Ora vejam a que ponto chegou a arrogância da nossa Inês! Dizem bem, o dinheiro muda as pessoas! Eu n…

Ora vejam quem é a altiva da Leonor! É como dizem, o dinheiro corrompe as pessoas! Naquele tempo, não percebia de que me acusavam, nem como me ofendi tanto.

Recordo que houvera um casamento feliz, uma vida modesta mas cheia de amor em Lisboa. Meu marido, Vicente, era honesto e trabalhador, e tivemos dois filhos. Porém, o destino trocou-nos as voltas uma noite fatídica: o Vicente, regressando do trabalho, sofreu um acidente que o levou demasiado cedo. Achei que não sobreviveria a tamanha dor, mas foi minha mãe, a querida Dona Eugénia, que me deu forças. Ela segurou-me no abraço e disse: Tens de ser forte pelos teus filhos, Leonor. E assim, com todo o esforço, levantaram-se ânimos e recomecei.

Trabalhei afincadamente, aceitei todo e qualquer trabalho que encontrasse. Quando os filhos cresceram e ficaram encaminhados, fui tentar a sorte fora do país. Primeiro, rumei a França, depois a Inglaterra. Não foi fácil trabalhei em limpezas, em padarias, em lojas, sempre mudando, sempre procurando onde pudesse ganhar melhor. Todos os meses enviava euros aos meus filhos e mais tarde consegui comprar-lhes um apartamento em Almada. Também renovei o meu próprio lar com tanto sacrifício. Sentia-me orgulhosa de tudo o que alcancei sozinha. Já planeava regressar a Portugal definitivamente, mas há cerca de um ano a vida deu-me novo rumo: conheci um homem, o Manuel. Português, como eu, mas já vivia em Inglaterra há duas décadas. Aproximámo-nos devagar, conversámos muito, e pela primeira vez senti esperança de recomeçar, talvez até voltar a ser feliz.

Mas a dúvida persistia. O Manuel não queria largar a sua vida em Inglaterra, e eu sonhava com a minha Lisboa. Há poucos meses regressei a Portugal para visitar família. Abracei os filhos, revi minha mãe, mas ainda não houvera tempo de passar pela casa dos sogros, o Sr. Alberto e Dona Graça. Faltava sempre tempo; tantos compromissos, tantos anos perdidos para recuperar. E então, eis que a minha amiga Filomena, vendedora no mercado, veio fazer-me uma visita e deixou-me perturbada:

A tua sogra anda muito zangada contigo!

Mas porquê, Filomena?

Ouvi-a no mercado a falar com a outra vizinha, a dona Amália. Disse que agora és cheia de vontades, que o dinheiro te mudou. Que nunca ajudaste com uns trocos, nem pensaste neles.

Aquilo doeu-me fundo. Sempre lutei sozinha, sempre tive de escolher entre o pouco que sobrava e os filhos. Nunca pude dar mais, nem a mim própria.

Fiquei sem vontade de os visitar, mas engoli o orgulho. Comprei uns alimentos no mercado e fui a casa deles. No início tudo correu razoavelmente, mas não conseguia esquecer as palavras da Filomena. Por fim, desabafei:

Compreendam, nunca tive vida fácil todos estes anos. Fiz o que podia pelos filhos, sem apoio de ninguém.

Nós também vivemos sem amparo, Leonor respondeu a minha sogra Todos os filhos ajudam os pais, menos tu. Parece que esqueceste de nós, ficámos órfãos como tu. Deviam regressar e cuidar de nós.

Aquelas palavras envergonharam-me. Nem tive coragem de dizer que tinha refeito a vida em Inglaterra com o Manuel. Saí de lá triste, carregada de dúvidas. Será que tenho mesmo obrigação de ajudar os pais do Vicente? Já não sei o que fazer, já não aguento estas acusações.

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