Miguel casou-se com Leonor apenas para fazer ciúmes à sua antiga paixão. Queria provar-lhe que conseguia viver muito bem sem ela, obrigado. Ele e Matilde tinham namorado quase dois anos. Miguel era um caso perdido de amores por ela, pronto a carregar as malas dela às costas e escalar o Gerês se precisasse. Achava que já faltava pouco para a boda. Só não gostava de ouvir os mas de Matilde:
Para quê casar já? Ainda não acabei o curso, tu na empresa ainda andas aos tropeções. Não tens carro a sério, nem casa tua. A Sara até é boa miúda, mas não quero encontrá-la todos os dias na cozinha. Se ainda tivesses a casa dos teus, vá lá
Aquelas palavras magoavam Miguel, mas ele também sabia que ela até tinha razão. Vivia com a irmã num T2 herdado, e, por herança, herdou também os problemas do negócio da família. Quem havia de imaginar que teria de pegar na loja logo sem o canudo universitário? Miguel dava o litro para aguentar a empresa e acabar o curso.
A casa tinha sido vendida de acordo com a Sara. O dinheiro serviu para acabar com as dívidas e ainda ajudou a reforçar o stock para o negócio. Sobraram uns euros como almofada financeira.
Mas Matilde achava que se devia viver o presente, sem esperar pelo Euromilhões de amanhã. Falar é fácil, claro, quando ainda se vive à conta dos pais. Miguel, que de um dia para o outro passou a ser homem da família, pensava de outra maneira: “Primeiro as contas, depois as festas.” Um dia seria tudo maravilhoso, carro, casa, jardim. Só precisava de tempo.
Nada fazia adivinhar a tempestade. Miguel esperava pela Matilde ao pé do cinema; tinham combinado ver um filme novo. Estranhou quando ela não quis que a fosse buscar a casa. Matilde sempre detestara autocarros. Lá estava ele à espera, quando vê que ela chega com estilo, num carro XPTO.
Desculpa, isto não vai dar. Vou casar-me largou-lhe um livro para as mãos e enfiou-se de novo no carro.
Miguel ficou ali plantado, com cara de parvo, a tentar perceber o que se tinha passado. Três dias, apenas três, e o mundo dele virado do avesso.
Quando voltou a casa, Sara percebeu logo tudo pela cara dele.
Já sabes? perguntou.
Abanou a cabeça.
Arranjou um doutor com bolso cheio. O casamento é daqui a duas semanas. Ainda me pediu para ser madrinha. Não fui. Ela é falsa! Andava a fazer-te a folha nas costas e Sara chorou de raiva pelo irmão.
Deixa lá isso tentou acalmá-la, passando-lhe a mão pela cabeça. Que seja feliz e que a nós a vida nos corra melhor ainda.
Enfiou-se no quarto quase vinte e quatro horas. Sara andava feita gata borralheira à porta:
Pelo menos vem comer. Fiz panquecas.
Ao fim do dia, Miguel saiu do quarto com um brilho estranho no olhar:
Anda, prepara-te ordenou à irmã.
O que vais fazer?
Caso-me com a primeira que aceitar! atirou ele, determinado.
Não faças parvoíces! Não é só a tua vida, pensa também na outra pessoa
Nem valia a pena tentar fazê-lo mudar de ideias.
Se não fores comigo, vou sozinho.
Lá foram ao jardim público, cheio de gente. A primeira a quem Miguel propôs casamento pensou que ele era maluco. A segunda fugiu a sete pés, mas à terceira foi de vez. Uma rapariga olhou-o nos olhos e, para espanto de todos:
Aceito.
Como te chamas, princesa?
Leonor respondeu, tranquila.
É preciso ir celebrar isto. Vamos ao café disse Miguel, arrastando Leonor e Sara.
Sentaram-se e ninguém sabia o que dizer. Miguel só pensava em vingança. Decidiu: também o seu casamento seria no mesmo dia que Matilde marcara o dela.
Há claramente um motivo forte para estares agora a pedir uma estranha em casamento comentou Leonor. Se foi só um impulso, não me importo de me ir embora.
Nada disso. Palavra dada é palavra honrada. Amanhã tratamos dos papéis, depois vamos conhecer os teus pais. E a partir de agora, tratamo-nos por tu! rematou ele, piscando-lhe o olho.
O mês que antecedeu o casamento foi passado sempre juntos. Conversavam horas sobre tudo e nada.
Vais mesmo explicar-me porquê? perguntou Leonor um dia.
Todos temos esqueletos no armário deu Miguel a resposta da praxe.
O importante é não atormentarem a vida.
E tu, porque aceitaste?
Lembrei-me das histórias antigas: a princesa escolhida pelo rei para casar com o primeiro que aparecesse. Estas histórias acabam sempre com um “felizes para sempre”, quis ver se era mesmo assim.
A verdade é que também ela vinha com o coração partido e sem grandes esperanças no amor. Mas Miguel tinha-lhe chamado a atenção pela decisão e paixão com que se atirou ao desafio e só mesmo porque vinha com a irmã, senão ela nem parava para ouvir.
E tu, és mais tipo princesa tonta, Cinderela ou rã encantada? brincou ele.
Beija, logo vês! devolveu, com uma gargalhada.
Nada de beijos naquela altura.
Miguel organizou tudo: Leonor só tinha que escolher entre as opções que ele trazia. Nem o vestido ficou ao acaso saiu das lojas quase a obrigá-la a experimentar.
Vais ser a noiva mais bonita de Portugal!
No registo civil, cruzaram-se com a Matilde e o noivo-empresário. Miguel sorriu, mais nervoso do que queria admitir.
Parabéns, Matilde. Sê feliz com o teu cartão de crédito! murmurou ao ouvido dela, enquanto lhe dava um beijo na face.
Poupavas-nos ao espetáculo respondeu Matilde, desconfortável.
Olhou de alto a baixo para a Leonor. Não era só bonita, era mesmo uma mulher vistosa, segura, elegante Humilhada, Matilde percebeu que saía dali em desvantagem. Sentiu a pontinha da inveja a roer-lhe o coração.
Miguel voltou para Leonor:
Está tudo bem fingiu ele.
Se te arrependeres ainda, há tempo sussurrou ela.
Agora vamos até ao fim desta novela!
Ao ver os olhos tristes da mulher na sala do registo civil, Miguel percebeu o disparate em que se tinha metido.
Juro que te faço feliz e naquela altura ele acreditava.
E começaram as rotinas matrimoniais. Sara e Leonor tornaram-se grandes amigas, faziam uma dupla imbatível: a Sara que tinha sempre a emoção à flor da pele, e a Leonor, tão organizada e prática, que rapidamente assumiu as rédeas da casa.
Leonor, mestre em Contabilidade e Fiscalidade, pôs ordem nas finanças em menos tempo do que se demora a fazer arroz doce no Natal. Em meio ano abriram uma segunda loja, começaram a fazer obras em casas, e a coisa cresceu. O lucro quase quadruplicou.
Ela era, afinal, uma espécie de princesa-sábia. Conseguiu vender as suas ideias a Miguel como se fossem sonhos dele. A vida parecia perfeita, mas a Miguel faltava-lhe aquele entusiasmo absurdo que tinha sentido com Matilde. Era tudo eficiente, calculado uma paz sem fogo-de-artifício. Rotina!, pensava ele, Isto nunca foi para mim. Não a amo, e pronto.
Com os bons feitos de Leonor, abriram até um negócio de construção de vivendas. E claro, a primeira casa acabada foi logo para eles.
Quanto melhor estavam, mais Miguel pensava na Matilde: Queria ver se não se importava com o meu novo carro, ou a casa-palácio onde vivo!. Estas ideias vinham-lhe cada vez mais à cabeça: E se?
Leonor sentia a distância do marido. Dava tudo para ser amada, mas sabia que ao coração ninguém manda. Nem todas as histórias têm final feliz, pensava, mas não perdia a esperança afinal, o nome obriga.
Sara também reparava no irmão.
Vais perder tudo, e não vais ganhar nada comentou um dia, apanhando-o a espreitar o perfil da Matilde no Instagram.
Vê lá se não te metes onde não és chamada atirou Miguel.
A irmã deitou-lhe um olhar que fazia gelar o mar:
És burro, pá. A Leonor ama-te, e tu armado em galã a brincar com a sorte!
Miguel fervia: Ainda faltava ser a miúda a dar-me lições. E, claro, acabou por mandar mensagem à Matilde.
Matilde queixou-se da vida: o casamento dela dera para o torto; o marido pôs-na na rua sem nada, o curso nunca acabara, emprego nem vê-lo, vivia numa pensão no centro de Coimbra.
Miguel andou uns dias em dúvida: Vou ter com ela? Não vou? O destino decide: a Leonor foi passar uns dias à aldeia, cuidar da avó, e ele ficou sozinho a matutar.
Decidiu-se. Marcaram encontro e Miguel foi até Coimbra, a acelerar feito miúdo.
A realidade, porém, foi como um banho frio na Nazaré a meio de Março.
Estás um encanto Matilde abraçou-o assim que o viu.
O cheiro a sovaco não o deixou mentir. Ele afastou-se, enjoado.
As pessoas estão a ver
Que vejam! riu-se ela.
Roupa vulgar, maquilhagem rançosa e perfume de feira… Matilde perdeu o encanto todo. Sempre foi assim Só agora é que reparei?, pensava ele, enquanto a via pegar na quinta mini de cerveja.
Dá-me aí uns trocos e és meu príncipe por uma noite sorriu Matilde, descarada.
Miguel só queria sair dali.
Olha, tenho que ir, trabalho
Vens cá outra vez?
Não me parece.
Chamou o empregado:
Pode trazer a conta?
Ainda não acabei, pá!
Fique com este dinheiro e a menina que aproveite largou-lhe uma nota das grandes.
O empregado percebeu o filme.
Miguel voltou para casa a rachar a estrada.
És mesmo idiota, Miguel. A Sara tinha razão. Para que é que foste fazer isto? Ou será que valeu a pena?
Lembrou-se, de repente: Nunca tratei a Leonor por Leonorzinha E nunca tive ninguém mais próximo do que ela. Parou o carro de repente, ficou uns minutos a relembrar todos os momentos vividos desde o casamento.
Viu o sorriso de Leonor, os olhos dela, cor de mar, aquela maneira carinhosa de lhe colocar o cabelo atrás da orelha. Estava tudo ali, à espera.
Eu prometi fazer-te feliz disse para si mesmo.
Ligou o carro e, à saída da autoestrada, já nem sabia o caminho, mas foi ter com Leonor à aldeia.
Uma semana sem ti é demais. Nem dois dias consegui confessou-lhe, quando ela saiu a correr da casa da avó para lhe dar um abraço.
És um doido brincou ela, com lágrimas e riso misturados.
Leonorzinha, meu amor sussurrou-lhe ao ouvido, sentindo os dois ficarem tontos de tanta felicidade.






