O Seu Lugar

O seu lugar

Mãe, o que é isso?! O que está a fazer? Margarida quase chora, observando a mãe a tirar apressadamente as poucas coisas do seu armário. O vestido vermelho com bolinhas, o preferido de Margarida, é lançado ao chão, chamando imediatamente a atenção do irmão mais novo, que se senta no tapete. Paulo agarra a ponta do cinto do vestido e mete-o na boca. Não, Paulinho! Dá cá!

Tem pena de um trapo! Amélia, a mãe, atira as calças de ganga da filha para cima das restantes roupas e fecha o armário com força. Despacha-te e sai já daqui!

Mas mãe, para onde quer que eu vá?! Ainda por cima à noite? O que está a fazer?

Faço o que eu quiser! A casa é minha! E tu aqui não tens lugar!

Então e eu? Não é minha casa também?

Não, Margarida! Aqui, nada é teu! Amélia pega ao colo o filho e, usando a barra do vestido de Margarida, limpa-lhe o nariz. Nada mesmo! E pára de me tirar do sério! Mal comecei finalmente a pôr a minha vida em ordem, vens tu querer estragar tudo! Não vou permitir!

Mãe, eu estrago o quê?! O quê!?

Quem é que anda a meter-se à frente do Vítor? Não és tu?

Mãe! Margarida grita tão alto que Paulo se encolhe de susto e começa a chorar. O que está a dizer?! Está a ouvir-se?!

Estou a ouvir perfeitamente! Chega! Já disse tudo! Quero-te fora daqui em cinco minutos!

Amélia bate a porta com o pé e sai do quarto, e Margarida fica paralisada, sem conseguir entender o que acabou de acontecer. Ao que parece, foi mesmo posta fora de casa O cérebro recusa-se a funcionar. Margarida tenta agarrar-se a um pensamento, algo para começar a agir, mas tudo voa em pedaços soltos, não permitindo focar-se. Lá fora, ouve-se o pranto do Paulinho e, finalmente, Margarida desperta. O choro do menino é tão sentido que ela quase corre para a porta. Sempre foi dela a tarefa de o acalmar, de o distrair, de alguma forma fazê-lo parar de chorar. O novo marido da mãe não suporta ouvir o filho chorar. Irritam-no as lágrimas das crianças, aliás, tudo o que tenha a ver com miúdos. E Margarida, criada num ambiente bem diferente, rodeada de amor da família inteira, já não compreende as reacções da mãe nestes momentos. Em vez de consolar o filho, Amélia passa-lhe o menino e desaparece para junto do marido.

Toma lá conta dele! Já és adulta ajuda!

Adulta Ontem ainda era a menina da mãe e do pai, e hoje de repente passou a ser um fardo, como agora a mãe tanto gosta de chamar-lhe. Nos últimos dois anos, tudo mudou tão depressa que Margarida mal conseguia acompanhar os acontecimentos.

Primeiro, o pai morreu do coração. Foi tão injusto e absurdo, ainda podia ter sido salvo se alguém, por acaso, se tivesse importado junto àquela paragem de autocarro. Quarenta e poucos anos, bem vestido, homem digno, ficou ali caído até que, por fim, quando uma senhora o tocou no ombro, já nada mais havia a fazer.

Margarida lembra-se bem da reacção da mãe. Ficou como que ausente, parada no tempo, alheada de tudo. Margarida chorava, tentava que a mãe lhe desse atenção, mas em vão. Sem verter uma lágrima, Amélia enterrou o marido e depois fechou-se no quarto, esquecendo-se completamente da filha.

Não tinham parentes. Os amigos dos pais há muito se tinham tornado apenas conhecidos, aparecendo só em dias de festa e voltando depois para as suas vidas. Sempre orgulharam-se de ser uma família unida, bastavam-se uns aos outros. Margarida, em pequena, também achava isso e irritava-se quando recebiam visitas. Para quê? Estavam tão bem assim.

Isto durou até Margarida entrar para a escola primária. O seu colega de carteira era uma miúda irrequieta, olhos e cabelo escuros como a noite, duas tranças grossas que usava com laços enormes. Margarida, de caracóis loiros que detestava, ficou fascinada por aquela exuberância que contrastava com a sua rebeldia de dente-de-leão.

O contacto profundo entre elas foi quando, após um queixume sobre o peso das tranças, Margarida aventurou-se a tocar e disse: És doida? É lindo!

Nascia aí uma amizade de uma vida. A pequena amiga chamava-se Inês nunca Margarida antes conhecera alguém com este nome feliz e típico de infância portuguesa.

Inês era a quarta filha de uma família numerosa dos Varandas. Quando Margarida entrou pela primeira vez naquela casa enorme, crescendo em anexos por todo o lado no meio de um bairro residencial de Braga, ficou cega e surda com tanta gente, crianças, avós, primos a circular em todo o lado. Tentou, sem sucesso, decifrar as relações familiares, mas cedo desistiu. Conheceu logo a dona Aurora, mãe de Inês, que fazia questão de sentar qualquer visita à mesa e servia uma abundância tal que só mesmo de rastos se conseguia sair da cozinha. Os irmãos de Inês, mesmo os mais velhos, ajudavam sem pestanejar os mais novos. O Daniel, o mais velho, explicava-lhes Matemática com uma facilidade desconcertante. A Maria João, a mais velha, ensinava-as a cozinhar. Até as miúdas mais novinhas sabiam fazer bolos e pastéis. Margarida, com a sua mãe a nunca a deixar aproximar-se da cozinha, ficava maravilhada.

Foi ali, naquela casa dos Varandas, que Margarida percebeu o quanto importava a família e a entreajuda. Mais tarde, claro, aprenderia que nem sempre era assim e até os mais próximos podiam ficar estranhos. Mas, para já, aproveitava cada Natal ou aniversário, onde os presentes eram montanhas nunca só nas datas especiais. Ali, mimavam as crianças por tudo ou por nada, até no dia de anos da tia-avó, com rebuçados, camisolas ou laçarotes cor-de-rosa.

Porquê? Hoje nem sequer é o teu dia Margarida achava aquilo estranho.
Ora, é preciso é querer fazer feliz quem gostamos! Espera pelo Natal: é que vais ver!

A mãe de Margarida nunca aprovou a amizade. Detestava Inês, e se visse a casa dela, Margarida seria terminantemente proibida de ali pôr os pés. Mas, felizmente, a rotina apressada da mãe impedia controlos cerrados. Entre as correrias da escola, a sopa comida à pressa e as tardes na casa dos Varandas, Margarida vivia, enfim, o que era pertença.
Os Varandas souberam de tudo assim que o pai de Margarida morreu. Nesse mesmo dia, dois irmãos de Inês foram a casa delas, levaram euros para as despesas e ajudaram em todo o processo. Amélia não queria colaborar e, quando forçada, fez tudo numa má vontade ensurdecedora. Inês ainda tentou consolar Margarida, mas acabou ambas a chorar, de tal forma que até o bolo de arroz que faziam levou pitadas de lágrimas e teve de ser repartido com a vizinha para caber tudo.

No dia seguinte, passaram mulheres pelos assuntos e problemas pequenos, protegendo-as, sempre presentes, mesmo quando Amélia nem percebia. Margarida, porém, não esqueceu.

Quando Margarida perguntou, Inês respondeu:

Como podia ser de outra maneira? És como da família. Não há mais homens aí em casa Alguém tinha de vos amparar.

Meio ano depois, Inês casava-se. Margarida ficou atónita e atirou-se a ela com perguntas:

Estás bem da cabeça? Casar já? E a faculdade? Não ias ser médica?

Vou! O meu pai já conversou com o meu noivo sobre tudo.

Não percebo! Vais casar só porque os teus pais querem?

Aqui em casa é assim. Eles querem o melhor para mim e se vão escolher o noivo, vão fazê-lo a pensar em mim.

Margarida perdeu-se em argumentos. No casamento, conteve as lágrimas, mas, ao saber que Inês ia viver e estudar em Lisboa (onde os sogros tinham comprado casa), foi-se totalmente abaixo.

Que faço sem ti?

E eu?
Agora estás casada, já tens quem cuide de ti

Se precisares mesmo, apareces lá. Arranjamos solução.

Nessa altura, a mãe de Margarida já vivia com o tal Vítor. Sempre que Inês via Margarida a evitar regressar a casa, perguntava:

Que tens? Não queres voltar porquê?

Margarida não tinha coragem de explicar que o novo marido da mãe era estranho e inconveniente. Que a mãe, depois de Paulo nascer, ficara intragável. E que passar noites em claro, a cuidar do irmão em vez de estudar, já a fizera desmaiar duas vezes no estágio do curso. Por isso, antes mesmo de terminar o curso técnico, arranjou trabalho numa enfermaria do Hospital de S. João e respirou de alívio agora podia dar o pretexto dos turnos para não voltar a casa.

Despedir-se de Inês e marido foi um suplício. Quando voltou, Margarida apanhou uma discussão com a mãe pior do que qualquer outra. O que se vinha acumulando rebentou finalmente.

Nada do que Margarida dissesse interessava a Amélia. Ainda ouviu a vizinha, um dia ao entrar no prédio, elogiarem-lhe:

Que filhos bonitos, Natasha! O Paulo e a Margarida! Que moça linda! Uma pena o pai não ter vivido para ver! Namorado não tem, pois não? Trabalha e estuda tanto Olhe que não pode ser, arranje-lhe uma vidinha sossegada!

Ninguém sabe o que pesou tanto nas palavras da vizinha. Mas depois disso, Amélia expulsou a filha e agora, Margarida arruma roupas rapidamente no saco, tentando, sem sucesso, decidir para onde ir. Não tem lugar ali, mas terá em algum lado? Onde será o seu lugar? Pensa em ligar a Inês, mas recua: ela está grávida do primeiro filho e cheia de trabalho. Tem a sua própria vida.

Num último olhar ao quarto, Margarida pega na fotografia do pai na secretária, esconde-a no saco e seca as lágrimas. Pronto, talvez seja melhor assim. Já ali é estranha há tempo demais. Que a mãe organize a sua vida.

Na cozinha, o televisor ouve-se alto enquanto Amélia cozinha aos trambolhões. Margarida, quase atravessa o corredor, detém-se: o que irá dizer à mãe? Não já foi tudo dito? Será possível perdoar o que acabou de ouvir? Não! Basta! Sim, antes foram felizes, mas agora Margarida ali sente-se uma intrusa.

Na rua, já é noite. O ar está húmido e frio, e Margarida enterra o nariz no cachecol largo. Este outono chegou atrasado, mas está a pôr tudo no devido lugar com pressa, deixando as pessoas desorientadas. Hoje, vinha do hospital a sorrir ao ver rapazes de calções e miúdas de sobretudo e gorro. Ela própria já ontem tirou da mala o cachecol oferecido por Inês no último Natal, e a velha parka. Sempre foi friorenta. Ainda bem, pelo menos não tem de voltar para buscar roupa mais quente.

A paragem de autocarro está quase deserta, só dois transeuntes e um grande rafeiro vadio cruzaram o caminho de Margarida. Ela pousa o saco no banco, esconde as mãos frias nos bolsos, e tenta pensar no futuro.

De repente, um carro aproxima-se e a faz recuar, instintivamente assustada. Aquelas horas, já não sente segurança em lado nenhum.

Margarida?

Daniel!

Quase chora de alívio. É o irmão mais velho de Inês, o que lhes ensinava Matemática e a ajudou no funeral do pai.

O que fazes aqui tão tarde, carregada de coisas? Vais trabalhar?

Não Bem para o hospital, sim. Preciso de ir para lá.

Acho que estás a mentir, Margarida. O que se passa? Porque trazes malas?

Bastou o olhar atento do Daniel para Margarida, quase sem perceber, contar tudo. Da mãe, do Vítor, do facto de estar de malas na rua sem saber onde dormir.

Entendido! Entra! Daniel, habitual de palavras medidas, toma o volante e Margarida, hesitante por um instante, entra esperando que ele só a leve ao hospital.

Vão percorrendo o Porto à noite em silêncio. Está quente no carro e Margarida, esgotada, sente que nunca mais quer mexer-se. Só quer prolongar esse breve sossego, sabendo que será curto. Fixa os olhos no escuro além da janela, as palavras da mãe ecoando-lhe na mente:
Aqui não tens lugar!

Só então percebe que não estão a ir na direcção do hospital.

Daniel, para onde vamos? Tenho de ficar perto do hospital

E vais dormir lá, é?

Era a ideia

E depois? Amanhã amanheces, e a seguir? Vais continuar assim?

Ainda não sei

Pois eu sei. Por isso, não vais ao hospital, mas a outro lugar.

Onde?

Já vês.

O prédio em Campanhã tem um portão alto de ferro. O segurança deixa o carro passar, Daniel estaciona e indica a entrada.

Para dentro.

Margarida, confusa, entra no prédio e segue Daniel ao terceiro andar. Toca sozinha. Esperam muito tempo. Margarida olha para Daniel que só faz um aceno. Finalmente, a porta abre-se para a mais imponente mulher que Margarida já vira.

Danielzinho! Nem avisaste! abraça o neto. A imagem impunha respeito, mas logo percebe que era o vestido largo e a altura da mulher a causavam tal efeito.

E tu és ah, claro, conheço-te! A amiga da Inês, vi-te no casamento! Anda, filha, não fiques aí, não és estranha!

Ao cruzar o limiar, um calor de lar envolve Margarida. O hall de mármore, lustre de cristal tudo resplandece. Daniel murmura algo à avó, recebe um sorriso e sai, acenando a Margarida.

Mas Margarida não acaba, a porta fecha-se e está agora frente a frente com Dona Alda.

Porque ficas à entrada, filha? Vem cá, despe a jaqueta, senta-te. Tomamos um café, conversamos e contas-me porque uma menina tão bonita ficou na rua a estas horas. Não tens casa? Nem mãe?

Acho que não E as forças acabam. Margarida deixa-se cair no pufe do vestíbulo e chora desalmadamente. Dona Alda abraça-a como uma criança e acaricia-lhe os cabelos.

Oh, minha querida! Vida injusta, não é? Não chores, filha. Vais ver, tudo se resolve, palavra de quem já viu de tudo! Não deixo que mais nada de mal te aconteça.

Alda faz-lhe um café à séria. Margarida bebe de uma chávena minúscula: é tão amargo que as lágrimas se misturam mal com o sabor intenso mas continua a beber, absorvendo tudo o que a senhora lhe conta.

Chama-me Alda. Era o nome que me davam, menina como tu, ingénua, sem conhecer dor. Vivi lá longe, com pais e irmãos, na casa dos nossos avós. Nunca mais lá voltei. Fica saudade, mas não é a pior

E qual é a pior?

É só dor onde nem enterro há para chorar. Perdi casa, pais, irmãos Tivemos de fugir de noite dali, só ficou o que ardeu. A dor da guerra, filha Não saber onde seremos aceites, ter de abandonar tudo o que foi nosso.

Mas porquê não saíram antes?

Como deixar o que é teu, pequena? Só quem passa percebe Segue sempre as tuas raízes, mas aprende a largar. Quando não tens onde ficar, a vida traz-te sítios novos.

Alda fala como quem viveu horrores perder tudo, criar irmãos mais novos sozinha, reconstruir tudo do nada.
Nunca fui forte sozinha; foi pela força dos outros, dos que me seguraram, que não caí. Agora, a minha força será a tua. Ficas aqui, é teu lugar enquanto não tiveres vida própria, enquanto não te entregar a alguém que te faça feliz.

Passam dois anos. Margarida aprende a cozinhar, a gerir a casa, a cuidar de si e dos outros. Consegue dar a volta por cima. Até Inês, agora a viver em Lisboa, ao voltar de visita, fica espantada.

Ai, cozinhavas assim?! Que maravilha, até melhores que os meus! Tudo graças à Dona Alda, não fosse ela

Linda menina, não me elogies tanto, qualquer dia acabo no céu convencida!

Mas Dona Alda percebe de súbito que há algo em Margarida.

O que se passa? pergunta Inês.

Margarida não quer contar, mas acaba por ceder:
A mãe está doente.

É grave?

Muito. Está internada. E fui eu que a acompanhei, mas não consigo ir vê-la.

Margarida! E quando já não puderes, não vais sentir falta? Não vais querer perdoar?

Não grites, Inês. Eu sei. Mas custa lembro-me sempre do que sofri. Se Daniel não me apanhasse ao frio, se não fosse Dona Alda, onde estaria?

E o Paulo?

Está numa instituição. Não me deixam trazê-lo só por não ter casa. Dinheiro para renda, não chega. Trabalho tenho, mas

Não voltas à tua casa de infância?

Fui tirada do registo da morada. Sem papéis, não tenho como ir buscar o Paulo.

Bora ao hospital.

Fazer o quê?!

Resolver. Pensar é sofrido, agir, menos.

Acabaram por se reconciliar, mãe e filha. Dois dias antes de Amélia falecer, transfigurada pela dor, desculpou-se com Margarida, que foi colocando de lado a mágoa, ocupada agora só em tratar da mãe e a tratar de arranjar tudo para trazer o irmão de volta. Ao fitar os olhos sofridos da mãe, Margarida não recordou o dia da expulsão, mas as manhãs felizes da infância, quando ela, pequenina, era alimentada a cerejas amarelas doces como os beijos maternos.

Palavras brotaram, devolvendo a paz ao coração:

Mãe, eu perdoo-te

Só então percebeu o peso daquela lição de Alda:

Deixa a mágoa fugir, como um cão danado. Ou ela consome-te por dentro, tira-te toda a luz. É mais preciso para ti do que para quem te magoou.

Uma semana depois, Paulo, agarrado com força à mão da irmã, entra finalmente em casa.

Agora é mesmo a nossa casa?

É, Paulinho. Agora sim, este é o nosso lugar.

E o rapaz acena, tão sério, que Margarida percebe agora sim, está tudo no lugar certo.

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