O Taxista Silencioso

O taxista que se calava

Tu nunca me ouves!

Atirei o prato para o lava-loiça com tanta força que até gotas de água salpicaram o tecto. Onze anos. As mesmas palavras dentro das mesmas paredes. E era sempre ele a começar com isto como se fosse tudo culpa minha, como se eu carregasse o peso do mundo sozinha.

António estava encostado à ombreira da porta da cozinha, braços cruzados no peito. Menos de quarenta anos, mas a discutir era pior que um miúdo teimoso, zangado, até ao último argumento. Eu já sabia de cor aquele ar: maxilar tenso, olhar perdido algures pelo chão. Virou costas para a janela, sinal inequívoco de “conversa terminada”.

Mas eu estava só a começar.

Esqueceste-te de ligar à minha mãe, disse eu, já com a voz a tremer. À minha mãe, António. Tem sessenta e três anos. Passou o dia à espera. Não era um presente, era só uma chamada. Três minutos. Tu não conseguiste.

Esqueci-me. Acontece. Estás a fazer um drama de nada.

Acontece? Esqueces-te sempre. Dos aniversários, do nosso aniversário de casamento, do meu próprio aniversário no ano passado também “esqueceste”, não foi?

Isso já foi há mil anos. Eu pedi desculpa, lembras-te?

Pediste desculpa e, logo a seguir, voltaste a esquecer! Eu agora sou o quê, o teu alarme pessoal?

Virou-se para mim. Os olhos irritados, cansados.

Tu nunca me ouves, repetiu, mais baixo. Digo uma coisa, tu entendes outra. Já não tenho mais paciência para explicar.

Peguei no casaco do cabide e tirei o telemóvel do bolso.

Onde é que vais?

À minha mãe.

Outra vez para tua mãe. Sempre a tua mãe.

Já nem queria saber. Fechei a porta atrás de mim com estrondo, e o frio do início de março do bairro de Benfica envolveu-me como um lençol húmido. Os meus dedos, trémulos, saltitavam no ecrã magros, ossudos de tanto apertar as mãos em punhos quando me enervo. Chamei o táxi. Benfica. Pagamento com cartão. Três minutos de espera.

Fiquei debaixo do prédio, gola do casaco levantada, a olhar para as janelas do segundo andar. Estava fria. E magoada. E chateada comigo por mais uma vez ter levado a discussão às alturas. A luz da cozinha ainda acesa. Portanto, ele ali, braços cruzados, à espera que eu voltasse.

Mas hoje não voltava. Não hoje.

O carro preto estacionou silencioso junto ao passeio. Entrei pelo banco de trás, sem olhar para o condutor. O cheiro no carro era de pinhal, não aquele ambientador barato do chinês pendurado no espelho, mas mesmo cheiro a ramos de pinheiro escondidos pelo tapete. E silêncio. Um silêncio espesso. Sem rádio, sem aquela voz do GPS, sem música. Só o ecrã no painel com o mapa a brilhar num azul baço.

O motorista acenou, olhos fixos no GPS, e arrancámos.

Deitei a cabeça no vidro e fechei os olhos. Só queria, pelo menos, um minuto de sossego. Mas não consegui. Por dentro tudo fervilhava, e as palavras saltavam sozinhas. Mal tinha batido a porta. Mal tinha deixado o marido a meio da discussão para ir para a minha mãe, já era a décima vez nos últimos três anos. E sempre pensava: chega, esta é a última. Até à próxima.

Será que é mesmo este o nosso destino? Para sempre aos gritos?

Desculpe, sai-me, mais para o vazio da carrinha do que para o motorista. Eu vou começar a falar, está bem? Preciso mesmo de deitar isto cá para fora.

Silêncio. Não respondeu, mas também não protestou. Interpretei como consentimento.

Estamos casados há onze anos, comecei, e falhei logo na segunda palavra. Casei-me com ele aos vinte e cinco, e achei que finalmente tinha encontrado alguém que me percebia. Que me ouvia quando eu precisava. Que não fugia quando as coisas corriam mal.

Lá fora eram as luzes de Alvalade a passar como um filme demasiado visto. Conhecia cada letra, cada café, cada buraco no passeio. E tudo parecia indiferente, tal como a noite.

Mas depois tudo se tornou igual. Percebe? As discussões tornaram-se uma rotina. Ele diz que eu não o ouço. Eu digo que ele não me escuta. E tem razão. E também não tem. Já tentámos de tudo. Conversar com calma já tentámos. Calarmo-nos também. Psicólogo António desistiu à terceira sessão. Disse: Não vou dar dinheiro a um estranho para me ensinar a ser marido. Ficou assim.

Apanhei-lhe os olhos no retrovisor central. Uns olhos afastados, castanho-mel, com rugas de quem passa a vida a semicerrar os olhos à luz. Olhava para a estrada, mas por um instante, cruzou o olhar comigo pelo espelho. Não era curioso. Era só para marcar presença.

Continuei. Precisava mesmo.

***

Sabe o que me custa mais? já não falava para ele diretamente, mas sim para a noite, para as luzes que cintilavam em Sete Rios. O que dói é que ele, no fundo, é bom. O António. Não bebe, não anda por aí, traz sempre o ordenado para casa. Quando estive doente há três anos gripe, depois pneumonia esteve duas semanas sem sair do meu lado. Fez-me canja, horrível e salgada, mas fez.

O táxi deslizou para a avenida. O GPS reajustou o caminho trânsito mais à frente, talvez. Nada de voz no GPS. Estranho. Normalmente, aquela voz irritante está sempre a dizer vire à direita a trezentos metros. Este nada. Talvez o condutor goste do silêncio. Eu entendia-o.

O problema é que ele não me ouve, disse quase em sussurro. Não é de propósito. Simplesmente… não sabe. Digo-lhe: sinto-me em baixo, leve, precisava que pelo menos me dissesse eu percebo. Ele responde: o que queres mais? Tens casa, tens carro, eu trabalho!

O silêncio no carro era diferente. Nem carregado, nem incómodo. Mais como um quarto vazio onde se pode gritar sem receio de ser julgada. Pensei: que estranho, comparar um táxi a um quarto vazio. Se calhar, estava mesmo cansada.

Mas sentia-me mais leve. A sério.

Discutimos por tudo e por nada. Hoje foi pelos anos da minha mãe. Na semana passada, porque ele deixou a toalha molhada na cama. Uma toalha molhada! Gritei como se ele me tivesse vendido a casa pelas costas. E ele gritou que eu era picuinhas. E ambos com razão. E ambos errados.

Pensei se não devia pelo menos secar as lágrimas. De certeza que a maquilhagem já ia para as urtigas, mas não fazia mal. Ia para a minha mãe. Ela já me via em todos os estados possíveis: sem maquilhagem, inchar de asneira a chorar, tudo. Ela queria era que eu aparecesse.

Nem para amigas posso ligar. A Cátia anda na terra, nem sempre a rede lá presta. A Vera? O marido está no hospital, agora não tem cabeça para os meus dramas. Ligar à minha mãe lavada em lágrimas é logo desgraça: não dorme, começa a preocupar-se, vê o telemóvel de hora a hora. Por isso acabo sempre por aparecer de surpresa, para ver que estou bem. Ela abre a porta, lê-me logo o rosto. Não diz nada. Só põe o bule ao lume.

Olhei mais uma vez ao espelho. O condutor seguia a sua vida, mãos quadradas, firmes no volante, dedos grossos como marcadores. Homem forte, de mais de cinquenta. Acenou pequeno, talvez porque a estrada descia.

Eu vi nisso sinal de continua. Continuei. Já não me importava que ele pensasse que eu era louca.

Também tenho culpa, eu sei. Também armo a barraca. Digo coisas que não devia. Ontem disse-lhe: se calhar nunca devíamos ter casado. Vi-lhe a cara a fraquejar, mas já não consegui parar. Sabe como é? Quando sabemos que estamos a exagerar mas mesmo assim, continua-se. Uma avalanche.

Passámos a bomba da Galp. As luzes néon entraram pelo carro e morreram logo. Lembrei-me: já tínhamos ido ali juntos, meio da noite, só para ir buscar café à máquina. Porque gostávamos de sair de carro.

Ontem ele disse: Tu nunca me ouves. E percebi que tinha razão. Eu não ouço. Fico à espera que ele acabe para dizer o meu argumento. Isso não é ouvir. Só esperar a vez. Que diferença gigante.

Já não chorava. As lágrimas ficaram em Entrecampos. Agora já falava mais calma. Sentia, em cada frase, sair um bocadinho de peso. E isso, isso fazia-me mesmo falta.

E às vezes penso: será que ambos temos medo da mesma coisa? Que o outro vá embora. Então gritamos para sermos nós a não sermos deixados. Um ciclo. Grita-se até cansar, cala-se até doer, depois grita-se outra vez. Não sei sair disto.

O condutor mudou de faixa. Vi o reflexo dele no espelho, olhar morno, de mel. Olhou-me uma fração de segundo e voltou à estrada. Sem pena, sem aborrecimento. Presente, só isso. Era disso que eu mais sentia falta na vida: presença silenciosa, sem cobranças.

***

Sabe qual era o meu sonho aos vinte e cinco? sorri, mas a boca saiu enviesada. Chegar a casa e ele perguntar: Como correram as coisas hoje? E sentir que queria mesmo saber. Que se importava não por dever. Porque lhe interessava saber o que penso, o que me assusta. Será pedir muito?

Desviámos do IC19 para uma rua estreita nas Amoreiras. As árvores fechavam o carro nos seus braços e ali ficou mais escuro. Do motorista só via agora o vulto largo, cabelo curtinho atrás. E o GPS, sempre calado, só guiava com luz. Nem um bip.

Ele só perguntava O que há para o jantar?. E eu pensava: pronto, são homens. Vai melhorar. Mas piorou. Devagar, como a água do chuveiro a arrefecer um dia está quente, depois morna, depois só fria. E habituamo-nos. E um dia, estamos ali, debaixo do gelo, sem lembrar quando foi quente.

Calei-me uns dez segundos. Talvez quinze. No meio do silêncio ouvi o coração bater forte. Não era medo. Era alívio. Estava a contar o que nunca disse a ninguém. Nem à minha mãe. Nem à Cátia. E não senti vergonhas. Senti-me mais leve.

Se calhar, porque ele não dizia nada. Um silêncio sem já sabias e não queres tentar assim?. Sem conselhos, sem sorrisos de desdém. Só ali, sem incomodar.

Já pensei em divórcio, murmurei quase impercetível. Três vezes nos últimos dois anos. Mesmo a contar. Primeira vez, quando o António esqueceu o nosso aniversário. Eu pus a mesa bonita, vesti-me, comprei vinho. Chegou a casa e perguntou, Porque é que estamos a celebrar?. Fugi para a casa de banho e fiquei meia hora sentada no chão, só a ouvir o barulho da água.

O motorista acenou com a cabeça. De leve. Ou imaginei.

Segunda vez, quando estive doente. Duas semanas de canja e depois, meio ano a ouvir sobre o heroísmo dele. Sempre que pedia algo, vinha aquele lembras-te como cuidei de ti?. Eu agradeci, várias vezes, mas ele não ouviu. Ou esqueceu.

Terceira vez agora hoje, neste serão. Quando ele disse Tu nunca me ouves outra vez. Palavras que já não me dizem nada. São como uma parede onde bato dói, mas já nem sinto.

Mas percebi outra coisa: não quero divorciar-me. Sabe porquê? Não é pelo apartamento, nem pela rotina. É porque me lembro de como ele é quando não se zanga, quando não está cansado, quando não traz a cabeça cheia do trabalho. Aí é a pessoa por quem casei. Sorri só com os olhos, traz-me chá na cama aos domingos, ajeita-me a gola do casaco quando pensa que não vejo.

O carro parou no semáforo de Campo de Ourique. A luz vermelha encheu o carro de vermelho, vi de lado o rosto do condutor. Sereno, composto, sem pressa alguma de sair dali. Tranquilo como só os que já se habituaram a viver devagar.

Acho que desaprendemos a falar. Ou nunca aprendemos. Talvez gritamos tanto porque nunca nos ensinaram a falar baixo. Os meus pais também só sabiam gritar. O meu pai foi-se embora quando eu tinha catorze. A minha mãe ficou sozinha e aguentou tudo. Jurei a mim mesma que comigo ia ser diferente. Que ia aguentar a família. Que ia ter paciência. Que ia ser mais madura.

O sinal abriu. O carro avançou. Pensei: pronto, já estou a armar drama outra vez.

Ter paciência não é calar. É ouvir e não explodir. Eu calo, calo, calo e depois rebento de tal maneira que até os vidros tremem. Ou seja, nunca tive paciência. Só engoli.

Olhei para o GPS. Faltavam sete minutos para Benfica. Quase lá.

Pensei, de repente, que não queria sair do carro. Não porque não quisesse ir à minha mãe mas porque, naquele silêncio, pela primeira vez em anos, sentia finalmente paz. Ninguém discutia. Ninguém interrompia. Ninguém dizia: a culpa é tua.

Só silêncio. E, caramba, como curava. Sentia o corpo relaxar como quem larga uma mochila pesada depois de um dia inteiro.

Acho que acabei de lhe contar mais do que contei a qualquer pessoa nos últimos anos, confessei, surpresa. E o senhor nunca me interrompeu. Nem deu conselhos. Nem perguntou mas já tentaste conversar?. Todos dizem isso. Como se nunca me tivesse passado pela cabeça

Silêncio. Nem uma palavra. E isso foi bom. Senti os ombros a descer aqueles ombros que a noite toda levei colados às orelhas, à espera de ser atingida. Ali, finalmente descontrairam.

Obrigada, disse eu. Deve estar cansado de passageiras como eu. Mal entram, desfiam logo o rosário. Mas, mesmo assim, obrigada.

***

O carro entrou na rua da minha mãe. Reconheci logo o portão de madeira, pintado de verde em setembro passado. O candeeiro de rua ao lado. Luz acesa na cozinha. A minha mãe já não dormia cedo dizia que gostava de ler livros à noite, mas eu sabia que era só para estar de sentinela à espera que alguém batesse à porta à sexta-feira.

Pode parar aqui, por favor pedi.

O carro travou macio à porta. O motor desligado.

O pagamento passou logo pelo telemóvel. Olhei para o condutor.

Obrigada, disse eu. E depositei naquele obrigada tudo o que tinha. A sério. Obrigada por me ouvir. Sei que não tem obrigação. Nem lhe pagam extra por isso. Mas fez mais por mim do que o meu marido em três anos, pode acreditar.

Virou-se para mim. Primeira vez em toda a viagem vi-lhe a cara de frente: rosto largo, tranquilo, olhos dourados. Sorriu simples, caloroso. Depois, fez um gesto. Primeiro não percebi. Encostou a mão aos lábios e soprou-na para diante.

“Obrigado”. Língua gestual.

Fiquei pasmada. Ele então estendeu-me um cartãozinho. Branco, letras grandes. Li sem perceber por instinto.

Condutor Tomás. Surdo-mudo. Se precisar de falar outra vez ligue. Não conto a ninguém. Literalmente.

Olhei para ele.

Não tinha ouvido uma palavra em toda a viagem. Uma hora a despejar a minha alma e ele, surdo, sem perceber nada do António, dos onze anos, das canjas salgadas, dos divórcios pensados. Nada.

Só conduziu. Silencioso, porque não podia falar. E acenava porque via os meus olhos no espelho e percebia: aquela mulher só precisa de companhia.

O GPS, claro, sem som. Não precisava de instruções por voz. Lia na tela.

Dei uma gargalhada. Primeira de todo o dia verdadeira. Não histérica, nem com lágrimas. Rirei mesmo, como se ri quando a vida é tão absurda que mais vale rir do que chorar.

Tomás sorriu de volta. Fez o gesto do polegar para cima. Depois tocou no peito, virado para mim não sei bem o que queria dizer, mas percebi na alma: era algo bom.

Saí do carro. Fiquei um instante ao portão, com o cartão na mão. Olhei para trás ele ainda estava ali. Aguardava que eu entrasse. Acenei. Ele piscou os máximos. Senti um calor feliz, de fazer arder os olhos.

A minha mãe abriu a porta antes mesmo de eu bater. Mariana Brito, sessenta e três anos, bibliotecária reformada, aquela pessoa que sabe exatamente quando pôr água a ferver e quando calar.

Tira o casaco, disse ela. O chá já está feito.

Descalcei-me. Pendurei o casaco. Sentei-me na velha mesa de cozinha aquela com toalha de flores, onde estudei, chorei os desgostos e fiz jantares para duas almas às três da manhã.

Outra vez? perguntou. Sem julgar. Só para confirmar.

Outra vez, admiti.

Ela pôs-me uma caneca à frente. Puxou a taça de compota de ameixa de vidro, do verão passado. Agarrei a chávena com as duas mãos. Quentinha, mesmo o que precisava.

Mãe, disse eu, vou contar-te algo bizarro.

Pode ser que acredite, respondeu, sentando-se em frente.

E contei tudo. Do táxi. Do silêncio. Da conversa de uma hora que ninguém ouviu. Do cartão.

A mãe ouviu. Sem comentários, sem interromper, nem um ai filha!. Só ouviu. Depois deitou-se mais chá.

Olha, sabes que quando o teu pai se foi embora, passei seis meses a conversar com o frigorífico? Verdade. Chegava do trabalho, abria a porta e contava-lhe tudo. O ordenado, o chefe ranhoso, o telhado a pingar e contas atrasadas. Ele fazia barulho. Eu falava. E ajudava.

Oh mãe era um frigorífico.

E o teu taxista surdo-mudo. Que diferença faz quem está do outro lado? O que importa não é quem ouve. O importante é tu finalmente dizeres alto. Enquanto as ideias estão só na cabeça, são como abelhas fechadas num frasco. Fazem barulho, picam, incomodam viver. Basta tirar a tampa vão-se embora.

Bebi um gole. Queimei o lábio. Soprei.

Disse-lhe que pensei no divórcio.

Ao António?

Ao taxista.

Ah, a ele podes. Não vai contar a ninguém, riu mãe, cúmplice. Nem que quisesse!

E rimo-nos as duas. Sentadas naquela cozinha, a rir das probabilidades. Do quanto a vida é inesperada. Do melhor ouvinte que tive em anos nem sequer ouvir. Do inesperado consolar e muito.

Agora diz-me uma coisa, ficou séria. Tu queres mesmo divorciar-te?

Fiquei calada. Rodopiei a caneca entre as mãos.

Não sei, mãe. Às vezes penso nisso. Depois lembro-me de como ele me ajeita a gola do casaco, às escondidas. E percebo que não. Não quero estar sem ele.

Então pára de gritar e começa a ouvir, disse ela suave. Eu nunca consegui. E perdi o teu pai. Não porque ele fosse mau. Só porque andávamos ambos surdos. Não como o teu taxista mas por escolha. Isso é pior.

Olhei. Ela desviou o olhar para a janela o truque de sempre para as emoções lhe saírem pelos olhos fixos lá fora.

Penso nisso há vinte anos, continuou. Vinte anos depois, ainda queria ter dito: Podemos só conversar? Sem culpas, sem gritos. Fala-me só do que te dói. Talvez tivesse ficado. Talvez não. Mas eu teria tentado.

Calei-me. Sentia vontade de dizer algo inteligente, mas só saía silêncio.

Vai deitar-te ao teu antigo quarto, mudou de tom. Preparei a cama. Já sabia que vinhas.

Como?

Sexta à noite, lua cheia. Vocês dois, nestas alturas, estão sempre iguais.

Ia refilar, mas lembrei-me das últimas três discussões e calei-me. Talvez fosse verdade.

Deitei-me no velho quarto, na cama de molas, olhos no tecto. O cartão do Tomás na mesinha, retângulo branco no breu.

O melhor ouvinte da minha vida não ouviu uma única palavra. Foi a ele que contei tudo, porque ele ficou em silêncio. Um silêncio sem crítica, sem conselho, sem a culpa é tua. Só espaço. Um espaço grande e tranquilo, onde eu pude despejar tudo.

Talvez o que eu realmente precisava não era uma resposta. Era mesmo ouvir-me a mim.

Gostei da ideia. Virei-me para o lado. Adormeci.

***

De manhã acordei com o telemóvel a vibrar na mesa. Ecrã: António.

Olhei o nome três segundos. Normalmente atendia à primeira, para ser eu a começar, para controlar logo a conversa. Hoje levantei, atendi e calei-me.

Rita, disse ele, voz rouca. Não dormi. Rita, perdoa-me.

Calei-me. Esperei.

Eu devia ter ligado à dona Mariana. Lembrei-me o dia todo. Depois no trabalho, barafunda, esqueci-me. Não porque não me importo. Esqueci-me porque sou tonto. O que disse ontem sobre tu não me ouvires era sobre mim. Sou eu que não ouço. Tu falas, e eu só espero que termines para responder. Não é a mesma coisa.

Parou. Estava à espera da minha reação. Que começasse a listar as mágoas de sempre, ou perdoasse, ou passasse um sarcasmo. Queria o guião habitual.

Mas sentei-me ali, encostada à cama, pernas encolhidas, só a ouvi-lo. Não estava a preparar resposta, nem à espera de intervalo para meter a minha. Só ouvi.

E ouvi. Acho que pela primeira vez em muito tempo.

Ainda aí estás? estranhou.

Sim, disse eu. Estou a ouvir.

Ficou em silêncio. Depois:

É a primeira vez que respondes assim. Costumas falar logo. Agora ouves. Estranho. Mas sabe bem.

Sorri. Ele não viu, mas sorri.

Vem para casa, pediu. Por favor.

Vou. Mas não já. Daqui a pouco. Tenho chá para acabar.

Riu-se. Aquela risada curta dele.

Está bem. Espero por ti. E vou ligar já à tua mãe. Ainda vou a tempo dos parabéns atrasados valem mais que nunca.

Desliguei. Fiquei ali sentada a olhar pela janela. O quintal da mãe, nu, sem folhas. Mas já com botões nos ramos. Março. Tudo ainda para vir.

Fui ao casaco e tirei o cartão do Tomás. Li de novo.

Condutor Tomás. Surdo-mudo. Se precisar de falar outra vez ligue. Não conto a ninguém. Literalmente.

Peguei no telemóvel e escrevi: Tomás, sou a passageira tagarela de ontem. Queria dizer: é o melhor ouvinte que já conheci. Não importa que não ouça. Obrigada.

A resposta chegou logo. Três emojis: sorriso, carrinho, mão aberta. E um texto: Disponível sempre. O meu tarifário de silêncio é grátis.

Dei outra gargalhada. A terceira em menos de vinte e quatro horas. Pensei: que estranho, tanto tempo a gritar só para ser ouvida. Depois entra-se num táxi, fala uma hora, ninguém ouve e é aí que se fica melhor.

Porque às vezes não interessa quem ouve. O que importa mesmo é dizer.

A mãe apareceu à porta.

Queres pequeno-almoço?

Quero, sorri.

Fui para a cozinha. Guardei o cartão do Tomás no bolso do casaco. Não como contacto, mas como recordação.

De que a conversa mais importante destes anos foi com alguém que não ouviu uma palavra. Que o meu melhor ouvinte sou eu mesma. E que às vezes, só às vezes, o que faz mesmo falta é calar um bocadinho e deixar o outro falar. Como o Tomás fez. Como eu fiz esta manhã, ao telefone com o António.

Tu nunca me ouves disse ele ontem.

Hoje, finalmente, ouvi.

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