita tem quarenta e dois anos, mas quem olhasse para ela dizia logo mais de cinquenta. Olheiras até meio do rosto, pele baça, mãos ásperas de tanto desinfectar, e aquela dor crónica nas costas de quem já perdeu a conta ao número de fraldas trocadas. A vida dela mudou há sete anos, quando a sogra, a D. Teresa, teve um AVC pesado. Os médicos foram diretos: paralisia para o resto da vida, fala afetada. O Nuno chorou-lhe no colo, coitado do homem, era filho único, e claro, não tinham dinheiro para uma cuidadora a tempo inteiro. A Benedita, que já tinha um futuro pela frente a restaurar livros raros no Museu Nacional, despediu-se. Ainda vendeu o T1 que herdou da avó, só para pagar o primeiro ano de fisioterapia da sogra. Depois, mudou-se para aquele apartamento de cheiro a cânfora e roupa velha.

Sete anos nisto, amiga. Rotina de prisão de alta segurança: acordar às seis, trocar fraldas, limpar com esponja a pele da D. Teresa para evitar escaras, dar-lhe sopas passadas à colher, levar com maus feitios e birras. A sogra não era pêra doce, cuspia comida, atirava a penico cheio para o lençol limpo, exigia atenção a gritos uma tortura. E a Benedita nem bufava, viu isto sempre como missão. O Nuno trabalhava que se fartava, chegava tarde, só o via aos fins de semana, porque estava a construir o tal sonho: uma moradia juntos, só os dois. E quem ficou com os papéis da casa nova? Claro, a dona Teresa, por causa dos descontos do IRS ligados à deficiência. A Benedita nem pegava nos papéis, mal tinha forças para isso.

Olha, piorou quando a sogra começou a engasgar-se mais com a água. Ficou com medo de que morresse se ela fosse um instante à padaria. O que fez a Benedita? Comprou à socapa uma daquelas câmaras minúsculas baratinhas na Feira da Ladra, escondeu bem no quarto da sogra, entre livros poeirentos, só para ir vendo tudo pelo telemóvel enquanto ia tratar das compras.

Olha, numa terça de novembro mesmo horrível, fria e chuvosa, Benedita está na fila do Pingo Doce, dá um nervoso, e decide espreitar a câmara. O ecrã primeiro engasga, mas quando a imagem aparece o coração parou-lhe. O pacote do leite caiu-lhe logo das mãos, espatifou-se todo no chão, parecia cena de filme: a paralisada da sogra sentada na cama, levanta-se sozinha, caminha até à janela, abre-a, tira um cigarro de trás da estufa e começa ali a fumar com todo o à-vontade! Aquela que diziam não conseguir segurar uma colher!

Nem teve tempo de recuperar, vê o Nuno a entrar no quarto (o mesmo Nuno que tinha reunião no outro lado da cidade nesse minuto). Ela ligou o som no telemóvel, com as mãos a tremer.

Ó mãe, outra vez a fumar aqui?! rosna o Nuno, todo descontraído. A Benedita vai sentir o cheiro!
Aquela parva não topa nada. Se vier reclamar, digo que é da rua! riu-se a D. Teresa, voz limpa e firme, nem sombra de afasia. Falta muito para me deixarem deitada nestas fraldas? Já não aguento mais os papas desta tola.
Está quase, mãe. Dois meses. A casa nova está quase pronta. Assim que sair a escritura, meto os papéis do divórcio. A Sónia já vai no quarto mês, não pode stressar. Vamos para a casa nova e a Benedita que se oriente, não tem para onde ir, nem casa nem emprego. Dá-se por feliz de ter tido um teto.
Ao menos poupámos na empregada e na ama. Tola de graça! rematou dona Teresa, apagando o cigarro num frasco de compota. Deixa-me deitar antes que essa derreada apareça.

Olha, eu sei que em filme as mulheres fazem uma cena descomunal, mas a Benedita congelou. Nem uma lágrima. Sentiu-se como se lhe arrancassem a pele e a atirassem para dentro de um saco de gelo. Sete anos. Sete anos da vida dela alimentando dois parasitas, o Nuno e a Teresa, que encenaram uma doença só para a usarem de criada enquanto o Nuno juntava dinheiro para viver com a amante! O AVC existiu, sim, mas a sogra recuperou logo ao fim de três anos, e mantiveram a mentira para terem uma escrava gratuita.

Benedita voltou para casa uma hora depois, entrou devagarinho. A sogra já estava deitada, a fazer-se de morta, e murmurou: “Ó Benedita água”. Ela foi, cara de pedra, deu-lhe o copo, limpou-lhe a boca e ainda disse aquela frase de santa: “Beba, Dona Teresa. Precisa de forças.” Não podia fazer escândalo. Tudo, mas mesmo tudo, estava no nome da sogra. O dinheiro do apartamento da avó já se tinha evaporado para a obra. Se desse barraco, acabava na rua só com a roupa do corpo.

Mas olha lá, há sempre um trunfo que ninguém espera Há cinco anos, quando a sogra realmente não andava, passou uma procuração geral para a Benedita, deixava-a mexer livremente em tudo o que fosse contas e bens, para facilitar a vida. Esqueceu-se de revogar. A Benedita guardou isso como segredo.

Nos dias seguintes, ela continuou a rotina: limpava, cozinhava papas, sorria ao Nuno quando ele dizia que só ela era capaz daquilo. Mas ao mesmo tempo, foi ao banco e levantou tudo das contas da sogra todo o dinheirinho que era para acabar as obras da vivenda. Era quase o valor que tinha dado pela casa da avó! Depois, contactou uma imobiliária para venda urgente: a tal casa de campo, que estava em nome da Dona Teresa, foi vendida por um preço, vá, abaixo do mercado. O dinheiro foi imediatamente transferido para uma conta que ela abriu noutra instituição.

Legalmente estava protegida, procuração em dia, ela com poderes totais. Para acusá-la ia ser um trinta e um, tudo certinho.

Sexta de manhã, o Nuno foi trabalhar. Ela fechou as malas só levou o básico, nada do que o marido tinha comprado para ela. Só a roupinha de antes, os documentos e o portátil velho. Foi ao quarto, viu a Dona Teresa com os olhos fechados e deixou uma pen USB com a gravação da câmara em cima da mesa de cabeceira, com o cinzeiro ao lado.

Rápidas melhoras, Dona Teresa disse com aquela calma que só quem já morreu por dentro tem. Agora vai ter de se levantar sozinha. Acabaram-se as fraldas.

Saiu e nunca mais voltou.

Olha, não te vou mentir: não tinha outro príncipe à espera, nem cheques no correio. Acabou num quarto alugado na Reboleira, mãos a cheirar sempre a lixívia, a acordar sobressaltada com os gritos inexistentes da sogra. Teve de ir ao psicólogo, andou medicada até se encontrar outra vez. Parte do dinheiro foi para consultas, outra parte para se aguentar até conseguir voltar à vida de restauradora de livros. Perdeu anos de vida, tempo que ninguém devolve.

Mas olha, o karma não falha. O Nuno ainda tentou meter a Benedita em tribunal, mas nada feito a procuração era legítima, tudo limpinho. Quando a Sónia soube que não havia casa de campo nem dinheiro, fez-lhe logo um escândalo e deixou-o, grávida e tudo, meteu-lhe uma ação de alimentos. E a D. Teresa? Sem ninguém para lhe limpar as lágrimas, lá teve de se levantar da cama, queixosa como sempre. Só que depois de tanto fingir e viver de azedume, o corpo acreditou e, passado um ano, teve outro AVC este a sério, este já sem volta.

Resultado: o Nuno ficou sozinho num apartamento a cheirar a medicamentos, com a mãe incapacitada, dívidas até ao pescoço e sem ninguém que fosse burro o suficiente para lhe dar colo ou comida na boca.

Sabes o que aprendi com isto? Por vezes os maiores monstros vivem connosco, dão-nos beijos de despedida antes de sair de casa, e fingem adorar-nos. Ser boa pessoa é bonito, mas sem respeitarmos a nós próprios, só nos tornamos peões para quem nunca daria nada por nós. Nunca sacrifiques tudo por gente assim um dia acordas e percebes que o altar onde te ajoelhavas era só o prato deles.

E tu, o que farias no lugar da Benedita? Achas que ela exagerou ou, pelo contrário, teve justiça? Quero mesmo saber, responde-me!

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Durante 7 anos, ela cuidou sozinha da sogra “paralisada”, limpando-lhe os sanitários enquanto o marido estava sempre ausente no trabalho. Mas um dia instalou uma câmara escondida por segurança e viu algo que, numa só noite, a fez cortar estas pessoas da sua vida para sempre.