Olha, tenho de te contar esta história que mais parece um fado, mas acabou afinal por ser um presente da vida.
Então, o João chegou a casa da mãe já tarde. A mãe nem se surpreendeu, porque já está habituada a estes desaparecimentos do filho. Desde o divórcio, o João está sozinho, e o filho dele, o Tiaguinho, vive com a mãe.
O Tiaguinho esteve à tua espera, disseste-lhe que ias com ele ao ringue de gelo. Ainda há pouco adormeceu, por isso deixa-o estar. Olha, vou aquecer-te comida, comes e vais descansar.
O João lá comeu, depois foi à beira do Tiago, deitou-se ao lado dele. O sono teimava em não vir, não sei porquê, deu-lhe para pensar na primeira mulher, a Leonor. Entretanto já tinha tido mais duas mulheres, mas nunca foi a mesma coisa.
É que a Leonor nunca saiu da cabeça do João. Tinham crescido juntos desde o infantário. Jogavam, moravam na porta ao lado, estudaram juntos, na escola na mesma turma, foram para a faculdade e casaram. Sempre lado a lado. As duas famílias adoravam-nos juntos, já estavam habituados a vê-los de braço dado.
Toda a gente os elogiava, era um casal que parecia saído de um postal. Viveram bem, numa casa que a Leonor herdou da avó. Só que, contra tudo o resto, não conseguiam ter filhos, apesar de serem saudáveis e não lhes faltar nada.
Sugeriram à Leonor que fosse a uma estância termal no Algarve, talvez ajudasse. Mas o João nem queria ouvir falar disso.
Ainda me trazes de lá um filho que não seja meu, dizia a brincar, mas com um tom meio desconfiado.
João, não confias em mim? chorava ela com mágoa.
Os pais chegaram a sugerir a adoção, mas o João era irredutível.
Quero um filho meu, ponto final
No aniversário de dez anos de casamento fizeram um jantar para uns amigos. Todos à espera do João, mas ele nunca mais aparecia. Os convidados foram fugindo, com a mesa cheia e a Leonor a ver tudo aquilo desabar.
O João nem foi a casa nessa noite. A Leonor chorou, sentiu-se sozinha e no fundo já esperava por aquilo. O João andava diferente, já se notava. Na manhã seguinte apareceu, com uma notícia de rebentar o coração: dormiu em casa de outra mulher, que já tinha dois filhos e prometeu-lhe que lhe dava mais um, que depois oferecia ao casal para criar.
Ó João, como foste capaz, traíste-me Porquê sem me consultares? Não te perdoo, vai-te embora. Espera, antes disso ajuda-me a adotar uma criança do orfanato implorava a Leonor.
O quê? Para depois lhe dares o meu apelido e ainda me pedires dinheiro?
A Leonor ficou completamente destruída. É duro ser deixada, ainda bem que tinha família e amigos a quem recorrer, nas horas piores. Queria mesmo adotar, mas a uma mulher sozinha não facilitavam as coisas.
Fechou a porta ao João de vez. Dez anos. Dez anos de esperança, tratamentos, hospitais e um silêncio cada vez mais pesado. O João foi embora num silêncio frio, quase profissional.
Desculpa, Leonor. Estou exausto.
Descobriu, uns meses depois, por conhecidos, que o João já tinha um filho com outra. O mundo não acabou. Limitou-se a desvanecer, ficou pálido, como uma fotografia desbotada.
Durante um ano inteiro viveu no piloto automático: trabalho, casa, noites mal dormidas. Até que, numa tarde chuvosa, refugiou-se num café pequeno e encontrou o Miguel, amigo do João, o alma da companhia, sempre bem-disposto. Agora estava ali, um homem cansado, a rodar uma chávena vazia nas mãos.
Miguel, olá! cumprimentou ela, já que ele nem deu por ela ali.
Ele ergueu os olhos, reconheceu a Leonor e soltou um sorriso triste.
Leonor?! Só tu para apareceres assim. Como estás?
Meteram conversa, foi tudo saindo de uma vez:
Acabei-me de separar da Patrícia, sabes como é, ela só gostava de dinheiro, mas eu fiquei sem nada quando houve um incêndio na oficina. Entraram-me as dívidas pela casa dentro. Ela pôs-me na rua porque não havia dinheiro. Os meus pais já cá não estão, não tinha para onde ir. Mesmo.
Olha, Miguel, vais comigo para minha casa surpreendeu-se a própria com o que estava a dizer.
Não era por caridade, era uma decisão simples: ajudar o amigo. Não pensou em romance ou salvar ninguém, era só dar abrigo a quem precisava ainda mais daquele tecto do que ela.
Achas mesmo? E o João?
Não sabes? O João deixou-me, porque não lhe dei um filho Foi-se embora, arranjou quem lhe desse
O Miguel ficou desconcertado.
Desculpa, Leonor, não fazia ideia, deixei de ver o João há montes de anos. Parece que o destino tratou de nós, não?
Enfim, já me habituei.
O Miguel ficou a dormir no sofá. Nos primeiros dias quase nem abria a boca, pedia desculpa até pelo pão que comia. Mas depois começou a ocupar-se: arranjou a torneira, montou a estante, fez o jantar. Era de uma calma e de um cuidado que até acalmava a própria casa. O silêncio deixou de ser uma ameaça, tornou-se parceiro.
Todos os dias conversavam. A Leonor arranjou-lhe trabalho no escritório onde estava. O Miguel estava feliz e assim, passo a passo, foram partilhando a vida. Até casaram.
Um dia cruzaram-se com a Patrícia, ex-mulher do Miguel. Ela olhou para eles de alto a baixo e disse, trocista:
Pronto, vê lá se te serve, já não o quero, pode ser que te faça um filho, como se o Miguel nem lá estivesse.
Que seja, respondeu a Leonor tranquila, obrigado pelos votos.
Ao lado do Miguel, a Leonor sentia-se finalmente feliz, alguém cuidava dela, ela era importante. Ria-se, e não era das piadas dos outros, mas porque genuinamente se sentia bem. Começaram a fazer planos, a discutir filmes, a beber café juntos de manhã.
Um dia, o Miguel tocou num assunto sério. Via que a Leonor sofria por não conseguir ter filhos.
Leonor, porque não adotamos uma criança?
A Leonor nem acreditou. Olhou para ele, boquiaberta.
Sim, Leonor, ouveste bem, ficaste sem palavras? sorriu ele.
Recuperando a fala, ela respondeu:
Seria o maior presente da minha vida criar um filho é mesmo o meu sonho, Miguel Nem sei agradecer, ando há tanto tempo a pensar nisso, mas não sabia se tu ias alinhar. Obrigada por seres tu a sugerir
O Miguel ficou feliz por surpreendê-la.
Então pronto, vamos tratar de tudo já amanhã. Isto é o que nós dois queremos.
És o melhor homem do mundo, chorava e ria a Leonor, que não cabia em si de felicidade. Sentia que tinha ganho um bilhete dourado numa raspadinha.
Foram buscar os papéis, esperaram as aprovações, começaram a visitar o lar de crianças, a pensar em nomes, brinquedos, futuro. E, de repente, a Leonor percebeu que há um mês já vivia noutro compasso. Não contou nada, foi à farmácia. Fez um teste. Duas risquinhas, gordas, a gozar com ela:
Afinal, era assim o teu caminho. Teu, de verdade.
Ainda incrédula, correu para o quarto.
Miguel, não vais acreditar olha! mostrou-lhe o teste Vamos ter um bebé!
Santo Deus, Leonor! A sério? Amanhã vamos já ao centro de saúde!
O médico confirmou. Leonor estava grávida, inscrita e seguida.
Uma festa apoderou-se da casa. Era alegria a encher cada canto e nem o euromilhões teria dado a mesma sorte. Passaram catorze anos até a Leonor viver isto, mas valeu cada lágrima.
O Miguel não a deixava fazer esforços, mimava-a, trazia-lhe tudo o que lhe apetecesse. Ela sentia-se uma rainha.
Quando chegou a hora, nasceu a Matilde, uma menina de olhos brilhantes, com saúde de ferro. O Miguel chorou ao pegá-la ao colo na maternidade e disse, cheio de emoção:
Estamos finalmente em casa, agora começa a nossa vida verdadeira, temos a nossa maior riqueza, a nossa menina.
A casa mudou: risos, choro, cheiro a pó de talco, noites sem dormir, mas lado a lado, de mãos dadas. Não era um mar de rosas, havia dias maus, discussões, cansaço. Mas era amor autêntico, como um velho sobreiro agarrado às pedras.
Num daqueles dias quentes, estavam a passear no jardim com o carrinho da Matilde, ela a dormir, eles de mãos dadas, a falar sobre a vida. E de quem dão de caras? Do João, sozinho, olhar perdido, ar gasto. Trazia uma cerveja na mão. Pararam, houve um segundo de silêncio.
Olá, disse o João, forçando um sorriso.
Olhou para a Leonor, viu o brilho dela, o Miguel, a bebé.
Soube que estão bem.
Estamos, sim, respondeu a Leonor, tranquila. E tu?
Ele deu de ombros, olhou para longe.
Olha já casei mais duas vezes, nunca funcionou. O meu filho está com a minha mãe. Vou lá de vez em quando. Eu enfim. Não tenho tido sorte.
Era um tom de quem já está resignado. Fitou o Miguel, como que a recordar-se de tempos melhores, suspirou e seguiu caminho, arrastando-se, sozinho pelo parque cheio de vida.
O Miguel abraçou a Leonor.
Vamos, meu amor, disse com ternura. A Matilde vai acordar, já falta pouco para o lanche.
A Leonor agarrou o carrinho e lá foram, pelo caminho deles não perfeito, mas verdadeiro. Não era um sonho, era a vida real, feita de destroços antigos e de amor reconstruído.
E olha, meu querido/a, se alguém duvida de que milagres acontecem nas esquinas mais improváveis, que ouça este nosso fado, que às vezes, a vida ainda nos dá presentes assim. Um bejinho enorme. Quem sabe a sorte não te bate também à porta? Boa sorte para ti, pá, e tudo de bom!







