Último Pedido
“Não vou voltar para casa…”, dizia Miguel, com a voz fraca, contorcendo-se de dor. “E nunca mais vou ver a Constança. E eu queria tanto pedir-lhe em casamento… Não tive tempo… Porquê tudo isto?”
– Não fique assim, rapaz, – sorriu a enfermeira, percebendo como o Miguel, que tinha acabado de chegar de ambulância ao Hospital de Santa Maria, estava pálido. Vai correr tudo bem.
– Duvido muito – murmurou o Miguel, num fio de voz.
Depois ficou em silêncio, olhos arregalados de medo, enquanto preparavam tudo para a operação.
*****
Miguel nunca gostou de hospitais, sabes? Essas manias vêm-lhe do tempo de criança, quando qualquer ida ao centro de saúde era um drama, porque faziam tudo menos pedir desculpa por lhe causarem “traumas para toda a vida”.
“Então, Miguelito, tanta lágrima, para quê? perguntava a enfermeira, enquanto lhe picava o dedo para tirar sangue. Já és um rapazinho crescido, daqui a nada entras para a Primária, e choras como uma menina. Não tens vergonha?”
Ele olhava para ela por entre lágrimas, incapaz de fugir do gabinete. Vergonha? Não tinha era vergonha nenhuma. Só tinha era dores e mágoa.
E assim que a mãe o levava para casa, vinha o discurso sempre igual: nunca mais cá meto os pés, juro! Antes morro, mas não volto!, dizia ele, solene, cheio de razão de puto.
– Oh, filho, não digas disparates tentava a mãe acalmá-lo. Os médicos só querem ajudar, para não ficarmos doentes. Eles são bons, não tens de ter medo.
“Pois sim, são bons” suspirava o Miguel, a olhar para o dedo meio esvaziado de sangue. Tratavam-se a eles próprios, que a mim me deixem em paz!”
E quando o levaram ao dentista para arrancar um dente? Se visses o berreiro ouvia-se cá fora, no pátio do centro de saúde. Portanto, imagina a relação do rapaz com médicos e hospitais.
Cresceu a evitar tudo o que tivesse bata branca e estetoscópio. Mas a vida trocou-lhe as voltas e, um dia, por azar dos diabos, teve mesmo de ir parar ao hospital. Aparentemente um simples apendicite.
Aquilo foi um aperto tão grande, que a Constança com quem o Miguel ia jantar a um restaurante em Lisboa para lhe fazer a grande surpresa, o pedido de casamento não teve alternativa: chamou logo a ambulância.
– Não chames, passa já pediu ele.
– Miguel, por amor de Deus! Estás a ver-te mal, quase sem conseguir mexer-te. Cheira-me que isso é o apêndice, já passei por isso.
Lá acabou no Hospital de Santa Maria, contra vontade. E imagina o pânico quando viu os cirurgiões a prepararem tudo para o abrirem.
Ainda por cima, passou pelos corredores e viu dois auxiliares sérios a empurrarem uma maca com alguém coberto por um lençol, acabado de falecer. Sentes? Bate logo aquela sensação de fatalidade.
“Pronto, é desta que não volto para casa E nunca mais vejo a Constança E queria tanto pedir-lhe em casamento Agora? Falhei redondamente. Porquê logo a mim?”
– Não fique assim, sentido, vai correr tudo bem, – insistia a enfermeira, tentando sorrir-lhe.
– Hum, não sei
– A sério. Isto é uma operação simples, e trouxeram-no a tempo. Se tivesse esperado mais, aí sim, podiam ter havido complicações.
E verdade seja dita, correu tudo bem. Foi apagado na marquesa, acordou depois com tudo feito, e sem dores. Imagine-se, pela primeira vez uma experiência positiva no hospital.
Foi para a enfermaria e dormiu toda a noite como um anjinho. Só acordava quando as enfermeiras trocavam o soro.
De manhã, percebeu que tinha ali um vizinho na cama ao lado um senhor idoso, de ar muito calmo.
“Ai, agora vai-me encher de memórias da vida dele, velho chato”, pensou. Só lhe apetecia sossego, não conversas. Nem sequer ligou à Constança, mandou só uma mensagem rápida a dizer que estava tudo bem, para ela não se preocupar.
O pior era a sensação de tempo mal gasto. Porque, naquele dia, era para pedir a mão da Constança. Reserva feita, músicos combinados para tocar a música preferida dela, o anel escondido num prato. Não podia ser mais romântico…
Mas ali estava ele, na cama de hospital, em vez de estar com a mulher dos sonhos.
E, para surpresa, o idoso não chateava ninguém. Cumprimentou o Miguel, mas passou o dia sossegado, murmurando algo enquanto tentava ligar sem sucesso a alguém até a bateria do telemóvel morrer.
O carregador? Esquece, ficou em casa, e aqueles telemóveis antigos já ninguém usa desses.
As lágrimas correram-lhe dos olhos ao ver o telemóvel desligado. De repente, ao Miguel bateu-lhe a culpa e sentiu-se ridículo por ter julgado o senhor sem saber de nada.
Esperou um pouco, sentou-se na cama, com algum esforço. Perguntou, suavemente, se estava tudo bem.
– Estou, mas queria tanto ligar ao meu filho, ao Ricardo, mas não atendo… explicou o senhor, cabisbaixo.
– Mas ele sabe que está aqui?
– Sabe A enfermeira ligou-lhe quando me trouxeram para cá. Mas ele não fala comigo. Brigámos há meio ano, pouco antes dos meus anos. Ele queria que fosse para um lar, para poder vender a casa de família, mas eu recusei. Não é pela casa, perceba
O senhor contou como foi parar ao hospital, vítima de um ataque ao coração. O prognóstico só tinha uma solução: operação.
– Está marcada para depois de amanhã, se não colapsar antes.
– Não diga disparates, homem! riu-se o Miguel. Está em boas mãos, vai correr bem. Ontem tiraram-me o apêndice e veja, estou aqui, rijo como novo.
O senhor sorriu, encolhendo os ombros.
– Fico desassossegado é com o Bolinhas. Ficou à porta, à espera que volte. É o meu cão, percebe? Queria que o meu filho o cuidasse, se me acontecer alguma coisa. Ou, pelo menos, que lhe desse um novo lar. Os vizinhos não vão ficar com ele, já têm bicharada. E ninguém se vai dar ao trabalho de procurar um dono para o Bolinhas. O Ricardo podia, isso sim. E, como compensação, a tal casa que anda doido por vender vai ser dele. Tudo justo, não é? Mas ele não quer saber dos telefonemas.
Miguel suspirou. A conversa do senhor não saía do cão, o Bolinhas. Mas ao ouvir a história de como tinha encontrado o cão, um dia, à porta do supermercado, debaixo de chuva, atado a uma grade no dia de aniversário dele ficou a compreender tudo. Aquela companhia era muito mais do que um cão qualquer. Era companhia a sério.
– Ele foi um presente dizia o senhor. A minha falecida mulher apareceu-me em sonhos, a segurar o cão. Era sinal. Depois, o Bolinhas ali, perdido na rua, ninguém quis saber. Trouxe-o para casa, claro.
O velhote fez de tudo para procurar os donos, colou anúncios e tudo mais, mas nunca ninguém apareceu. No fim, ficou com ele. E ele próprio disse: “O Bolinhas deu-me sentido à vida na velhice.”
Nessa noite, o Miguel não pensava noutra coisa: no cão, abandonado, e no filho, frio e distante, que deixava o pai sem resposta.
Adormeceu ansioso, e até sonhou com uma rafeira triste, a vaguear pelas ruas de Lisboa, de olhar perdido.
Acordou sobressaltado com o som de respiração aflita. O senhor estava mal, a tentar apanhar ar, mão ao peito.
– Quer que chame um médico? perguntou Miguel, já de pé.
– Não… Agora não. Quero só que telefone ao meu filho, ao Ricardo. O número está ali escrito num papel na mesinha de cabeceira. Diz-lhe que, se puder, venha despedir-se de mim. Se não quiser, ao menos que trate do Bolinhas, que não fique ele sozinho.
Miguel ficou meio dividido, mas pegou no papel, marcou o número com as mãos a tremer.
– Estou a falar com o Ricardo? disse Miguel, sou o companheiro de quarto do seu pai…
– O Manuel Cardoso sou eu murmurou o senhor.
– do seu pai, Manuel Cardoso. Ele está indisposto e queria muito ver o filho.
– Está a morrer, é? Em que hospital é mesmo? Não me lembro…
– Santa Maria, terceiro piso, quarto 314, – respondeu Miguel, dando-lhe também a morada, por precaução.
Correu a chamar a enfermeira de serviço. Quando voltou, o senhor já quase não reagia.
– Sr. Manuel, aguente! O médico vem já aí. E o seu filho vem logo. Ouve-me, sim?
O coração de Manuel Cardoso não esperou: parou antes sequer do médico chegar. E depois, tal como Miguel vira no primeiro dia, vieram dois auxiliares buscar o corpo.
*****
– O seu pai morreu aqui ao meu lado, praticamente, disse Miguel ao Ricardo, quando este apareceu no dia seguinte.
– Olhe, ao menos não arrastou sofrimento. Nem o nosso, nem o dele. Pelo menos assim, pronto… Só espero é que a coisa com a herança se resolva depressa, porque tenho família, filhos, trabalho. Não tenho cabeça para isto atirou Ricardo, um pouco frio.
– O seu pai pediu-me muito para tratar do Bolinhas, para lhe arranjar uma família que lhe queira bem.
– O cão, pois O Bolinhas. Não sei… Ele gostava dessas coisas. Eu bem lhe disse que estava melhor no lar. Enfim. Ele que ficou com o cão, agora… enfim…
– Foi o último pedido dele. Bem podia cumprir, não lhe custa nada retorquiu Miguel, já com alguma mágoa.
Ricardo apenas pegou no telemóvel velho do pai e no papel do número. Saiu, porta a bater, sem mais palavra.
Miguel ficou ali a matutar. Dava-lhe pena o senhor Manuel. Tantos chegam aos noventa, porque não ele? E aquele cão, perdido. Sabia, no fundo, que o Ricardo ia vender a casa e largar o cão à sorte.
Nessa noite, sonhou com o senhor Manuel a percorrer Lisboa, a chamar por Bolinhas, lágrimas no rosto.
Nem em casa lhe largavam os sonhos tristes. A Constança percebeu o ar pensativo.
– Miguel, está tudo bem?
– Está estava a pensar Na cama ao meu lado estava um senhor. Entrou com um ataque cardíaco mas já não chegou à operação. Deixou um cão sozinho, o Bolinhas. O filho não quis saber do animal.
– E ninguém que fique com ele?
– O Ricardo, o filho… só quer saber da casa. Ele via logo pelo telemóvel: queria era saber como se faz para vender e por quanto tempo tem de esperar.
– Então vamos lá ver se encontramos o Bolinhas! sugeriu Constança. Se ele ainda andar por ali, fica connosco.
– A sério? Não te importas?
– Claro que não! Ia adorar. Passeamos juntos, temos companhia.
O Miguel ficou meio incrédulo: parar na receção, pedir o endereço do Manuel Cardoso. A senhora da receção olhou para eles com aquelas sobrancelhas, é confidencial. Mas uma caixa de bons bombons Regina e um pacote de café Nicola, ainda por cima acompanhados de um sorrisão da Constança, fizeram milagres, acredita.
Lá seguiram de carro até à casa do senhor Manuel, algures nos arredores de Lisboa aquela casita antiga, com um muro baixo. Procuraram no quintal, nada de cão.
Uma vizinha, assim mãe de família, saiu ao portão.
– Procura alguém, menino? – perguntou.
Quando o Miguel explicou ao que vinha, a senhora suspirou.
– Era homem de bom coração, esse Manuel. O filho dele preocupou-se foi em começar a obras para vender a casa. Nem funeral como deve ser lhe fez…
– E o Bolinhas, por acaso, viu-o por aqui? Ele gostava tanto daquele cão.
– Claro que vi. Ficou ali ao portão, noites e noites. Esperou sempre pelo Manuel, nunca percebeu porque não voltava. Chorava ao luar todas as noites O Ricardo acabou por enxotá-lo. Levou-o não sei para onde. Dizia que tinha arranjado quem ficasse com ele. Duvido…
– E sabe como era o Bolinhas? Tem foto?
– Tenho, sim, olha aí…
Mostrou-lhe no telemóvel: era um cão baixote, pelo de mel, bem simpático. A Constança logo viu:
– Um Cão dÁgua, que amor!
O Ricardo, claro, nunca quis saber de cães. Estranho, como dizia a senhora, como é que alguém tão bom como o Manuel cria um filho assim…
Despediram-se, entraram no carro, e seguiram. Quase em silêncio, com o coração apertado. Dali mesmo, deram umas voltas pelas ruas próximas, à procura do Bolinhas. Nada. E quando o Miguel tentou ligar ao Ricardo… bloqueado.
– Pode ser que tenha tido sorte disse a Constança, mais para animar o Miguel.
Seguiram estrada fora, ainda cabisbaixos, mas de repente nasce aquela coisa do destino: apanhando trânsito na segunda circular, a Constança vira para uma estrada alternativa.
Pararam o carro junto ao passeio, porque, de repente, uma sombra felpuda ali estava, a espreitar, com ar de perdido.
– Miguel, será aquele o Bolinhas?
– Parece, vamos ver.
Foram a pé, devagarinho. O cão olhou, desconfiado. Mas à medida que o Miguel se aproximava, sentiu era o Bolinhas.
– Bolinhas! Bolinhas!
O animal parou, cheirou o ar e, de repente, parecia reconhecer o cheiro do dono nas mãos do Miguel. Aproximou-se, baixou as orelhas, pediu mimo.
Ali ficaram, um tempo, ele a passar-lhe a mão na cabeça, a Constança lavada em lágrimas, e o Bolinhas feliz da vida.
Levaram-no para casa, claro. A partir desse dia, ganhou mesmo família.
– Vês, Miguel? disse-lhe a Constança enquanto preparavam a caminha e enchiam a taça de ração. Agora já tens desculpa para andares a passear por aí.
O Miguel sorriu. Sabes, disse ele, não espero encontro especial nenhum para fazer o pedido. É já hoje.
E tirou do bolso a caixinha do anel. Pediu-a em casamento ali, de improviso e a Constança respondeu logo que sim, sem pestanejar.
E pronto. O Bolinhas lá dormiu, sossegado no sofá, quase a sorrir no sono. E o Miguel pensou: “Vai e dá um abraço ao Manuel Cardoso, que agora já podes estar em paz…”
Foi assim. Sabes? A vida nem sempre é bonita, mas às vezes compensa mesmo.






