Parente Noturno e o Preço da Tranquilidade
Só não outra vez, por favor murmurou Maria, olhando para o lava-loiça cheio de água com espuma.
O ponteiro do velho relógio de cozinha já marcava 1:15. A casa dormia. No quarto ao lado, a pequena Catarina ressonava suavemente. Lá no fundo, o António devia já estar embrenhado no sono das onze badaladas. Sob o candeeiro amarelecido, via-se solitária uma caneca de chá de camomila já fria, testemunha da resistência ao sono.
A campainha cortou o silêncio como faca em marmelada. Demorada, segura, com intervalos curtos tempo suficiente para um vá lá, outra noite, sim?.
Do quarto ouviu-se a voz ensonada de António, reconhecendo ao longe:
É outra vez ele?
Maria enxugou as mãos ao robe, engoliu um bocejo aquele que queria transformar em estou a dormir, sossego, mundo! e dirigiu-se à porta. Pelo caminho sentia o costume: um misto de irritação, um pouco de remorso por se irritar, e um cansaço velho, grosso como tapa de lã molhada.
No olho-mágico: a silhueta rotineira. Largo de ombros, casaco de cabedal gasto, boné empurrado para trás. Era o sogro, Joaquim Cardoso, claro, todo inclinado para a porta. Uma mão na parede, outra a segurar uma caixa de cartão volumosa.
Aos pés, um saco do Pingo Doce já familiar Maria sabia o conteúdo: bolachas. Sempre as mesmas.
Abriu.
Marianinha! Joaquim abriu o melhor sorriso, como se fosse meio-dia e não a uma da manhã. Ainda acordados? Menos mal. Uns dez minutinhos só.
Boa noite, senhor Joaquim tentou sorrir, mas saiu mais como uma careta. Sabe… que é de noite, não sabe?
Ó filha, noite ainda é uma criança! sacudiu ele. E eu também, enquanto as pernas andarem. Não me deixas entrar? Tenho aqui… um tesouro.
Levantou a caixa. Na tampa, uma etiqueta gasta: Filme 8 mm. Num canto, rabiscos a bic: 1978. Ano Novo. Casa. Cheirava a armários antigos e fotografias amareladas desse tempo que Maria só conhecia dos álbuns.
Imagina, filha! e já se empurrava para o hall. Estava em cima da tralha lá do vizinho. Ah pois, é minha!, disse-lhe eu. Ele desconfiava, mas reconheceu pela letra: Da Lena, claro!
O nome da falecida esposa a Lena, há dez anos soou no corredor como um fantasma.
António espreitou do quarto, a camisa velha e o cabelo espetado, olhos semicerrados pelo truque de luzes súbitas.
Pai… pigarreou ele. Já é mesmo tarde.
Ora! animou-se logo Joaquim. Melhora hora para recordações, pá. Na tua idade, a esta hora eu estava a começar a dançar.
Maria sentiu cada palavra a martelar a cabeça. Mas, ao mesmo tempo, pensava: Coitado, está sozinho, aquilo lá escuro, deve meter medo….
Venha para a cozinha lá disse, engolindo um suspiro que pedia férias até ao fim da vida. Só… devagar. A Catarina dorme.
Eu nem dou por mim, és a minha ratinha garantiu o sogro, a despir o casaco.
Ratinha, pensou Maria, mas barulhenta como alarme de incêndio…
***
Na cozinha, Joaquim fazia sempre questão de sentar-se ao pé do radiador. Costas não vão à bola com corrente de ar. Maria pôs-lhe à frente uma caneca e fez chá em modo automático, típico de prestação de serviço noturno.
António sentou-se em frente, a olhar para a caixa.
E isso? perguntou ele.
O nosso cinema! proclamou Joaquim, orgulhoso. A velha película. Está velha mas vivinha. Aqui está a tua mãe, tu todo mirradinho, e até o nariz da tia Carla, que era um acontecimento… História.
Maria encostou-se, de cotovelo na mesa. O relógio pairava nos minutos: 1:27, 1:28… e Joaquim ganhava fôlego só então.
Lembro-me de abrirmos a porta nessa noite… contava Depois da meia-noite, o Alexandre e a mulher chegaram. Frio, neve, e: Entrem! Aqui a porta está sempre aberta! E a Lena disse assim… parou a vasculhar a memória À noite as portas abrem-se a quem precisa muito.
Palavras que ficaram coladas a Maria como chiclete.
Ó pai António esfregou os olhos. Quando é que vemos a película? Não era para isso?
Só que não tenho projetor lamentou Joaquim. Achei que ainda tinham por aqui.
Projetor de 8 mm? Na nossa casa de dois quartos no terceiro andar? Claro, está entre o piano de cauda e a impressora dos jornais! suspirou Maria, irónica.
O sogro nem percebeu. Como habitual.
Não faz mal, arranja-se otimista. Passa-se a digital! Tu, António, és informático, safas isso. Até lá, vão ouvindo à vez.
E desatou nas memórias: a primeira máquina fotográfica, a Lena a rir-se quando a neve lhe entrava pela gola… As histórias caíam como chá do bule velho, sem noite no vozear. Como se vivesse por lembranças, não por horas.
Maria ouvia a meias, mais a sentir do que entender. Só um refrão bailava-lhe: Amanhã às sete, Catarina à creche, relatório para entregar, já quase não vejo….
***
Um ruído leve fez Maria despertar.
Na porta da cozinha, de pijama cor-de-rosa às estrelinhas, apareceu a pequena Catarina, olhos meios fechados e cabelos ao alto.
Mamã cochichou, tropeçando no tapete.
O que foi, querida? Maria levantou-se logo, impedindo queda.
Tenho sede… murmurou a menina. E… sonhei outra vez com o avô.
Ao ouvir avô, Joaquim iluminou-se todo.
Vês? endireitou-se. As crianças sentem as ligações.
Catarina olhou-o desorientada, meio no sono ainda.
Sonho sempre contigo informou com seriedade. Estás sempre a bater, bater. E não consigo fechar a porta. O puxador está quente.
Maria gelou. António franziu o sobrolho.
Que pesadelos são esses? murmurou ele.
Não são pesadelos garantiu Joaquim. É a alma da criança a chamar o avô!
Ou o silêncio, pensou Maria, dizendo apenas:
Vá, Catarina, caminha para a cama, o avô depois volta… ehm… a visitar-te.
De noite, mamã? questionou a miúda.
Maria cruzou o olhar com o sogro. Ele, sinceramente, não entendia a indireta.
Também pode ser de dia, Catarina disse calmamente. Até é melhor.
A menina fungou e colou-se ao pescoço da mãe.
Maria depositou-a nos lençóis, ouvindo à distância Joaquim, agora em modo sussurro, mas com energia para dar e vender àquela hora.
Cobriu a filha, passou-lhe a mão pelo cabelo, pensando: É sempre assim. Esses só dez minutos viram maratonas de bolachas, chá, olhos pesados e a rotina toda em cacos.
Os ponteiros avançavam para as duas horas. Maria respirou fundo. Com a paciência, literalmente, a fazer tic-tac…
***
E foi outra vez… À UMA da manhã! desabafava Maria ao telefone, dias antes. Nenhuma vergonha, nem consciência. Parece que temos aqui um café aberto vinte e quatro horas Ao Filho.
A Filipa, amiga dos tempos de faculdade, ria-se com ela.
Dona Maria, aceites as minhas condolências. A casa está tomada pelo espírito notívago da idade dourada!
Engraçadíssima fungou Maria. Mas é a sério. Já nem durmo sempre a pensar: E se toca de novo? E toca mesmo! Sempre só uns minutos.
Pensa como um desafio provocava Filipa. Tua vida virou escape room: acorda, mete a chaleira, ouve o monólogo prémio: bolacha!
Maria não aguentou e riu-se.
Sempre as mesmas bolachas confidenciou. Daquelas de aveia, embalagem verde. Já enjoo.
É já símbolo da casa! filosofava a amiga. Devias pôr-lhe despertador de visitas.
Como assim?
Ora, tu liga-lhe também à uma da manhã!
Que crueldade! Maria indignou-se, mas sem força.
Brinco, filha… Filipa ria-se. Mas a sério: tens de indicar limites. Ele nunca vai perceber se continuas a abrir porta.
É o sogro, Filipa. É sozinho. A mulher morreu, o António é filho único. Como é que vou dizer: Ó senhor Joaquim, não venha? Coitado. Tem o coração, a tensão, as saudades…
E tu? Não contas? Tens coração, filha, trabalho, criança… Limites não são uma maldade. São autocuidado. Às vezes, ajudam os outros.
Maria calou-se. A ideia de limites dava-lhe comichão. Achava que boa nora era aquela que aguentava tudo, sem piu.
***
A primeira visita noturna de Joaquim foi meio ano após o luto.
Maria supunha que seria apenas uma vez. Uma crise doída que precisava espaço na noite, longe do barulho do dia.
Estavam já deitados, silêncio total, só um retângulo de luar no chão. Quase a adormecer, quando a porta estremeceu.
Quem será a estas horas? Maria quase saltou da cama.
A campainha era insistente, aflita. António saltou, a vestir uns calções em passo de urgência:
Alguma coisa aconteceu!
Ao abrir a porta, lá estava Joaquim desalinhado, sem casaco, camisola de lã gasta, boné esquecido. Os olhos pequenos a brilhar.
Desculpem… murmurou, entrando antes do convite. Não conseguia… Ficar lá. Estava… vazio.
Cheirava a tabaco e frio. Nas mãos, o tal pacote de bolachas de aveia.
Pai, que se passa? António assustou-se. Pressão?
Não, não sacudiu ele, mas o olhar perdido. Só queria ver-vos.
O nó na garganta de Maria desfez-se. Recordava o funeral da Lena, o Joaquim a espremê-la de dor nas mãos, o olhar de quem perdeu as coordenadas.
Puseram-no à mesa, chá feito. Nenhum gracejo, só frases soltas:
Ela gostava destas noites… chá…
As mãos tremiam a partir bolacha.
Hoje vi as bolachas na prateleira murmurou. Conhecemo-nos ali… Puxei por uma caixa, ela a mesma. Leve, que eu faço dieta e eu achei, tem de ser esta!
Nessa noite, Maria não sentiu raiva. Só pena.
Venha quando precisar, senhor Joaquim disse, ao acompanhá-lo à porta, já ao nascer do dia. Estamos aqui, está bem?
As palavras foram literais. Joaquim voltou sempre quando precisava que era, invariavelmente, depois da meia-noite.
Primeiro, só de vez em quando. Depois, quase sempre. Maria já nem sabia distinguir as raras noites de paz.
***
Quando Maria quis falar disso com António, ele só encolheu os ombros.
Já sabes, sempre foi um notívago. Noite é que era hora dele, livros, projetos. Mesmo em miúdo, topava-o na cozinha, duas da manhã.
Pois, mas antes era em casa dele tentava argumentar Maria. Agora é cá.
Sente que esta casa é um prolongamento justificava António. Está sozinho, sente-se perdido, principalmente à noite.
Eu também fico honestamente, partilhou Maria. Porque não durmo, a Catarina acorda, o coração salta cada toque.
António calava-se, meio envergonhado. Entre ele e o pai faltava comunicação: irritava-se mas compreendia-o.
Certa noite, Maria recusou. Não foi à cozinha. Ficou na cama, fingindo dormir. António levantou-se. Portas, vozes baixas, sussurros.
Meia hora depois, ouviu murmúrios vindos do hall. Curiosidade matou o cansaço. Maria espreitou.
Joaquim estava sozinho à mesa António já há muito regressara ao acolchoado. Diante dele, maço de velhas fotografias. Só o candeeiro iluminava a cena como um palco minúsculo.
Lena, aqui tu… sussurrava o sogro, folheando. Dizias que se engrossavas eu deixava de gostar… Eu, parvo, calado. Devia ter dito que eras tudo…
Virava as fotos devagar.
António ali, ranhosinho. Aquela TV, víamos filmes juntos. Recordas? Quando o Alexandre bateu à porta, já de madrugada, só saiu às três… Tu disseste: Que batam enquanto têm onde, fecha-se só quando nós cá faltar.
Falava consigo, sim, mas soava a pedido: Por favor, deixem uma porta aberta para mim à noite.
Maria ali permaneceu. Não era um monstro. Era um homem crescido e perdido no escuro.
A irritação ficou, mas veio a pena, que só complicava tudo ainda mais.
***
Havia que rir-se disto.
Era início de verão, noite morna com janela entreaberta. Zás! Campainha cronometrada. Maria vestiu por cima do pijama um robe colorido, atirou a máscara de olhos ao alto oferta da Filipa e seguiu porta fora.
Mas que estrela! António goza.
É noite de gala Em Casa dos Cardoso riu Maria. Programa: chá, bolachas e privação crónica de sono.
Joaquim desatou a gargalhar.
Isto é que é juventude com piada! espantado. E eu a pensar que já eram uns velhotes, na cama às dez!
Na cozinha, Maria tirou ostentativamente uma caixa de café, bateu no despertador de cozinha.
Sugerimos tradição: à meia-noite, café-du-chão, chá, bolachas e, se possível, mude o relógio das seis.
Oh, nem penses nisso! riu Joaquim. Ao menos temos histórias para recordar! Na infância, andava de comboio noturno, chá em copo, gargalhadas madrugada fora… À noite fala-se melhor!
E depois:
Há portas que se deixam abertas. Nunca se sabe quem precisa.
A frase bateu-lhe no peito. Era bonita, mas arriscada.
Esses quem precisa esquecem-se que cá dentro mora alguém também, pensou Maria. Respondeu só:
E há janelas que se fecham, por causa das correntes de ar.
Joaquim, claro, nem percebeu o recado. Seguiu de história em história, sem notar o olhar de Maria, que oscilava entre cansaço e raiva muda.
***
Um dia, Maria não abriu a porta.
Catarina estava febril. Noite sem dormir. Mal a miúda adormeceu, sentou-se um segundo. Campainha. Tijolo no peito.
Não agora murmurou.
António estava de turno, estavam só as duas. Focou-se em não fazer barulho. Mais um toque. Depois outro. Silêncio.
Contou até cem, duzentos. Coração aos pulos: Pronto, não abriste. E não aconteceu nada. O mundo sobreviveu.
De manhã, ao ir deitar o lixo, lá viu: saco do Pingo Doce, bolachas húmidas do orvalho. Um bilhete quase desenhado: Adormeceram. Não quis incomodar. J.
E mais nada. Sem cobranças. Só… bolachas.
Maria sentiu-se culpada e zangada de uma vez: E porque raio hei-de sentir-me má só por querer dormir?
***
Depois de cada visita tardia, a casa parecia um cobertor molhado: pesado, frio.
Catarina gritou com tosse a noite toda saiu da cama duas vezes, enquanto Joaquim continuava a sua maratona de anedotas. Maria acordou com olhos de panda. No trabalho, só se mantinha com café.
Ao jantar, a mexer a sopa, soltou-se:
Já não consigo mais disse, sem encarar o marido.
Como assim? António atarefava-se com a chaleira.
Assim virou-se abrupta , não posso viver no fuso horário dele. Não somos casa de chás SOS. Temos filha, trabalho. Já não sinto que esta casa seja minha.
Ia o António dizer o clássico mas é só…, quando Maria levantou a mão:
Nada disso. Passo a vida a ouvir: É o pai dele, está sozinho, custa-lhe. E eu quem sou? Esposa, mãe, pessoa, corpo, nervos, limites. E ninguém pergunta como estou.
António calou, surpreendido.
Pelo menos assim Maria mordeu o lábio. Hoje, quando ele vier, falamos os três. Sem piadas, sem dez minutos. Vou pedir para me deixarem uma noite. Uma noite… normal.
Queres… proibi-lo? António assustou-se.
Quero afirmou que venha de dia. Ou, vá lá, antes das nove. Não o expulso. Expulso-o, sim, do nosso horário noturno.
António suspirou:
Pode… ficar sentido.
Eu já estou Maria respondeu baixo. com os dois. Um ano de está tudo bem são cem microderrotas perante hábitos dos outros.
Dizer em voz alta tornou tudo cristalino.
Está bem, hoje tentámos António anuiu. Eu não te deixo sozinha.
***
Quando viu a caixinha da película nas mãos de Joaquim, percebeu a ironia: Festas familiares 1979 a marcador. Joaquim depôs a caixa na mesa com orgulho.
Vejam bem! Isto é vida!
Podemos primeiro conversar? sugeriu Maria, de olhos nos olhos.
Conversar porquê? Joaquim surpreendeu-se. Alegria primeiro, tristezas depois.
Um olhar a António: este assentiu, força.
Maria pôs-lhe uma chávena à frente, sentou-se e sentiu o peito forte.
Senhor Joaquim iniciou , ficamos felizes com os achados. Conte connosco sempre. Mas precisamos falar.
Falar… de quê? A noite já é séria, filha.
Sobre noites. As suas e as nossas.
Joaquim franziu o cenho.
Eu escuto fingiu tranquilidade.
Vem cá quase sempre tarde. Para si é recordar a alegria. Para nós… é sono. António trabalha, eu também. Catarina tem de ir para a creche. Ficamos de rastos…
O sogro perdeu o sorriso.
Estou a incomodar-vos?
António interceptou:
Estás, pá. Mas não és tu, é a hora! A Maria já não aguenta e a Catarina também.
Maria assentiu:
Tenho medo de qualquer toque depois das dez. O coração foge-me. Nem descanso. E a Catarina… diz que sonha todos os dias contigo a bater. Puxador a escaldar.
O velho olhou-os, a caixa, as mãos:
Achava que… era só um bocado como nos velhos tempos. Com a Lena, chá, portas sempre abertas. Dizíamos: Se alguém vem à noite é porque precisa mesmo.
Mas nós precisamos tanto de dormir disse Maria, suave , como os outros precisam de chá. Não é por não gostarmos de si. É por nós.
Silêncio.
Ele olhou para as mãos, tremiam-lhe.
Então… não querem que venha?
Queremos! Maria apressou-se . Mas de dia. Até às dez da noite. Ligue, avise. Preparamos chá, bolachas, tudo.
António completou:
Assim, sim, em condições. Não quando já estamos caídos.
Seguiram-se longos segundos. Até que Joaquim murmurou, já pequeno:
Pensei… que não fazia mal. Se eu não durmo, os outros também não…
Maria sentiu um alívio. Não era má fé da parte dele ficou sem noção do tempo quando a vida parou à noite do último adeus à Lena.
Então combinamos sugeriu. Vemos a película sábado à tarde. Juntamos todos, chá, bolachas, como se fosse de novo o Ano Novo de 1979.
Joaquim olhou a caixa, depois para ela.
E se uma destas noites… começou, não acabou.
Se for urgente, ligue assegurou Maria. Se for só chá, tente guardar para o dia.
António assentiu:
É que agora… nem sei ouvir, pai. Quero conversar para valer.
Joaquim, de repente mais velho, sorriu triste.
Tolo, sou. Julgava que dez minutos não pesavam.
Já somam um ano inteiro rematou Maria.
Ele concordou.
Está bem… Sábado, então. Agora, vou andando.
Eu acompanho-o disse Maria.
No átrio, demorou a pôr o casaco, a adiar o adeus.
Marianinha, se eu ligar tarde…
Penso que está mal admitiu ela. Mas não vou abrir sempre. Também sou humana.
Ele assentiu. Nos olhos um respeito novo.
***
Sábado chegou. Na sala, um projetor antigo (milagre encontrado por conhecidos de António), cortinas corridas e lençol branco espetado à parede.
Joaquim, a um passo do ecrã, agarrava a película como quem guarda as próprias memórias. Catarina aninhada no colo da mãe, com peluche na mão. António, suando, a tentar domar os cabos.
Finalmente, apaga-se a luz, feixe de imagem a tremeluzir. Na parede, figuras baças: mulher nova num vestido colorido, riso largo, Joaquim jovem, muito cabelo, braços à volta dela. O pequeno António, roliço e ingénuo.
Ceia de Ano Novo: tangerinas, sardinhas em lata, luzinhas. Em dado momento, a câmara apanha uma cartolina presa à porta: Nesta casa, portas sempre abertas. Até de noite. Para os nossos.
Maria sentiu um baque. A mensagem era para dentro.
Joaquim chorou, baixinho, de modo que mal se notava.
A pequena Catarina adormeceu tranquila no colo da mãe.
O projetor zumbia. Viam-se a Lena a arrumar pratos, Joaquim a dar-lhe um beijo na face, António miúdo a rodopiar em volta da árvore.
Maria entendeu. As visitas do sogro eram menos hábito, mais desespero de não perder o tempo em que a casa vivia de portas abertas de riso, não de concessão.
***
A película chegou ao fim, a sala dormia naquele silêncio morno. Catarina aninhava-se, a mãe embalando.
Joaquim limpou a cara, suspirando:
Desculpem-me. Acreditei que fazia bem. Se vinha de noite… não ficava sozinho.
Maria disse baixo:
Não está. Nem precisa de chegar à noite. As portas ficam abertas… mas em são juízo.
Uns dias depois, Maria foi ao Continente. Comprou não só as bolachas de sempre mas um termo elegante, prata e preto: Mantém quente por 8 horas, prometia.
Em casa, embalou tudo, pôs um chaveiro pequeno.
Escreveu: Senhor Joaquim, as portas desta casa estão sempre abertas de manhã, sobretudo. Aqui vai um termo para trazer calor e um chaveiro para entrar de dia, quando é mesmo bem-vindo. Só pedimos: avise. Gostamos de si. Maria, António e Catarina.
Ligou ao sogro, pela primeira vez de sua iniciativa, de dia.
Senhor Joaquim, amanhã há chá. Matinal. Venha quando quiser até ao meio-dia.
Ele riu, mas o riso desta vez era leve.
Agora tenho convite formal? atirou.
É nova tradição respondeu Maria. Sem turnos noturnos.
No dia seguinte, Joaquim apareceu às dez em ponto. Ligou antes: Já estou a caminho, estejam prontos. Chegou de camisa lavada, ramalhete de margaridas na mão.
Para ti, Marianinha envergonhado. Pela paciência.
E um urso de peluche, de pijama e touca.
Para a nossa Catarina explicou. Guarda-noite, para contar histórias em sonhos, não bater à porta.
Maria sorriu; genuíno, desta vez.
Entre, que o chá está à espera.
Na cozinha, o sol desenhava figuras na mesa. O chá era quente, a bolacha crocante, Catarina radiante de peluche nos braços. António falava com o pai do último projeto, e o outro respondia com uma anedota de comboios noturnos trocados.
Era o mesmo Joaquim, as mesmas histórias. Só o horário tinha mudado. Manhã, não noite. Visita de verdade, não invasão.
À noite, ao deitar Catarina, Maria ouviu:
Mamã, hoje o avô não veio ao sono.
E gostaste?
Fiquei bem pensou ela. Dormi mesmo. E de manhã ele era de verdade.
Maria sorriu no escuro.
Que assim seja murmurou.
Quando o relógio marcou 1:15, a casa estava tranquila. Não tocou a campainha. Pela primeira vez em muito tempo, Maria acordou porque descansou não pelo hábito de alguém.
Descobriu que se pode ter limites sem gritar, sem medo, só dizendo. E não foi o fim do mundo. O sogro não sumiu. Limitou-se a respeitar o relógio deles.
Uma pequena-grande vitória para todos em casa.






