Olha, pai, é melhor não vires cá mais! Sempre que vais embora, a mãe começa logo a chorar. E chora até ficar de manhã.
Eu adormeço, acordo, volto a dormir e acordo outra vez, e ela continua a chorar sem parar. Pergunto-lhe: «Mãe, estás a chorar por causa do pai?..»
E ela diz que não está a chorar, só está constipada. Mas eu já sou crescida e sei bem que constipação não faz lágrimas assim, nem voz trémula.
O pai da Beatriz estava sentado com ela numa pastelaria, mexendo o café já frio numa delicada chávena branca.
Já Beatriz nem tinha tocado no seu gelado, apesar de à frente dela estar um verdadeiro quadro: bolas coloridas, cobertas por uma folhinha de hortelã e uma cereja, tudo regado com chocolate.
Qualquer menina de seis anos não resistiria àquele espetáculo. Mas Beatriz nem pensava nisso, pois já tinha decidido, ainda na sexta-feira passada, que ia falar a sério com o pai.
O pai ficou calado, muito tempo calado, até que falou:
Então, filha, o que fazemos? Não nos vemos mais? Como é que vou viver assim?..
Beatriz franziu o nariz, aquele nariz bonito igual ao da mãe, um pouco batatinha, pensou. E disse:
Não, pai. Eu também não consigo viver sem ti. Podemos fazer assim: telefona à mãe e diz que, às sextas-feiras, vais buscar-me ao Jardim de Infância.
Passeamos juntos, se quiseres café ou gelado, vamos a uma pastelaria. E vou-te contar tudo sobre como vivemos eu e a mãe.
Pensou mais um pouco, e depois continuou:
E se quiseres ver a mãe, eu tiro fotografias dela todas as semanas e mostro-te no telemóvel. Queres?
O pai olhou para a filha esperta, sorriu levemente e acenou com a cabeça:
Então fazemos assim, filha…
Beatriz suspirou de alívio. Pegou finalmente no seu gelado, mas ainda não tinha terminado o que queria dizer. Com o bigode de chocolate das bolas coloridas, limpou-o com a língua, séria como uma adulta.
Quase uma mulher. Daquelas que sabem cuidar dos seus homens. Mesmo que esse homem já seja crescido: o pai fez anos na semana passada. Beatriz desenhou-lhe um postal para a data, pintando com carinho o enorme número «28».
O rosto ficou sério, as sobrancelhas unidas, e ela disse:
Acho que devias casar-te…
E, com generosidade de criança, mentiu um bocadinho:
Ainda não és assim tão velho…
O pai percebeu a boa vontade da filha e riu-se:
Diz antes não és muito…
Beatriz insistiu cheia de energia:
Não és mesmo! Olha o tio Rogério, que já veio cá duas vezes atrás da mãe, esse até é careca, um bocadinho, aqui…
E Beatriz passou a mão nos caracóis, simulando o local. De repente percebeu, ao ver o pai mais tenso e com o olhar agudo, que revelara sem querer o segredo da mãe.
Por isso, tapou a boca com as mãos e arregalou os olhos, mostrando espanto e confusão.
Tio Rogério? Quem é o «tio Rogério» que anda a visitar-vos? É o chefe da mãe?.. quase gritou o pai, para toda a pastelaria ouvir.
Não sei, pai… Beatriz ficou atrapalhada pela reação. Se calhar é o chefe. Ele vem cá, traz-me rebuçados. E bolo para todos nós.
E também… Beatriz hesitou, ponderando se devia confiar aquela informação ao pai, ainda mais com ele tão desatinado, traz flores à mãe.
O pai entrelaçou os dedos, pousados na mesa, e ficou a olhar fixamente para eles. Beatriz percebeu que ele estava a tomar uma decisão muito importante.
Esperou a jovem mulher, sem apressar o homem. Já sabia, ou intuía, que todos os homens demoram a chegar às decisões certas, mas que cabe à mulher ajudá-los a encontrar o caminho especialmente se for uma das mais queridas da vida deles.
O pai ficou calado, calado e, por fim, suspirou fundo, levantou o olhar e disse… Se Beatriz fosse um pouco mais velha, perceberia que o tom era o mesmo de Otelo ao questionar Desdémona.
Mas para já, ela nada sabia de Otelo, nem de Desdémona, nem de outros grandes apaixonados. Vivia simplesmente entre pessoas, aprendendo como elas se alegravam, como sofriam tantas vezes por pequenas coisas.
Então o pai disse:
Vamos, filha. Já é tarde, levo-te a casa. E aproveito para falar com a mãe.
Beatriz não perguntou sobre o que o pai ia falar com a mãe, mas percebeu que era importante e apressou-se a acabar o gelado.
Percebeu então que aquilo que o pai ia fazer era muito mais importante do que o melhor dos gelados, por isso, largou a colher na mesa, deslizou da cadeira, limpou os lábios com o dorso da mão, fungou discretamente, e olhando para o pai, disse:
Estou pronta. Vamos…
Foram para casa quase a correr. O pai corria e Beatriz, pela mão, quase voava, como uma bandeira ao vento.
Ao chegar ao prédio, viram o elevador fechar-se lentamente, levando algum vizinho. O pai olhou para Beatriz, algo atrapalhado. Ela, olhando de baixo para cima, perguntou:
E então? Porque estamos aqui parados? Estamos só no sétimo andar…
O pai pegou-a ao colo e subiu as escadas a correr.
Depois de tocar várias vezes à campainha, quando a mãe finalmente abriu a porta, ele começou logo pelo principal:
Não podes fazer isto! Que Rogério é esse? Eu amo-te. E temos a Beatriz…
Sem largar a filha, abraçou também a mãe. E Beatriz envolveu os dois pelo pescoço, fechando os olhos. Os adultos beijavam-se…
Na vida é assim: às vezes é preciso uma criança pequenina para lembrar aos adultos que o amor entre eles e pelos filhos pode vencer o orgulho e as mágoas.
No fundo, aprender a ouvir quem mais amamos e deixar o coração falar é o ensino mais valioso.
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