Pai, tu lembras-te da Esperança Alexandrina Martins? Hoje é tarde, mas amanhã vem até minha casa. Quero apresentar-te o meu irmão mais novo erepara bemteu filho. Pronto. Até amanhã!
O miúdo estava a dormir mesmo encostado à porta dela. Beatriz ficou intrigada. Porque raio está uma criança a dormir ao relento, tão cedo, num prédio que não é o seu? Com uma década de experiência como professora, não conseguia simplesmente fingir que aquilo não lhe dizia respeito. Abaixou-se e sacudiu-lhe o ombro magro com delicadeza:
Oh jovem, acorda lá!
O quê? O rapaz ergueu-se, atrapalhado.
Quem és tu? Que fazes aqui a dormir?
Não estou a dormir. Só… o seu tapete é fofo. Sentei-me e adormeci sem querer respondeu, envergonhado.
Beatriz morava há pouco tempo naquele prédio. Só seis meses desde que comprara o apartamento após o divórcio. Não conhecia ninguém no prédio, mas percebia bem que o miúdo não era dali.
O rapaz devia ter uns dez, talvez onze anos. A roupa, já velhinha, mas limpa. Mexia-se muito, quase que saltitava no lugar.
Beatriz percebeu logo: aquele miúdo precisava mesmo era de ir à casa de banho.
Vai lá, mas despacha-te, estou atrasada para o trabalho e abriu-lhe caminho para dentro.
Ele olhou-a de soslaio, olhos azul-claros, daqueles que quase não se vêem por cá.
Cor de olhos raro, pensou ela. Enquanto o visitante lavava as mãos, Beatriz preparou-lhe duas sandes de fiambre.
Toma, come qualquer coisa.
Obrigado! Ele já estava à porta. Salvou-me, a sério. Agora posso esperar descansado.
Esperar quem? perguntou Beatriz.
A avó Antonieta Pereira. Mora aqui perto, conhece?
Conheço mal, mas sei que a levaram anteontem de ambulância, para o hospital. Vi quando voltava do trabalho, levavam-na na maca.
Sabe para que hospital foi? O rapaz sobressaltou-se.
Ontem ouvi que era para o São João. Deve ter ido para lá.
Pronto, já percebi. E, como se chama? perguntou ele, a sentir-se já mais à vontade.
Beatriz Figueiredo respondeu, já a correr porta fora.
Durante o dia, Beatriz foi engolida pelo caos típico das escolas públicas, mas o rapaz não lhe saía da cabeça.
Se calhar é aquele instinto maternal que nunca exerci, pensava, um pouco triste. Não tinha filhos. O ex-marido foi ser feliz logo com outra, teve logo uma filha, e ela ficou a olhar o vazio.
No intervalo maior, Beatriz telefonou ao hospital: vózinha internada, AVC, prognóstico duvidoso 78 anos tem que se lhe diga.
Naquele fim de tarde, lá estava ele outra vez, agora sentado no parapeito da janela do prédio.
Estava à sua espera sorriu, aliviado. Disseram-me que a avó vai ficar internada muito tempo. Nem me deixaram vê-la.
Beatriz perguntou-lhe o nome.
Chamo-me Tomás. Não Tomé. Tomás.
Recém-lavado e alimentado, a professora começou logo a inquiri-lo:
Fugiste de casa? Os teus pais devem estar desesperados…
Não tenho pais. Vivo em casa da minha tia.
Então a tua tia estará preocupada.
Não. Disse-lhe que vinha ficar com a avó. Ela não sabe que a avó foi para o hospital. Não quero voltar para lá. É boa pessoa, quase não bebe. Mas o marido dela bebe todos os dias. E já têm quatro filhosdaqui a pouco vêm mais. E eu sou a cereja no topo do bolo.
Disseram-me que vão pôr-me num centro de acolhimento. Não quero ir! Não lhe incomodo, pois não? A minha mãe dizia que eu era hiperativo, igual ao meu pai e com olhos claros como ele. A minha mãe já morreu há dois anos.
Como se chamava a tua mãe?
Esperança Alexandrina Martins. Era boa, tão bonita. Secretariava o diretor de uma fábrica de químicos, não lembro o nome.
E o teu pai? Beatriz ficou atenta.
Pai? Nunca tive respondeu Tomás, cabisbaixo.
E foi nesse instante que Beatriz percebeu a inquietação que aquele encontro lhe trouxe. Os olhos! Só tinha visto olhos assim numa pessoa: o seu próprio pai.
E o seu pai fora diretor de uma fábrica
Beatriz ficou sem ar. Romance de diretor e secretária tão cliché. Terá ele sabido da gravidez? Reparou sequer no sumiço dela?
E ela? Deu o nome do pai ao filho; devia ter amado, muito!
Beatriz era filha única. Fora sempre desejo dela ter irmãos. Irmão ou irmã, tanto fazia.
Tomás, vai comprar pão e deu-lhe as moedas. O supermercado é já ali à frente.
Aproveitou a ausência, ligou ao pai:
Pai, lembras-te da Esperança Alexandrina Martins? Amanhã vem cá. Apresento-te o teu irmão mais novo… e teu filho. Pronto, até amanhã!
Quando Tomás voltou, Beatriz já lhe tinha feito a cama no sofá da sala.
Toma banho, vai dormir disse, maternal.
Não fazia ideia de como seria o dia seguinte. Uma só certeza: não ia entregar o irmão àquela família nem, muito menos, a um orfanato.
O pai chegou bem cedo, de manhã. Em regra, ao fim de semana Beatriz dormia até tarde, mas nessa noite mal pregara olho.
Tinha uma ligação forte com o pai. Sempre atento, sempre cúmplice. Foi ele que lhe deu ânimo para ser professora, quando a mãe fazia drama que tal só servia para quem se resignava à mediocridade. Irónico: a mãe, filha de agricultores, achava-se uma senhora de berço. Só o pai abençoou o casamento dela, só ele ajudou a sarar as feridas do divórcio.
O pai chegou impecável: camisa engomada, calças vincadas, sapatos reluzentes. Perfume discreto mas caro; ele era a definição de homem bem-posto.
Então o que é que inventaste, agora? Irmão?! Fiquei sem dormir entrou queixoso.
Fala baixo, o meu hóspede ainda está a dormir e levou-o à cozinha. Vamos comer. Devias estar faminto.
Durante o pequeno-almoço, Beatriz pôs o pai a par do enredo.
Isso é esquisito disse ele. Tive uma secretária, Esperança Martins, sim. Era atenciosa, jovem, simpática. Devia gostar de mim, tinha aquele olhar sonhador.
Olha, confesso, deixei-me ir. Fui tentado. És mulher, sabes bem como estas coisas acontecem. A tua mãe nunca ia saber. Uma vez, ela, a Esperança, perguntou: Gostava de ter um filho?. Disse-lhe: Já tenho uma filha; filho, agora, já me passou a idade.
Depois, a mãe dela adoeceu. Pediu licença prolongada, foi ao norte tratar da família. Veio só passado cerca de um ano, toda sorridente. Brinquei, perguntei se se casara. Disse que sim, que tinha tido um filho, um rapaz. Alugavam apartamento, mas ela ficara Martins nos documentos.
Hoje em dia, toda a gente vive em união de facto, sabes como é. Depois disso, só falávamos de trabalho. Vida dela era dela. A minha era com a tua mãe.
Uns três anos atrás, adoecera. Fiquei a saber da morte dela quando assinei o papel da ajuda de funeral.
Foi cedo demais. Era tão nova Mas, filha, a Esperança casou e teve um filho, não pode ser meu concluiu o pai.
Então, o hóspede acordou. Muito educadamente, deu as boas-noites, e ali ficaram os três.
O pai esbranquiçou. E agora que estavam lado a lado o Tomás era igualzinho ao pai em pequeno.
Ora, vamos apresentar-nos! atirou, oferecendo a mão, visivelmente nervoso. António Martins.
Tomás António Martins disse, pousando a mão na dele, confiante.
Os dois levantaram as sobrancelhas no mesmo milésimo de segundo.
Hoje só tenho Antónios em casa brincou Beatriz, a disfarçar o nervosismo com uma gargalhada.
Tomás foi lavar-se. António ficou de olhos postos na filha.
Não entendo nada disto. É igualzinho a mim! A Esperança disse que tinha casado e tido um filho?
Ela nunca casou! corrigiu Beatriz. Foi embora, só para não ter que enfrentar a situação. Esperava por ti para te contar. Consulta lá na contabilidade quanto tempo ela teve de licença. O casamento foi só para enganar o coração. Amou-te de verdade Tomás garante que nunca teve pai. Nunca!
Outra coisa estranha: a Esperança era filha única, tal como tu, filha! Não tinha irmã, nem irmão. De onde apareceram tia e avó?
Tomás, à porta, ouviu tudo e respondeu:
Falavam da minha mãe? A tia Vera não é bem tia, é parente distante. Vieram viver cá para o Porto quando a minha mãe já estava doente. A avó Antónia é mãe da minha tia Vera. Quando morreu a minha mãe, a tia Vera ficou comigo. Tivemos que sair do apartamento alugado. Eles ficam comigo pelo dinheiro, acho eu. O marido dela queixa-se que é pouco
Ah, eu lembro-me de si, doutor António! A sua fotografia estava na cómoda da mãe. Achava que era algum artista na televisão. Perguntei-lhe, e ela disse que depois contava.
Beatriz serviu o pequeno-almoço a Tomás e mandou-o ao cinema, mesmo ali ao lado.
Pai, ainda tens dúvidas? perguntou-lhe.
Acho que não, mas vamos ter de confirmar respondeu. Vai ser preciso teste de ADN e tudo
Seguiram-se dramas: a esposa de António Martins, dona Amélia, simulou enxaqueca, crise de tensão e ameaçou ter um enfarte. Acabou por ir passear para o Algarve. Só ao fim de muitos dias é que quis conhecer o miúdo. Até simpatizou mas para criar, não! Visitar, tudo bem. Criar? Nem pensar, a minha saúde não aguenta. Os nervos já não voltam ao lugar
E tenho cá a empregada, mas educadora é que não é! suspirou ela.
Ninguém insistiu. António Martins, esse, estava cada vez mais apegado a Tomás. Eram iguais: detestavam papas, mas devoravam bolinhos e adoravam gatos.
Só que, lá em casa, Amélia sofria de alergia felina, e Tomás nunca tivera sequer casa permanente, quanto mais um animal.
Os dois partilhavam uma pequena falha: ambos falavam com um ligeiro soprar entre os dentes, como se fossem uma família de sibilantes.
Por fim, concluíram-se os trâmites o processo paterno é coisa demorada. António Martins foi até casa da filha, chamou Tomás e anunciou:
A partir de hoje, por lei, és meu filho. Aqui está o teu novo cartão de cidadão. Sempre foste meu filho, eu simplesmente não sabia. Perdoa-me, se conseguires
Não te vou obrigar a chamar-me pai se não quiseres. Mas olha que agora nunca mais vais estar sozinho no mundo. Tens proteção e quem te ampare. Eu sou o teu pai. A Beatriz é tua irmã.
Eu percebi logo, à primeira vista, que eras meu pai sorriu Tomás.
Estes miúdos são cada vez mais perspicazes riu António e abraçou o filho.
Beatriz viu-lhe os olhos húmidos, mas ele recompôs-se de imediato. Tomás ficou morando com Beatriz. De vez em quando, ia visitar Amélia, e o pai passava lá todos os dias. E finalmente, puderam adotar juntos um gatinho!
Um velhote distribuía gatos à porta do Pingo Doce. Tomás escolheu o mais magrinho, batizou-o de Mimoso. Nesse instante, Tomás sentiu-se o rapaz mais feliz de Portugal!
PS:
António Martins não esqueceu: mandou erguer um elegante monumento branco à memória da Esperança.
Vão juntos visitá-la com frequência, levando flores.
Um dia, ao deixar rosas frescas, Tomás disse:
Pai, sabes… Um dia antes de morrer, a mãe disse para eu não chorar muito. Que nunca ia embora de verdade. Apenas mudava de mundo e que, de lá, cuidava de mim. Disse até que faria tudo para ajudar-me e hoje sei que foi ela que me pôs no caminho da Beatriz, e depois de ti! Tenho a certeza! Tu acreditas, pai?
Claro que sim disse António, com um sorriso.







