O QUE SE CORTAS, NÃO SE RECUPERA: Uma história de casamento, liberdade e escolhas irremediáveis – …

O QUE CORTARES, NÃO RECOLHERÁS

Quando Beatriz mostrava as fotografias do seu casamento aos amigos, sorria e dizia:
Ai, quanto eu sofri naquele vestido! Era lindo, claro, mas tão pesado e apertado! Para a próxima vez que casar, que seja com um vestido leve, que pareça uma nuvem!
Todos tinham a certeza que Beatriz brincava. E riam-se com ela. Era mesmo piada os conhecidos sabiam que Beatriz casara por paixão. Uma paixão bem à moda de verão. Ela tinha 21 anos, o Gabriel, 28.
Agosto, o Atlântico a brilhar, vinho verde espumante, noite salpicada de estrelas, romance… Tudo se embrulhou e aterrissou em cima da mesa do cartório, pedido de casamento incluído. Para concretizar a união, Gabriel precisou primeiro de se separar da segunda mulher. Beatriz teve de deixar Lisboa, cidade amada, para viver no Porto, terra natal do marido.
LisboaPortoLisboa. Seria essa linha que, durante dez anos, iria percorrer como se fosse caminho de casa, reconhecido até à dor.
No início, tiveram de alugar uma casa. Gabriel deixou a antiga casa à segunda esposa, que, em tom trágico, ameaçava engolir comprimidos, lançar ácido na terceira mulher, saltar pela janela se ele ousasse não voltar!
A ex-mulher acabou por desaparecer das cenas. Talvez Gabriel lhe tivesse prometido regressar aos seus braços algum dia? Da primeira mulher, ele não falava. Tinha sido um deles aquele casamento durou ano e meio, desfizeram-se, amigos na mesma. Gabriel não hesitou e ainda casou a primeira esposa com um amigo seu, garantindo a felicidade de todos, incluindo a própria.
A segunda esposa manteve-se por mais tempo. Três anos foram suficientes para Gabriel entender o lado sombrio da sua então escolhida, uma mulher que se recusava a ter crianças humanas era assim mesmo que ela lhes chamava!
A Beatriz nada disto afetava. Era independente, ambiciosa, segura na sua beleza e originalidade. Gabriel tratava-a como uma princesa, com gestos de um sonhador. Se oferecia flores, era em ramos monumentais; se roupas, vinham aos molhos. Beatriz ia trocando de sapatos e botas todos os dias, como se fosse um carnaval duradouro. Gabriel levou-a a Londres, a Paris, a Montenegro. Alargar horizontes, carregar baterias para a chegada do primeiro filho.
Logo nasceu Matilde, a filhinha. Enquanto Beatriz se ocupava da bebé, Gabriel adquiriu uma moradia, amobilhada por completo, tudo para as duas princesas da casa.
Festejaram a nova morada. Inscreveram Matilde no infantário.
Beatriz investiu seriamente em formação. Preferia, porém, estudar na sua Lisboa. Lá estavam as amigas, a mãe, e até gente estranha parecia calorosa. Sob os plátanos do bairro, sentia paz e sentido.
Matilde ficava entregue à avó paterna, apaixonadíssima pela neta. Nas alturas de exames, Beatriz vivia em Lisboa. Gabriel morria de ciúmes. Viajou mil vezes à capital, encenando surpresas, encontros absurdos (noutra cidade!). Beatriz não dava motivos, parecia Pena que fosse só aparência.
No fundo, desejava fugir das rotinas caseiras, das obrigações domésticas. Queria era estudar, estudar, qualquer coisa menos lavar pratos ou chão, cuidar do marido, ser mãe. Sentia que a vida fugia, curta como era. E logo ela, inteligente e bonita, havia de perder tempo com miudezas?
Com o tempo, a carteira de Beatriz carregava três diplomas, todos de capa vermelha. Psicologia era a paixão confessa. Levava sempre os papéis consigo, sonhando com um emprego excitante. Gabriel era terminantemente contra:
Falta-te dinheiro? Vais-me deixar maluco, esperando horas pelo teu regresso do trabalho! Beatriz, e se tivéssemos outro filho? Um filho ou filha, tanto faz. Quero é ter-te junto de mim.
No futuro, ela não se via como mãe outra vez. Missão cumprida, considerava. Deu à filha a vida, ao marido uma filha. O resto?
A sogra, que ouvia os devaneios de Beatriz, ofereceu-se logo para ficar com a neta Matilde que a mãe cresça, dizia a senhora. Beatriz quase nem pensou. Aceitou e fugiu de volta à cidade natal antes de Gabriel perceber. Ligo de Lisboa, decidiu.
Mas em Lisboa, quem a esperava era Gabriel. Cá estava ele, conhecedor das manobras da esposa.
Beatriz, e a Matilde? Por que estás aqui, e não no Porto? Arranjaste outro?
Gabriel, não imagines coisas! Não há admiradores, nem pretendentes. Só estou aborrecida contigo. Quero liberdade!
Liberdade? De mim e da filha? E o amor? Desapareceu? Será uma crise de meia-idade? Passaremos juntos, Beatriz argumentou Gabriel.
Não vamos passar, não cravou Beatriz, finalizando aquele capítulo.
Gabriel foi pedir ajuda à sogra. Ela encolheu os ombros:
O que posso eu? Dialoguem. Mas a Beatriz não mudas, genro. É firme como o granito do Porto!
Gabriel voltou ao Porto sozinho, perdido. Como recuperar a esposa? Como remendar a família? Um desequilíbrio total Por bem que faço, para mal me retribuem meditava ele.
Os dias e as semanas rodavam. Beatriz não regressava. Atendia, sim, os telefonemas, friamente. Está tudo bem.
O tempo passava.
Gabriel tomou a resolução de vender a casa, levar Matilde e mudar-se para Lisboa. Tudo em nome do amor e da família.
Beatriz reagiu com frieza. Tentou dissuadir Gabriel. Porquê abalar a filha? Teria de mudar de escola, perder as amizades e a avó não concordaria!
Mas eram desculpas. Beatriz banhava-se na liberdade e não queria perder esse perfume. Viver como ave do céu esse era, afinal, o lema. Criou um pequeno negócio de costura. Arrendou um apartamento. Tinha uma série de admiradores misturando-se à saída do ateliê. Não havia tempo para melancolias. De repente marido e filha? Para quê? O passado, queria apagá-lo. Convicção sólida como uma nogueira brava. Parecia-lhe que tudo foi sonho de outra mulher.
Gabriel ignorou os argumentos de Beatriz e mudou-se para Lisboa com Matilde. Continuava a acalentar esperança, sustentado no antigo amor.
No início, ainda esperava Beatriz à saída do trabalho, levava a Matilde (que era igualzinha à mãe). Sem sucesso. Beatriz parecia de pedra. Nada a tirava do seu sossego. Até que ela pôs fim ao assunto:
Gabriel, deixa-me em paz! Vamos divorciar-nos. Se quiseres, Matilde pode ficar comigo.
Matilde fez 11 anos. Não precisava de refúgio. Tinha o pai e a avó, que rezava todos os dias por ela. Amava a mãe, sim, e não percebia por que razão ela tinha abdicado dela assim, sem luta.
O tempo foge. Ninguém o prende.
A vida segue e a cada um dá conforme o que fez.
Gabriel deixou de encher baldes sem fundo. Já percebera, há muito, que o coração de Beatriz era trancado.
O destino trouxe-lhe uma mulher de pés bem assentes nas calçadas de pedra da aldeia. Nada de voos espirituais. Vivem numa aldeia. Ela tem dois rapazes do primeiro casamento. A esta mulher não faziam falta Londres-Paris, casacos de peles ou cem pares de sapatos. Dava-me jeito eram umas galochas para a lama do outono, e um casaquinho de lã para ir tratar das galinhas e criar os rapazes! esse era o maior pedido.
Gabriel achava finalmente sossego, calor e paz ao lado desta mulher. (Onde tudo é simples, cem anjos moram, onde é complicado, não há nenhum.) Em pouco tempo, nasceu uma menina, e Gabriel descobriu o verdadeiro significado da felicidade mesmo que à quarta tentativa. Os três casamentos anteriores preferia que ficassem em garrafas seladas.
Beatriz vive com a mãe, na velha casa da família. Um dos sócios do negócio de costura prometeu-lhe sete léguas até ao céu, mas depressa a ludibriou e ficou-lhe tudo. O atelier esfarrapou-se e extinguiu-se. A corte de pretendentes evaporou-se.
No fundo, foi um tomar de promessas e desaparecer de intenções. Beatriz tornou-se psicóloga escolar. Ao menos serviu para alguma coisa o que estudou. Não se arrepende de nada. Ou talvez Porque a alma humana tem abismos
Quem sabe, talvez Beatriz, essa ave do céu, sinta ainda a centelha do arrependimento bruxulear na alma?
Matilde, agora mulher, vive com o marido e a avó aquela mesma que a criou em Matosinhos.
No dia do casamento de Matilde, ela trazia um vestido tão leve e etéreo como um sonho. Quem lho ofereceu foi a mãe, BeatrizNo final da festa, já o sol se punha cor-de-laranja ao largo do mar, Matilde rodopiou sozinha pela pista, a saia leve a esvoaçar pelo corpo magro. A avó sorriu do seu canto, os olhos pousados na neta querida, e Gabriel que veio especialmente da aldeia, com a nova família aplaudiu, batendo palmas no ritmo da música. Beatriz, encostada à ombreira da porta, assistia sem ninguém reparar. A filha, desconhecida e tão próxima. Pela primeira vez, permitiu-se chorar em silêncio, sentindo na pele a ausência das escolhas feitas.

Matilde levantou o olhar e achou por instantes o da mãe. Então, sorriram-se: um sorriso cheio de passado e de promessas novas. Nenhuma palavra foi precisa. Sabiam, ambas, que a vida nunca se costura sem alguns fios soltos e que, por vezes, basta um vestido leve para que o coração volte a acreditar na esperança.

Quando a noite caiu, e os convidados se foram diluindo pelas ruas de Matosinhos, só restaram as três gerações, reunidas em torno de uma fatia de bolo e um vinho doce. Gabriel, de longe, acenou. Beatriz, com dedos trémulos, ajeitou o cabelo da filha, como quem pede desculpa em silêncio. Matilde, de coroa de flores e olhos brilhantes, murmurou:

Para a próxima dança, mãe, vens comigo.

E, só então, Beatriz percebeu: mesmo os ramos cortados podem lançar novas folhas. E enquanto houvesse amor raízes bem fundas ou só sementes ao vento , haveria sempre quem colhesse.

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