Olha, acredita que a minha nora ainda teve lata de resmungar comigo porque diz que os miúdos só veem fruta uma vez por mês e eu compro ração de qualidade aos meus gatos? Chama-me insensível, imagina só Mas repara, cada um que cuide dos seus: os miúdos têm pai e mãe para se preocuparem com a alimentação deles os meus gatos só têm a mim. Quando uma vez disse ao meu filho e à Mariana (sim, a nora…) que era melhor pensarem duas vezes antes de continuarem a aumentar a família, ainda levei logo com um isso não é da sua conta. Pois olha, agora não me meto. Trato dos meus bichanos e aguento ouvir a nora, cheia de moralidade materna, a destilar opiniões.
O casamento do meu filho foi relâmpago: a Mariana já vinha de barriga render, mas claro que os dois juravam a pés juntos que foi tudo por amor, que a gravidez foi só uma coincidência do destino. Eu revirei logo os olhos, mas pronto, cada um com as suas certezas. O rapaz já era crescido, as responsabilidades agora batiam à porta dele.
A Mariana trabalhava como caixa num supermercado, mas a gravidez toda foi passada entre baixas médicas e queixas: que era cansativa, que os clientes eram conflituosos, que não aguentava o cheiro disto e daquilo. Sinceramente nunca foi pessoa de grande paciência ou feitio fácil, por isso até acredito que passasse a vida em conflitos.
No fundo, pouco me importava o feitio da esposa do meu filho: cada um na sua casa. Eu na minha T1, sozinha e descansada, eles na deles, uma T3 a pagarem ao banco porque o meu filho, antes do casamento, vendeu a nossa antiga casa e ficou com a parte dele como entrada para a hipoteca. Na altura ainda lhe disse: Ó André, mas para quê uma T3 agora? Vais pagar tanto porquê? , mas, claro, o menino já sabia o que estava para vir.
A verdade é que a Mariana, com tanta baixa e depois de licença de maternidade em cima, pouco ou nada trazia para casa. Agora, gastar era com ela! Resultado? Andavam sempre de contas à pele.
Eu, para não me meter e não aparecer depois como a má da fita, limitava-me ao meu canto. Ele escolheu? Que aguente. Nem pratos nem banhos tínhamos que partilhar, por isso que se arranjassem.
Ainda assim, o André morava aqui perto e às vezes, depois do trabalho, passava por cá para jantar, já que a Mariana nunca se preocupou em pôr panelas ao lume dizia que enjoava os cheiros todos. É verdade? Pode ser, não me meto.
Quando nasceu o meu primeiro neto, pensei logo em ajudar: afinal era o primeiro e ela não era propriamente experiente. Mas logo me puseram no meu lugar: Eu desenrasco-me, obrigada. Para conselhos tenho o Google e a minha mãe. Pronto, ‘tá bem. Nem insisti. Ia lá para brincar um bocadinho com o miúdo e levava sempre umas coisinhas, mas de dar ajuda, nunca mais.
O André andava aflito com a prestação do banco, mulher e filho a cargo, mas nunca me veio chorar as mágoas. E eu pouco podia fazer além de lhe dar um prato quente e uma palavra amiga: Filhão, quando a Mariana voltar a trabalhar, as coisas vão melhor , dizia eu, a ver se animava.
Mas a Mariana nunca mais voltou ao trabalho. Quando o miúdo fez quase dois anos, já vinha aí outro a caminho. Ainda lhes joguei a piada, Vocês querem resolver o problema da natalidade do país sozinhos? , levei logo com um Olhe, não se meta! Nós desenrascamo-nos! e pronto. Ele falava do abono de família e das ajudas, mas se foi essa a escolha deles
Relação com a Mariana nunca foi grande coisa e depois disso então, ficou mesmo por ali. Só via o meu neto quando o André o trazia, porque casa deles, só mesmo em festas.
Eu seguia a minha vida, eles a deles. O André por vezes desabafava Mãe, o dinheiro não chega, discutimos por tudo ela não sabe poupar, eu também não faço milagres , mas habituei-me a calar. Que havia eu de dizer? “Separa-te?”, “Fala com ela?”, “Arranja outro trabalho?” Como se fosse assim tão fácil…
Quando nasceu o segundo neto, nem sequer fui à maternidade. Nem convite houve. Custou-me, não vou mentir, mas enfiar-me de braço dado onde não sou querida também não é para mim. A primeira vez que vi o miúdo foi já ele tinha sete meses, porque me deixaram ir ao aniversário do mais velho. Levei prendas e uns salgados, sabendo como eles andavam apertados, fiquei lá um par de horas e pronto, vi logo pelo ar da Mariana que estava ali quase por obrigação.
Estou noutra fase não ando atrás de raparigas armadas em rainha a tentar convencê-las de seja o que for. Aliás, só mantenho contacto com o neto mais velho porque o André ainda mo traz o mais novo, nem vê-lo, a mãe não deixa.
O André continuava aflito com a casa, nem o subsídio parental resolveu nada. As conversas dele eram cada vez mais sobre discussões e dinheiro a menos. Eu escutava calada.
Outro dia, dou de caras com a Mariana no Pingo Doce, barriga já novamente a saltar à vista. Espiou para o meu cesto e lá veio o veneno: Pois, os meus filhos só veem fruta uma vez por mês, mas ela compra aquela ração de marca para os gatos , atirou, quase cuspindo as palavras, e levou logo o mais velho pela mão, disparada.
E agora pergunto: a culpa é minha por poder comprar ração boa para os gatos e eles mal conseguirem comprar fruta para as crianças? Se sabe que está apertada, que a casa está por pagar e o marido com trabalho fraco, porque é que continua a engravidar? Se desse ao trabalho de ir trabalhar, talvez os miúdos comecem a comer fruta mais vezes. Não sou eu que tenho de me martirizar.
O mais certo é a Mariana proibir-me de ver os netos, eu, a avó má que não despeja o ordenado todo para a vida dos filhos. Cada um que pense por si, mas parece-me que ela nunca conseguiu fazer isso. E, sinceramente, cada vez acho mais que o meu filho também não.







