O Mistério do Duende da Casa Portuguesa

10 de outubro

– Martim, foste tu que arrumaste o pátio? perguntei, dando um toque no ombro do meu filho.

Ele estremeceu, tirou os auscultadores e ficou a olhar para os monstros a lutar no ecrã do computador, mas já não parecia interessar-se no jogo.

– O quê, mãe?

– Se chegaste há muito da escola.

– Só agora.

– Então quem arrumou o pátio?

– Eu sei lá Talvez a Carminda?

Sorri. A minha filha de três anos era desenrascada, sim, mas milagres desses ainda não conseguia.

– Achas graça!

– Então foi o duende da casa!

– Ah, pois foi! És cá um brincalhão! Vai antes ligar à avó e traz a Carminda para casa. Ela já se deve ter entretido por lá. Eu preparo o jantar. Tens fome?

– Pois tenho! Comi um bolo com os amigos na cantina, mas foi logo de manhã. Mãe, quando é que mudam as turmas para a manhã?

– Ainda não disseram nada. A escola está sobrelotada.

– Olha, ao menos de manhã posso dormir. Martim, como sempre, tentava ver o lado bom das coisas.

Dei-lhe um beijo no cabelo, puxei-lhe a orelha quando tentou desviar-se, e fui para a cozinha.

Adolescentes

Treze anos. Já pensa que é adulto, mas Cada vez que o beijo, fica sem jeito, tal como o pai dele ficava. Os meus filhos são tão diferentes. O Martim, alto, olhos azuis e cabelo escuro, é o retrato do António não só de cara, é certo. Já lhe vou adivinhando o feitio: teimoso, responsável, bom coração Aquela arrumação no pátio não foi ele, mas a loiça lavada e o chão da cozinha ainda húmido, esses foram. Onde se arranja um ajudante assim? Só quando a Carminda for maior.

A Carminda é o meu milagre. Esperei quase dez anos. Problemas a seguir ao meu primeiro parto quase me tiraram a esperança. Mesmo assim, aquela gota de esperança bastou para que nascesse a nossa filha, luz da minha vida. Tão loira como a camomila no campo, com caracóis de linho e olhos azuis como os do irmão. Ela puxou à mãe, ao contrário do Martim. Um docinho, sempre a querer colo, do meu lado ou do irmão.

– Carminda, que foi?

E a sala enche-se de luz com o sorriso dela. Só ela sorri assim, tenho a certeza.

Esse sorriso alegra-me e, ao mesmo tempo, magoa no fundo da alma. Porque é o sorriso do pai. O sorriso do António E ele já cá não está.

Custa tanto Mas não posso ceder, não com eles por perto.

O António era bombeiro. Salvava vidas, combatia incêndios. Salvou aquela família toda Voltou para ir buscar a avó deles; ela recusou sair, ficou atrás dos animais e depois foi tarde. Uma prisão de fogo.

Soube antes de toda a gente da notícia. O coração apertou, deu aquele pressentimento mau, larguei a Carminda berrar descontentíssima, pedi à minha sogra, Maria Alice que veio ajudar com a pequena para ficar com ela:

– Mãe, fique com ela! Preciso mesmo de fazer uma chamada!

E fui, disparada de carro, à corporação dos bombeiros do concelho vizinho, onde o António estava colocado. Nem senti a camisola colada ao peito de leite, as mãos trémulas.

Não sei como sobrevivi àquele abismo. Como não caí.

Os miúdos salvaram-me. O Martim não me largava.

– Martim, vamos, é hora de dormir! Maria Alice mal se aguentava nas pernas, mas não me deixava. Obrigava-me a comer, levava-me a Carminda para mamar.

– Quero ficar com a mãe! Martim abanava a cabeça, com a minha mão encostada à cara Avó, porque tem a mãe as mãos tão frias?

Essa fase está nublada na minha memória. Lembro-me assim, por flashes. E do que foi arrumar as coisas, a meter brinquedos à pressa num saco.

– Não aguento mais ficar aqui Parece que o António vai entrar de rompante: Cheguei!

– Fazes bem, Olívia! Vem para minha casa. Ficam lá, depois logo se vê.

– Não quero Desculpe, mãe. Lá em sua casa também tudo me lembra dele. Vou para a casa da avó.

– Mas Olívia, está desabitada há anos! Vais sozinha com as crianças?!

– Não faz mal. Trato de tudo. E está tão perto, ficamos por perto da mãe. Isso sem a minha mãe não valia nada.

– Claro, filha. Só me têm a mim.

– Não, mãe Não aguento mais Senão fico de rastos! Tome conta da Carminda, que eu termino de arrumar. E o Martim precisa comer. Ele já nem come. Só senta comigo à mesa e eu não consigo.

– Isso não pode ser! a Maria Alice mudava logo o tom quando era preciso Olívia, és mãe! Se não cuidas de ti, o que será deles? Eu já não aguento tanto, a idade pesa. Tens de te poupar!

Agarrei-lhe nas mãos, dei-lhe um beijo rápido e recomecei a empacotar. O que importava era sair dali, fugir. Aquela felicidade já não voltava àquele apartamento, e ver aquelas memórias era insuportável.

A casa da avó recebeu-me de braços cruzados. Tinha razão. Tantos anos fora, nunca lá ia. Quem se afasta acaba esquecido.

Fui de divisão em divisão, passei os dedos pelas paredes, limpei o pó da cómoda coberta com a renda feita pela avó, abri as janelas ao cheiro do outono.

– Mãe, leve os miúdos. Eu cá me desenrasco.

– Consegues mesmo sozinha?

– Claro

Sozinha não fiquei. Meia hora depois, ouvi a porta e lá estava a Zenaide, minha amiga de infância e colega de escola.

– Olha a vaidosa! Nem avisas! Onde estão os panos?

A Zenaide sempre foi desenvencilhada. Uma tagarela, mas sempre pronta a ajudar os seus.

Lavei as mãos enfarinhadas de sabão e abracei-a, desajeitada.

– Olá

– Então, e as crianças?

– Com a mãe.

– Pronto, então toca a mexer-te! Ou vais dormir lá hoje?

– Quero mesmo ficar aqui.

– Então bora lá!

Agarrou o alguidar com água e começou.

– Zenaide! olhei-a, surpresa.

– O quê? Ah, isto? Pois é, que se há de fazer

– Quando?

– Em fevereiro. E não olhes para mim assim! Grávida, não doente.

– De quem?

– Como se não soubesses! e lá se pôs a limpar o parapeito Que nojo, menina!

– O Graciano? Mas ele…

– Emigrou, pois. Mãe solteira, cá vou eu. Olívia, depois conto tudo. Agora não.

– Ele volta?

– O Graciano? Não. Liberdade era mais importante. Azar, é a vida, mas vou ter um filho, Olívia Ou filha

– Ainda não sabes?

– Não, esconde-se. Que importa? Vai ser meu, Olívia. Ouve meu filho!

Sei bem o que tais palavras significam para ela. O primeiro marido da Zenaide deixou-a porque diziam que não podia ter filhos. Culparam-na, a família dele toda. Chatearam-na, diziam que não prestava. Depois divorciou-se.

Mais vale nenhum marido do que um assim, dizia ela.

O ex dela rapidamente casou de novo e afinal era dele o problema. A segunda esposa não carregou culpas, exigiu exames, o homem tratou-se e acabaram por ter filhos, um rapaz e uma rapariga.

A Zenaide ficou feliz por eles. Já tinha perdoado tudo, e se não tivesse passado pelo que passou, não teria o filho que agora esperava e tanto desejava.

Ficámos a limpar até ao anoitecer, mas valeu a pena. A casa parecia ter acordado de um sono comprido, com as portadas velhas a piscar, e os móveis a estremecer com o ar fresco.

A Zenaide sentou-se à mesa, de chá na mão, pensativa.

Como o tempo voa, pensei eu

Custa a acreditar que há uns anos corríamos para aqui buscar bolos acabados de sair do forno e fugíamos para o rio ao grito da minha avó:

– Malucas! Não querem comer como gente?!

E nós: É só uma horinha!

Claro que a tal horinha era até ao pôr do sol. Depois, já com a noite a cair, íamos ajudar a avó na horta. Tinha de ser: ainda ajudava o filho na cidade, cuidava de tudo sozinha, além da ordenha na vacaria.

Criei-a sozinha, dizia ela. A minha mãe faleceu no parto fui logo deixada. O meu pai, incapaz de olhar para mim, fugiu para o Porto, e a minha avó é que me acolheu. Quando nasceu outro neto, a avó levou-me para a cidade. Mas nunca se sentiu bem na confusão e acabámos por regressar.

A minha avó faleceu quando eu tinha dezoito anos, já eu começava a namorar o António. Estava tão deslumbrada que nem reparei nos sinais. Só acordei quando uma noite ouvi a avó a gemer.

– Ó avó, então?

Só nos restaram três meses juntas, tempo para dizermos as coisas essenciais, e mesmo assim, não chegou.

Mas foi nessa altura que a avó chamou a minha sogra, mesmo já acamada, e estiveram a conversar sozinhas. Não sei que lhe disse, mas desde então a Maria Alice olhou para mim como uma filha. Antes do casamento, já eu lhe chamava mãe.

– Posso? perguntei-lhe um dia, nervosa, e ela só acenou com a cabeça.

Nunca consegui desabafar a ninguém como fazia com a avó, mas com ela foi diferente.

Nunca discuti com a minha sogra. Só recebi dela ajuda, conselhos, e tudo sempre dito com carinho. E quantos têm uma sogra que é mãe de verdade? Poucos.

E aprendi na pele que família às vezes só o é de nome. Quando a avó morreu, fui invadida por parentes que nunca via. O meu pai veio, a madrasta e a mãe dela.

– Boa casa, bem feita. Dá para vender caro.

Quase vomitei ao ouvir isso. Andavam a inspecionar tudo, diziam mal do mato, exigiam que limpasse antes, que os compradores querem tudo arranjado.

– Que compradores?! Finalmente reagi, irritada.

Passei a semana anterior ao funeral no vazio, meia adormecida, a tentar perceber se tudo não passava de um pesadelo.

– Os que comprarem a casa! explicou a velha madrasta, e senti-me mal disposta, com a pele branca exposta pela alça do vestido de verão.

Fugi para trás do barracão. Quando voltei, a Maria Alice já estava lá.

– Desapareçam daqui. Já!

– E que autoridade tem a senhora aqui?

– A casa é da Olívia. Tenho procuração.

– Procuração?! Para quê?

– Normalíssima. E testamento na conta também. Tratei de tudo. E daqui não levam nada! Roubar uma órfã? Nem pensar!

Nada mais me afetava a guerra familiar passava-me ao lado. A Maria Alice levou-me para a cama, trocou-me a roupa e disse:

– Não chores! Ninguém te vai fazer mal, prometi à tua avó. Toma, veste o meu robe. E dorme. Eu faço-te chá. Descansas, conversamos depois.

O meu pai só o vi de novo no meu casamento. Nem convidei, mas apareceu.

Estava de rastos quando me tocou no ombro, enquanto todos se riam a ver o António a tentar enrolar um boneco.

– Olá, filha

Atordoada, nem respondi. Ele deu-me umas chaves para a mão.

– Desculpa! Os papéis ficam com a Maria Alice. Seja feliz.

E foi-se embora.

O apartamento que ele me ofereceu era pequeno, mas acolhedor. Duas divisões e uma cozinha boa. Hesitei em sair da casa da avó.

– Aqui fica-te mais fácil, Olívia. Cidade, mais oportunidades. Tens de estudar.

A Maria Alice, depois de ver tudo, sentou-se contente na cozinha. Ela convenceu o meu pai, explicou-lhe que era tempo de me ajudar. Não me criou, mas podia ter algum sentido de responsabilidade agora.

– Pois, mas quando? sorri-lhe.

– Ai não? O tempo ainda é curto. Nem disse ao António ainda.

– Eu ajudo. Vai para a universidade. Nem penses deixar a cabeça sem trabalho.

Entrei num polo universitário. Foi difícil, mas a Maria Alice ajudou em tudo, ficava com o Martim, trouxe mercearias.

Respirámos de alívio quando comecei a trabalhar e o Martim foi para a creche.

– Vamos ao mar! O António ria, depois de tapar os ouvidos ao ouvir os nossos gritos de emoção.

A única ida de férias a um algarve qualquer. Nadámos no mar, corremos na areia Vigiávamos o Martim, que fazia castelos sob o olhar atento da avó. De noite, passeios no paredão à luz das estrelas.

Numa dessas noites, o António ficou com o Martim, e eu fui passear com a Maria Alice ao longo do pontão.

Uma discussão entre um casal ao fundo. Gritavam, empurravam-se, atiravam culpas. Depois afastaram-se, continuando aos gritos.

A Maria Alice suspirou, a vê-los.

– Para quê, meu Deus? Não percebem que só estão a perder vida? Depois fazem as pazes, mas o tempo Já não volta. Tanta mágoa, para quê?

– E se não fizerem as pazes? perguntei-lhe.

– Porque assim só discutem quem se importa. Quando a alma dói Repara: ela foi a correr atrás dele, chorou. Zangam-se, mas perdoam-se. Ele também Olhaste bem? Olhou cinco vezes para trás no caminho. Mas aquela noite, já não volta. Amanhã pode ser tarde. Quando tiveres dúvidas, lembra-te destes dois: será que vale a pena perder tempo com zangas? O tempo voa, Olívia. Voa mesmo.

Agora dou graças a essa conversa. Nunca desperdicei o tempo com o António.

Ia tirar o bule do fogão e deixei-o quase cair: vi uma sombra no quintal. Não era o Martim. Um homem movia-se na penumbra.

Primeiro pensei trancar-me e chamar por socorro, mas rapidamente reagi. Daqui a pouco vinham os miúdos! E a Maria Alice. Não podia ser!

Segurei o bule pelo cabo de madeira; estava quente. Fui até à porta, determinada.

O quintal às escuras. Esqueci-me da luz.

– Quem está aí?!

A porta do barracão guinchou e encolhi-me. O medo a apertar o peito.

– O que quer?! Chamo a polícia!

Da sombra, alguém avançou para a varanda. Dei dois passos atrás.

– Não te assustes, Olívia. Sou eu, Alexandre.

Suspirei de alívio, baixei o bule e quase me queimei na perna, pelo vestido, com o calor. Coloquei o bule na mesa da varanda, resmungando baixinho.

– Que fazes aí, Alexandre? Por que não entraste?

O homem robusto à minha frente desviou o olhar, tal como o Martim quando partiu um vidro na escola.

– Olha Não te zangues. A porta do barracão estava torta, queria endireitar. Amanhã vou para as abelhas, e volto só não sei quando. Achei que devia arranjar antes.

– A porta? No barracão?

A conclusão veio: a limpeza do pátio, a vedação arranjada, o passadiço novo para o tanque. Tudo obra do meu duende.

– Ah, então és tu o meu duende! sorri-lhe.

– Eu?

– O duende cá de casa! Que arranja tudo, toma conta das coisas Só não bebe leite na tigela. O Martim diz que precisávamos de um gato, o duende anda só. Sentes-te sozinho?

No fraco luzir da janela, vi o Alexandre corar.

– Desculpa. Devia ter dito.

– Obrigada! Mas porquê, Alexandre?

Não respondeu, acenou com a mão e saltou a cerca, sem ligar à Maria Alice e aos miúdos, que já chegavam ao portão.

– Afinal sempre apareceu! Maria Alice sorriu, dando-me um frasco de leite. Põe isto no frio.

– Então sabia?!

– Claro! Já toda a aldeia sabe. Novidade! O Alexandre suspira por ti desde que namoravas o António. Nunca reparaste como te olhava?

– Não

– Não? a Maria Alice nem queria acreditar. A sério?

– Palavra de honra…

– Vem cá, vamos conversar! empurrou a Carminda pela mão, Mas primeiro damos de comer aos pequenos. Isto vai ser longo.

Ficámos a conversar até quase amanhecer. De vez em quando, deitava mais água quente na chavena dela, e ficava a ouvi-la.

– Apareceu-me aqui à cerca de um ano a pedir a minha bênção para te pedir em casamento. Como eu sou a tua maior família, achou que tinha de pedir licença a mim. Que convencido!

– E aceitou?!

– Porquê não? Olívia, és jovem. A vida está à tua frente! Os filhos crescem, um dia ficas sozinha comigo, velha cogumelo. Que sentido faz? Vive, aproveita! Sei que amaste o António não me digas nada agora! nem toda a gente tem uma paixão assim. Mas há sortudos a quem a vida oferece uma segunda oportunidade, mesmo depois da dor. Tens direito a ser feliz, nem que seja de outra maneira. Não significa esquecer o António. Só que, se sentires paz, estás certa. O Martim precisa de um homem na vida. Nós gostamos dele, mas não chega. O Alexandre já é quase família. Sabias que ele lhe está a ensinar a conduzir?

– Não…

– Não contou. Receia magoar-te.

– Porque havia de?

– Deves falar com o Martim, descansá-lo. Gosta do Alexandre, mas não quer parecer ingrato para o pai. A Carminda é pequena, não lembra bem o António. Para o Martim custa mais. Mas tu…

– Eu quê? corescer, olhos no chão.

– Nada! Maria Alice sorriu, puxou a chavena, Mais água, filha. Estou sequinha!

Um ano depois, casei-me com o Alexandre. Pouco tempo depois, nasceu mais um filho.

– Olha, mamã, que despenteado! ao tirar o gorro ao bebé, acaricio-lhe o cabelo loiro, comprido como o da Carminda.

– Isto é um verdadeiro duende! Maria Alice trocou a fralda e segurou-o no colo Olá, neto! Podes chamar-me avó Alice.

– Mãe

– É só para avisar! Vai lá dar-lhe mama, que eu vou preparar algo.

O grande gato laranja, oferta do padrasto ao Martim, espreitou pela porta, aproximou-se do berço e subiu para o parapeito. Ficou a observar a Olívia e o bebé ainda enrolado na manta. E a paz sentou-se no parapeito ao lado do gato, abraçou-o, admirando aquela cena. Aqui está: a felicidade. Tão frágil, tão delicada Precisa ser guardada com zelo e ternura.

Na cozinha, ouve-se uma colher a tilintar, o riso fresco da Carminda, e a paz escorrega do parapeito, dando uma festa na orelha do gato. Ele abana a cabeça, lambe o pêlo, preparando-se para dar as boas-vindas ao novo da família.

Anda, já! Aqui não falta quem proteja esta casa.

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