O pai sonhava com um filho, mas nasceu uma “filha inútil”, que ele apagou do coração

A notícia de que tinha nascido uma filha chegou a Joaquim Mendes numa tarde cinzenta no escritório dos armazéns de madeira, mesmo no dia do pagamento. Os homens já se dispersavam, chocalhando os baldes vazios de azeite enquanto o Joaquim permanecia parado junto ao portão, com as notas de escudo amarrotadas na mão.

Ó vida madrasta murmurou Joaquim entre dentes, cuspindo para o chão serrado. Pedi-te um rapaz, mulher. Tinhas logo de me empurrar uma rapariga.

Por dentro, tudo lhe fervia, sentia-se traído por Maria da Graça, sua esposa. O desgosto era tanto que lhe faltou ânimo para voltar à casa envelhecida e silenciosa, onde nem sequer um pio feminino se ouviria agora. Enquanto a Graça lutava com a recém-nascida no hospital da vila, o Joaquim enfiou as poucas roupas num saco de serapilheira, um pão duro de centeio, e partiu para a casa da mãe à outra banda do rio Tejo, numa aldeia perdida a vinte quilómetros da sua terra.

Maria da Graça, abraçada ao seu primeiro rebento, voltou para a casa que já lhe era estranha duas semanas depois do parto. Entrou, reparou no asseio da sala (notava-se que Joaquim tentara deixar as coisas em ordem), pousou o embrulho de mantas na cama e sentou-se, com a cabeça nas mãos. Os ombros estremeciam em soluços mudos. A menina, uma coisinha pequena com uma covinha engraçada na nuca, dormia, às vezes estalando os lábios. Graça fitou-a com amargura: “Ninguém imaginava, filha que virias ao mundo para nos separar.”

O Joaquim era homem de braço largo, maxilar bem marcado e feitio de quem manda, tipicamente chamado de teimoso lá na aldeia. Exigia respeito e queria um herdeiro varão consigo, alguém para levar o nome adiante. Ele, que sempre fora o mais novo após duas irmãs, achava que era sobre ele que assentava o peso do clã Mendes. Mas eis que lhe calhava uma rapariga. Peso morto, pensou.

A mãe de Joaquim ainda tentou ir falar-lhe, demovê-lo daquele orgulho, mas ele mantinha-se firme: “Enquanto a miúda não for para longe, eu não volto.” Aquelas vinte léguas converteram-se num abismo para a Maria da Graça.

Recuperada, Graça arregaçou as mangas. Naqueles idos de cinquenta e sete, pouco se falava de licença de parto; era preciso cuidar da pequena quinta, ordenhar as cabras, ir à fábrica de cortiça da vila. Em segredo, a tentar derreter o coração do marido, batizou a filha de Mafalda nome bastante português, de rainhas fortes com esperança de um nome firme suavizar o desdém do pai. A menina era de saúde invejável, tranquila, raramente com birras. Aos seis meses já se agarrava às grades do berço; com pouco mais de um ano, não largava o cavalo de pau que o vizinho lhe esculpiu. Começou cedo a falar e andar, e não havia cão ou galinha que lhe escapasse.

Na creche, a Mafaldinha tornava-se líder. Esperta e forte, nenhum rapazinho da idade lhe fazia frente. Com três anos já acalmava rebeldes de cinco e defendia o seu balde de areia. Não ia para o colo de qualquer um, dava ordens às vaquinhas da vizinhança coragem tinha para dar e vender.

Enquanto isso, o Joaquim encontrou consolo numa viúva, Leonor Batista, já mãe de dois. A princípio, era apenas solidão, mas a Leonor, mulher matreira e calorosa, colou-se-lhe ao lado. Patchá-lhe filhos prometeu, se ele ficasse.

Dou-te um rapaz, Joaquim, o melhor do mundo, sussurrava-lhe.

Vê lá isso, Leonor. Quero é filho, resmungava ele, já sem a dureza inicial.

Mas anos passavam e nada. Os rumores chegavam-lhe aos ouvidos: a filha crescia a fazer-se rapagão, valente e justa, com três anos mais aguerrida que muitos rapazes. A mãe não desistiu: “Vai lá ver a pequena, Joaquim. O sangue puxa.” Só que descobriu em casa da Leonor uns feixes de folhas secas e rezas escondidas. Desconfiou de feitiçaria, terminado a aventura.

Assim, quatro anos depois, Joaquim regressou a casa. Encontrou Mafalda, magrinha e despenteada, calcando o soalho arranhado da sala com um olhar firme, desconfiado. Para o rebuçado que tirou do bolso, ela não se mexeu.

Olha-me esta mosca morta a fitar-me, resmungou Joaquim, desconfortável debaixo do olhar da filha. Ena, andas a ensinar-lhe modos?

Graça, radiante de alívio, ergueu as mãos:

Nem penses nisso, homem! Só falava de ti com carinho. Rezei sempre pelo teu regresso, somos família.

Apesar de tudo o amava. Mesmo rijo, Joaquim não cansava de se amuar, por vezes irrompendo em fúria ou, nervoso, ameaçando a mulher. Mafalda, com cinco anos, já percebia o vento. Se o pai franzia o sobrolho, ela encolhia-se, trinava:

Mau feitio tens tu! Vou já contar ao senhor guarda!

Certa vez, Joaquim tentou castigá-la com um varapau, mas ela aguentou como uma rocha, sem uma lágrima. No dia seguinte, Mafalda cumpriu: levou à porta o polícia da aldeia.

Maria da Graça, sem palavras perante a firmeza da filha, desculpou-se perante o agente:

Sr. António, é só para a educar, nada demais O Joaquim nunca falha no trabalho, sempre trouxe pão para casa

O agente, de farda azul e bigodes cuidados, coçou a cabeça:

Cuidado, D. Graça. Isto pode chegar aos serviços da vila Fica o aviso, mas não abusem.

Daí em diante, Joaquim pisava em ovos quanto à filha mais velha. Não que lhe tivesse medo, mas passou a medir as palavras.

Quando Graça ficou novamente grávida e nasceu um rapazinho, Manuel, foi a filha quem se ocupou logo do irmão: tratou das fraldas, dava o biberão, levava-o às costas enquanto a mãe trabalhava. Joaquim ficou satisfeito, mas feliz à sua maneira ranzinza, sem grandes festejos.

Mafalda, com sete anos, enfrentava o pai:

Senhor guarda, o meu pai volta a bater!

Joaquim enfurecia-se, mas Mafalda escapava-lhe sempre. Um dia, pegou no cinto para a assustar, mas ela, firme, ameaça-o de volta com o atiçador da lareira.

Só se me tocas! Se me tocas, apanhas!

Ao fim do dia, Graça chorava baixinho:

Vai, Mafalda, foge. Eu cá me arranjo.

Mafalda insistia:

Deixa-o. Se continua, eu trato dele.

Pouco depois, nasceu uma segunda filha Inês. Joaquim nem quis saber. A lida com a pequena coube, mais uma vez, a Mafalda. Auxiliava na escola, arrumava, cozinhava quando a mãe se atrasava.

Até ao oitavo ano, Mafalda manteve o seu papel de pilar silencioso. Ao terminar, anunciou:

Mãe, vou para Lisboa estudar.

Joaquim espumou:

Comerás o quê? Agora vais pendurar-te ao nosso pescoço?

Aos quinze, Mafalda era robusta, mas ágil, conhecida por todos por ninguém lhe fazer frente. O professor de ginástica dizia-lhe:

Mafalda, devias era praticar judo.

Ela ria-se. Ao pai olhou nos olhos, determinada:

Vou, sim, estudar. Não penses que peço dinheiro. Olha pelos pequenos!

Com o cinto ameaçador na mão, Joaquim viu-a pegar no atiçador. Percebeu que a filha já não era criança, que não havia volta atrás. Graça aconselhava:

Vai, filha. A mãe cá se arranjará.

Tu é que devias era deixá-lo, mãe. Até quando vais viver assim?

Estas ideias modernas Onde as aprendes?

Nas lições de história.

Deviam ensinar era a viver em paz com os pais

Não me peças para calar, mãe. Desta vez, não volto.

Quando Mafalda partiu para a capital, Graça, à socapa, escondeu-lhe uns escudos amarrotados na mão:

Para começares, filha. Guarda-os bem, trabalhei muito por eles.

Em Lisboa, Mafalda sentiu-se engolida por buzinas e cheiro a gasolina. Entrou no Instituto Técnico quase sem pensar, o gosto pelas oficinas e pela mecânica impelia-a. As notas, fruto da sua disciplina, trouxeram vaga no lar.

Lá arranjou amizade com Rita, sua colega, de cabelo castanho encaracolado e risos fáceis, que só queria casar-se bem. Mafalda, sempre pragmática, respondia:

Eu cá vim para aprender. Tenho de me desenrascar.

Arranjou emprego a limpar escritórios numa metalúrgica. O dinheiro mal dava para as necessidades, mas nunca pediu à mãe. Rita suspirava:

Como consegues puxar tanto, Mafalda? Escola, trabalho, ainda me ajudas nos trabalhos

O professor de Hidráulica, António Conceição, marcou-a no terceiro ano. Rapaz novo, magro, de óculos e fala baixa, era gozado por quase todos. Mafalda, vendo a aula ser sabotada, levantou-se:

Chega! Aqui há quem precisa do diploma. Ou calam-se, ou saem já!

Silêncio na aula. O respeito que inspirava era notório. António Conceição olhou-a com espanto e gratidão.

Com o tempo, Mafalda notava o olhar calmo e sábio do professor e sentia-se estranhamente tocada. Também ele, António, guardava aquela jovem de feições resolutas na memória.

À aldeia, Mafalda só voltava nos grandes feriados ou para as colheitas. Os irmãos cresciam: Manuel, já a terminar o liceu, e Inês, adolescente, de feitio calmo como a mãe. Joaquim rareava os atritos, a relação com Mafalda era fria, mas ela, sempre que pediam, ajudava.

Eh lá, já és da cidade dizia Joaquim, desconfiado.

Ainda te conheço, pai. Não sejas tolo.

No quarto ano, Rita casou com o rapaz rico do curso, festa ruidosa, Mafalda de lado, a refletir: “E eu, o que terei? Só trabalho? Terei filha, talvez, mas pai, não. Mais vale só do que mal acompanhada, como a mãe.”

O destino, contudo, trouxe-lhe um encontro inesperado. Rui Matos, colega de curso, alto, calmo, trabalhador da Moagem, começou a cortejá-la. Ao início, quase o não viu. Depois de uma dança empurrada pela Rita, começaram a sair. Com ele não havia discussões, nem álcool, nem tabaco só uma segurança tranquila. Três meses depois, pediu-a em casamento. Mafalda perguntou:

Não me largas como o meu pai?

Jamais, prometeu Rui.

Casaram discretamente, logo após os diplomas, Rita a testemunha. Foram viver para um pequenino apartamento dado pela empresa. Um ano depois nasceu Margarida.

Mas a serenidade não duraria. Assim que nasceu a filha, Rui tornou-se distante, apático. O trabalho pesava, o desleixo tomava conta dele, arranjando sempre desculpa para não estar em casa nem contribuir. Mafalda insistiu:

Assim não, Rui. Ou mudas, ou seguimos cada um o seu caminho.

Ele, embriagado, riu-se:

Vais para onde? Com uma criança?

No dia seguinte, Mafalda meteu os papéis para o divórcio.

Rita ficou estarrecida:

E sozinha, Mafalda? Com uma bebé?

Mas Mafalda nunca se deixou abater. Arranjou trabalho fixo na fábrica, inscreveu Margarida no infantário. O irmão Manuel veio estudar para Lisboa e ficou a viver com ela, impressionado pela força da irmã.

Nunca cansas? perguntava-lhe.

Se não puxar eu, quem puxa? respondia.

Entretanto, Rita divorciou-se. Lamentava:

Tinhas razão. Fiabilidade não é dinheiro. Era preciso era coração. Olha que o professor Conceição agora está solteiro

Surpreendida, Mafalda não respondeu, mas o nome fincou-se-lhe na memória. E logo o reencontro aconteceu por acaso numa pastelaria, num fim de tarde de Outono. António estava encostado a um livro, grisalho e cansado, mas com aquele mesmo olhar gentil.

Mafalda?

Professor sorriu, surpreendida.

Ora, chama-me António. Posso sentar-me?

Conversaram como velhos conhecidos, confidenciando vidas, feridas e esperanças. Ele construiu uma casa nos arredores de Lisboa, sozinho. Ela confiou-lhe o seu percurso de lutas.

Convidou-a a visitar-lhe a casa em construção um sítio simples, ainda por terminar, mas arrumado e já com cheiro de lar. Ao beberem chá, foram interrompidos por dois estranhos que, a pretexto de comprarem sucata, afinal vinham roubar cobre. António pediu-lhe para se esconder, mas Mafalda agarrou logo no machado junto à lareira e saiu porta fora, firme:

Mexam-se daqui! Não vou repetir!

Os homens, apanhados de surpresa pela ousadia, fugiram. António, envergonhado, olhou-a espantado. Mafalda devolveu-lhe o machado, tranquila:

Não deixava ninguém magoar um dos meus.

Daquele dia em diante, entre eles, não ficou espaço para reservas. António pediu-a em casamento poucas semanas depois, sem promessas vãs:

A casa ainda é de cimento, a carteira não enche muito, mas amar-te a ti e à Margarida, isso prometo.

Mafalda aceitou, com lágrimas nos olhos, emocionada como nunca.

A boda foi pequena, de família. Joaquim, convencido pela insistência de Maria da Graça, lá compareceu, nervoso. António brindou ao sogro:

Obrigado pela filha.

Joaquim, num dos seus raros lampejos de ternura, respondeu:

Cuida dela. Tem o coração da mãe, mas feitio do Mendes.

À saída, Maria da Graça chorava de alegria. Tantos anos de sofrimento e, ali, a filha era agora dona de si e do seu caminho.

A vida seguiu. António terminou a casa: dois andares, varandas cobertas de vinha, um jardim plantado por Mafalda. Margarida já sonhava com a faculdade de Medicina, Manuel casara e conduzia autocarros, Inês era mãe de gémeos, Joaquim e Graça visitavam-nos com frequência, sentando-se no alpendre a beber chá e recordar tempos antigos.

Numa dessas tardes, já com o verão a dar lugar ao outono, estavam Mafalda, António e Margarida sentados a ver o sol desaparecer atrás do Tejo.

Mãe, és feliz? perguntou Margarida.

Mafalda olhou para todos, sentiu um calor a florescer-lhe no peito. Recordou tudo: os silêncios, os empurrões, o sacrifício.

Sou, filha. Muito.

António abraçou-a, dizendo baixinho:

Também sou.

Margarida correu pelo jardim. Eles ficaram ali, ao som do vento brando nas folhas da vinha, certos de que, apesar de tudo, a vida acabara por lhes sorrir. O dia findava com promessas de outros assim, e Mafalda sentiu finalmente que estava em casa, no seu lugar no mundo.

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O pai sonhava com um filho, mas nasceu uma “filha inútil”, que ele apagou do coração