O que vi da janela da minha cozinha

O Que Vi Pela Janela da Cozinha

António, já arrumaste as camisas limpas? Vi que ainda há duas na pilha da engomadoria.

Lurdes, deixa que eu trato disso, não te preocupes tanto.

Não é preocupação, só perguntei. Quando é que partes?

Depois de almoço. Talvez por volta das três.

Lurdes estava em pé junto ao fogão, mexendo a aveia, embora já não lhe apetecesse comê-la. Os gestos eram automáticos, enquanto a cabeça andava noutras paragens. O ar húmido e fresco de abril entrava pela janela aberta, e ouviam-se pingos a cair do beiral lá no pátio, um som cadenciado, tic-tac-tic, que naquele dia lhe parecia ainda mais irritante do que o costume.

Vais quantos dias?

O de sempre. Quatro, cinco dias. Talvez mais, se as reuniões demorarem.

Pois.

Serviu a aveia nos pratos, preparou a chávena enorme de António, encheu com café acabado de fazer, juntou leite, sem perguntar, porque há sete anos sabia como ele gostava: duas colheres de açúcar, muito leite, até o café ficar quase cor de areia.

António olhava para o telemóvel sentado à mesa. Ultimamente, era sempre assim durante o pequeno-almoço. Outrora, Lurdes ainda tentava puxar conversa, chegava a amuar, mas acabou por aceitar: era o ritual matinal, café e telefone, e não valia a pena incomodar.

Olha, António disse sentando-se à frente dele. Vais outra vez, e eu queria falar contigo duma coisa.

Sim? levantou os olhos mas não largou o telefone.

Marquei uma consulta. Com a Dra. Maria do Carmo. Tu sabes, ginecologista, já te falei dela. Quero falar mais uma vez sobre a possibilidade do bebé.

António pousou o telemóvel virado para baixo no tampo da mesa. Um mau sinal. Sempre que o assunto não lhe agradava, fazia exatamente isso.

Lurdes, já falámos nisso cem vezes.

Eu sei. Mas quero falar de novo.

Falar o quê mais? Percebes a tua idade? Não falo por mal, estás ótima, mas

Tenho cinquenta e dois. Não é sentença de morte.

Lurdes disse o nome dela tal como se fala para as crianças, para as fazer parar sem arrufos, com doçura, mas em definitivo.

Está bem disse simplesmente.

Pegou na colher e comeu a aveia morna, já sem gosto, mas levou à boca. Cá fora os pingos continuavam a cair. António retomou o telemóvel.

Acabado o pequeno-almoço, agradeceu, foi para o quarto fazer a mala. Lurdes lavava a loiça e pensava em como já tinha puxado aquela conversa sobre o filho pelo menos umas vinte vezes em sete anos. E o resultado era sempre idêntico, em frases diferentes: um vamos esperar, um agora não dá, o trabalho está complicado, um não és nova, pensa na saúde. Sete anos. Casaram quando ela tinha quarenta e cinco, sempre achou que ainda iam a tempo. Que bastava esperar um pouco mais pelo generoso, seguro, estável António.

Enxugou as mãos no pano já velho, pendurado há anos na pega do forno, com galos bordados, e pensou que era altura de comprar um novo.

António apareceu no corredor com o saco de viagem.

Estou quase pronto. Viste a minha camisola cinzenta?

No armário, segunda prateleira à direita.

Ah, pois é. Voltou ao quarto, ouviu-se a porta do armário. Está aqui!

Vestiu o casaco. Ela ajudou a ajeitar-lhe o colarinho, como tantas vezes fizera. Ele beijou-a na face.

Adeus. Ligo-te depois, à noite.

Vai devagarinho.

Sempre.

A porta fechou-se e Lurdes ficou ainda no corredor, atenta ao zunido do elevador, ao bater da porta do prédio, ao silêncio a seguir.

Foi encher a chávena de café, debruçou-se sobre a janela. Não dava para o quintal, mas para uma rua lateral com alguns carros estacionados: o Peugeot cinzento do vizinho do terceiro, o Fiat já gasto de alguém, mais uns quantos. Abril ia cinzento, céu esbranquiçado, a luz baça, sem sombras.

O carro de António estava estacionado à porta do prédio vizinho.

Lurdes piscou os olhos e olhou melhor. Os números, que sabia de cor, não enganavam. Era o dele. Mas, se ainda agora tinha saído, não foi direto à estrada? Porquê parar ali? Foi despedir-se de alguém? Mas de quem? Com os vizinhos nunca houve grande intimidade, só cumprimentos de elevador.

Ela pousou a chávena, continuando a olhar.

Passaram dez minutos. O carro parado.

Do prédio do lado saiu uma mulher jovem, trinta e cinco, talvez menos, cabelo escuro apanhado num rabo de cavalo e casaco azul. Trazia ao colo uma criança muito pequena, três anos, talvez um pouco mais, num macacão vermelho, gorro com pompom. Falava-lhe baixinho, com ternura. O miúdo mexia-lhe na cara com as mãos pequeninas.

Lurdes fixou o olhar, sem ainda perceber. Só olhava.

A porta do carro abriu-se. António saiu.

Foi direito à mulher. Pegou na criança, atirou-a ao ar, e o pequeno abriu um sorriso largo, gargalhou Lurdes não podia ouvir, mas viu a cabeça inclinada para trás. António apertou o filho, roçou-lhe a bochecha, pousou-o de novo. Falou com a mulher. Ela respondeu. António segurou a mão dela e levou-a aos lábios.

Beijou-lhe a mão.

Lurdes ficou ali à janela. Sentiu, devagar, tudo a descer-lhe por dentro não caía nem despencava, só descia, como prateleira cheia de objetos que afinal escorregam e se alinham no fundo, em silêncio.

Ela não saiu logo dali. Viu António abraçar de novo o menino, a mulher ajeitar-lhe o gorro, despedirem-se. Ele voltou ao carro e arrancou.

A mulher ficou algum tempo no passeio, olhando o carro desaparecer. Depois o miúdo puxou-a e foram de mão dada.

Lurdes afastou-se devagar, sentou-se no banco da cozinha. Olhou para as mãos, ali no colo, mãos normais, cansadas, com aliança no dedo anelar.

O café tinha arrefecido.

Despejou-o, abriu a torneira com água quente.

Precisava pensar. Mas havia um peso na alma que não podia largar logo. Se desse espaço à tristeza, se chorasse, gritasse ou lhe ligasse, não resolveria. Não era por não se poder chorar mas porque ainda não sabia tudo. Vira algo, mas não sabia tudo.

Embora, no fundo, já soubesse. Sabia tudo.

Vestiu o gabardine azul do cabide, agarrou nas chaves e na bolsa e saiu. Precisava de ar. Precisava de andar sem rumo, só andar enquanto as pernas arejassem o coração.

Na rua, o chão brilhava das últimas bátegas, as poças refletiam o céu baço. Lurdes caminhou sem destino, passou o supermercado da esquina, o salão de cabeleireiro, a farmácia. Junto à porta dessa, uma velhota dava ração à cadelinha, que recebia as migalhas com doçura.

Sete anos.

Foi nisto que Lurdes pensou ao caminhar: sete anos ao lado de uma pessoa sem saber ou sem querer saber? Perguntou-se honestamente: não teria havido sinais, pequenas coisas notadas e arrumadas num não interessa?

As viagens, mês sim mês não. Sempre acreditou que eram mesmo reuniões e negócios; nunca duvidou. O telemóvel, sempre no bolso; achava que era mania. As conversas cortadas sobre filhos, sempre com doçura, nunca de forma rude pensava ser por cansaço, idade, sensatez.

Tinha sido tudo uma ilusão. E já havia uma criança.

Três anos. Ou seja, isto começara há quatro. Tinham casado havia três.

Sentou-se num banco do pequeno jardim perto de casa, entre tílias ainda despidas, só rebentos a despontar. Pegou no telemóvel, passou algum tempo a segurá-lo. Guardou-o.

Que diria a António? Voltaria passados cinco dias, o ritual das prendas pequenas, do ar cansado, do sofá, do Como foi por aqui?. Como foi Lurdes, pois.

Ficou a olhar as ramadas nuas e os rebentos a prometer vida. Mais uma semana de calor e tudo estaria verde.

Não pensava no adultério, nem naquela mulher de cabelo escuro e no menino de fato vermelho. Pensava nela própria. Na Lurdes que esperou sete anos. Que foi poupada, paciente, que acreditou que amar era ser paciente, não exigir, esperar.

Foi esperar.

O frio apertou. Envolveu-se na gabardine e seguiu para casa.

A casa era estranhamente silenciosa sem António. Ele, discreto, pouco barulhento, mas havia sempre um calor de companhia. Agora, nem isso.

Entrou na sala. Olhou em volta: estante com livros dela e dois ou três dele, os chinelos dele, a manta axadrezada azul e verde que ela lhe comprou pelo aniversário. Pegou-lhe, aconchegou-a por uns momentos e devolveu-a cuidadosamente.

Foi à arrecadação. Nas prateleiras do topo, caixas que nunca tinham sido abertas após a mudança, três anos antes. Trouxe a escadinha, abriu uma caixa: livros dela, dossiers, uma caixa de fotografias antigas.

Sentou-se no chão, pernas cruzadas, espalhou as fotos.

Ela com trinta e poucos, os amigos, pais ao Algarve jovens, felizes, o mar ao fundo. Uma com a amiga Teresa, abraçadas num parque; Teresa, agora, já vai nos cinquenta e seis.

Teria de ligar a Teresa. Mais tarde.

Guardou as fotos, lavou o rosto, olhou-se ao espelho: olhos cansados, mas pele ainda boa, cabelo castanho escuro já com uns fios prateados, curto pelos ombros. Uma mulher normal de cinquenta e dois, pensou.

A traição não deixa marca logo. Primeiro, olha-se ao espelho e pensa: afinal é isto que sou. Mulher enganada sete anos. Que esperou um filho, enquanto o marido já criava outro.

Fez o almoço, ocupou-se.

Durante os dias seguintes, foi cumprindo a rotina: cozinhava, limpava, ia ao mercado, telefonava à mãe. António, do costume, ligava todas as noites: voz calma, falava em reuniões, perguntava Está tudo?. Lurdes dizia que sim, que estava tudo bem, que a comprou um pano novo para a cozinha. Riam-se, e isso era o que mais a assustava: como era fácil rir.

Mas dentro dela, outra vida.

Pensava, ordenava tudo como nunca: as noites em que António regressava estranho, ora carinhoso, ora distraído agora sabia que vinha deles. Pensava na outra mulher: jovem, bonita? Talvez. Gestos seguros, sabia o seu lugar ao lado de António.

E a criança? Um rapaz ou rapariga? Não sabia, só vira a alegria no sorriso do pequenino.

António nunca mostrara grande gosto por crianças, dizia: Não tenho jeito com miúdos. Ela acreditou.

No terceiro dia ligou a Teresa.

Teresa, consegues vir cá?

Claro, que se passa? Essa voz…

Só vem. Faço café.

Teresa apareceu numa hora. Moravam ambas no mesmo bairro, eram amigas de décadas. Entrou e ao ver Lurdes, abraçou-a logo.

O que foi, Lurdes?

Vem à cozinha.

Contou-lhe tudo, sem dramas, palavras sóbrias. Teresa ouviu, calada, apertando-lhe uma vez a mão. No fim, ficou em silêncio.

Meu Deus

Pois.

Tens a certeza?

Sete anos a ver aquela matrícula, a ver aqueles gestos. Tenho certeza.

Que vais fazer?

Ainda não sei.

Devias falar com ele primeiro.

Quando voltar, Teresa. Mas não quero que tenhas pena. Só quero que estejas aqui, nem é preciso falar muito. Obrigada.

Teresa abraçou-a com força, como só as velhas amigas fazem.

Estou aqui, sempre.

Saiu ao anoitecer. Lurdes lavou as chávenas, apagou a luz da cozinha, deitou-se sobre a colcha da cama, vestida.

Pensou nisto: sete anos a construir o que pensava ser de verdade, não perfeito, mas sólido. As rotinas, as manhãs de aveia e café com muito leite. Pensava que isso era a base: não paixão, nem tumultos apenas estarmos juntos.

Mas enquanto construía isso, António tinha outra vida, mesmo ali, a cinco minutos de casa.

Fechou os olhos. Lá fora, a chuva suave da primavera batia.

No quinto dia, ao fim da tarde, António regressou. Tocou à campainha, embora tivesse chave. Lurdes abriu.

Cheguei disse ele, sorrindo com cansaço, familiaridade, pousando a mala, querendo abraçá-la.

Espera.

O tom dela fê-lo parar.

O que foi?

Vai à sala. Preciso falar contigo.

Sentaram-se, ele no sofá, ela na poltrona em frente, uma mesinha com um jarro de papel colorido tulipas que fizera num serão.

António, naquele dia, vi-te da janela. Estavas à porta do prédio vizinho. Com uma mulher e uma criança. Pegaste no menino ao colo.

Ele olhou-a. Silêncio. Não o silêncio forçado de quem vai arranjar desculpas, mas outro, mais resignado.

António.

Lurdes

Não vamos fazer cenas. Não quero gritar, nem exigir explicações. Só preciso de saber: é teu filho?

Silêncio.

Sim.

Ela acenou. Estava dito, só faltava ouvir.

Que idade tem?

Três anos.

Vocês já estão juntos há muito?

Lurdes, não vale a pena

Estou a perguntar.

Ele baixou a cabeça.

Cinco anos.

Cinco anos dois antes de nascer o pequeno. Quando ainda só tinham dois anos de casamento. Mesmo no início.

Percebo disse ela. Percebo.

Lurdes, nunca quis magoar-te. Não foi planeado

Aconteceu repetiu só, sem ironia. Cinco anos, e nunca parou de acontecer.

Sei o que pensas.

Não, não sabes.

Lurdes, eu

Não é preciso, António. Vi o suficiente. Vi como apertaste a criança. Como olhaste para ela.

Foi estranho: não chorava. Não queria chorar. Sentia-se pesada, mas como o ar limpo depois da trovoada.

Vou juntar algumas coisas. O essencial. O resto venho buscar depois, quando combinarmos.

Onde vais?

Na primeira noite fico com a mãe. Depois logo vejo.

Lurdes, espera. Podemos falar melhor, eu explico tudo.

Já explicaste.

No quarto, fez a mala pequena: roupas, documentos, um livro, fotografia dos pais numa moldura, perfume, carregador do telemóvel. Ele ficou na porta a ver.

Lurdes, não é assim que devias fazer.

Assim como?

Sair calada, só pegar nas coisas e ir.

E como devia ser?

Ele não respondeu.

Fechou a mala, passou ao corredor. Vestiu o gabardine azul, calçou as botas confortáveis, agarrou a mala. Na sala, retirou a aliança e pousou-a junto ao jarro de tulipas de papel. Deixou os chaveiros da casa em cima da mesa da entrada.

Lurdes disse ele.

António respondeu, calma. Desejo-te o melhor, a sério.

E saiu.

No elevador, encarou o próprio reflexo baço na porta de metal. No rés-do-chão, o vento batia frio; parou, sacou coragem e seguiu até à paragem do autocarro. Ia para casa da mãe, do outro lado da cidade quarenta minutos.

Sem escândalo, sem gritos. E mais tarde, ao recordar, apreciaria por ter conseguido sair em silêncio. Não por resignação, mas porque a saída era sua decisão. Não uma resposta, não uma fuga. Só decisão sua, dignidade reservada para si. Não por ele, por ela.

Na paragem, o vento obrigou-a a fechar o casaco até cima.

Passou um ano.

A cidade não parecia ter mudado: as tílias da rua principal agora densas e verdes, as mesmas lojas e a farmácia da esquina. A senhora com a cadelinha ainda passeava. A vida destas cidades decorre devagar, percebeu Lurdes, e ainda bem.

Arrendava um T2 num terceiro andar, janelas para um jardim cuidado por uma idosa simpática do rés-do-chão na primavera o aroma dos cravos e morangueiros enchia tudo cedo de frescura. Aprendera a gostar desse cheiro.

Tinha agora o seu pequeno negócio: abriu uma oficina. Ao início, entre a confusão dos papéis do divórcio e as conversas longas com a mãe e Teresa, nem pensou ainda nisto. Mas, em outubro, já mais serena, lembrou-se das tulipas de papel.

Sempre gostara de criar de tricotar, coser, moldar barro, fazer decorações. Um passatempo, nunca algo sério. Mas, de repente, pensou: por que não?

Ligou à Teresa.

Quero abrir uma oficina.

Uma oficina do quê?

Decoração, artesanato, peças para casa sei fazer tanta coisa. Penso começar pequeno, só eu.

Mas isso implica dinheiro: renda, materiais

Tenho algum de lado. Começo devagar. Uma sala, sozinha. Sem funcionários.

Estás mesmo decidida?

Sim.

Teresa hesitou.

Sabes, nem fico surpreendida.

Encontrou facilmente um espaço: uma sala antiga no centro, por uma renda acessível. Pintou paredes de branco, instalou estantes, um balcão comprido, bons candeeiros. Chamou-lhe simplesmente: Oficina da Lurdes.

Primeiro eram clientes conhecidos, as vizinhas, amigas da mãe, levavam coroas de flores secas, painéis, velas, bases de renda para vasos. Depois apareceram desconhecidos, uma publicação num grupo do bairro, outra na internet. As encomendas nunca foram em massa, mas o necessário: cobria as despesas, não pensava em dinheiro com aflição.

O mais importante foi outra coisa.

O mais importante era acordar e saber: o dia era dela. Só dela. Decidia o que fazer, quando abrir, quanto tempo conversar, o que criar. Uma liberdade enorme e simples. Só quem nunca a perdeu não percebe: ter o SEU café de manhã, o SEU horário.

António assomava-lhe ao pensamento poucas vezes. Um sobretudo masculino numa montra, o cheiro do tabaco que ele usara um tempo sentia e deixava passar, e seguia. Sem raiva, quase sem mágoa. Restava uma tristeza mansa por tudo o que não foi pelo filho, pelos anos perdidos à espera.

Mas era uma saudade possível.

Numa tarde de final de abril precisamente um ano depois voltava da oficina já com a noite a cair, o cheiro do topo e da terra molhada no ar. Levava um saco com materiais, pensando no móbile para bébé encomendado por uma jovem, paleta de tons suaves e madeira clara. Já visualizava pompons a balançar sobre um berço.

À porta de um café por onde passava, viu um homem conhecido, mais velho, cabelos grisalhos, olhar atento.

Lurdes? És tu?

Estacou, olhou melhor.

Rui?

Caramba! Há quanto tempo? Vinte anos?

Rui Almeida. Tinham trabalhado juntos, muito antes, quando ela era outra pessoa. Ele era dos bem-dispostos, sempre com ideias novas. Tinham-se desencontrado há muito.

Cerca de vinte, sim Como vais?

Sobrevivo. Voltei há três anos, cansei a cidade grande. E tu?

Sempre fiquei por cá.

Pois, és da terra. E agora, vais para casa? apontou para o café. Queres um café comigo?

Lurdes hesitou. Tinha trabalho, era tarde, mas

Porque não.

Sentaram-se à janela. Ela pediu um galão, ele café simples. Contou-lhe, entre sorrisos fáceis, que também se divorciara, casara outra vez, mas não pegou, ria sem pesar.

E tu, Lurdes? Estavas casada, certo?

Estava. Acabou.

Há muito?

Um ano.

Custou?

Ela aqueceu as mãos na chávena. Era agradável, decorada com folhas.

Custou, sim. Mas há coisas que, depois de ultrapassadas, entendemos terem sido um bem. Não que antes fosse mau. Só que agora está melhor.

Mudaste?

Pensou.

Acho que não tanto. Mas tornei-me mais eu. Mais fiel ao que sou.

Rui assentiu, mirou-a atento.

E agora, no que trabalhas?

Tenho uma oficina. Decoração, trabalhos manuais. O meu próprio negócio.

A sério? Isso é ótimo. Sempre te vi de volta de coisas feitas à mão, lembro-me de uma jarra pequenina

Era um frasco de perfume pintado com tintas de vidro!

Isso, toda a gente perguntava de onde vinha.

Sorriram em silêncio.

Estás feliz? questionou de repente Rui, sem floreados.

Lurdes olhou lá fora. A rua, já quase na penumbra, parecia mais terna na luz dos candeeiros, os troncos das árvores, as pessoas apressadas, umas com filhos, outras sozinhas.

Sabes começou , feliz parece uma palavra pequenina. É como dizer que gostei da sopa ou que os sapatos não magoam. O que sinto é outra coisa, difícil de explicar.

Tenta.

Pensou mais um pouco.

Cada manhã levanto-me e vou para a oficina. Às vezes com encomendas, outras vezes só a criar. Quando estou ali, com as mãos na matéria, a dar forma a qualquer coisa, é como se tudo fizesse sentido. Do nada, faço alguma coisa, com as minhas mãos. É meu. Não devo a ninguém, não podem tirar-me. Talvez isso seja viver.

Rui sorriu.

Acho que sim, é bem isso.

As luzes da rua lançavam reflexos dourados. Ao fundo, música antiga soava baixo num altifalante. O galão arrefecera no fundo da chávena.

Rui, vou andando. Amanhã começo cedo.

Claro. Passou-lhe o saco de materiais. Gostei de te ver.

Também eu.

Despediram-se à porta. Lurdes caminhou para casa, sem olhar para trás. No jardim, os cravos já não cheiravam, mas abriu a janela de qualquer forma. O ar de abril, húmido e fresco, entrou.

Pôs água a ferver. Enquanto esperava, arrumou as lãs no tampo da mesa: rosa pálido, bege, verde-menta. Dispunha-as já a imaginar os próximos pompons, delicados, a balançarem sobre o berço de um bebé.

Quando o bule apitou, fez chá, pegou na caneca e foi à janela ver o pequeno quintal. Silhuetas sombrias das árvores, uma janela amarela acesa no prédio vizinho, um carro qualquer ao longe.

Pensou como depois do divórcio a vida não lhe parecera um desastre nem uma derrota. Sem drama: aos cinquenta e dois começou de novo, com o seu pequeno negócio, um T2 barato e a sua cidade, amada, imperfeita e familiar. Outros julgariam pouco. Mas era dela. Só dela.

Cada café da manhã era seu. Cada decisão, cada conversa, cada pompom mint. Por fora parecia pouco, mas na alma era plenitude.

Lá fora, as árvores sussurravam no vento, folhas novas a dançar. Um chuvisco fazia-se anunciar.

Lurdes envolveu a caneca nas mãos quentes e pensou: amanhã preciso comprar mais lã bege. E talvez um pano novo para a cozinha. O velho já deu o que tinha a dar.

Na calma de tudo o que é simples, percebeu: o segredo é fazermos da nossa vida aquilo que ninguém pode tirar. Porque dignidade, coragem e autenticidade nunca se perdem só se conquistam, todos os dias.

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O que vi da janela da minha cozinha