— Pai, quero apresentar-lhe a minha futura esposa e sua nora, a Varvara! — exclamou Boris, radiante …

Pai, venha conhecer, esta é a minha futura esposa, e sua nora, Feliciana! dizia o Bruno, radiante de felicidade.
Quem?! respondeu o professor, doutor Aníbal Monteiro, surpreso. Se isto é uma brincadeira, não tem graça nenhuma!
O homem olhava com desagrado para as unhas das mãos ásperas da nora. Parecia-lhe que aquela rapariga desconhecia o que era água e sabão. Só assim se explicava a sujidade entranhada debaixo das unhas.
«Meu Deus! Que sorte a minha Mariana não estar cá para ver tal vergonha! Fizemos tudo para ensinar bons modos a este rapaz…» pensou, angustiado.
Não estou a brincar! respondeu Bruno, desafiador. A Feliciana vai ficar cá em casa, e em três meses vamos casar. Se não queres participar no casamento, então eu arranjo tudo sozinho!
Olá! sorriu Feliciana, entrando na casa com um à-vontade notório. Trouxe pastéis, doce de framboesa, cogumelos secos, ia enumerando os alimentos que retirava da mala já gasta.
Aníbal Monteiro segurou o peito ao ver Feliciana derramar doce sobre a toalha de linho branca, bordada à mão.
Bruno! Sê sensato! Se estás a fazer isto para me provocar, já chega É cruel demais! De onde trouxeste esta rapariga sem maneiras? Não permito que ela viva na minha casa! gritava o professor, desesperado.
Eu amo a Feliciana. E minha mulher tem todo direito a viver comigo! respondeu Bruno, petulante.
Aníbal percebeu que o filho estava apenas a provocá-lo. Sem mais palavras, retirou-se para o quarto.
Os últimos tempos tinham mudado muito a relação com Bruno. Desde que a mãe morreu, o filho tornou-se intratável. Largou a universidade, passou a tratar mal o pai e vivia numa vida de excessos.
Aníbal ainda esperava que Bruno mudasse; que voltasse a ser ponderado e bondoso. Mas, dia após dia, o rapaz afastava-se. Já hoje tinha trazido esta rapariga da aldeia, sabendo que o pai nunca aceitaria aquela escolha.
Pouco tempo depois, Bruno e Feliciana casaram. Aníbal recusou-se a ir ao casamento. Revoltava-se pensar que Feliciana, sem educação nem modos, ocupava o lugar da sua amada Mariana, exemplar dona de casa, mulher e mãe.
Feliciana parecia ignorar o desprezo do sogro e tudo fazia para agradá-lo, mas só conseguia piorar. Aníbal não conseguia ver nenhuma qualidade nela, apenas via a falta de educação e de maneiras.
Bruno, depois de brincar ao marido exemplar, voltou às noites de copos e festas. O pai ouvia frequentemente as discussões do casal, e sentia até alegria com isso, esperando que Feliciana acabasse por ir embora.
Senhor Aníbal! entrou Feliciana a chorar. O Bruno quer o divórcio, e está a mandar-me embora, mas eu estou grávida!
Porquê pôr-te na rua? Tu não és sem-abrigo Vai para a aldeia de onde vieste. O facto de estares grávida não te dá direito de viver aqui depois do divórcio. Desculpa, mas não me vou meter nos vossos assuntos disse o homem, sentindo-se finalmente livre daquela nora inconveniente.
Feliciana chorou, e começou a fazer a mala. Não compreendia porque o sogro a odiara desde o primeiro dia, nem porque Bruno brincara com ela como se fosse um animal, apenas para a dispensar. No fundo, também tinha sentimentos
***
Oito anos passaram Aníbal Monteiro agora vivia num lar de idosos. Nos últimos anos, envelheceu e perdeu forças. Bruno rapidamente arranjou forma de se ver livre do pai, delegando a responsabilidade ao lar.
O velho aceitava resignadamente a sua sorte, consciente de que alternativa não tinha. Ao longo da vida, ensinara milhares de alunos sobre valores como carinho, respeito e amizade. Ainda recebia cartas de agradecimento dos seus antigos alunos Mas ao próprio filho não conseguiu educar como queria.
Aníbal, tens visitas! disse-lhe o colega de quarto, ao regressar do passeio.
Quem? O Bruno? escapou-lhe, mesmo sabendo que o próprio filho nunca o visitaria, tal era o rancor.
Não sei. A funcionária pediu-me para te chamar. Anda lá, vai ver! sorriu o colega.
Aníbal pegou na bengala e saiu lentamente do quarto abafado. Ao descer as escadas, avistou-a ao longe e reconheceu-a logo, apesar dos anos.
Olá, Feliciana! disse, em voz baixa, de cabeça inclinada. Talvez ainda se sentisse culpado pela falta de apoio àquela mulher simples e sincera há oito anos atrás
Doutor Aníbal?! admirou-se Feliciana, agora com rosto rosado. Mudou tanto Está doente?
Um pouco, sorriu, triste. Mas como soubeste onde estou?
O Bruno contou. Sabe bem que não quer falar com o nosso filho. Mas o miúdo pede sempre para ver o pai, ou o avô O João não tem culpa de não reconhecerem o seu valor. Cresceu sem família, só comigo, disse, com voz trémula. Desculpe, talvez seja errado esta visita.
Espera! pediu Aníbal. Como está o João? Lembro-me da última foto, ele tinha só três anos
Está ali, à porta. Chamo? perguntou Feliciana, hesitante.
Claro, filha, chama! sorriu Aníbal, emocionado.
Entrou pela sala um rapazinho ruivo, igualzinho ao Bruno em criança. João aproximou-se, tímido, do avô que nunca conhecera.
Olá, querido! Já és tão crescido disse o velho, com lágrimas nos olhos enquanto o abraçava.
Passaram horas a conversar e a passear pelas alamedas do jardim do lar. Feliciana contou as dificuldades de criar o filho sozinha depois de perder a mãe cedo.
Desculpa, Feliciana! Fui injusto contigo. Julguei ser sabedor e instruído, mas só agora percebo que a verdadeira essência das pessoas está na alma, não nos modos ou nos estudos, confessou Aníbal.
Doutor Aníbal! Temos um convite para si, sorriu Feliciana, nervosa. Venha viver connosco! Está sozinho, e nós também. Queríamos tanto ter família por perto…
Avô, venha! Vamos pescar juntos, apanhar cogumelos no bosque A nossa aldeia é linda, e temos espaço suficiente! pediu João, apertando-lhe a mão.
Vou convosco! sorriu Aníbal Monteiro. Falhei com o meu filho, mas quero corrigir com o neto o que não consegui antes. Nunca vivi numa aldeia, espero gostar!
De certeza que vai gostar! disse João, rindo.

Hoje compreendi que a vida só vale a pena com os laços da família, mesmo quando eles surgem onde menos esperamos.

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— Pai, quero apresentar-lhe a minha futura esposa e sua nora, a Varvara! — exclamou Boris, radiante …