Diário de um fim anunciado
Hoje, o Miguel implicou comigo logo ao chegar ao café: Eh pá, pareces abatido! Chateaste-te com a Mafalda, foi? disse ele, a tentar animar o ambiente com aquele jeito típico. Não te preocupes, pá, as mulheres são assim: hoje zangam-se, amanhã já não conseguem viver sem ti!
Respondi-lhe apenas, seco: Nós acabámos, deixando bem claro que não queria conversar sobre o assunto. Tentei concentrar-me no ecrã do portátil, mas não havia maneira de afastar a inquietação que me consumia por dentro.
O Miguel ficou de boca aberta, genuinamente incrédulo. Conhecia-me demasiado bem, sabia o quanto me tinha dedicado à Mafalda. Por ela fiz coisas que nunca imaginei: comprava-lhe flores em qualquer ocasião, mostrava aos amigos com orgulho as prendas caras que lhe dava, contava como a levei ao restaurante panorâmico novo em Lisboa. Sextas no Bairro Alto, sábados no teatro ou no Museu Nacional de Arte Antiga. E eu, o tipo que preferia pesca e um bom jogo do Benfica, transformei-me só para estar à altura dela.
Gastaste rios de euros com ela, afastaste-te dos amigos e até começaste a construir uma casa e agora assim, de repente, acabou tudo? O Miguel não queria julgar, mas era o desabafo sincero de quem se preocupa. Via nos seus olhos que lhe custava ver-me assim, despedaçado por dentro.
Mas não adiantava insistir. Sentia uma mistura de raiva, dor e vazio tão grande, que quase não me conseguia controlar. Só queria que me deixassem em paz, nem no café tinha sossego. Há buracos que não se tapam com palavras.
No fundo, não estava preparado para aceitar o fim. Só quem sentiu sabe: a amar, o coração não obedece à razão. Foi tudo tão real e por isso a dor tornou-se mais funda
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Ainda me lembro como tudo começou, por acaso, como quase sempre acontece. Nesse dia, a Mafalda entrou no Continente depois do trabalho para fazer as compras da semana. Demorou-se pelos corredores, escolhendo legumes, arroz, iogurtes, essas coisas. À saída, apercebeu-se que tinha três sacos pesados, a rebentar, e ainda ia a pé até à paragem para apanhar o autocarro para Benfica. Tentou chamar um Uber, mas nada todos ocupados.
Ela pousou os sacos, limpou o suor da testa e lançou um olhar à volta. Foi aí que os nossos olhos se cruzaram. Eu estava a comprar uma garrafa de São Lourenço e um pacote de Delta. Sorri, sem querer, ao ver o ar desamparado dela.
Aceita boleia?, perguntei, aproximando-me devagar.
Ela sorriu de lado, desconfiada. Estava habituada a desenrascar-se sozinha. Olhe, é um bocadinho estranho mas confesso que já não sinto as mãos. Pode ser, mas aviso já: não tenho café nem chá para oferecer!
Ri-me aquele riso espontâneo, genuíno, que não se finge e prometi que não ia entrar de penetra lá em casa.
Levei os sacos ela ficou quase sem jeito de tanto agradecer. O meu carro não estava longe, um Renault Clio renovado. Pelo caminho, falámos como se já nos conhecêssemos há anos. Contei-lhe histórias de miúdo, piadas sem graça, e ela, resistente ao início, acabou a rir-se alto. Em menos de dez minutos, a viagem soube a muito pouco.
Ao chegar ao prédio dela, a Mafalda hesitou, mexendo na alça da mala, até me dar um papelinho com o contacto: Se quiser ligar Vou ligar, claro, respondi, e não era só forma de falar: telefonei-lhe logo no dia seguinte.
O convite foi para jantar num restaurante da Baixa, com fado ao vivo. A Mafalda aceitou nem ela sabia como arranjara coragem. Daí para a frente, parecia que o destino queria mesmo que ficássemos juntos. Os jantares multiplicaram-se, os passeios no Chiado, dias de conversa sem fim. Foram meses de felicidade serena, aquela alegria tranquila de quem se sente em casa.
Eu pensava nela como mulher para a vida. Até sugeri que viesse morar comigo: o meu apartamento em Alvalade era grande, espaço não faltava. E gostava da ideia de chegar e ter alguém à espera.
Num desses jantares, no mesmo restaurante do nosso primeiro encontro, reparei que ela estava estranha. Silenciosa, a mexer no doce com a colher, perdida nos pensamentos.
Nunca me tinhas contado antes, começou, a voz quase a sumir-se. Porque não achei que isto iria avançar mas
O coração disparou. Será que está comprometida? pensei. O medo apertou o peito.
Tenho um filho, o Tomás, tem sete anos. Atirou de rompante, como quem arranca um penso rápido. É a coisa mais importante da minha vida, nunca vou deixá-lo para trás.
Suspirei, de alívio até. Por mim, até era um sonho! Sempre quis ser pai. Se quiserem, venham viver comigo os dois. Tenho espaço de sobra!
Disse-o do fundo da alma imaginava as noites em família, o Tomás a correr, a Mafalda a sorrir.
Mas ela esfriou logo o entusiasmo. O Tomás precisa de tempo. O meu ex-marido foi-se embora sumiu sem explicações, nunca mais quis saber. O miúdo andava sempre a perguntar-me se o pai voltava
Entendi, e prometi-lhe que não seria mais um a desaparecer da vida deles. Vamos dando passos pequenos. Quero ser parte da vossa vida, quando ambos se sentirem prontos.
Vi ali um sorriso sincero, o primeiro nessa noite e uma esperança nova brilhou.
Nunca tinha lidado verdadeiramente com crianças. Os meus sobrinhos eram bebés, e os amigos ainda não tinham filhos. Como é que se fala com um miúdo de sete anos?, perguntava-me mentalmente. Queria acreditar que tudo ia correr bem, que com paciência e carinho conquistaria o Tomás.
A Mafalda sugeriu que eu ficasse a dormir em casa deles umas noites por semana. Assim o Tomás habitua-se à tua presença. Depois pensemos em mudar. Só comigo vive a minha mãe, a D. Amélia. Mas prometo que não complica!
Sorri de canto Pois sim, prometer é fácil Imaginei logo a sogra típica, sempre atenta, pronta a dar bitaites e regras.
Enganei-me a D. Amélia foi afável desde o primeiro minuto, nunca se intrometeu nem fez perguntas inconvenientes. Sempre simpática e recatada tudo o oposto do que imaginei.
Mas a relação com o Tomás era outra história. Logo desde o primeiro dia mostrava-se desagradado: quieto, com ar de poucos amigos, respondendo com monossílabos. Inicialmente, isolava-se, não me respondia, fechava-se no quarto e ignorava as tentativas de aproximação.
Com o tempo, a atitude dele tornou-se clara: fazia tudo para me chatear. Uma vez molhou de propósito os meus sapatos novinhos com tinta desconhecida, outra rasgou-me uma camisa italiana, daquelas que guardava para ocasiões especiais, e um dia entornou chá sobre o meu portátil. Só não ficou estragado porque perdi o resto da tarde a secá-lo.
A Mafalda tentava sempre proteger o filho: Ele precisa de se habituar, isto custa-lhe E eu concordava, por fora. Mas por dentro acumulava irritação. A cada birra, sentia a minha paciência minguar. Fazia de tudo para ser aceite, mas sentia apenas desprezo.
Tudo descambou numa noite. Eu já estava pronto para dormir quando o Tomás entrou abruptamente no quarto com um frasco de lixívia na mão. Entornou tudo em cima dos lençóis, sem dizer uma palavra. O cheiro era insuportável. Perdi qualquer resquício de calma.
Porquê, Tomás? perguntei, a voz já a tremer.
Ele respondeu sem pestanejar: A mãe hoje dorme comigo. Aqui já não dá para dormir vai-te embora!
Essas palavras caíram como facadas. Até tentei conter-me: fui buscar o meu cinto e dei uma palmada na mão, só para o assustar não tive coragem de mais. Mas ele fugiu a gritar pela Mafalda, a chorar, colado a ela: Ele quer bater-me! Ele é mau! Eu avisei-te!
A Mafalda foi rápida a reagir, abraçando o filho e lançando-me um olhar fulminante. És doido, Zé Pedro?! Ele é só um miúdo. Se lhe tocas, chamo a polícia!
Estava exausto de me esforçar, de recuar a cada birra, de tudo ser desculpa para mais um drama. Assim não dá murmurei, já a descartar as minhas roupas para dentro da mala.
Ela ainda tentou demover-me: Zé, não vás E nós?
Não consegui evitar o sarcasmo: Nós? O teu filho faz tudo para me afastar, e tu dás-lhe razão. Tentei ser paciente, tentei tudo mas tornou-se impossível. Ele nunca vai aceitar ninguém. E tu nunca lhe vais dizer não.
O miúdo, agora protegido nas costas da mãe, fitava-me com um olhar triunfante. Nem culpa, só raiva infantil. A Mafalda ficou em silêncio, sem saber o que dizer.
Ele é meu filho, Zé Pedro, vou defendê-lo sempre! Ele só tem medo de te perder a mim. Tens é de tratá-lo com paciência e amor!
Pois talvez precise de uns limites., atirei, furioso, quase sem me reconhecer.
Vi as lágrimas aflorarem-lhe aos olhos. Não esperei resposta. Empurrei-a levemente de lado, só queria sair dali. Na entrada, cruzei-me com a D. Amélia, que aquela noite parecia particularmente cansada.
Desculpe, mas isto não vai resultar, murmurei.
Ela só respondeu, resignada: Eu compreendo Também já não sei o que fazer com aquele miúdo. Vamos ver se agora ela aprende. E recolheu-se no quarto, calada.
Saí, ao frio da noite, com a mala a bater na perna e a cabeça cheia de pensamentos. Senti que era o único a querer compromisso ali. Em cada tentativa minha, bati numa parede armada por um puto mimado e uma mãe permissiva.
Fiquei a vaguear em Campo Grande, a tentar organizar as ideias. Recordava o que me unira à Mafalda aqueles primeiros jantares, a intimidade fresca e rara, as esperanças que juntos desenhámos. Achei mesmo que tinha encontrado a tal.
Mas tudo ruiu, não por algo extraordinário, mas por pequenas derrotas diárias, pela falta de limites. No fundo, só queria talvez egoisticamente que a Mafalda uma só vez defendesse a nossa vida a dois. Se ao menos tivesse imposto respeito
Enfim, não era para ser, repeti para mim mesmo, atravessando no verde da passadeira.
A cabeça mandava seguir em frente. O coração, esse, só pensava na Má. No seu riso, no jeito de encostar os olhos ao sorrir, na vontade de construir família ao lado dela. Senti uma pontada de saudade, como se tivesse largado algo maior do que eu próprio.
Continuei a caminhar pelo jardim enquanto Lisboa adormecia. Sabia que um dia tudo ia passar. Mas, por agora, só queria desaparecer. Talvez amanhã aceite o convite do Miguel para jantar e consiga, finalmente, começar a viver de novo.






