Oops… Erro à Portuguesa

Oh pá, nem acredito! Só pode ser brincadeira!

Com tanto espanto, a Catarina quase torceu o volante e por pouco não deu uma marrada no carro parado ao lado do seu querido Polo. O SUV preto que passou devagarinho era-lhe mais do que familiar. Claro, como não reconhecer o carro do Paulo, o vizinho, com quem Catarina todos os dias confiava os filhos, deixando-os ao cuidado dele para irem juntos para a escola.

Mas espera lá É ele, sim senhora, mas a mulher que vai ao lado não é a Sandra, a esposa dele. Aquela miúda, de lábios em bico e gorro na última moda, não lhe dizia absolutamente nada.

Raios partam! Mas que grande safado, pá! rosnou Catarina, arrancando atrás do carro do Paulo. Aquilo não ia ficar assim. Não depois do que acabara de ver.

Como nos policiais que tanto lia, pôs-se atrás de um BMW velho e foi seguindo, sempre a controlar o “carroça” do Paulo. E que carroça, sim, que foi assim que ele sempre chamou o SUV. Ficara-lhe do pai, e ele não imaginava vendê-lo era a última herança.

O Paulo nunca superou a morte do pai. Sempre foram uma equipa, principalmente depois da mãe do Paulo ter partido de forma repentina, quando ele tinha apenas dois anos. A recordação era uma ferida nunca sarada, e por isso o apego ao carro fazia sentido. O menino Paulo perdeu a mãe quando ela, cheia de vida, desmaiou de repente na cozinha, preparando a papa; só foi encontrada pelo marido horas depois, tarde demais para ajudar.

Ninguém mais conseguiu convencer o pai do Paulo a entregar o rapaz à avó materna ou paterna, nem sequer à tia-da-mulher tão insistente. Não, filho era dele.

Vais ser homem, tens de trabalhar, organizar a tua vida. Um miúdo tão pequeno precisa de ajuda! Como te vais safar?

Logo se vê dizia o pai, sempre pragmático.

Acabou por arranjar solução num instante. A Dona Maria Augusta, vizinha já reformada, aceitou tomar conta do pequeno enquanto ele estava no trabalho. Com o tempo, o Paulo foi para a creche, e a vida foi-se equilibrando. Ele nunca trouxe outra mulher para casa. Cresceu debaixo do olhar atento da Maria Augusta, que era como uma avó para o miúdo.

És minha avó?

Não, Paulinho. Sabes muito bem quem são as tuas avós. Eu sou uma ama.

Ama? Isso é como ser avó?

Quase, meu amor.

Gosta de mim?

Muito, és o melhor menino do mundo!

Então sê também minha avó, pode ser?

Claro que sim! Maria Augusta, depois de falar com o pai do Paulo, aceitou que o miúdo lhe chamasse avó, e não quis para si um tostão em troca. Por isso é que o Paulo tinha logo três postais para o Dia da Mulher, o que ao início deixou as educadoras na creche baralhadas. Mas lá perceberam e tiraram dúvidas.

Com os anos, o Paulo cresceu bem. O pai nunca casou de novo; a Maria Augusta era lá em casa parte da família, e a infância foi feliz, mesmo sem mãe. Estudou, escolheu o curso com ajuda do pai, e, como todos, teve as suas desilusões de amor.

As raparigas não gostam de mim desabafava à Dona Augusta.

Não digas tolices, Paulinho! Ainda ontem a Rita espreitava da janela!

Bah, ela deixou-me. Diz que falta qualquer coisa. E eu? Nem faço ideia do quê! Que se passa comigo, avó?

Não se passa nada de mal. Só ainda não encontraste a tua metade.

E nem é que ela tinha razão?

Havia uma colega de faculdade, Sofia, um doce de rapariga, que o ajudava nas sebentas enquanto ele já trabalhava na firma do pai. Mas o Paulo sempre ligou mais às atrevidas, como a Rita, e nem percebia os sinais subtis da Sofia.

Foi a Maria Augusta que ajeitou tudo. Disse-lhe sem rodeios:

Aquela Sofia tem um brilho nos olhos cada vez que te vê. Deixa-te de fitas. Só tens é de ver o que está à tua frente. Miúdas assim aparecem uma vez em cada século!

E assim, o Paulo lá tomou coragem e safou o namoro. Casaram discretinhos, sem festas grandes. A mãe da Sofia, a Dona Isabel, era simples e de poucas posses. O sogro do Paulo recebeu-a de braços abertos, mas não perdeu o pé: ficou atento, prudente. Tinha sofrido com a própria sogra, que nunca lhe perdoou a morte prematura da filha.

De ano para ano, a vida corria bem, mas os filhos não chegavam. Fizeram exames, consultas particulares, gastaram uns belos euros nada. O sonho de serem pais tornara-se uma obsessão. Até que a Maria Augusta chamou o neto para um chá.

O que se passa, Paulinho? Anda cá, confessa.

Nada vai bem, avó. Eu e a Sofia estamos ótimos, mas nada de filhos Já não sabemos o que fazer!

Olha, sossega! Estas coisas acontecem quando têm de acontecer. Aproveita a tua mulher como ela é; não faças dramas! E sê paciente, que é a melhor qualidade de um homem. Vai tudo correr bem.

O Paulo levou aquela sabedoria a sério. Deixou de cobrar à Sofia, tratou de cuidar dela, e a Dona Augusta, sempre zen, repetia: Espera, cuida e espera.

Só engravidaram quando já tinham perdido a esperança. Depois de quase dez anos juntos, a Sofia começou com enjoos e cansaço. Foram ao hospital em Lisboa aquilo soou a milagre e o médico confirmou.

Parabéns, vai ser pai!

O Paulo nem acreditava; a Sofia chorava e ria. Era um sonho de tanto tempo finalmente concretizado.

O primeiro filho nasceu um verdadeiro rapagão, quase quatro quilos. Sofia, pequenina como era, aguentou firme e até brincou: “Volto cá para o segundo!”

E assim foi. Uma filha, depois outro rapaz. Quando a família começou a crescer a sério, viram-se à rasca na T2 de sempre. O sogro disse logo:

Está decidido, vocês precisam de um lar a sério! Vamos construir uma casa para vocês.

Compraram um lote nos arredores de Coimbra. Mas entre um crise e outra, a empresa do Paulo e do pai ficou de gatas. Conservar empregos e salvar o negócio tornou-se prioridade. A construção do lar ficou em stand-by.

Mais uma vez, a Maria Augusta entrou em ação:

Ouçam, a minha casa tem três quartos, a vossa só dois. Vão vocês e a pequenada para lá. Eu vou morar com o teu pai. Nós já só precisamos de um cantinho, e eu cuido dele. O importante é vocês terem espaço.

Mudaram-se. A Sofia ficou encarregue de gerir casa e filhos, enquanto o Paulo suava todos os dias para recuperar a empresa. Conseguiu. Mas o pai não resistiu ao desgaste e partiu sem ver o nascimento do quarto neto.

O pequeno Alexandre, chamado em honra do avô, cresceu a ouvir histórias sobre ele, enchendo o peito de orgulho sempre que os adultos o tratavam pelo nome completo.

A vida era ora travessia do deserto, ora festa de arromba. Os miúdos cresciam, espalhando tanta alegria que até parecia que o sol nunca se punha naquela casa.

A Sofia, de espírito aberto, escolhendo cada amiga com pinças, depressa encontrou na Catarina uma confidente. Tinham idades próximas, gostos parecidos (livros, teatro), e estavam ambas sempre sem tempo. A Catarina tinha dois gaiatos enérgicos, que mais pareciam uma dúzia. As avós ajudavam, claro, mas havia dias em que a Catarina achava que não se aguentava. A irmã encontrou na Sofia alguém que a compreendesse e ajudasse a ver que a infância dos filhos passa a correr, e que não dá para tudo nem é preciso.

A relação com o marido era complicada. Ele, vaidoso e dado a brincadeiras, tinha a mania de ser fiel à portuguesa: um olho no prato outro na mesa do lado. A Catarina fechava os olhos, convencida de que todos os homens eram assim. E tranquilizava-se, pensando nos filhos o que interessava era manter o pai por perto.

Por isso, quando viu o Paulo com aquela rapariga, ficou de peito apertado. Para si mesma pensou: a Sofia tem de saber disto…

O carro do Paulo entrou numa rua lateral; a Catarina quase perdeu a pista. Pararam frente a um restaurante de referência (onde ela até já lá foi com o marido, uns bifes bem bons e uns jazz ao vivo ao fim-de-semana). Paulo abriu a porta à jovem, e lá entraram.

Catarina ficou no carro, corações aos saltos. Devia esperar e ver quem era aquela rapariga? Ou contar tudo logo à Sofia?

À medida que pensava, o drama esbateu-se. Ela podia dizer à Sofia, mas depois, o que acontecia aos quatro filhos, à Maria Augusta, já velhota e rara em sair de casa, à mãe da Sofia, com problemas médicos que o Paulo já tinha levado uma vez à capital para tratar os olhos? E se aquela rapariga fosse só uma amiga, uma colega de trabalho? E se fosse uma aventura passageira, como as muitas do seu próprio marido, que hoje estão, amanhã nem nome lembram?

Catarina bateu com o punho no volante, e um estrondo acordou os pombos do passeio. Assustou-se, mas, de dentes cerrados, decidiu: não, não ia dizer nada à Sofia. Se alguém viesse contar-lhe coisa semelhante, ela sabia que nunca mais perdoava o marido. Uma coisa é rumores, outra é ver mesmo, saber ao certo. E perder tudo as palavras, os gestos, aquele caminho de pequenos sinais que constroem a felicidade de uma família.

Estacionou, ficou uns minutos a retemperar forças dentro do carro. Os miúdos e a ama já deviam estar impacientes. Antes de conseguir sair, recebe um telefonema.

Catarina, és tu? Amanhã às oito? Obrigado, contamos convosco!

Era o Paulo a convidar para o jantar de aniversário de casamento dele com a Sofia. Aquilo apanhou-a de surpresa. O casal nunca festejava a data com ninguém, costumavam era dar uma escapadinha os dois, sozinhos.

Foi comprar vestido, sapatos, tudo a preceito. Até o marido elogiou:

Olha para ti, mulher! Quando chegar a nossa vez, fazemos uma festa destas!

A Catarina não respondeu. Sabia bem o valor das festas…

Chegou a noite, tudo decorado com um gosto incrível: flores frescas, velas elegantes, talheres reluzentes. A Sofia radiante, de sorriso de orelha a orelha, levou a Catarina pela mão:

Anda lá, amiga, vamos retocar a maquilhagem!

Quando Catarina viu o novo anel na mão da amiga, não conseguiu evitar um sorriso amarelo.

Presentes de reconciliação, hein? pensou para si.

Mas ao descer as escadas para o WC, cruzou-se com a tal rapariga e ficou branca.

Desculpe, conhecemo-nos?

Ali, estava vestida com um fato sóbrio, cabelo apanhado, nada do ar provocante daquele dia.

O que faz aqui? sussurrou Catarina, temendo que a Sofia as ouvisse.

Eu? Trabalho. Sou a organizadora deste jantar. O Sr. Paulo confiou a nossa empresa para preparar esta surpresa. Somos pequeninos, foi o nosso primeiro grande serviço, nem queria acreditar! Gostou da decoração?

Catarina ficou embaraçada, a sentir os dedos quase congelados.

Está lindíssimo Parabéns.

Ush, que bom! O Paulo até meteu o marido a ajudar no fim-de-semana, imagina! Não me deixou subir à escada, agora que estou de esperanças

De esperanças?

Sim, estou grávida. Descobri há pouco, estou cheia de nervos! A senhora tem filhos?

Dois.

E é difícil?

Muito respondeu Catarina, de repente sentindo-se esquentada por dentro, relaxando pela primeira vez em dias. Olhe, não se preocupe. Cada uma de nós aprende à sua maneira, mas vai dar conta do recado. Se precisar do contacto da médica da Sofia, diga. Todos os filhos dela nasceram com essa médica, cinco estrelas.

Quatro filhos? Uau, que maravilha!

É uma sorte, mesmo.

Ai, tenho de ir, vão começar! Vai ter de me desculpar

Quando Catarina voltou à casa-de-banho e encontrou a Sofia, já sorriu com leveza genuína:

Bora lá, ó dona noiva! Vamos para cima que já te estão a casar outra vez e não tarda perdes o corte do bolo!

Durante o jantar, entre risos e brindes, pensou: tão fácil é destruir o que se constrói bastava uma palavra precipitada, uma suspeita mal fundamentada, uma pequena grande erro. Por um triz, quase estragava aquela noite, a felicidade da Maria Augusta gritando Beijinho! do fundo da sala, ou as crianças a recitar poemas com vozes no ar.

Uma asneirinha, é o que foi murmurou Catarina, emborcando o espumante e sorrindo para o marido. Então, a nossa história está doce ou amarga?

Ainda amarga, minha Catarina, mas um dia desses vinga, vais ver!

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