Mas por que vens ter comigo, mãe? Sempre ajudaste a Nadinha a vida inteira, agora vai pedir ajuda a ela! – declarou-me o meu filho.

Mas por que vieste ter comigo, mãe? Passaste a vida inteira a ajudar a Beatriz, agora pede-lhe ajuda a ela! declarou-me o meu filho.

O Miguel nem sequer me convidou a entrar em casa, falou comigo à porta, as palavras eram geladas e o olhar distante, como o de um estranho.

Filho, vais mesmo deixar a tua própria mãe à porta? não contive a emoção e comecei a chorar.

Mãe, não percebo essas tuas emoções. Tenho muito que fazer, não tenho tempo para conversas inúteis o Miguel já ia fechar-me a porta na cara, quando se ouviu a voz da nora.

Miguel, estás a falar com quem? perguntou a Catarina, saindo para o corredor.

Mãe, é a senhora? perguntou ela, espantada. Então por que está ao frio, venha cá para dentro, por favor.

O Miguel fez um gesto de desagrado, virou costas e sumiu, e eu comecei a descalçar-me no corredor, aliviada por, ao menos, a nora me receber em casa. Tinha coisas sérias para conversar.

Hoje, olhando para trás, reconheço que de facto falhei para com o meu filho. Tive dois filhos: o Miguel e a Beatriz. Passei a vida toda a apoiar a Beatriz, esquecendo-me do Miguel.

Sempre pensei que ele se desenrascava sozinho e não precisava da minha ajuda, mas a verdade é que ele se esforçou tanto precisamente para me mostrar que era capaz sem mim, sem o meu apoio ou dinheiro.

Dinheiro não me faltava. Já há vinte anos que andava emigrada, mas quem recebia a minha ajuda financeira era só a Beatriz, e agora lamento muito essa escolha a minha filha nunca valorizou o que fiz e, quando mais precisei, simplesmente virou-me costas.

Vim para Lisboa quando o Miguel tinha dezoito anos e a Beatriz dezasseis. Ficaram ao cuidado da minha mãe, pois o pai deles já nos tinha deixado há anos. Vivíamos com muitas dificuldades, a emigração foi o único caminho que vi para garantir o sustento.

Com os primeiros euros que juntei em Lisboa, comecei a remodelar a nossa casinha na aldeia a minha mãe ficou tão feliz quando finalmente tivemos água canalizada e uma casa-de-banho em casa.

Depois, a Beatriz anunciou que ia casar. Achei cedo aos dezanove anos, mas não a dissuadi. O genro era rapaz da terra, vieram viver connosco.

O Miguel não se deu bem com o cunhado e logo também arranjou namorada. Casou com a Catarina, que cresceu num orfanato, sempre pobre. O Estado deu-lhes um quarto num velho prédio camarário em Setúbal e lá se instalaram.

A Beatriz foi clara na partilha do que eu enviava:

Mãe, quem ficou em casa fui eu, por isso é tudo para mim sentenciou.

O Miguel nunca reclamou nem pediu; ele arranjava-se, tentava fazer pela vida. Assim, todos os euros que amealhava em Lisboa eram para a Beatriz, usando ela como achasse melhor. O Miguel desenrascava-se.

Depois ficou pior: a minha mãe morreu. Logo após o funeral, a Beatriz anunciou o divórcio.

E agora, o que vais fazer? perguntei-lhe.

Vou contigo para Lisboa respondeu, de repente.

Fomos as duas, mas a Beatriz não gostava de trabalhar. Arranjava pequenos serviços de limpeza, mas gastava o pouco que ganhava em renda e comida.

Eu, que trabalhava interna, não tinha gastos e os meus mil euros iam diretamente parar às mãos da Beatriz, que insistiu em comprar casa em Lisboa.

Como voltar para a aldeia não era opção para ela, convenceu-me a vender a casa da família para nos ajudar a juntar dinheiro e comprar casa em Lisboa.

Mesmo assim, o dinheiro não chegou. Acabou por casar com outro, ele pagou o que faltava, e mudaram-se para um pequeno apartamento.

Eu não pensava muito no futuro, enquanto tinha saúde para trabalhar, mas de repente adoeci e já não podia continuar. Pedi guarida à minha filha, conforme havíamos combinado, e ela respondeu que não tinha espaço e mais valia eu tratar-me e regressar ao trabalho.

Recusei. Decidi voltar à aldeia, embora casa já não tivesse, pois vendêramos tudo. Restava apenas um terreno grande, quase um hectare. Poderia tentar vendê-lo para construir algo, mas sem dinheiro nada se faz.

Nessa altura decidi pedir ao Miguel que me ajudasse a vender o terreno. Não sabia o que seria de mim depois.

O meu filho estava tão magoado que nem queria falar comigo, mas a minha nora não só me acolheu, como pensou em soluções:

Mãe, eu e o Miguel andamos à procura de um terreno para fazermos casa. Se a senhora concordar, podemos começar a construir lá e quando terminarmos, vem viver connosco propôs-me a Catarina.

O Miguel, apesar de implicar, acabou por aceitar.

A nora cuidou de mim, deu-me jantar, preparou-me a cama e disse que no dia seguinte me levaria ao médico.

Por que fazes isto por mim, Catarina? perguntei-lhe.

Porque nunca tive mãe. Agora tenho sorriu.

E assim foi: a minha filha virou-me costas, a nora recebeu-me de braços abertos.

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Mas por que vens ter comigo, mãe? Sempre ajudaste a Nadinha a vida inteira, agora vai pedir ajuda a ela! – declarou-me o meu filho.