Naquela noite, Mariana sentia-se como se vivesse num quadro pintado a carvão e chuva. Já não sabia distinguir o cansaço do sono. Duas turnos seguidos a servir cafés na cantina da universidade de Lisboa, resumos espalhados entre páginas de livros de Gestão e apenas três horas de repouso em dois dias. O mundo parecia girar em círculos enquanto caminhava na calçada molhada.
Foi então, ao passar pela Biblioteca Nacional, que viu um carro negro reunindo a neblina da noite. Assumiu que era finalmente o Uber chamado no telemóvel há quarenta minutos. Sem se importar sequer em conferir a matrícula, abriu mecanicamente a porta traseira e deixou-se cair no banco. Tudo era tão macio, tão silencioso, tão embebido num perfume delicado de figo e sândalo, que o mundo pareceu finalmente abrandar. Piscar de olhos, e já pairava num sono estranho, suspensa como alguém mergulhado nas águas frias do Tejo.
A voz masculina que acordou Mariana parecia vir de outro eco:
Costuma escolher carros alheios para dormir, ou hoje foi um prémio especial para mim?
Endireitou-se assustada. Ao seu lado, um homem de ar sereno, cabelo escuro perfeitamente penteado e fato italiano, fitava-a com um sorriso subtil e olhos aguçados. Era como se flutuassem noutro tempo.
A propósito, disse ele, olhando para o relógio no pulso, esteve a dormir uns vinte minutos. E roncou um bocadinho.
Sentiu o rosto a arder, desviou o olhar para o interior do carro: painel táctil a brilhar suavemente, madeira de carvalho polida, um mini-bar com garrafas de Porto arrumadas.
Você não é o motorista
Não. Sou o dono. Chamo-me Ricardo Salgado.
O nome teve na boca dela um eco estranho, mas ele falava como quem está habituado à decisão e ao luxo dos bancos de veludo. Mariana balbuciou um pedido de desculpa, já a puxar pela maçaneta.
Está tarde, apontou ele, como se recitasse uma antiga canção de fado. Deixe-me, pelo menos, levá-la até casa.
E perante a insegurança húmida da cidade a desmanchar-se lá fora, Mariana cedeu. O carro deslizou pela avenida como um peixe ensonado pelo rio. Durante o percurso, acabou a falar-lhe das noites mal dormidas, das propinas por pagar, da fadiga colada à pele como sal.
Isso não é viver sentenciou Ricardo, voz de porto seguro na tempestade. Assim só se quebra por dentro.
Junto ao seu pequeno apartamento no bairro de Campo de Ourique, deteve-se o tempo de mais uma surpresa.
Preciso dum assistente pessoal disse ele, interrompendo o silêncio. Alguém que organize tempestades e ponha ordem no caos. Horários flexíveis, salário justo em euros, nada que se compare com turnos atrás do balcão. Parece-lhe mais sensato?
Não preciso de caridade retorquiu, sem convencer-se.
Não se trata disso. É uma proposta. Só precisa decidir.
Ela guardou o cartão como quem esconde uma senha mágica. Em casa, a amiga ficou sem ar ao ler: Ricardo Salgado dos nomes mais sonantes em todo o país.
Três dias de luta interior, enquanto as cartas do banco empilhavam no tapete, levaram Mariana ao inevitável. Ligou-lhe.
Para quando pode começar? perguntou ele, sem rodeios.
Amanhã.
Onde ele vivia, parecia que o sol entrava por todas as janelas: paredes envidraçadas, jardins podados como se fossem cenários, mobiliário minimalista e obras de arte descendentes de Camilo Castelo Branco. O salário era uma felicidade nunca antes sentida. E rapidamente percebeu que não era passatempo ou compaixão que a mantinham ali.
Está aqui pela cabeça e pela coragem, disse Ricardo, numa tarde leve. É disso que preciso.
Tudo se transformou nesse instante.
O trabalho virou obsessão boa. Concebeu agendas, reduziu reuniões, encurtou distâncias. Ricardo confiava-lhe decisões cada vez mais pesadas; entre os dois, brotava uma cumplicidade discreta, feita de silêncios cheios e olhares não ditos.
Numa receção de negócios, sentindo as atenções sobre ela, Ricardo tocou-lhe levemente nas costas, um tipo raro de ternura. Ali, Mariana percebeu: não era apenas respeito.
Dois meses depois, recebeu uma carta a cheirar a esperança convite para um programa internacional de intercâmbio, destino: Barcelona, meia bolsa garantida.
Quando parte? quis saber Ricardo.
Em três meses.
Demorou a responder, como se contasse as andorinhas a regressar à primavera.
Podia pedir-lhe para não ir. Mas não a respeitaria se o fizesse.
Nessa noite, já à porta, ouviu o que soou como feitiço antigo:
Amo-te.
Eu também, sussurrou ela.
Então vai. Vive o teu sonho. Quero-te dona do teu caminho, e não minha sombra.
O ano voou como folha ao vento. Ao regressar a Lisboa, foi ele que a esperava no aeroporto, só ele sem seguranças, sem medos.
Desta vez não confundes o carro? brincou, olhos acesos.
Verifiquei duas vezes, prometo.
Pegou-lhe na mala.
Comprei um apartamento no Chiado.
Mariana ficou suspensa.
Para nós.
De joelhos, sem plateia ou câmaras, ofertou o futuro:
Mariana Pacheco, queres caminhar comigo?
Sim.
Nesse verão, Mariana licenciou-se e inaugurou a sua consultora. Ele liderava ainda o seu império, mas agora eram cúmplices em tudo: nos negócios, na vida, nos dias em que Lisboa amanhece azul.
Por vezes, enquanto relaxava no carro depois de tardes estonteantes, Mariana sorria.
Vais conferir a matrícula? perguntava Ricardo.
Se fores tu ao volante, posso dormir em paz, respondia ela.
E já não era erro. Era apenas escolha.







