O Preço de Uma Segunda Oportunidade

O preço da segunda oportunidade

Miguel permanecia frente a Inês, inclinado no sofá da sala do pequeno apartamento em Lisboa, a implorar-lhe baixinho que lhe contasse toda a verdade. Falava com uma doçura calculada, de quem tem medo de afugentar a mulher que julgava já não segurar nas mãos.

Só te peço que me digas! Prometo que não me vou zangar sussurrou ele, mas o olhar nada tinha de terno. Inês estremeceu: reconheceu naquela sombra nos olhos dele a desconfiança que ao longo dos anos minara o seu ânimo, deixando-lhe os nervos à flor da pele. Ainda por cima, estávamos separados nessa altura acrescentou Miguel, num tom mais baixo.

Inês largou um longo suspiro, mordendo levemente o lábio inferior. Sentia a irritação a fervilhar cá dentro estava farta! Sempre as mesmas perguntas, o mesmo desconforto repetido dia após dia Tentava controlar-se, mas a voz saiu-lhe mais alta que o pretendido.

Não houve nada. Nada! Podes parar de perguntar sempre o mesmo? respondeu, num timbre dorido. Perguntava-se, amargamente, porque raio tinha concordado dar-lhe outra hipótese. Os amigos tinham-na avisado: homens como o Miguel não mudam. Mas na altura, quis acreditar que o amor deles era capaz de tudo, que seria diferente, que as histórias alheias não se aplicavam a si.

Foi então que o tom da voz dele mudou drasticamente. Deixou cair a máscara, raiva despida de rodeios.

Eu pergunto à Matilde! atalhou Miguel, implacável. A nossa filha não me mente.

Sentiu estas palavras como um murro. O sangue subiu-lhe ao rosto, a voz embargou de indignação.

Força! Não te esqueças só que ela tem cinco anos, e passou o ano quase todo em casa de toda a gente! endireitou-se de repente, espremendo os punhos. O simples facto de envolver a miúda nesta chantagem abalava-a até ao âmago. Foi preciso trabalhar, dar-lhe de comer, sabias?! Porque insistes sempre no mesmo? Com quem andei, quem conheci Isso não te diz respeito! Miguel, chega! Já fui embora uma vez, pensas que não sou capaz de ir outra vez?

Miguel ficou imóvel, surpreendido com a violência da resposta. Por segundos, pareceu desorientado, mas logo se recompôs com ironia:

E tens dinheiro para o bilhete?

Mas, vendo-lhe o rosto empalidecer, arrependeu-se de imediato.

Desculpa, não devia dizer isto. Só me assusta esta tua resistência. Juro que não estou a ser possessivo. Pensa só nisso, está bem?

Sem hesitar, Inês largou tudo e agarrou na única almofada do sofá, atirando-a à figura dele. Não o magoou, apenas atingiu o orgulho de Miguel. Já esboçava um trocadilho sarcástico, quando a porta do corredor se abriu e a pequenita Matilde apareceu.

A menina, no vestidinho cor-de-rosa de folhos, correu direita ao pai, os olhos brilhantes, sorriso largo:

Pai, pai, já estás cá! Tinha tantas saudades!

Miguel lançou a Inês um olhar vitorioso, como quem diz Vês? Ela gosta mais de mim. E logo se virou de novo para a filha o rosto suavizou, a voz tornou-se melodia, um homem completamente diferente do de há instantes atrás.

Anda, coelhinha, vamos brincar murmurou, erguendo Matilde nos braços. Ela riu-se alto, contagiando o ambiente com o riso puro das crianças. Deixemos a mamã descansar, está cansada.

Inês manteve-se junto à banca da cozinha, agarrada tão forte ao pano que os nós dos dedos ficaram brancos. Sentiu um nó de amargura: Ótimo, agora até a filha vai pôr contra mim! Mordeu os lábios para calar as lágrimas. Já bastava. Era altura de ir embora.

Estava decidido. Faltava-lhe só uma semana para terminar o curso de especialização, e assim que recebesse o certificado, compraria o bilhete de avião para onde quer que fosse, desde que fosse longe. Miguel enganava-se se achava que ela ia ficar bloqueada ali. Já não era como antigamente bastava abrir dois ou três anúncios online para arranjar trabalho remoto em Portugal e além-fronteiras.

Deixou o pano e foi à janela. O tráfego da Avenida da Liberdade pulsava em baixo, luzes douradas, pessoas apressadas, lojas a acenderem-se para a noite.

Ao menos há um lado bom em ter mudado de cidade sussurrou para si, olhando para a rua. Aqui, com este diploma consigo trabalho em qualquer parte.

Respirou fundo pela primeira vez em muito tempo, sentiu clareza, quase alívio. O plano estava feito, só faltava executar. Documentos, malas, avião e recomeçar.

***

Porquê aceitara revisitar um passado que, à partida, estava tão fadado a falhar de novo? Inês não sabia bem. Miguel prometera e jurara novas regras mais presente, mais pai, mais homem. Olhava-a com esperança de menino, voz trémula quando pedia uma prova de confiança, e ela quis acreditar. Imaginou-se aos passeios à beira-Tejo, almoços sorridentes, partilha, calma.

Durou pouco. O mês inicial foi de sorrisos, jantares, partilhas com Matilde, promessas. Depois tudo regressou: os ciúmes, perguntas sem fim Onde estiveste?, Porquê tanto tempo?, Com quem falaste?. Não, nunca houve traições nem da parte dele, nem dela. Mas a obsessão estava lá. Miguel desconfiava de tudo e todos; empregos estavam fora de questão Há sempre homens no escritório, para quê esse risco?. Até visitar os pais sem ele era um drama O vizinho solteiro de lá faz-se muito prestativo para o meu gosto.

As amigas sumiram: ao início eram só caras fechadas dele, depois discussões, até que parou mesmo de pedir licença para sair. Essas tuas amigas só querem cavaleiros, vociferava Miguel, sempre desconfiado. Queriam era ver-te solteira também.

Defendia-as com dificuldade. Têm direito a viver a vida delas, Miguel.

Venha daí o exemplo! Não tens nada que ver com essas conversas.

Os telefonemas rarearam e depois desapareceram. Pais numa cidade ao lado; amigas, nenhuma; colegas, nem vê-los… Só ela e Matilde, sempre a precisar de mimos, comida, companhia, histórias para dormir.

Certa noite de outono, durante o jantar, Miguel largou bomba:

Está na altura de termos outro.

Inês ficou paralisada, colher no ar. Passara meia hora a implorar à filha para comer duas colheres de sopa. A menina acabou por virar a tigela e rir-se, só para desafiar. Ela limpou a mesa, olhou para o marido exausta, quase em lágrimas. Ele, imperturbável.

Afinal, tens muito tempo livre insistiu, afastando o prato. Já vi trocas de mensagens com a tua irmã sobre cursos. Para quê insistires em trabalhar? Não precisas.

A garganta secou, a voz quase não saía.

Só quero aprender. Não faz mal a ninguém murmurou, quase a chorar.

Pois, mas se vier um filho já esqueces essas ideias sentenciou ele, soberano.

Inês não estava preparada. Já lhe pesava cuidar de uma criança ter outra era impensável. Era um ciclo sem saída. E Miguel, agora percebia, falava a sério: a decisão estava tomada para os dois.

Comprimiu cada fibra do seu corpo, sentindo que era tempo de tomar contramedidas. Precauções secretas, planos, tempo. Era agora ou nunca.

O último limite foi ultrapassado quando Miguel lhe proibiu de ir ao aniversário do irmão, alegando que estaria cheio de homens estranhos. Ela argumentou, explicou, insistiu em vão.

Não aguentou mais.

Enquanto Miguel trabalhava, pôs tudo nas malas dela e da filha mãos a tremer mas coração determinado. O irmão não hesitou em ajudá-la e arranjou uma carrinha para a mudança. Despediram-se do apartamento quase de fininho. Inês deixou um bilhete: Desculpa, acabou. A Matilde tem direito a crescer em paz.

Nesse dia tratou da papelada do divórcio.

O processo foi demorado, no tribunal. Miguel exigia tempo de reconciliação, atirava acusações, tentava inverter culpas. Era ruidoso, impaciente, cortando-lhe a palavra, berrando impropérios. A juíza mulher idosa e paciente enfrentava-o firme, dando vez a Inês e, perante o comportamento dele, negou período de reflexão e decretou logo o divórcio.

Uma família assim não se salva disse serenamente a juíza. Coragem, Inês. Não é fácil aguentar tanto tempo sob este peso.

Inês apenas acenou, um peso a diminuir. Decisão certa.

Foi viver para casa dos pais em Coimbra, arranjou trabalho, inspirou nova energia. Mudança custou logística, viagem com Matilde, dar explicações mas ao pisar pele casa dos pais, o mundo pareceu-lhe mais leve.

Entrou em cursos de design gráfico, sonho antigo que Miguel sempre desvalorizara. Agora, desenhava, experimentava, era criativa. O novo círculo trouxe amigas do curso, vizinhas, outras mães da escola da Matilde.

Começou mesmo a ir a cafés só para conversar e sorrir, perceber-se livre, respirar. Ao fim do dia ficava sentada na varanda, chá de lúcia-lima, Matilde brincando no quintal com os primos, correndo, inventando cabanas, dando pão aos pombos. O riso da criança era uma música nova. Inês olhava-a e sentia tranquilidade.

“Isto é que devia ser vida,” pensava, um sorriso tranquilo. Sem gritos, desconfianças. Só calma, coisas simples, a minha filha feliz.

Fez planos: terminar o curso, aceitar encomendas, talvez um pequeno T2 perto dos pais Até que, um ano depois, Miguel reapareceu.

Num sábado soalheiro, enquanto Inês escolhia maçãs no mercado municipal de Coimbra, sentiu um olhar persistente nas costas. Arrepios. Voltou-se devagar e ficou gelada: Miguel. Tinha perdido peso, traços cavados, olhos fundos de não dormir. Pela roupa folgada denunciava o desgaste. Olhava-a como quem procura algo, testando-lhe cada reação.

Inês murmurou, dando um passo hesitante. A voz, suavizada, era uma sombra do peso antigo. Procurei-te tanto.

Ela agarrou mais forte o cesto. Porquê?

Mudei. Percebi que perdi o melhor da minha vida. Preciso de vocês Não aguento sem vocês.

Ao ouvir-lhe a voz, todas as memórias invadiram-na: o primeiro passeio na chuva, o riso de Matilde, as noites aconchegadas de história e lareira. Dores felizes, agora distantes.

Dá-me uma oportunidade implorou Miguel, olhos fundos mas sinceros. Só uma. Dou-te provas. Serei outro homem.

E conseguiu convencê-la. Matilde morria de saudades do pai: perguntava-lhe vezes sem conta quando ele viria, pintava desenhos deles de mãos dadas, chorava baixinho quando julgava que ninguém via. O coração de Inês doía como não tentar outra vez, pelo menos por ela?

Pôs uma condição: nada de casamento para já, nada de limitações. Preciso ver mudanças reais. Preciso ter a minha liberdade. Falarei com quem quero, trabalharei onde quiser.

Claro, tudo bem apressou-se Miguel, demasiado disponível. Depois, levou Inês e Matilde para o Porto.

Ao início, tudo era novidade. Vistas sobre o Douro, cidade diferente, folha em branco. Muito depressa, Inês percebeu o truque: estava isolada. Amigos, família e colegas tinham ficado para trás. O contacto com os pais, mesmo por telefone, era sempre sob olhares de Miguel. Tudo controlado, contado.

Sugeria casualmente: Falamos com eles ao fim de semana, ou quando for conveniente, pode ser?

Depois, começaram as suspeitas sobre o tempo separados. Estava obcecado com a ideia de que Inês tivera alguém naquele ano. Exigia detalhes, encostava-a à parede:

Confessa lá, estiveste com alguém? Diz-me a verdade.

Nada do que Inês dissesse mudava o disco. Ele revistava-lhe o telemóvel, controlava tudo.

Certa noite, aproveitou quando ela trocava mensagens com Maria, uma amiga nova, para lhe arrancar o telemóvel das mãos.

Com quem falas? Com algum amante?

Inês desatou: Isso é a Maria! Vamos levar as crianças ao parque, como já te disse!

Maria mas porque sorris tanto? Tantos ícones simpáticos

Que se passa contigo?! gritou, mesmo com medo de acordar a filha. Baixou o tom e enfrentou-o Não te chega já? Só queria que confiasses em mim! Nada mudou. Voltaste ao mesmo.

Por um segundo, Miguel pareceu hesitar, quase arrependido Mas logo endureceu de novo.

Se não escondes nada, mostra-me as mensagens.

Não, respondeu firme. Não aceito mais isto. Disseste que era para mudar, e afinal

Miguel aproximou-se, ameaçador. Vais sair dali para onde? Não tens dinheiro, não tens trabalho, logo vês!

Mal ele terminou, Inês endireitou-se, erguendo os ombros. Enganas-te. Tenho o curso de design, já estou a trabalhar para a Maria. Agora já não tenho medo. Sei que consigo, mesmo sozinha.

Vinda do quarto, ouviu-se a voz sonolenta de Matilde: Mãe? Porque estás a falar alto?

Inês levantou-se de um salto, deslizou para o quarto e aninhou-se junto à filha.

Está tudo bem, amor. A mãe decidiu que está na altura de irmos para um sítio bonito, cheio de sol, com muita relva para brincares e baloiços onde quiseres. Queres?

Matilde sorriu e aninhou-se mais.

Miguel, parado à porta, parecia finalmente perceber que, desta vez, ela ia mesmo embora.

Vais, mesmo?

Vou. Desta vez para sempre. A Matilde merece paz, merece sentir-se em segurança. Contigo isso não vai acontecer.

***

Miguel ainda tentou tudo ora furioso, ora suplicante, ora ameaçando. Inês manteve-se firme. Sempre que ele tentava forçar conversa, era seca: Acabou. Não volto atrás.

No início, Matilde sofreu. Perguntava do pai, por vezes chorava escondida. Inês investiu em criar ambiente feliz: arranjou um apartamento soalheiro nos arredores, paredes coloridas na nova casa, almofadas alegres, uma janela imensa para as árvores do jardim.

Matilde entrou numa oficina de artes sentiu-se logo integrada, fez amigas, trouxe para casa desenhos e um sorriso novo.

Os telefonemas do pai eram frequentes, mas minguaram com o tempo. Restaram mensagens curtas e transferências magras em euros, mal suficientes para pagar os materiais escolares.

Miguel percebeu que com Inês não conseguiria manipular mais.

Inês, enfim, respirou. Saíam ao fim da tarde para ver patos no jardim municipal, apanhar folhas, voar papagaios coloridos. Matilde corria pelos trilhos, dava gargalhadas e Inês via-se refletida naquela felicidade tranquila.

Todas as noites, via aquela paz no rosto da filha e sabia que fizera a escolha certa. Não tinha sido fácil arranjar novo emprego, organizar a vida, mas a liberdade e serenidade valiam tudo.

Agora, na sua pequena casa, vida nova em Coimbra, Inês e Matilde tinham universo só delas cálido, seguro, cheio de possibilidades. E ali, não havia espaço para medo, desconfiança ou mágoas.

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