O Último Raio de Luz

O ÚLTIMO RAIAR

Toda a gente na secção de medicina interna reparava na chefe: os homens olhavam-na com um misto de curiosidade e fascínio, já as mulheres nutriam aquele ciúme típico, misturado com uma pontinha de inveja. Magra, de olhos escuros e vivos, ficava-lhe o bata branca a matar. Prendia o cabelo num rolinho elegante atrás da cabeça, e o chapéu engomado aumentava-lhe uns centímetros bons à imagem, quase tanto quanto uns saltinhos bem escolhidos. O tilintar dos sapatos compunha-lhe a entrada, nunca irritava ninguém, fosse pelo andar suave, fosse pelo piso do hospital. Parecia ter uns quarenta e tal anos, mas ninguém no Hospital de São Gonçalo sabia ao certo a idade dela. A severa e inflexível Margarida Correia da Fonseca impunha respeito até aos mais destemidos, colegas ou pacientes.

Vários homens doentes ou colegas arriscaram umas investidas: convites para jantar, chocolatinho do supermercado, ramos de flores que, invariavelmente, voltavam a casa humilhados. Bastava um olhar dela, sério e decidido, e derretiam-se num instante. E claro, os boatos ecoavam pelos corredores. Juravam que tinha amado perdidamente um colega e que o marido tinha morto ou na tropa, ou afogado em alto mar. Que tinha perdido um filho… Enfim, ninguém sabia ao certo o que era verdade e o que era recado das más-línguas.

Todos sabiam que Margarida vivia sozinha. Não permitia laços, não tinha grandes amizades. Mas ninguém ousava chamá-la de bruxa: não era fria, nem antipática. Apenas… solitária.

Em tempos, Margarida caíra de amores pelo galã da turma, Tiago da Fonseca. Deixava-se sufocar pela paixão, via o mundo pelos olhos dele. Mas ele, que sempre estivera rodeado de fãs, cansou-se daquele excesso de dedicação e trocou-a pela próxima na fila. Margarida selou o coração desde então. Talvez continuasse apaixonada, talvez temesse outra traição. Sabe-se lá.

Num fim de tarde, aproximou-se da enfermaria:

Vera, dê-me o processo do Lopes, aquele da cama cinco. Vou adiantar a alta para amanhã. Segurando a papelada ao peito, voltou ao gabinete.

«Pronto, o senhor recuperou. Agora é ver se a vontade dele é a mesma que o corpo aguenta, e logo vejo se volta», pensava Margarida enquanto preenchia aqueles impressos de rotina com análises e tratamentos.

Meia hora para terminar o turno. Fechou o gabinete, chaveou, e reparou numa mulher ao fundo do corredor, de costas para a janela e em conversa sussurrada ao telefone. Margarida nem queria ouvir, mas as frases chegaram-lhe ao ouvido:

Não, não morreu. Está mais vivo do que nunca. Deixa lá. Eu já lhe disse… Não vale a pena… Pensas que ele não percebeu? Logo à noite falamos.

Desligou e pirou-se escada abaixo, sem sequer olhar para as beiradas.

Margarida entrou na enfermaria cinco. Noutro dia, pregava-lhes logo um sermão sobre os perigos do tabaco ao notar as camas vazias. Mas hoje o olhar deteve-se nas costas duras de Lopes, voltado para a janela, em claro sufoco.

Senhor António, amanhã… arriscou iniciar, mas ao ver a mágoa e o desespero nos olhos do homem, travou a frase.

O que se passa? sentou-se na beira da cama para não parecer predadora. Sente-se mal? Está com dores?

Não me pode deixar ficar? Eu… Não tenho para onde ir… foi balbuciando ele, sem conseguir formar uma frase inteira.

Ah, essa cama já está com dono. A mulher levou outro. Disse logo: O espetáculo acabou, António. Agora sou de outro, e que seja para sempre! E ao António, ala porta fora, nem que fosse à coice, perdoem a expressão atirou-se o senhor de cabelo branco da cama ao canto.

Isso é mesmo verdade? perguntou Margarida num fio de voz.

«Era sobre ele que a senhora falava no telefone, à janela. Estava à espera que o marido batesse as botas, mas ele saiu vivo do hospital e… pronto, já há substituto em casa», percebeu finalmente.

António Lopes, homem de idade respeitável, cabelo já a perder a luta, olhos tristes, continuava de costas para a paisagem do hospital, a moer os maxilares em silêncio.

Margarida olhou para a janela. Abril estava no fim. Os ramos nus do jardim exalavam aquela promessa de verde novo, ali prontos a rebentar, mas do céu acinzentado, a qualquer momento podia vir uma chuvada ou até granizo. Nada de sol naquele dia.

Mas não tem para onde ir? E amigos? Filhos? preocupou-se ela.

Cada um tem a sua vida… Vais lá aguentar-me dois dias, no máximo. Depois? Não me vejo, nesta idade, a saltar de casa em casa como um farnel esquecido. Já sabia que ela andava com outro… pensei que passava-lhe…

Sr. António, mais uns dias não lhe iam resolver a vida e, francamente, preciso mesmo de camas… Mas olhe, sabe o que é? Eu tenho uma casa na aldeia, a uns oitenta quilómetros de Lisboa. A estrada é boa. A casa está rija, mas precisa de mãos de homem, já ninguém lá brinca ao lar há anos. Amanhã trago-lhe a chave e explico-lhe como se chega lá levantou-se, já pronta a zarpar e sem hipótese de recusa.

Credo! exclamou o senhor do canto, de olhos esbugalhados. Tão rigorosa no serviço, vai-se a ver é de um coração gigante. Não recuses, António! Essa mulher merecia era uma grinalda!

E maio chegou, as cerejeiras já sem flor, o vento fresco deu lugar àqueles dias dourados. No domingo de manhã, Margarida meteu-se no seu velho Honda (o carro é japonês, mas também não pedimos milagres aos leitores) e foi ver o hóspede.

Surpreendeu-se: as janelas pintadas de azul vivo, telhado remendado, no alpendre, um degrau novo a brilhar. Parou o carro, desligou o motor. Na porta, António apareceu calçando um par de jeans, uma t-shirt e… descalço, vejam só. Nada restava do homem pálido, murchinho. Ombros direitos, pele bronzeada, uns músculos a despontar estava um homem rejuvenescido.

Bom dia doutora, que surpresa! Vem ver se me porto bem? perguntou ainda a ajeitar a t-shirt.

Ninguém por aqui para o chatear? Margarida saiu, encostou-se de modo casual à porta do carro.

Só as três velhotas da aldeia, contentíssimas de voltar a ouvir vozes de homem. Os da cidade, estão-se nas tintas.

Que bem lhe faz este ar! E trabalho, tem sido fácil?

Trabalho… Enfim, faço uns arranjos, as mãos já tremiam de estar paradas. Reformei-me do exército e, verdade seja dita, só sabia dar ordens na parada. Fui segurança, nada de especial. Ao menos a reforma chega bem.

Então mostre-me lá essas novas obras Margarida fechou a porta e subiu à entrada.

Olhe que tolo… Desculpe, baralhei-me todo António abriu caminho, as orelhas tão vermelhas quanto as papoilas do campo.

Margarida parou e olhou: tapetes feitos pela avó ainda forravam o chão lavado, luz e sombra desenhavam arabescos nas fibras, cortinas leves, gerânios nos parapeitos. Um velho relógio de parede marcava o tempo.

Foi a Valentina, vive na ponta da aldeia. Com plantas, fica logo mais acolhedor, não acha? justificava-se António, a espreitar pelos olhos dela.

E que cheiro tão bom é esse? disse ela, inspirando.

Fiz sopa à moda antiga, no forno, e uma panelada de batatas. Vai provar? António entrou em modo chefe-de-cozinha improvisado, mas Margarida permitiu-se, pela primeira vez, esboçar um sorriso. Embrulhei-me todo no início, tudo me saía ou cru ou, pronto, carvão. As vizinhas foram dando a receita. Agora já é decente.

Deu-lhe vontade de levantar os braços, espreguiçar-se até estalar a coluna. O ambiente transportou-a aos tempos da avó, à infância, aquela paz de casa velha que tão poucos conhecem. Desde a morte da mãe não conseguia pôr aqui os pés, nem vender, nem largar as memórias. Era casa da família, dos avós, dos verões e do regresso à cidade no outono, com o carro carregado de pickles, compotas e cogumelos.

Mãe… Já lá vão tantos anos.

Diga doutora, quanto tempo posso… acampar aqui sem que se farta de me aturar? António interrompeu-lhe os pensamentos.

Fique o tempo que quiser. Não vinha cá há quase dez anos. Se não se importar, ainda o venho visitar. Aqui está tão confortável como no tempo da minha mãe. Não nasci para enjeir casas nem mexer na terra desconversou, e António agradeceu silencioso.

Olhe que trouxe coisas do supermercado, quase esqueci Margarida desatou caminho fora.

António respirou fundo. Ver aquela mulher sem bata, sem chapéu de enfermeira, num vestido leve, tornava-a infinitamente mais próxima. O cabelo, menos rígido, dava-lhe um ar jovem. Sentiu, pelas mãos duras do campo, a idade pesar, mas por outro lado, como se renascesse.

Margarida partiu já o lusco-fusco dominava, deixando para trás um restinho do seu perfume pelo ar da casa. Qualquer coisa que António tocasse, parecia cheirar a ela e isso, senhores, deixava-lhe o coração em fanicos. Nunca esperaria que, ao ser posto na rua, a vida ainda lhe reservasse este volte-face.

Dois meses mais tarde, ela voltou. Mais mantimentos, uma cana nova para pescar. António, orgulhoso, levantara a vedação do quintal, consertava casas nas redondezas em troca de leite, natas, ovos… A casa ganhara vida própria, inchava o peito de orlas azuis nas janelas, tipo dizer: Olhem ali, tenho dono novo!

No inverno faço-lhe uns pepinos em conserva, que até vai sonhar prometia António. Margarida via-lhe a barriga desaparecer, o orgulho a crescer. E já se corava quando ele a olhava.

O sol, como despedida, tingia tudo de laranja. António saiu apressado, Margarida vagueou pela casa. Estranhou sentir ali cheiros e objectos alheios. Passado um tempo, procurou-o no quintal: ele estava sentado, encostado à paliçada, meio tonto.

António! acudiu e ajoelhou-se. Sentiu-lhe o pulso, correu buscar o estojo de primeiros socorros, voltou para um copo de água, todos esses gestos de quem sabe o que faz. Pensava: «Bem que dava aqui uma injecção…». Ajudou-o, deitou-lhe o remédio na boca, pôs-lhe água a jeito.

Quinze minutos depois, António recompunha-se. Sentaram-se na cama, ele encabulado.

Apanhei um escaldão dos bons hoje… Só queria ir buscar uns pepinos para a estrada… Tu… Fica! pediu, pela primeira vez em tom informal.

Margarida hesitou. António encostou-lhe a cabeça ao ventre, num gesto desarmante.

Felicidade é isto: passas anos a pensar que já não chamas por ela, que nem importa, que melhor estar só do que temer desilusões. Até que as estradas se cruzam e, sem aviso, passamos juntos.

O amor? Tem mil formas. Em novo, é daquela loucura ciumenta, destrambelhada. Com o tempo, torna-se sossegado, quente, sereno como o último raio de sol antes de adormecer.

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