Passo a Passo

Passo a passo

Estás em casa? perguntou de forma sucinta o Rui, ligando à mulher durante a hora de almoço.

Sim respondeu Mariana, sem desviar os olhos do ecrã. No televisor, mais uma vez, a protagonista da novela sofria em cenas cheias de lágrimas, lábios trémulos e palavras de despedida. Mas Mariana já nem se lembrava do nome daquela personagem, embora fosse a segunda ou até terceira vez que via aquele episódio.

Os últimos dois meses misturaram-se numa só sucessão de dias cinzentos e arrastados. O tempo deixou de ter forma: de repente o dia caía na noite sem que ela desse conta, as noites eram longas e insones. Há pouco tempo, era feliz.

Tudo começou com uma alegria imensa: ela e o Rui iam ser pais. Era a primeira gravidez da Mariana, esperada durante anos, muito desejada. Quantas vezes andaram, juntos, de médico em médico, a fazer exames, a esperar ansiosamente por cada consulta, a tentar pescar qualquer sinal de esperança nos relatos impessoais dos médicos! Cada teste negativo era um soco, cada ainda não do médico era motivo para lágrimas mudas na almofada.

Até que, finalmente, apareceram as duas risquinhas! Mariana recorda tudo ao pormenor: as mãos a tremer ao pegar no teste, a incredulidade a fazê-la repetir o teste duas vezes, a correr para o Rui, incapaz de dizer uma palavra, apenas a mostrar os resultados. O sorriso com que ele a olhou naquela altura era tanta felicidade que lhe cortou a respiração.

Começaram a sonhar juntos, a imaginar-se pais Escolheram berço discutiram a cor, passaram as mãos na madeira lisinha, imaginaram o bebé ali naquele ninho minúsculo. Sonhavam com passeios pelo parque nos dias de outono, com o Rui a empurrar um carrinho e ela a espreitar por cima, só para confirmar sim, era mesmo o bebé deles ali a dormir sob a manta quente. E logo o primeiro mamã, hesitante, aquele som que faz parar o coração e encher os olhos de lágrimas de alegria…

Mas agora tudo parecia distante, como imagens de uma história que nunca foi dela. O ecrã continuava a piscar com dramas alheios, e Mariana só conseguia sentar-se no sofá, de joelhos ao peito, a sentir o peso do cansaço a crescer nos ombros.

Tudo desabou na nona semana. Começaram as dores fortes, assustadoras, cortavam a respiração. No princípio, Mariana quis acreditar que eram só cólicas, que iam passar mas só pioravam. O Rui, ao ver a cor dela e as mãos a tremer, chamou logo uma ambulância. No caminho, ela apertava tanto a mão dele que lhe ficou a marca das unhas.

No hospital: paredes brancas, luz crua, passos apressados para cá e para lá. Os médicos falavam de procedimentos e probabilidades, mas Mariana só se lembrava de frases soltas tentar manter… hipóteses… lamento. Depois veio aquela frase fria, definitiva: não conseguimos salvar. O mundo dela virou pó. Já tinham escolhido o nome, viram camas de bebé, encomendaram algum mobiliário E agora? E agora, como se vive?

Os médicos foram pacientes. Explicaram que estas coisas acontecem, não era culpa dela, que às vezes o corpo simplesmente rejeita a gravidez por razões que ninguém entende. Falaram de recuperação, de esperança para o futuro, de possíveis filhos a seguir. Mas como aceitar que, onde antes sentiste vida, agora há um vazio? Como reconciliar tudo o que já tinhas sonhado o nome, os gestos pequeninos, os cenários de cada dia? Como deixar de sentir a dor de perder um futuro desenhado mil vezes?

Mariana deixou de sair de casa. Primeiro foi só falta de vontade depois virou hábito. Cozinhar? Para quê, se tudo sabe a nada, se cada garfada prende na garganta como areia seca. Limpar? Que interessa o pó nas prateleiras, se ninguém vai reparar? Assim, passava os dias aninhada no sofá, embrulhada numa manta, a ver novelas atrás de novelas não pelas histórias, mas porque aquela tristeza era um eco do que ia dentro dela. Às vezes chorava sem som, outras vezes em soluços fortes até não ter mais lágrimas. Muitas noites adormecia ainda de robe, sem pentear o cabelo ou sequer lavar a cara. Acordava, ia buscar o comando e ligava o próximo episódio, à espera de uma dor emprestada que abafasse a dela.

Tudo à sua volta acumulava-se. Roupa suja no canto, cartas e contas espalhadas na mesa, plantas das janelas a morrer sedentas. Mariana percebia de relance que aquilo precisava de cuidado Mas forças para agir, não tinha. Tudo parecia inútil.

E foi hoje que recebeu aquela chamada.

Vão aí a casa, abre a porta e deixa entrar a senhora instruiu o Rui, seco, do outro lado da linha.

Que senhora? Mariana franziu o sobrolho sem perceber. Para quê deixar entrar alguém? Ela não queria ver ninguém!

Não interessa. Só abre respondeu ele baixo, desligando logo a seguir.

Ela ficou com o telemóvel na mão, a olhar o ecrã, sem saber se chamava de volta perguntar quem era aquela senhora, porque não explicou mas já era tarde.

Mariana pousou o telefone ao lado e ali ficou, embalada pela dor, alheia ao mundo. O ruído dos vizinhos, o trânsito lá fora tudo indicava vida a acontecer, menos para ela. Ela sentia-se suspensa no tempo.

Dez minutos depois, uma campainha cortou o silêncio da casa. Um toque agudo e irritante, arrancando-a do torpor. O toque repetiu-se insistente, teimoso. Mariana levantou-se do sofá devagar, como se o corpo não lhe appartença. Puxou o robe desbotado e arrastou-se até à entrada.

No patamar estava uma mulher nos seus cinquenta, rosto simpático, olhos bondosos, e um sorriso contagiante parecia deslocado naquela casa triste. Trazia um saco enorme, de onde vinha o tilintar de frascos e utensílios.

Bom dia! Venho da empresa de limpezas, fui enviada pelo seu marido disse ela, animada mas delicada, com aquela calma de quem já viu de tudo.

Mariana abriu a porta e deixou-a entrar sem uma palavra, sem protestos. Limitou-se a afastar-se, segurando o robe, olhando a estranha com um olhar vazio.

A senhora começou logo a analisar a casa, sem ar crítico ou superior só a avaliar, com a experiência de quem já fez isto vezes sem conta. Deu um pequeno aceno de cabeça.

Ora bem, há aqui muito para fazer, mas isto resolve-se anunciou alegremente, pousando o saco e calçando luvas de borracha. Era tudo natural, como quem já conhece cada movimento de olhos fechados. Descanse, vá vendo a novela, eu trato disto. Daqui a umas horas está tudo limpo e cheiroso, vai ver!

Mariana não respondeu. Ficou a olhar enquanto a senhora arrumava panos, garrafas de detergente, tudo tirado do saco. Sentir alguém estranho a mexer-lhe na casa ali onde só imperou o silêncio e o caos não lhe provocava inveja, nem curiosidade. Só apatia, uma indiferença que tapava tudo.

Voltou para o sofá, mas já nem prestava atenção à novela. O som que lhe chegava agora era dos talheres a tilintar, da água a correr, e por vezes ouvia-se um assobio leve e despreocupado um fado animado que a senhora cantarolava.

Primeiro, isso irritou-a, como se alguém invadisse aquele espaço sagrado de silêncio. Mas depois foi-se tornando um ruído de fundo reconfortante, quase acolhedor. Acabou por adormecer e, pela primeira vez em muito tempo, o seu sono foi calmo, sem aqueles pesadelos que a perseguiam desde a perda.

Ao fim do dia, a casa brilhava. A senhora de limpeza deixara tudo impecável: superfícies a reluzir, o ar perfumado e limpo, as janelas agora a deixar entrar o sol. Era tanto o brilho e a luz, que Mariana teve de semicerrar os olhos. Não se recordava de ver a casa assim, tão viva. Parecia que uma camada de pó cinzento não só do móvel, mas dela própria fora apagada.

A senhora, sorridente, despediu-se prometendo voltar na semana seguinte. Mariana ficou no sofá, a acariciar a mesa limpa, a cheirar o vaso limpo, a sorrir sem querer. Era bom sentir aquele cheiro a casa nova.

Tocaram à porta outra vez. Mariana assustou-se já tão habituada ao silêncio que qualquer som lhe parecia estranho. Levantou-se, foi abrir: era o Rui, de braços cheios de um tupperware ainda a deitar vapor.

Trouxe-te a tua sopa de almôndegas preferida disse ele, pousando tudo na mesa, com aquele tom doce que raramente verbalizava, mas que se sentia em cada gesto. E salada de delícias do mar, como gostas.

Ela olhou para ele em silêncio. Nos olhos, lágrimas de cansaço, de surpresa, talvez por aquele sentimento novo, frágil, que crescia devagar. Não sabia ao certo: alívio, gratidão, esperança?

Obrigada sussurrou ela, a voz tremida, como se não falasse havia séculos.

Come enquanto está quente sorriu ele, sentando-se sem forçar conversa. E não te preocupes: cozinhar e limpar, podes esquecer. Eu trato de tudo.

As palavras dele ecoaram no ar, dando-lhe finalmente algum sentido ao espaço. Olhou para o prato de sopa, para a casa limpa, para as mãos dele e, nas primeiras semanas em muito tempo, sentiu que talvez, afinal, não estivesse sozinha naquela dor. Que havia alguém ali, disposto a carregar o peso ao lado dela.

A recuperação não foi rápida, nem fácil. Era um regresso lento, passo a passo. Primeiro, só o calor do prato de sopa nas mãos. Depois, perceber sabores novamente. Mais tarde, a ideia de um novo dia com mais luz, com as janelas abertas, só para deixar o sol entrar.

Todos os dias, o Rui chegava carregado de comida de fora. Guardava o que ela gostava e trazia sempre algo novo ora um arroz de pato bem português, ora um peixe assado com batatas, ou uma tarte de frutos vermelhos do café onde sabia que ela amava comprar. Fazia questão de dizer, ao pousar a comida na mesa:

Prova, fui perguntar à dona Alzira, ela disse que fazias isto sempre em pequena.

Ao princípio, Mariana comia em piloto automático, sem vontade. Mas, pouco a pouco, o sabor da comida despertava alguma coisa primeiro só prazer em estar cheia, depois um pequeno gosto, até que um dia sorriu ao reconhecer um sabor da infância.

Uma vez por semana, a senhora das limpezas regressava com o seu sorriso aberto e atitudes práticas. Não era só pela limpeza: enquanto limpava, fazia Mariana conversar contava histórias engraçadas do neto, casos caricatos do trabalho, tudo intercalado com um como te sentes hoje?, sem nunca ser invasiva.

Sabe, menina Mariana, isto da vida é como as limpezas. Parece impossível, mas se começares aos bocadinhos primeiro um canto, depois outro tudo acaba por brilhar dizia ela, a polir uma jarra.

Mariana escutava, só acenava ou devolvia algumas palavras. Sem perceber, estes encontros tornaram-se um ritual pequeno, seguro, quase tranquilizante.

Duas semanas depois, o Rui apareceu com um olhar animado:

Vai cá vir uma esteticista fazer-te manicure e pedicure, em casa.

Para quê? Mariana levantou os olhos devagar, fingindo ler um livro.

Porque mereces cuidar de ti. E sentir-te bonita.

A rapariga que veio, de sorriso meigo e mãos de fada, não pressionou apenas conversou levemente sobre vernizes, partilhou curiosidades, tratou das unhas, massajou-lhe os pulsos. Pela primeira vez em meses, Mariana sentiu-se relaxada permitiu-se não pensar. O calor dos cremes, o cheiro doce, os gestos lentos criavam um pequeno oásis de normalidade.

No dia seguinte, tocou à porta um cabeleireiro. Mariana hesitou, mas o Rui tranquilizou:

Achei que podias querer mudar, mas podes sempre recusar. Quero que escolhas.

Ela sentou-se à frente do espelho. O cabelo, sem brilho, atado num nó; o rosto desconhecido refletido ali, coberto de cansaço. Por dentro, algo mexeu não decisão, apenas um lampejo de vontade.

Corte curto, se faz favor disse, e ouviu-se firmeza ali, escondida há muito.

O cabeleireiro sorriu, como se estivesse habituado àqueles pedidos que não são só sobre cabelo, mas sobre virar uma página. Cortou, pacientemente, mecha a mecha. Quando terminou, rodou a cadeira para ela se ver. Mariana tocou no cabelo novo um bob solto junto ao queixo, que lhe dava leveza ao rosto e até ao olhar.

Está bem? perguntou ele já a guardar as tesouras.

Está, obrigada.

Quando saiu, o Rui entrou. Parou à porta, olhou-a com um sorriso orgulhoso.

Fica-te tão bem disse sinceramente.

Ela sabia que ele sempre adorara o cabelo longo, quantas vezes brincara com ele! Mas agora só havia apoio e amor naquele olhar.

Mesmo? quase sussurrou ela.

Mesmo e, chegando-se perto: Pareces viva.

Essas palavras ecoaram como esperança.

Os dias foram passando, feitos de pequenos progressos. A tristeza subsistia aquela tristeza boa, que é só memória. Já não era um nevoeiro constante, mas uma luz suave, que a recordava da capacidade para cuidar e amar.

Passava tempo à janela, a ver as crianças brincarem, os vizinhos com os cães, as árvores ganhar tons dourados no outono. A vida recomeçava devagar não a substituir o que perdeu, mas abrindo espaço para nova esperança, pequenas alegrias diárias.

Numa manhã, acordou não porque tinha de levantar-se, mas porque queria. Ficou ali, minutos, a sentir o corpo, a vontade de fazer algo, uma vontade sua, não obrigação. Vestiu uma camisola de gola alta aquela de lã que a mãe lhe dera no Natal e percorreu a casa. Chegou à cozinha, abriu o frigorífico. Viu cogumelos, natas, salsa fresca. “Sopa de cogumelos. O Rui adora.” Lavou os ingredientes, cortou-os, coisa simples, como se voltasse a descobrir prazer em cozinhar. O cheiro espalhou-se, quente, reconfortante.

O Rui chegou do emprego, ficou surpreendido no limiar da cozinha, embalado por aquele aroma familiar.

O que é isto? perguntou, vendo Mariana sorridente atrás do tacho.

Sopa de cogumelos, a tua preferida. Fiz para ti respondeu, sinceramente, e o sorriso dela era natural, daquele que brilha nos olhos.

O Rui aproximou-se, abraçou-a, encostou o rosto ao ombro dela e ficou assim, a saborear o momento.

Obrigado sussurrou, e nesse agradecimento havia tudo.

Jantaram juntos, à mesa, sopa cremosa como ele gostava desde criança. Mariana olhou para ele durante o chá e disse-lhe:

Descobri uma coisa.

Então?

Tu deixaste-me sentir tristeza. Não me apressaste, não disseste anima-te, não tentaste distrair-me com banalidades. Limitaste-te a estar aqui e isso, Rui, ajudou.

Ele apertou-lhe a mão, emocionado.

Só quero que saibas que não estás sozinha. Amo-te assim, em qualquer estado, com o cabelo que quiseres, num bom ou mau dia.

As lágrimas voltaram, mas leves, de gratidão. Apertou-lhe a mão com tudo o que sentia.

A vida voltou devagarinho. Ao princípio tudo custava cada passo era uma pequena conquista. Mas não havia pressas. Mariana cozinhava não por obrigação, mas pelo prazer de alimentar aqueles momentos juntos. Escolhia receitas, punha música, deixava-se embalar no vapor do tacho. O Rui ajudava sempre: elogiava, agradecia, comia até as experiências menos conseguidas.

Pouco a pouco, voltou também às tarefas da casa. No início, só pequenas: lavar loiça, passar um pano, trocar as flores de vaso. Rui continuava a ajudar, levando o lixo e tratando do resto. Mas, ao dizer hoje limpo eu ou faço o teu pequeno-almoço, já era a Mariana de antes.

Começou a dar pequenos passeios. Primeiro à volta do quarteirão, depois até ao jardim mais perto. Reparava nas folhas caídas, no cheiro da terra, nos pássaros das praças. Era como meditar: o passo certo, o ar fresco, o mundo a renascer à frente dela.

Retomou pouco a pouco as amigas. Ligações curtas ao início, depois cafés. As amigas sentavam-se, riam-se, falavam dos filmes ou do tempo e isso era tão importante. Mariana sentia que podia rir outra vez, envolver-se nas vidas alheias, sentir-se parte do mundo.

E aos poucos voltou a cuidar do Rui como ele cuidou dela. Cozinhava para mimar, recebia-o com um sorriso de verdade, fazia perguntas sobre o dia. Voltava a ouvir com atenção, não só de corpo presente.

Uma noite, estavam no sofá, abraçados, o tempo colado à janela lá fora. Chuva suave, luz quente do candeeiro, o chá a faltar beber, o bloco de desenhos ao colo da Mariana. Ela encostou-se ao Rui, fechou os olhos.

Obrigada, por tudo.

Ele respondeu só com um beijo no cabelo e um abraço apertado.

Eu é que te agradeço. Por estares aqui. Por teres voltado.

Ficaram os dois em silêncio, só o som dos relógios, a chuva, e os corações a bater sincronizados. A vida continuava, agora com espaço para tristeza, para alegria, e aquele amor tranquilo, forte, que sobrevivia a tudo.

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