O nosso único filho, para nosso espanto, anunciou que queria casar-seele tinha apenas 22 anos. Contudo, eu e o meu marido decidimos não contrariar, pois também nos casámos muito jovens. O meu marido mal tinha feito 22, e eu só 19. Portanto, talvez fosse o destino. E a noiva agradava-nos muito: a Matilde estudava com o nosso filho na mesma turma na universidade. Quando percebemos que não voltaria atrás, começámos os preparativos para a cerimónia. Sendo o Afonso o nosso único filho, achámos por bem oferecer-lhe um casamento digno.
Como ditava a tradição, preparámo-nos para visitar os pais da Matilde, a nossa futura nora. Pouco sabíamos dela, apenas a tínhamos visto umas poucas vezes com o nosso filho. Ela contara-nos que vivia com a mãe numa aldeia não muito longe de Lisboa. Por isso, lá fomos nós pedir a sua mão. Informámos a futura comadre da nossa visita com antecedência, como manda o respeito.
O meu marido comprou flores, eu preparei um bolo e partimos para conhecer a família. Chegados lá, ficámos logo impressionados com a limpeza e o cuidado do quintal.
A própria casa, embora antiga, estava impecável e acolhedora. Fomos recebidos à porta pela nossa futura comadre, Dona Rosa. Logo simpatizámos com ela: uma mulher bonita e afável. Rosa convidou-nos para a mesa. Havia um verdadeiro banquete, notava-se que tudo fora preparado com carinho. A conversa correu bem, Rosa revelou-se uma excelente anfitriã, contudo nada ficou decidido acerca do casamento. O motivo era claro: a comadre rapidamente nos confessou não ter dinheiro para organizar uma festa. Após essas palavras, notava-se o embaraço da Matilde. O nosso Afonso também ficou visivelmente abatido com a situação. Ele não desejava o casamento tanto para si, mas porque sabia o quanto a Matilde sonhava com isso. Eu e o meu marido, então, resolvemos não desistir. Prometemos ao nosso filho que pagaríamos tudo do nosso próprio bolsoo futuro a Deus pertencia.
Para tranquilizar a comadre, dissemos-lhe que podia convidar alguns convidados de sua lista, pois ninguém compareceria de mãos vazias. O que trouxessem em envelopes, ajudaria a custear os seus lugares no restaurante. Hesitante, Rosa acabou por ceder, e aceitou apoiar os filhos.
Na quarta-feira, quase em vésperas do casamento, alguém tocou à porta. Era a comadre. Ficámos surpreendidos com a visita, convidámo-la para um chá. Rosa demorou a começar a falar, até que retirou da bolsa um envelope brancolá dentro, dinheiro. Sentia-se tão desconfortável com a nossa generosidade que fora ao banco pedir aquele valor emprestado. Pedimos-lhe que devolvesse o dinheiro ao banco, pois não queríamos sobrecarregá-la com dívidas, lembrando que já vivia com simplicidade com a filha. Rosa, porém, recusou firmementetinha tomado a decisão e não voltaria atrás. O casamento correu lindamente.
Os jovens estavam radiantes. E, durante a cerimónia, Rosa voltou a surpreender-nos: percebemos que além de sensata, era uma mulher encantadora. Tinha apenas 45 anos, estava separada há muito tempo e criara a filha sozinha. Ao vê-la no casamentopenteado novo, maquilhagem e um vestido eleganteparecia outra mulher. Toda a gente reparou, até o irmão mais novo do meu marido, o António. António, com 46 anos, divorciado, vivia e trabalhava em França há década. Veio de propósito ao casamento do sobrinho. Passou a noite a olhar para a Rosa e, depois da festa, anunciou que iria prolongar a estada em Portugal. Logo percebi o motivo
No domingo seguinte estávamos outra vez na aldeia, a pedir agora a mão da comadre. Entre o António e a Rosa tudo correu pelo melhor. Casaram-se e, passados poucos meses, o meu cunhado levou a esposa para França. Assim, a minha comadre tornou-se também minha cunhada. É uma pessoa extraordinária e merece toda a felicidade do mundo.






