O Preço da Sua Nova Vida

– Maria, preciso conversar contigo. Já ando a pensar nisto há algum tempo.

Maria Figueiredo estava junto ao fogão, a mexer a sopa. Uma sopa simples, com batata, cenoura, um pouco de alho-francês. Não se virou logo para trás. O tom do João estava estranho, diferente de quando queria falar sobre contas ou reclamar do trabalho. Havia ali qualquer coisa denso, preparado com antecedência.

– Diz, – respondeu, sem parar o movimento da colher.

– Não, Maria. Preciso que me oiças mesmo. Vira-te para mim.

Desligou o bico do fogão e pousou a colher lentamente no apoio. Só depois se virou.

João Figueiredo estava à porta da cozinha. Cinquenta e dois anos, alto, aquela mesma faia branca nas têmporas que antes ela achava tão bonita. Tinha o telemóvel na mão, mas nem lhe pegava. Limitava-se a segurar.

– Vou-me embora, – disse ele.

Maria sentiu algo apertar-se debaixo das costelas. Não era dor, parecia-se mais com a antecipação da dor.

– Para onde? – perguntou ela, numa tolice automática. Sabia que era uma pergunta sem sentido, mas não lhe saiu outra coisa.

– Para sempre. Já juntei as coisas, a mala está no corredor.

– João…

– Maria, por favor. Não quero discussões.

– Não vou discutir, – respondeu ela, com mais calma do que imaginava possível. – Mas tens de me explicar. Deves-me pelo menos isso.

Ele hesitou uns segundos. Passou o telemóvel de uma mão para a outra.

– Não consigo continuar assim, – desabafou por fim. – Não consigo viver com uma pessoa doente. Não estou preparado para isto.

O silêncio ficou quase palpável. Lá fora ouvia-se um carro a passar, uma porta de prédio a bater, algum barulho nas tubagens. Mas na cozinha só havia silêncio e Maria, que sentia a respiração.

– O que é que disseste? – soou-lhe débil a voz.

– Eu sei que soa cruel. Mas perguntaste, Maria. E sinceramente, não quero passar o resto da vida a olhar para o teu corpo com cicatrizes, para comprimidos, baixas médicas. Mudaste depois da operação.

– Eu dei-te o meu rim.

– Eu sei.

– Dei-te o meu rim porque queria que vivesses.

– Sei disso, – olhava-a fixamente. Era pior assim, sem se desviar. – E nunca vou esquecer. Mas não posso ficar contigo por pura gratidão. Não a vida toda.

– Com uma pessoa que já não é a mesma?

– Sim.

Maria encostou-se à janela. Novembro pela vidraça. Cinzento, húmido, árvores peladas, poças na calçada lá debaixo. Estava parada a olhar para fora, sem saber o que sentir ao certo. Chorar? Gritar? Cair?

– Há outra pessoa, – disse ela. Nem perguntou. Já sabia.

A pausa foi longa o suficiente para ser uma resposta.

– Há.

– Há quanto tempo?

– Alguns meses.

Acenou que sim. Continuou a olhar pelas poças.

– Como se chama?

– Maria, não tens de…

– Como se chama? repetiu ela.

– Teresa. Tem trinta e um anos.

Mais um aceno. E ali começou a montar o puzzle dos últimos meses. Os atrasos, o perfume novo, os silêncios sobre a saúde dela.

– Vais embora agora?

– Vou.

– Está bem.

Ouviu os passos no corredor, o rodar das rodinhas da mala no soalho de madeira, o clique da porta. E depois, nada.

Maria ficou ali mais uns minutos. Virou ao fogão, ligou novamente o bico, segurou a colher.

A sopa precisava acabar de cozer.

***

Três anos antes, quando João soube que a doença renal estava em estado terminal, Maria nem hesitou. Foi ela que propôs doar, fizeram exames tudo batia certo. Internaram-nos em Abril, ficaram em quartos ao lado, em Santa Maria. Maria ofereceu-lhe o rim esquerdo sem pensar em mais nada. Depois a recuperação: dor, cansaço, dieta, análises, uma cicatriz na barriga a lembrar todos os dias.

João melhorava mais rápido. Começou a ganhar cor, a engordar o que tinha perdido com a doença, foi ao ginásio, comprou roupa nova, usou perfume diferente.

Maria achava que era felicidade pela vida. Que ele estava grato, queria aproveitar e ficava genuinamente contente.

Estava a ser ingénua.

***

As primeiras semanas depois de ele sair, Maria trabalhou. Era a única coisa automática. Fazia traduções em casa inglês, alemão, textos de medicina, direito, às vezes literatura. De manhã à noite, sempre no computador, a traduzir palavras de outros porque não tinha as suas.

Não cozinhava. Comia pão, queijo, ovos cozidos. Deitava-se cedo para não sentir o silêncio da casa. Acordava antes do sol, ficava de olhos abertos a pensar em nada.

Todos os dias a amiga de sempre, Filipa, ligava.

– Maria, já comeste?

– Já.

– O quê?

– Um pãozinho.

– Não é comer! Amanhã apareço aí.

– Não vale a pena.

– Amanhã apareço.

Filipa Soares era a amiga da faculdade, tinham as duas cinquenta anos, ela era médica de clínica geral, casada segunda vez, dois netos de fim-de-semana, sem paciência para paninhos quentes.

No dia seguinte, abriu o frigorífico assim que chegou.

– Oh Maria, – disse baixinho, a ver as prateleiras quase vazias. – Não comes nada?

– Como.

– O quê?

– Pouca coisa.

– Pouca coisa, pois. fechou a porta, olhou Maria de frente. Não tens ar nenhum. Estás completamente apagada.

– Obrigada.

– Não era elogio. Maria, tens de te puxar para cima. Não é suposto desapareceres.

– Eu não desapareci.

– Desapareceste. sentou-se à mesa, apontou para a cadeira em frente. Conta-me tudo. Desde o princípio.

Maria sentou-se, olhos postos na madeira.

– Ele não quer viver com uma inválida, – disse num tom neutro. – Só isso.

Filipa ficou calada um bom bocado.

– Ele é um cobarde, – disse depois. Sem raiva, só a constatar.

– Não quero ouvir ninguém a chamá-lo nomes. Não me ajuda.

– Faz-te falta zangares-te. Mais do que este vazio todo.

– Não tenho raiva. Juro que procurei, mas só sinto um frio enorme por dentro.

Filipa ficou de costas, pôs água a ferver, mexeu no armário. Pegou num pacote de massa, atirou para a panela sem pedir ordem.

E Maria chorou. Pela primeira vez em duas semanas. Sem dignidade, só lágrimas e soluços, sem conseguir controlar.

Filipa não acudiu logo. Baixou só o lume e trouxe papel de cozinha.

– Chora, faz bem.

***

Dezembro passou em nevoeiro. Janeiro, mais claro. O trabalho ajudava. Traduzir obriga a concentrar e não deixa espaço para outras dores.

Em fevereiro, Filipa sugeriu o termalismo.

– Maria, tens de ir.

– Para onde?

– Para uma estância termal que conheço, em São Pedro do Sul. Faz-te bem, há fisioterapia, dou-te o contacto de uma amiga minha de lá. Precisas de sair daqui.

– Filipa, não sou inválida.

– Estás só exausta. Quatro meses metida nesta casa, ninguém aguenta.

– Eu já falo com as paredes.

Filipa riu-se.

– É a sério. Tirei a informação, há vagas em março. Só três semanas. Reabilitação para doadores é mesmo recomendada, sabias?

– Invenção tua.

– Nada disso. Podes confirmar.

Maria não quis confirmar. Sabia que Filipa tinha razão. Que estava a definhar ali, por dentro.

– Está bem, vou.

***

São Pedro do Sul era mesmo como Filipa descreveu. Um edifício antigo mas recuperado, parque com árvores altas, chão de areia, vista para o rio. Do quarto avistava o vale, ainda coberto de névoa. As manhãs começavam cor de rosa.

Nos primeiros dois dias, Maria mal saía do quarto. Tratamentos, refeições, voltava para ler ou tentar traduzir uns textos.

Ao terceiro dia, decidiu passear.

O parque estava vazio. Uns senhores mais velhos nos bancos, mulheres com bastões de marcha nórdica, um homem e um cão.

Maria caminhava devagar. Ouvia o farfalhar das folhas, os pássaros a conversar no alto. Não pensava em nada. Era bom não pensar.

Ao pé do rio, sentou-se num banco de madeira.

– Posso? perguntou uma voz atrás.

Virou-se. Um homem de uns cinquenta anos, baixo, largo de ombros, casaco azul-escuro, apontava para o lugar vago.

– Faça favor, – disse Maria, mudando-se um pouco.

Sentou-se também. Ficou a olhar o rio.

– Bonito, – disse passados uns minutos. – Ainda há nevoeiro, pensa-se que não é março.

– Pois

– O ano passado dizem que em fevereiro já não havia nuvens.

– Não sou daqui. Primeira vez.

– Para mim é a segunda. Em outubro, agora em março.

Ela não perguntou o porquê dele estar ali todos sabiam que ninguém ia à estância termal para lazer.

– Há quanto tempo chegou?

– Três dias.

– Eu ontem. alongou a perna esquerda devagar, como a testar. Ainda não a obedece bem. Disseram-me para andar, todos os dias.

Notou o jeito estranho dele a sentar: a postura era diferente, meio torta.

– Teve um acidente? perguntou Maria, surpreendida com a própria frontalidade.

– Sim. Em setembro. Faturei a coluna. disse sem pena de si. Não fiquei paralisado, mas ainda não recuperei como deve ser.

– Lamento.

– Não tem de lamentar, não foi você, – disse, a sorrir. É duro, dá para pensar em muita coisa.

Sentiu que sorria de novo, mesmo sem vontade.

– Chamo-me Miguel, – disse-lhe, estendendo a mão.

– Maria.

Aperto de mão breve. Profissional.

– Vou continuar, disseram que tenho de andar quarenta minutos, é um mundo.

– Boa sorte.

– E para si.

Foi desaparecendo pelo parque, passo cambaleante mas direito.

Maria ficou a olhar o rio. Pela primeira vez em quatro meses, sentia-se simplesmente “normal”.

***

No dia seguinte encontraram-se por acaso ao pequeno-almoço. Ela já sentada, ele com o tabuleiro na mão ela acenou, ele sentou-se.

– Posso?

– Claro.

Quase não conversaram. Ele lia no telemóvel, ela olhava o jardim. A certa altura virou-se para ela:

– A Maria é tradutora?

Ela espantou-se.

– Como adivinhou?

– Ontem à mesa tinha um dicionário de alemão. Já não se vê papel.

– Gosta de reparar.

– Tenho olho para detalhes. – Disse sem vanglória. – Então traduz?

– Sim. Medicina, direito, literatura.

– Interessante. dizia mesmo com interesse genuíno. Sou arquiteto. Ou era, agora estou a ver.

– Porquê a ver?

– As mãos estão boas, mas as costas veremos. Não sei viver parado. O problema não é físico, é mental.

– Percebo. Com tradução é igual. Quando paramos, falta-nos qualquer coisa.

– Precisamente, – acenou. Vai ficar quanto tempo?

– Três semanas.

– Eu também. Havemos de nos cruzar.

– Pelo que vejo, sim.

***

Enquanto Maria caminhava pelo parque, a conversar com Miguel sobre palavras e casas, João Figueiredo levava outra vida.

Nem ele percebia bem como se sentia tão bem agora. Depois de três anos preso ao corpo, ao hospital, a pensar em medicamentos, de repente respirava. Podia beber um copo de vinho ao jantar. Tinha algumas limitações, mas pareciam mínimas.

A Teresa era parte desse novo início. Trinta e um anos, cabelo loiro, energia a rodos. Era gestora de uma agência de viagens, cheia de ideias de escapadinhas e aventuras.

– Vê lá o que eu descobri! mostrava fotos de praias e montanhas no telemóvel. Que tal irmos à Croácia em abril? Nada complicado, só para conhecer.

– Perfeito, dizia ele. Porque era, porque há um ano achava impossível qualquer plano.

Teresa mudou-se para a casa dele trazendo malas de roupa, mudando cortinas. João não se importou, as cortinas novas eram giras.

De vez em quando, muito raramente, João pensava em Maria. Não com pena, não verdadeiramente, era um incómodo difícil de classificar como uma comichão. Lembrava-se que ela tinha sido boa para ele, que lhe salvou a vida. Mas viver ao lado de alguém doente era outra coisa. Tinha sempre um peso, puxava para baixo. Ele queria ir para cima.

E dizia isto a si próprio. Funcionava.

No trabalho, os colegas notaram logo. Brincavam: Figueiredo, pareces outro! Estás mais novo.

– A vida está finalmente a andar, respondia ele.

E a verdade é que andava. Foram à Croácia, depois à Islândia em setembro. Teresa queria ver auroras, João queria tudo o que não viveu.

Na Islândia estava frio e vento. Alugaram carro, fizeram quilómetros pela estrada vazia. Teresa filmava para o Instagram, João sentia-se rejuvenescido.

E gostava da velocidade. Temia perdê-la.

***

Na estância termal, os dias deslizavam calmos.

Tratamentos, passeios, refeições. Maria criava novas rotinas. Banho de imersão logo de manhã, passeio longo a seguir, sesta depois do almoço sem peso de culpa. De noite lia ou olhava pela janela, vendo o escuro descer pelas árvores.

Miguel tinha horários idênticos. Cruzavam-se nas caminhadas, quase sempre no mesmo banco.

– Hoje foi meia hora, anunciou ele ao sentar.

– Faltam dez minutos para a meta!

– Eu sei, mas já não dava mais. olhava para a água, onde já se via menos nevoeiro. Fico zangado por não conseguir.

– Não devia. Cinco meses desde uma fratura na coluna é notável.

Olhou-a bem.

– Percebe de medicina, percebe-se. Fala claro, não mima.

– E relevante como?

– Não é como quem diz estás a ir bem!, nem o contrário. Diz só o que é.

– Não faço ideia se vai correr bem. Não sou médica.

– E isso é raro. A honestidade. É raro.

Maria achou graça. Nos últimos meses ouvira muitas vezes que tudo ia melhorar. Mas honestidade, pouco.

– Como foi o seu acidente? arriscou ela. Só se quiser falar.

– Construção. Foi numa obra, caiu andaime, caí do terceiro andar.

– Sobreviveu.

– É surpreendente quando pensamos o quão perto foi. Primeiro só pensa que está vivo. Depois, que dói. Mais tarde, o que resta e quanto.

– Custou-lhe muito?

– Muito. Mas também muito tempo para pensar.

– Pensar em quê?

– Na vida, no filho com quem quase não falava, na casa que nunca acabei, em como talvez isto tenha sido um abanão necessário.

– Estranha forma de abanar.

– A vida é pouco elegante.

Maria riu-se, baixinho.

– Já não o ouvia rir-se.

– Só nos conhecemos há três dias.

– Exatamente. Três dias sem uma gargalhada.

Desta vez não respondeu. Ficou a olhar para a água, onde agora já se via refletida a folhagem.

– A Maria é casada?

– Fui, não sou.

– Recentemente?

– Ele saiu há quatro meses. Eu dei-lhe um rim, e depois ele foi-se embora. Não queria viver com alguém marcado, disse.

Miguel ficou calado muito tempo. Ela esperou. Normalmente as pessoas intervinham logo.

– Dói, – disse ele por fim. Baixinho.

Simples.

– Dói, – repetiu ela.

***

A meio de março, o nevoeiro já ia deixando lugar ao azul. De manhã o rio tinha uma névoa ligeira.

Começaram a andar juntos. Primeiro por coincidência, depois marcado. Às dez, encontravam-se à porta principal.

Miguel era lento, Maria adaptou o passo. Sentiu que lhe sabia bem andar devagar. Não queria pressa.

Conversavam muito. Sobre trabalho, arquitetura, linguística, corpo. Maria contou do seu corte na barriga, da vergonha inicial, da aceitação que veio depois.

– O corpo é honesto, – disse Miguel. Adapta-se.

– Olha muitas vezes para a sua cicatriz?

– Fica nas costas, não dá muito jeito ver. Mas sinto-a. Todos os dias.

– O que significa para si?

– Que ainda cá estou. Que alguma coisa ficou. Para mim chega.

Maria pensava nisto de noite. Que alguma coisa ficou, e que isso basta.

Era diferente daquela filosofia do João, de esquecer tudo, virar folha. Miguel mantinha a história no corpo.

Ainda não sabia o que pensava disto. Mas gostava de pensar.

***

Ao fim da tarde começaram a beber chá nos cadeirões do átrio. Maria levava bolachas que Filipa lhe mandava por correio, Miguel pagava o chá na máquina.

– Fale-me do seu filho.

– Diogo, vinte e seis. Vive no Porto, programador, casado o ano passado. Falamo-nos pouco, porque sempre estive ocupado. Ele cresceu mais sozinho do que devia.

– Ele foi visitá-lo depois do acidente?

– Foi logo ao hospital. Ficou comigo dias inteiros. pausa É estranho, às vezes é preciso ir tudo abaixo para as pessoas falarem.

– Sei bem. Tenho uma filha, Marta, vinte e três. Soube do abandono do João e quis vir, mas não deixei.

– Porquê?

– Não queria que ela me visse naquela altura. Não queria ser vítima diante dela. Sou mãe, quero ser forte.

– Forte ou só inteira?

– Não faço ideia.

– Sabe que ela se preocupa porque ama, não por pena.

– Talvez.

– Não repita o meu erro, Maria. Deixe-a vir.

Ela olhou-o, pensou. No dia seguinte ligou a Marta a dizer que podia ir ao fim-de-semana.

***

João Figueiredo via folhetos de viagens e pensava em montanhas. Teresa ao lado, sempre em movimento.

– Olha, que achas? Escalada aos vulcões na Guatemala!

– Quatro mil metros, João, nunca fizeste nada parecido.

– Agora é diferente.

– Mas o médico?

– Caminhar até faz bem. Outubro lá é ideal.

– Pronto, vemos isso.

Ela tinha o telemóvel já na mão. Ele perdeu-se a olhar as fotos. Naquela altura, Maria já não lhe vinha ao pensamento.

Só raramente. Ao ver comprimidos na farmácia, lembrava-se da caixa semanal que ela organizava. Era ela que fazia sozinho agora.

Deixara os antidepressivos. Sentia-se feliz, os indicadores médicos mantinham-se. O nefrologista olhava-o sempre a medo, mas aliviado.

– Sente-se bem?

– Óptimo, Dr. Amaro.

– Não se esqueça de se cuidar.

– Não esqueço.

***

Acabaram por não ir para a Guatemala. Teresa preferiu Marrocos: mercados, desertos, camelos.

– Quente, bonito, diferente.

– Boa escolha.

Temperaturas altíssimas, jantares com comida apimentada e chá de menta. João sentiu fadiga, mas atribuiu ao calor.

No último dia de Marrocos, uma dor surda no lado direito, onde agora morava o rim de Maria.

– Doi-te?

– É só uma dorzita.

De volta a casa, passou. Mas ficou inquieto, uma sombra de medo.

***

Marta visitou Maria em São Pedro do Sul naquele sábado. Era alta como o pai, olhos claros, cabelo castanho.

Abraçaram-se bem à entrada.

– Mãe!

– Marta

Tomaram chá, falaram da vida, da casa nova dela. Maria sentiu a filha crescida, tão rapidamente.

– Como estás?

– Melhor. Este sítio faz bem.

– E as pessoas?

– Há alguém. Arquiteto. Pessoa boa.

– Boa pessoa, – disse Marta com meia-sorriso.

– Não é o que pensas.

– Estou só feliz porque ficaste curiosa com alguém, – disse a filha meiga. Só isso.

– Estás um mulherão, – admitiu Maria.

– Finalmente, – riu Marta.

Miguel passou no átrio, acenou.

– Marta, este é o Miguel, minha filha. Miguel, Marta.

– Prazer, – apertou ele. Gosta daqui?

– Lindo. Adoro árvores.

– São boas para pensar, disse ele, olhando Maria. Até amanhã.

Quando saiu, Marta esperou.

– Mãe

– Sim, filha?

– Só gosto de te ver assim. Sorridente.

***

A última semana voou. A neve desapareceu. O parque já verde, os pássaros faziam tanto barulho que Maria acordava antes do despertador e não se irritava.

Migal passava de trinta minutos de passeio, para uma hora e vinte. Não festejava, só notava.

– Está tudo a correr.

– E depois vou ao Porto visitar o Diogo. Sem necessidade. Só para estar.

– Faz bem.

– Você tinha razão: a tua Marta veio por amor, não pena. Vi logo.

– Tem olho de arquiteto.

– Olhamos para o espaço entre as coisas, não só para elas.

Maria gostou disso.

– É bonito.

– Prático. Maria, quero pedir algo pouco modesto. Quando voltarmos, posso ligar-lhe?

Parou. Ele também. Estavam entre árvores, com o rio a espreitar.

– Pode. Quero que ligue.

– Obrigado, sorriu sem euforia, só sentido.

Foram andando.

***

Voltou para Lisboa no fim de março. Tudo igual em casa, mas ela sentia-se mudada.

Primeiro abriu janelas, deixou entrar ar fresco. Depois foi ao supermercado e comprou realmente comida: coxa de frango, legumes, salsa, tomates maduros.

Cozinhou, música na rádio a tocar.

Filipa ligou:

– Já estás?

– Estou.

– E então?

– Foi bom, Filipa. Verdadeiramente bom.

– Sinto-te diferente. pausa Maria?

– Conheci alguém.

Silêncio de espanto do outro lado.

– Diz-me tudo.

Contou por alto. Nome, idade, arquiteto, acidente nas costas, calma de fim de tarde.

– Vai ligar-te?

– Disse que ia.

– Que bom.

No dia seguinte, Miguel telefonou.

***

Começaram a encontrar-se. Sem pressa. Palavra-chave: devagar.

Primeiro jantaram num restaurante pequenino perto da Graça. Miguel, divorciado, a viver sozinho há anos; a ex-mulher estava no Porto com o novo marido.

– Acabámos sem conflito. Ela queria rotinas, eu adoras as minhas obras, faltava a casa.

– E o teu filho?

– Viveu uns tempos comigo, depois saiu. Não fui mau pai, fui ausente. É diferente.

– Um pouco.

Falaram a jantar. Lá fora, abril chovia no passeio e os candeeiros acendiam-se.

– Tenho de dizer uma coisa, – começou Miguel.

Maria olhou para ele.

– Nunca sei a que velocidade vou, disse-lhe. Agora menos rápido ainda. Se para ti servir, fico feliz.

– Serve-me perfeitamente, – respondeu. – Também sou lenta.

– Vi isso quando passeavas no parque. Sem pressa. Isso é bom. Quem sabe para onde vai, não corre.

Achou graça. E percebeu o quanto acertava.

***

Viam-se uma ou duas vezes por semana. Passeavam, jantavam, conversavam. Falavam de trabalho, médicos. Às vezes esperavam um pelo outro à porta da clínica.

Em maio, ele convidou-a para uma exposição de arquitetura num velho pavilhão industrial, cheia de maquetas e plantas.

– Vês este? parou junto de uma casa pequena. É o último projeto que deixei em mãos antes do acidente.

– Conta-me

Explicou o jogo de luz, das janelas, do espaço para cada pessoa.

– Já construíram?

– Está quase. Quero ir vê-lo, ao Porto, no outono.

– Levas-me?

Viraram para o tu. Subtil, mas era diferente.

– Levo. Claro.

Algo manso, importante, mudou.

***

Nesse verão, João Figueiredo percebeu que algo não ia bem.

Vieram os exames. O nefrologista ligou:

– Sr. João, vieram algumas alterações que me preocupam. Preciso ver-lhe.

– O quê?

– Os indicadores do rim mudaram. Pode ser o princípio de rejeição. Temos de ajustar a medicação.

– Rejeição? Mas…

– Não se assuste. Apanhámos cedo. Mas atenção às viagens, ao calor, ao corpo. Já lhe tinha avisado.

João calou-se.

– Só lhe peço: respeite o corpo. O rim não é seu, não age como seu. Calor e mudanças rápidas, mesmo comida, tudo pesa.

João saiu da consulta, sentou-se no carro. Jovens a rir passavam. Sentiu medo, algo novo.

***

Teresa ouviu a notícia dos exames, ficou atenta uns dias. Mas depois foi mudando. Nunca disse muito, mas João percebia.

– Teresa, preciso de abrandar nos próximos tempos.

– Ok, recupera e depois logo recomeçamos.

– Não é tão simples. Talvez não volte ao mesmo.

– Não exageres, cortou ela. Não dramatizes.

Ele percebeu que não estava a dramatizar. Era a dura realidade.

***

No outono, ficaram em Lisboa, não viajaram.

João lia em casa. Aborrecia-se. Teresa começou a ficar até mais tarde no trabalho e a dormir “em casa de amigas”. Nem quis confirmar.

Discutiram perto do Natal, por uma insignificância.

– Não posso mais, João, disse ela, cansada. Estás doente, ansioso, nem conversas.

– Desculpa.

– Não é questão de desculpar. Eu só não esperava isto.

João percebeu nesse instante. E em vez de pensar em Teresa, pensou em Maria: como ela falava quando ele estava doente clara, prática, sem nunca se esquecer de lhe arrumar os medicamentos, de controlar tudo para que ele não tivesse de se lembrar.

Percebeu que só ela sabia cuidar dele.

Empurrou esse pensamento.

***

Perto do Natal, Maria sabia que estava feliz. Não era eufórica, era só calma. Acordava e queria viver.

Miguel já andava direito, riam-se juntos da lentidão dos primeiros tempos.

– Estás bom, já anda direito, – gracejou ela.

– Fica sempre a lentidão do acidente. Mas até gosto, desabafou. – Ensina-nos a saborear.

Foram ver o pequeno prédio que ele projetara, já acabado, perto de Aveiro. Miguel andava por dentro, a ver todas as janelas, satisfeito.

Maria assistia à janela do primeiro andar, a ver as árvores.

– É bom, disse.

– Estou mesmo contente.

Ele parou-lhe ao lado.

– Maria…

– Sim?

– Quero que vivas nesta casa comigo. Um dia. Se quiseres.

Ela demorou a responder.

– Um dia. Vamos devagar.

– É resposta?

– É sincera.

– Eu também não sou rápido.

Ficaram juntos, a olhar as árvores ao pôr-do-sol.

***

Em janeiro, Filipa ligou.

– Maria, sabes do João?

– Não…

– Está no hospital. O rim está a rejeitar. Disse-me a Vera, que conhece alguém do serviço dele. E a Teresa saiu de casa.

Maria ficou a olhar a janela.

– Obrigada por me dizeres.

– Como estás?

– Estou bem, Filipa. Mesmo.

Desligou e ficou a pensar. Não sentia pena nem raiva. Só compreendeu tudo.

Pegou no telemóvel, ligou ao Miguel.

– Olá.

– Como estás, Maria?

– Bem. Só queria ouvir a tua voz.

– Estou aqui. Jantamos juntos hoje?

– Sim. Faço-te um prato especial.

– Já aí estou.

***

João saiu do hospital em fevereiro. Mais magro, rosto transformado. Vivia só. Teresa tinha levado as coisas, despediram-se com educação. João até ajudou a carregar as caixas. Ela não era má pessoa, não conseguia foi ficar.

Na casa, as cortinas dela ainda estavam penduradas. Pensava em trocá-las, nunca o fez.

Voltava a pensar em Maria. Primeiro de vez em quando. Depois, pensava horas nela.

Não era saudade. Era a ausência do cuidado. Da companhia que não queria fugir. Do seu ritmo lento, do está tudo bem.

Achou o número antigo. Olhou. Ligou.

Maria atendeu ao terceiro toque.

– João.

– Olá, Maria.

– Estás bom?

– Mais ou menos. Posso ir aí?

Hesitou mas acedeu.

***

Chegou num domingo à tarde. Maria abriu-lhe logo a porta.

Estava diferente. Não velho. Mudado. Como ficam as pessoas quando deixam de fingir.

– Entra.

João sentou-se, olhou a sala. Era a mesma, mas diferente. Novos livros, cheiro de flores.

– Queres chá?

– Quero, obrigado.

Maria voltou com as chávenas.

João ficou algum tempo a pensar. Depois, desabou:

– Maria, sei que não devia pedir nada, mas gostava de tentar de novo… De voltar.

– João, não é preciso explicares…

– Preciso. Agora percebi. Estava errado. Quero-te de volta.

Ela pousou a sua chávena.

– A quem queres tu de volta, João? A Maria, ou quem sabe cuidar de ti?

– Não é a mesma coisa?

– Não. O tom dela era sereno, sem raiva. Vieste porque tens medo da solidão. Porque percebeste que eu fiquei quando mais precisavas. E precisas disso agora.

– Maria…

– Deixa-me só acabar. Não estou zangada. Melhorou muito, sabes? Encontrei o que destruíste.

– O quê?

– Eu própria. E alguém mais.

Viu no olhar dele que finalmente percebia.

– Tens alguém?

– Sim.

– Desde quando?

– Primavera. É bom. Foi doente também, percebe como é.

João ficou só a olhar a mesa.

– Devias estar zangada.

– Não. Senti só frio, depois ficou melhor.

– Como fizeste isso?

– Não se faz sozinho. Filipa ajudou, o tempo ajudou. E alguém que soube ficar.

– Eu fugi.

– Porque tiveste medo. Da cicatriz, do comprimido, da dor. Pensaste que a vida acabava. Não acaba, só muda.

– Quero voltar.

– João. Tu queres regressar ao sítio do conforto, não do amor. O amor é outra coisa. Sabes disso.

– E se for amor?

– Se fosse, tinhas ficado.

Ele ficou calado.

– Não sei viver assim, – disse enfim. Sem drama, só aceitava.

– É um começo. Quando não sabemos, começamos a pensar. E tu pensaste nestes meses?

– Sim.

– Percebeste?

– Percebi que fui vazio. A querer viver depressa perdi tudo o resto.

– É importante, sim.

– Fica vazio se ninguém ficar.

– Tens de merecer quem fica. Não é buscar quem cuida, é dar. Pensaste nisso?

Nada disse.

– João, estiveste doente. Eu ajudei. Depois chamaste-me inválida. Isso dói. Porque achaste que inválido era só físico… mas verdadeiro inválido é quem só pensa em si. Quem foge quando é difícil.

Ele escutava, cara fechada.

– Não consigo recomeçar, – disse Maria. – Não por te odiar, mas porque não faz sentido. Sobre ruínas não se constrói uma casa nova. Tem de ser noutro sítio, com outra pessoa.

– És feliz?

Demorou a responder.

– Sou. De maneira diferente. Mas sou.

Ele sorriu num jeito cansado.

– Ainda bem. E pareceu sincero.

Saiu sem ruído.

***

Maria ficou no corredor, ouviu o elevador, a porta do prédio.

Depois escreveu uma mensagem.

O João já saiu. Está tudo bem. Onde estás?

Veio a resposta: Belém, à beira-rio. Vem.

Vestiu o casaco, pegou nas chaves, saiu.

A rua calma, ar frio mas leve de fevereiro.

Caminhou um bom bocado nem a correr, nem a passo de caracol.

Chegou ao rio.

Miguel encostado ao gradeamento, a olhar a água.

Custou a chegar? perguntou ele.

Apanhei o Metro, foi rápido. olhou-a com atenção. Como estás?

Honesta? Estou bem.

Veio cá pedir para voltar?

Veio.

Explicaste?

Expliquei.

Entendeu?

Não sei. Estava diferente. Mais baixo, mais calmo.

A vida muda quem quer mudar.

Só quem quer mudar, – repetiu ela. – Os outros, parte-os ao meio.

Miguel acenou.

Ficaram encostados ao rio. O Tejo corria, cinzento de fevereiro, pequenas ondas.

– Miguel…

– Sim?

– Lembras-te que disseste, lá naquele banco, que o suficiente é estar presente, continuar?

– Lembro.

– Na altura não percebi. Agora sim. Percebo o valor.

– O valor de quê?

Ela sorriu, olhou o rio.

– De não correr. De estar, devagar, junto a quem importa. Isso é tudo.

Não respondeu. Só soube.

Ficaram lado a lado, ombro com ombro, o vento fresco mas bom, o pôr-do-sol doce e discreto. Ele não lhe pegou logo na mão. Encostou-se simplesmente. Depois tocou levemente nos dedos dela. Como quem sabe que não precisa correr para lado nenhum.

E ela não retirou a mão.

O rio continuava a passar.

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