O Sósia da Esposa

Cópia da esposa

– Tens a certeza que isto não te incomoda? perguntou Madalena, parada à porta com o saco a tiracolo e um sorriso estranho de quem não sabe onde pôr as mãos, um sorriso que Inês nunca lhe tinha visto. Eu sei que é um transtorno. Sei mesmo.

– Madalena, deixa-te disso. Entra, vá lá. Inês recuou, segurando a porta. O quarto está livre, o Vasco não se importa. Está tudo bem.

– O Vasco não se importa repetiu Madalena, como se a palavra não se importa tivesse peso. Não ironizava, antes se admirava. Como se ouvir não se importa fosse coisa importante.

– Ele nunca se importa com nada, disse Inês, a caminho da cozinha. Descalça-te, as pantufas estão à esquerda.

Assim começou.

Inês tinha cinquenta e dois anos, Madalena cinquenta e um, amigas desde os tempos da faculdade. Não se viam com frequência há uns cinco anos. Telefonavam, encontravam-se de vez em quando para um café no Rossio. Inês achava que conhecia bem Madalena, o suficiente para lhe abrir a porta sem grande pensar. Madalena divorciou-se, terminou o contrato da casa arrendada. Os papéis para a nova arrastavam-se. Duas ou três semanas, talvez um mês. Era só preciso esperar, aguentar um pouco, levantar-se outra vez.

Moravam em Setúbal uma cidade nem pequena nem grande, onde todos os bairros parecem primos uns dos outros e no minimercado do fim da rua tratam-nos pelo nome. O apartamento de Inês era T3, terceiro andar, janelas para uma rua calma. O Vasco trabalhava numa empresa de obras, longe das chefias mas numa posição estável. Inês dava aulas de Economia num Instituto Superior. Vinte e três anos juntos. A filha vivia em Braga. O apartamento era espaçoso, confortável, com tudo bem arrumado há anos, como uma sala onde nem vale a pena mudar os móveis.

Madalena chegou com uma mala grande e uma caixa. Tirou tudo devagar, pouco visível. Nos primeiros três dias, Inês quase não a ouviu: saía cedo, voltava tarde, comia pouco, falava ainda menos. O Vasco, no primeiro dia, disse:

– Fica cá muito tempo?

– Um mês, respondeu Inês.

– Um mês, repetiu o Vasco, e a maneira como repetia era igual à de Madalena.

Inês ignorou. Era dessas pessoas que não liga a detalhes. Ou pensava que não liga.

No início da segunda semana, aconteceu algo estranho. Inês entrou na casa de banho de manhã e viu o frasco de perfume no sítio errado. O perfume chamava-se Gardénia frasco verde-escuro, tampa prateada. Usava aquele cheiro fazia já três anos, comprado sempre na mesma perfumaria da Av. Luísa Todi. O frasco estava no rebordo do lavatório, não na prateleira à esquerda. Inês concluiu que se teria distraído, voltou a pôr no sítio. Esqueceu.

Na terceira semana notou outra coisa.

Tomavam pequeno-almoço as três. Inês fazia café à sua maneira: primeiro um toque de água fria, depois a quente, nunca a ferver, senão amarga. O Vasco sabia, elogiava sempre. Aquele dia, Madalena preparou o café porque Inês ficou presa ao telefone. E o Vasco experimentou e disse:

– Está bom.

– Copiei da Inês, disse Madalena. Ela faz sempre assim.

Inês olhou para ela. Madalena sorriu. Tudo parecia gentil, inofensivo. Inês sorriu também. Mas qualquer coisa ficou presa, lá dentro, sem palavras.

A semana do trabalho, com horários e correções, dissolveu a inquietação. Chegava a casa e encontrava a sala limpa e arrumada. Descobriu que Madalena andava a passar panos, dobrar toalhas. O Vasco habituou-se depressa.

– Hoje foi a Madalena quem cozinhou, avisou uma noite, com ar de quem dá boa notícia. Feijão verde estufado. Bem bom.

– Eu também faço assim, comentou Inês.

– Pois, anuiu ele. É parecido.

Não perguntou qual era melhor. Ele não disse.

Nesses dias, Madalena trabalhava em teletrabalho, documentos, dizia ela, Inês não quis saber muitos pormenores. Passava o dia no quarto, à tarde fazia o jantar, ao serão arranjava-se, vestia calças, blusa, nunca algo de casa. Inês reparou porque ela própria usava calças largas e camisola de lã ao final do dia, e Madalena ficava sempre mais arranjada, mesmo ali, na sua sala.

Certa noite, o Vasco sentou-se ao lado de Madalena, virados para a televisão. Inês, a ordenar testes no quarto da filha, ouvia pela parede as conversas curtas e seguras. O Vasco contava coisas, Madalena ria-se. O riso dela era igual ao de Inês, mas mais doce. Deu-se conta e afastou o pensamento. Riso é riso, não é nada.

Mas voltou a pensar nisso, dias depois, sem se conseguir afastar.

Madalena mudou o penteado. Antes, curto e moderno. Agora, deixava crescer e penteava para trás em onda leve, tal como Inês. Viu isso ao espelho, no corredor, as duas lado a lado. Quase como duas fotos iguais, passado e presente.

– Fica-te bem, disse Inês.

– Achas? Madalena ajeitou uma madeixa ao espelho. Vi em ti, apeteceu experimentar.

Outra vez: vi em ti. Outra vez aquela cópia leve, subtil. Inês sorriu e foi preparar o chá. Cá dentro, não sentiu vontade de sorrir.

No domingo, ligou à filha.

– Mãe, está tudo bem?

– Está. Temos cá a Madalena. Lembras-te dela?

– Ah, sim. Ainda está aí?

– Ainda. Está à espera dos papéis.

– Certo. O pai está bem?

– Eles entendem-se lindamente.

Pausa.

– Isso é bom ou mau? riu a filha.

– É bom, mentiu Inês.

Depois, ficou algum tempo à janela com chá frio. Pensou que entendem-se bem era neutro, mas soava-lhe cauteloso. Como se apalpasse o chão.

Na quinta semana, Madalena quis a receita da tarte.

– Aquela de domingo passado. Maçã e canela.

– Não tenho escrito, faço de cabeça.

– Então explica. Quero tentar.

Inês explicou, com detalhe. Madalena apontou no telemóvel. Três dias depois, fez. O Vasco comia e dizia óptimo, e Inês já não sabia se o elogio era ao bolo ou à pessoa que o fazia.

Nessa noite, Inês abriu o roupeiro no corredor e viu um casaco. Cinzento claro, com cinto. Quase igual ao seu. Madalena comprara um igual porque não? Inês ficou a olhar para os dois casacos gémeos, pendurados lado a lado.

Não perguntou porquê. Não era medo da resposta. Não sabia como perguntar sem soar tola.

Vivia-se uma época de muita pressão no trabalho: o Instituto em inspeção, Inês a dormir mal, o Vasco na sala ao final do dia com Madalena. Falavam baixinho. Entrava e integravam-na na conversa, mas sentia-se como figurante, não a personagem principal.

Disse algo ao Vasco, noite dessas, quando Madalena se recolhera ao quarto.

– Vasco, não notas que ela… copia-me?

Olhou para ela, genuinamente confuso.

– Quem? A Madalena?

– Sim. O cabelo, o casaco, os perfumes, os temperos.

– As amigas pegam coisas umas das outras… não é normal?

– Deve ser, disse ela.

Ele já olhava para o telemóvel. O assunto fechou-se, sem dor.

Inês ficou deitada na escuridão, pensando que sim, as amigas pegam pequenos hábitos. Ela própria deve ter imitado Madalena um dia. Isso era normal. Repetiu o termo: normal, normal, até perder sentido. Não colava.

Nos dias seguintes, os olhos de Inês viram mais. Madalena inclinava ligeiramente a cabeça a conversar com o Vasco, tal como Inês. Dizia pronto, claro, arrastando a palavra, igualzinho. Bebia chá sem açúcar, quando Inês sabia que Madalena usava sempre duas colheres. Agora, sem açúcar.

Já não era coincidência. Era outra coisa.

Ligou à colega, Teresa, uma mulher boa para ouvir.

– Teresa, alguma vez sentiste que alguém se tornava a tua cópia?

– Como assim?

– Imita. O vestir, o falar, os hábitos…

– Isso é inveja calada, li isso num artigo. A pessoa quer a tua vida mas não consegue pegar nela. Então imita, aos bocadinhos.

Inês calou-se.

– Aconteceu-te?

– Não sei. Talvez não.

Mas sabia.

A conversa aberta com Madalena não partiu de Inês. Aconteceu, num serão na cozinha, as duas com chá.

– Inês, tu és tão inteira. Olho para ti e penso: é assim que se vive. Casa em ordem, marido, emprego. Tudo alinhado.

– Andei vinte anos a alinhar, disse Inês.

– Nota-se. Sente-se. O Vasco…

Interrompeu-se.

– O que tem o Vasco?

– Valoriza-te. Ele disse: vocês dão-se bem. Compreendem-se.

Inês pousou a chávena.

– Falas com ele sobre mim?

– Às vezes. Em conversa. Elogia-te.

– É simpático, disse Inês, mas sentiu o oposto.

Não sabia explicar o porquê do incómodo. O marido elogia-a à amiga. Que mal teria? Nenhum. E mesmo assim, algo estava deslocado. Intuição de mulher, aquela que Inês achava graça nas outras e na qual não confiava em si. Esta vez, não falhou.

Na sexta semana, Madalena pediu para usar o Gardénia.

– O meu acabou, disse ela. E não vou ter tempo de ir à loja. Só umas vezes.

– Claro, anuiu Inês.

À noite, reparou: o frasco estava quase vazio. Certeza de que antes ia a mais de meio.

Guardou o frasco no armário e fechou com o velho cadeado. Olhou-se ao espelho. Agora escondo perfume da minha amiga. Que pessoa sou eu?

Mas não abriu o frasco.

O Vasco nesse dia chegou animado vinha mais animado ultimamente quando Madalena estava em casa. Trouxe um bolo. Sem ocasião.

– Vai saber bem, disse.

Madalena sorriu, exatamente como Inês sorriria. Nem mais, nem menos. Certinho. Inês olhou pela porta: Madalena acertava em tudo no elogio, no riso, na inclinação da cabeça, na surpresa. Tudo igual, só mais atento, sem desgaste, sem vinte e três anos de rotina.

E o Vasco notava sem perceber que notava.

Inês sentou-se, comeu uma fatia. O bolo era bom. Conversaram sobre trivialidades. Parecia tudo normal. Mas ela sentia algo sem nome, como quando entras em casa e tudo está no sítio, mas ligeiramente mexido, ao de leve.

A viagem surgiu do nada. O Instituto pediu alguém num curso em Évora, quatro dias. O diretor perguntou à sexta, ela respondeu segunda. Um pensamento: deixar o Vasco com a Madalena quatro dias. Cortou logo. São adultos. Não vai haver nada. Pensou demasiado, precisava descansar.

Antes de partir, falou ao Vasco:

– Volto sexta à noite. A Madalena ajuda no jantar, ela sabe.

– Desenrascamo-nos, não te preocupes.

– Não me preocupo.

Olhou-o bem. Cara normal, calma. Vinte e três anos e conhecia todas as linhas daquele rosto. Um detalhe um leve alívio. Do tipo de quem não pensa em coisas pesadas.

Partiu quarta cedo. No comboio, lia material do curso, tomava café em copo de papel, via a planície. O curso era aborrecido, útil. À noite, telefonava ao Vasco. Conversas curtas.

– Tudo bem aí?

– Tranquilo. Comemos, está tudo bem.

– A Madalena está?

– Está, no quarto.

– Pronto. Boa noite.

Foi dormir no quarto do hotel, sem sono. Pensou em mil coisas: cursos, filha, a chávena rachada, a Madalena, os dois casacos no armário. O perfume.

Quinta à tarde, ligou o diretor.

– Inês, amanhã repete-se matéria que já sabes. Vem para casa hoje, ganhas um dia.

Chegou a casa às nove e meia, de surpresa. O comboio adiantou, o táxi foi rápido, não havia trânsito.

Entrou devagar, achando que Vasco já dormiria.

Mas não dormia.

Havia velas acesas na sala. Duas, apenas, em cima da mesa do sofá. Pratos, copos, taças pequenas. Cheiro a comida e a perfume. Cheiro a Gardénia. O frasco estava trancado. Madalena comprara o seu.

O Vasco sentado no sofá. Madalena ao lado, vestida de azul escuro, vestido que Inês nunca lhe vira, mas com corte igual aos que comprava, na cor que Inês gostava. Cabelo em onda. Mãos pousadas sobre os joelhos. Falavam calmamente. Ao entrar, ambos olharam.

Pausa de três segundos.

– Chegaste cedo, disse Vasco.

– Vejo, respondeu Inês.

Pousou a mala. Tirou o casaco, tensa mas polida, comandando pequenas tarefas como se seguisse saltos de corda.

– É só um jantar, Inês, explicou Madalena. Só isso.

– Vejo, sim. Com velas.

Nova pausa.

– Romântico, disse Inês, num tom tão neutro que a surpreendeu.

O Vasco levantou-se.

– Não faças disto…

– Vasco, cortou Inês, quase num sussurro. Não me digas para não fazer.

Ele calou-se. Madalena via a toalha.

Inês foi à cozinha. Bebeu água. Reparou no vaso de gerânios no parapeito. Costumava regar às quartas. Anteontem não estava cá. A planta estava perfeita.

Madalena regou, concluiu Inês.

Voltou à sala.

– Madalena, amanhã consegues uma alternativa?

Madalena levantou os olhos.

– Sei que isto parece…

– Amanhã tens um sítio para ficar? repetiu Inês. Sem levantar a voz.

– Sim. Arranjo.

– Está bem.

Pegou na mala, foi para o quarto. Fechou, sem trancar. Deitou-se por cima da colcha. Ouvia sons suaves alguém a arrumar a mesa. Depois tudo parado. Depois, um ranger de porta o quarto de hóspedes.

O Vasco não foi dormir ao quarto deles. Inês escutou-o acomodar-se no sofá. Mais que palavras.

Levantou-se cedo. Preparou café e bebeu à janela. A cidade acordava devagar. Sexta-feira. Passou uma senhora com cão. Pombos nas caleiras da frente. Manhã igual a tantas.

O Vasco saiu perto das oito.

– Precisamos de conversar, disse ele.

– Sim.

– Inês, entre mim e a Madalena não há nada.

– Pode ser.

– Não é pode ser. Não há mesmo.

– Vasco, continuou, olhando a rua. Não percebes. Não falo do que há. Falo do que vi nos últimos tempos.

– E o que viste?

Ela virou-se, devagar.

– A Madalena, aqui em casa, tornou-se em mim. O meu cabelo, os meus perfumes, casacos, receitas, gestos. E um marido que repara e sente gosto nisso. Porque é quase eu, só que sem cansaço. Sem rotina. Sem vinte e três anos em cima.

Ele ficou em silêncio.

– Não é uma questão. É o que eu vi, ponto.

– Estás a exagerar, murmurou.

– Talvez, aceitou ela. Mas vou trabalhar. Quando regressar, quero o quarto de hóspedes sem nada dela.

– Inês…

– E outra coisa, já a vestir o casaco. Ingenuidade. É o meu defeito. Fui demasiado confiada. Em vós dois.

Saiu. Fechou devagar.

No Instituto, deu duas aulas, respondeu a perguntas, tomou chá com Teresa. Ela não perguntou nada, só acenou. Há pessoas que sabem ouvir sem perguntar.

Chegou a casa a meio da tarde. O quarto de hóspedes limpo, como nunca ali tivesse estado ninguém. Só uma escova branca, esquecida na prateleira da casa de banho. Pegou nela com cuidado, deitou fora.

O Vasco em casa. Lia o telemóvel no sofá, levantou a cabeça.

– Foi embora.

– Vi.

– E agora?

Inês tirou o casaco. Foi para a cozinha, mexeu nos tachos, sem destino certo. Apenas movimento.

– Inês, são vinte e três anos. Não se deita fora

– Dá, Vasco. Espera. Dá-me tempo.

– Quanto?

– Não sei. Dias.

Os dias viraram uma semana, em casa os dois, como estranhos que habitam o mesmo espaço. Polidez, sem brigas. Comiam separados. Dormiam separados. O Vasco tentou falar, Inês respondia com parcimónia. Não era mágoa, era falta de palavras para o que sentia. Palavras todas alinhadas lá dentro, medo de abrir a torneira e não conseguir parar.

Nessa semana, pensou muito. Na Madalena à porta, sem hesitar deixa-a entrar: amiga em apuros, normal. E em quando sentiu o estranho e calou. Inveja calada, copiando traços de vida. Sem maldade, talvez. Só alguém vazio a recolher vida alheia, cheiro a cheiro, receita a receita.

O que mais doía era o Vasco, não Madalena.

Ele podia não reparar. Ou ter reparado e falado. Ou ignorado a cópia melhorada, como Inês chamava. Escolheu trazer bolo, rir ao lado de Madalena, jantar com velas. Se calhar, sem maldade. Se calhar, só sem pensar.

Começada a segunda semana, Inês ligou à filha.

– Mãe, estás estranha.

– Estou?

– Com o pai vais separar-te? pela primeira vez, disse-o em voz alta.

Longa pausa.

– Por causa da Madalena?

– Não só. A Madalena mostrou só. O que já existia.

– O quê?

– Não sei explicar. Ele habituou-se. Eu também. Tão habituados que deixámos de nos ver. E ela chegou, pegou em mim mas melhor, mais fresca. Ele gostou.

– Mãe…

– Não chores. Estou só a explicar.

– Vais ficar sozinha?

– Uns tempos. Isso é normal.

Desta vez, o normal colou. Era escolha dela.

A conversa com o Vasco foi num domingo ao fim do dia.

– Acho que temos de nos separar.

Silêncio enorme.

– É definitivo?

– Não sei. Preciso de espaço. Preciso de saber quem sou, sem ti, sem esta casa.

– Foi por causa das velas? Era só jantar, Inês.

– Não, Vasco. As velas foram só o último acto. Já vinha de trás. Vi, calei, disse normal vezes sem conta. E não era.

– Não entendo o que fiz mal.

– Não é nada concreto. Deixaste de me ver. Notavas se alguém se fazia tua mulher, aos poucos? Vias, se olhasses para mim.

Ele não respondeu. Não haveria resposta.

– A casa vende-se, ou fico eu com a tua parte. Não já. Depois.

– Vais para onde?

– Arrendo. Aqui ou noutro bairro. Logo se vê.

– Recomeçar aos cinquenta e dois anos… E havia pena na voz. Não sabia a quem.

– Aos cinquenta e dois, isso. Há quem comece mais tarde

Levantou-se. Passando na casa de banho, abriu o armário. Tirou o Gardénia, trancado. Ficou com o frasco na mão um pouco. Depois foi ao caixote do lixo e pousou-o lá. Não atirou, pousou.

Voltou à cozinha, pôs água a ferver.

Nos dias seguintes, tratou dos papéis, ligou à imobiliária. Passou pela casa da Teresa, contou por alto. Teresa não ai, não abana a cabeça só ouve e diz sim, mas um sim que traz o entendimento.

Na cozinha, Teresa perguntou:

– Estás zangada com ela?

– Com a Madalena? Inês pensou. Não muito. Zango-me mais comigo, por não ter visto logo. Por ter dito normal e ter ignorado.

– Confiar não é crime.

– Ingenuidade. Está aqui, bateu leve no peito.

– Não é ingénua. Só confiava.

– Talvez.

– E com o Vasco?

– Com o Vasco sim, há zanga. Calada. Vai passar.

– O que vais fazer?

– Arrendo casa. Mudo o cabelo. Compro outro perfume. Sorriu. Não Gardénia.

– Sensato, disse Teresa.

– E vou descobrir do que gosto, sem ser costume.

– É um caminho longo.

– Eu tenho tempo.

Teresa serviu chá. Lá fora, chuva miudinha sobre as figueiras no jardim. Inês viu a água escorrer no vidro e pensou que há semanas saberia o que era a sua vida: casa, Vasco, emprego, ruas, receitas, frasco do lado esquerdo na casa de banho. Tudo no sítio. Mas agora, esse no sítio era coisa incerta.

Mas não sentia vazio, nem pânico. Sentia-se desconfortável. Como quem despede de um casaco antigo e descobre que afinal já magoava nos ombros, só não notava por hábito.

– Sabes disse Inês pela primeira vez, não sei o que vem a seguir. E está… tudo bem.

– Tudo bem, repetiu Teresa e sorriu. É boa palavra.

Passou-se mais uma semana. Inês alugou um T1 noutro bairro de Setúbal, luminoso, com vista para o Jardim do Bonfim. Caro, mas aceitável. Fez contrato de um ano, ficou combinado.

Em casa, começou a arrumar as suas coisas. Calmamente, sem pressa. Separava o que era seu e o que não era. Livros, pratos, roupa. Algumas peças deu, como uma blusa velha que não usava há anos. O casaco cinzento também deu.

Comprou outro casaco azul-escuro, corte diferente. Vestiu e olhou-se ao espelho: nada a ver com o de Madalena. Satisfeita.

Com Madalena não falou nem quis. Ela mandou uma mensagem: Desculpa, Inês, se conseguires um dia. Leu, pousou o telefone. Não respondeu. Não era falta de perdão. Só não era para já. Ou não queria. Ainda não sabia.

O Vasco ficou no apartamento. Falavam quando tinha de ser. Amargura e alívio, lado a lado. Via-se: ele não sabia recuperar o que perdeu, talvez porque nem percebeu bem o que perdeu.

Na sexta do dia da mudança, foi à perfumaria. Ficou a testar cheiros, recusou muitos. Depois, encontrou. Chamava-se Cedro Prateado. Nada floral, amadeirado, quente. Diferente. Levou.

– Boa escolha, disse a vendedora.

– Vamos ver, respondeu Inês.

A mudança ocupou meia tarde. Teresa ajudou. O Vasco também. Ninguém falou mais do que o necessário. As coisas mudaram-se. No novo T1, tudo ganhou lugar, lugares escolhidos só por ela.

À noite, quando todos saíram, Inês abriu o Cedro Prateado e pôs no pulso. Cheiro diferente, estranho, não desagradável. Levantou o braço, cheirou outra vez. Vou-me habituar, pensou. Ou não. Tanto faz.

Lá fora, novembro despia as árvores do jardim. Os candeeiros já acesos cedo, comum nesta altura. Inês pôs água no fervedor, encontrou a chávena certa e ficou à janela.

O telefone vibrou era a filha.

– Então, mãe? Instalaste-te?

– Estou a instalar.

– Tens medo?

Inês olhou para os postes iluminados na noite.

– Não, sabes?, não tenho medo.

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