O Meu Segredo
Estender-me no chão gelado, com a neve firme porque ontem esteve mais quente e hoje é que voltou a gelar, até tinha certa graça. Por dentro, sentia-me a ferver: o sangue a latejar nas têmporas, o peito a doer, a boca seca como agosto no Alentejo, a cara a arder.
Meti um punhado de neve na boca, devagarinho, como quem acorda depois de um serão de Fados e vinho, os dentes mal se separavam. A frescura sabia-me bem, mas o sabor metálico estragava tudo. O sangue escorria das gengivas rebentadas, forçava-me a engolir, a tossir. Nem forças para me virar e cuspir.
A neve amortecia a dor dei graças aos céus por essa anestesia gratuita! Mas não a tirava toda: a dor recuava só um bocadinho, como o sol avermelhado a mergulhar atrás dos montes. Piscava os olhos, mas aquela luz, até doía olhar para ela.
Fechei-os com força. A bola enorme do sol via-se, agora desfocada, como uma gema de ovo cinzento-amarelada.
Fugir. Esconder-me em qualquer canto: uma vala, uma cova, enfiar-me ali, enroscar-me, tremer que nem cão vadio, só a tentar encontrar aconchego. Mas as pernas eram dois troncos, e só estremeciam em espasmos de vez em quando.
Tentei virar-me para o lado, apoiei-me no braço direito nada: caiu mole, uma fisgada aguda espetou-me no ombro.
Nada feito Então vamos tentar de outro jeito! resmunguei, já de dentes cerrados. O som da minha voz rouca deu-me arrepios.
Do lado esquerdo, parecia estar inteiro; consegui, com esforço, sentar-me meio encostado, mas a mão enterrou-se no monte de neve, e pronto, lá estava eu de novo a sentir o frio na pele.
Morrer. Era isso que devia acontecer ali e pronto. Depois, tudo acabava, e pouco me importava o que viesse a seguir. Meter-me no que não devia, ora aí está. Quem se mete por atalhos, tropeça culpa minha. Já não há salvação.
De manhã vão procurar o corpo, prometeram. Talvez os lobos sejam mais rápidos também têm direito à sorte. Assim, pelo menos, os meus inimigos ficam só com os ossos. Sempre dava para rir da cara deles.
Escureceu num instante. O sono pesava-me, ia-me afundando naquele breu, como cardume apanhado em rede. Até era agradável. Depois voltava a dor labaredas vermelhas diante dos olhos, a que se seguiam espasmos, músculos crispados, dentes a ranger. A raiva rebentava dentro de mim: inútil, desenxabida, vazia. Tal e qual um tipo que se atira de peito aberto ao touro, só para o assustar; não serve de arma, mas pelo menos baralha o adversário. Ainda me apetecia vingar-me. Mas eu não consigo bater em mulheres, é acima das minhas forças. Ficava tudo em águas de bacalhau.
O ódio fazia-me pensar. Cerebro a ranger, como velhas engrenagens a trabalhar à força.
E, lá do fundo do ventre, subia o medo. Aquele medo primitivo de morrer. Também me impedia de desmaiar de vez.
Ouvi lobos uivar do lado esquerdo, algures entre os pinheiros. Encolhi-me: «Nada feito, ó meus amigos! Não vou ser petisco fácil para ninguém! Todos uns lobos, vocês de quatro patas ou os outros de duas, mas os meus ossos não levam!»
Tinha de mexer-me. Para onde? Pouco interessava. De que maneira ainda menos. Mesmo rastejando, tinha de sair dali, daquele sítio de derrota total.
Mãe Custava pensar nela. Esperava-me, preocupada. Não lhe disse onde estava nunca vai saber como isto acaba. Ou talvez contem. Se calhar, até chora por minha causa. A culpa vai ser minha. O pai, esse, amaldiçoa-me e com razão!
As lágrimas gelavam-me na cara antes de caírem sobre o casaco todo rasgado.
Comecei a rastejar. Incoerente, apoiava-me como podia, arrastava as pernas, deixando marcas vermelhas no branco. Mas ia avançando, afastando-me daquele uivo faminto atrás de mim
Até que apaguei. Aquilo sim, soube-me bem. Um alívio, ausência total. Se fosse o inferno, até gostava. Queria ficar ali, quieto, para sempre. Demónios do inferno, levem-me! O corpo não presta mais, partido como está, levem-no vocês.
Mas nem no inferno me quiseram. Fui sacudido por uma luz amarela, estonteante, e algo gélido queimava-me a boca.
Então, rapaz? Tosse, homem! Lava a garganta e deita fora! alguém batia-me na cara. Áspero, com palmadas que só aumentavam a dor.
Uuuu gemi ofendido, virei a cara, cuspi sangue no manto branco ali ao lado.
Estás vivo, então? Vá, toca a pôr-te a caminho, que a minha casa fica já ali. Encosta-te aqui ao meu capote, eu trato do resto. Anda! Não consegues? Então vou eu mãos fortes pegaram em mim, deitaram-me sobre um capote de lã, que cheirava a carneiro e terra. Eh pá, que tareia te deram! Estava eu quieto, ouvi o barulho do carro. Vieram para aqui de propósito, tratam isto como se fosse cemitério. Gente sem juízo lamentava o desconhecido, ajeitando-me. Agora curo-te, depois logo se vê.
Nem sei o que murmurei sobre lobos e voltar ao perigo. O calor e o conforto inundaram-me, perdi os sentidos
És um encanto, tão querido! ria-se Leonor, deixando-me beijar-lhe os ombros redondos. És um bezerro, não és? apertou-me as bochechas, colou a boca à minha, parou ali, a sentir o meu hálito quente. Depois empurrou-me, saltou da cama, vestiu o roupão, apertou o cinto à pressa. Vai-te embora. Está na hora.
Leonor estiquei-me, tranquilo, nos lençóis estaladiços de amido. Ainda é cedo, olha as horas! Já me estás a pôr na rua
Ficava muitas vezes em casa da Leonor: jantava comigo, mandava-me para o banho enquanto preparava as camas, deixava tudo pronto e limpinho, apagava a luz e esperava por mim. As noites passavam num instante. Vinha da tropa, esfomeado de mulher, e o duche era logo passagem direta para o paraíso. Leonor era linda, generosa, bem melhor que aquelas miúdas que me lançavam olhares nos cafés
Via-a vestir-se, pôr meias nas pernas alvas, trocar de roupa atrás do biombo.
No espelho via tudo: Leonor radiante, uma estrela, viva e desejada.
Já disse: rua! sussurrou ela. Fecha-me o fecho do vestido e vai-te embora. Diogo, vai correr mal para ti! Amanhã, volta amanhã
Beijámo-nos mais um pouco e, depois, atirou-me a roupa e saiu da sala.
Ouvi-a a ligar o fogão, moer café. A casa enchia-se daquele aroma meio queimado, intenso. O marido dela, o senhor António, não começa o dia sem café forte e, vá-se lá saber, um pouco de pimenta. Leonor senta-se à frente dele, sempre direita e atenta para não se enganar no nome. É como uma galinha a empoleirar-se, preocupada, não vá dar um passo em falso
Fiquei ali mais um tempo, depois fugi para a casa de banho, demorei-me com a água, ri-me sozinho, vesti-me devagar, fui até à cozinha. Leonor estava de costas, o roupão atravessado de luz via-lhe as curvas tentadoras.
Leonor tinha quinze anos a mais que eu, nunca me incomodou. Antes pelo contrário: sentia-me vaidoso porque me preferiu a mim no meio de tantos.
Ela era experiente, indulgente com as minhas patetices, ria com graça, beijava como ninguém. Dormia na sua casa apalaçada, com tectos altos, lustres de cristal, parquet brilhante, loiça fina. Alimentava-me esfomiado , via-me comer batatas da frigideira e bifes, a desajeitar-me com copos Gostava de bebermos juntos, metia a cabeça para trás a rir, oferecia-me o pescoço alvo para os meus beijos trôpegos.
Ela dizia que era melhor se nos mantivéssemos desconhecidos, mas fiz questão de mudar isso.
Vi-a no metro, fui ter com ela, atrevido, depois de umas cervejas demais. O meu amigo Gonçalo também estava, mas perdeu-se na multidão. Fui atrás de Leonor, propus acompanhá-la ela, envergonhada, ia recusando.
Mesmo assim, acompanhei-a até casa. À porta, mandou-me embora. Fingi que aceitava, mas escondi-me perto, a ver onde se acendia a luz.
Era no rés-do-chão, de frente para a rua. Vi-a movimentar-se atrás das cortinas, a mudar de roupa. Fiquei a olhar, nem o porteiro conseguiu enxotar-me de vassoura na mão.
Voltei ali todos os dias. Como um tonto. À minha mãe dizia que ia dar uma volta, mas fazia guarda ao prédio da Leonor.
Tanto vi que até conheci o marido: a janela da cozinha dava para a rua. O senhor António andava de camisola de alças e umas calças largas, esquelético, curvado. «Como é que ela casou com aquele?» pensava eu. «Foi mesmo por amor?»
O António jantava devagar, a ler o jornal. Leonor servia-lhe o chá com bolacha. Eu observava na rua. Uma noite até pareceu sentir o meu olhar, virou-se, fechou as cortinas. Fiquei mal disposto de os imaginar juntos. Como é que ela a minha Leonor se deitava com aquele?
No fim, cansei-me do circo. Saltei pela janela para o quarto dela. O marido ia de viagem, vi-o sair com malas. Não havia perigo. Estava preparado para tudo.
Quando me viu, Leonor queria berrar, mas tapei-lhe a boca. Depois beijei-a.
Ah, que cheiro tinha! O cabelo, os lábios, o vestido leve tudo tinha aroma especial
A minha mãe nunca usou perfumes, cheirava sempre a detergentes baratos ou tabaco. Ela fumava muito, os dentes amarelos, nunca sorria de boca aberta. E os dentes de Leonor eram tão direitinhos, brancos, de revista. A roupa da minha mãe era, pronto dava para o gasto. Antes não notava, mas agora reparava e sentia vergonha. Devia comprar-lhe algo bonito, mas o dinheiro ia todo para flores para a Leonor. O marido dela, ao que parecia, nunca trazia bouquet nenhum. Era, aos meus olhos, um fracassado. Sim, o apartamento deles era um luxo, móveis nobres, quadros de verdade, não as páginas de revistas da nossa sala. Comiam como reis, e as joias dela eram de rainha. Mas aquilo vinha da família, dizia a Leonor. O António só usufruía. Um artista, vá.
Eu não era assim. Só queria Leonor, sem nada à volta! O jantar delicioso e os lençóis quentes ajudavam, claro, mas estaria com ela nem que fosse naqueles fardos de palha no Ribatejo.
Leonor cheirava sempre a qualquer coisa requintada francesa? italiana? Não sabia distinguir, só cheirava.
Sabia que ela era minha. Dizia a mim próprio: «A minha mulher!» Conquistei-a, invadi o seu mundo, ficou aos meus pés.
Tudo nela tinha graça: comer, vestir-se, fumar. Uma musa, uma deusa.
Nunca me esqueci da primeira noite juntos. Uma ternura de outro mundo. Sem truques, pura. Derretia-se nos meus braços, e eu queimava de paixão. De manhã, percebi: ela amava-me mesmo. O marido era castigo, obrigação; comigo era vida, sangue quente, verdadeira.
Sim, às vezes tinha de fugir antes do nascer do sol.
Levanta-te, querido! Ele já chega da viagem. Diogo, meu amor… hoje não voltes. Fica longe, fica uma semana, depois ligo-te.
E se for falar com o teu António? disse, a rir. Queria que fosses só minha, Leonor! Ser teu marido!
Ela ria à gargalhada, os caracóis castanhos caíam-lhe pelos ombros. Abracei-a, beijei-a.
Minha! Só minha! sussurrei. Achas que não dava conta do teu António? Dava-lhe logo ali!
Eu só quero que continues a ser o meu segredo, Diogo. És o meu segredo, eu sou o teu. Há coisas em que não deves mexer, está bem? Vai, tenho de arrumar.
Fiquei magoado. Não quer ser minha mulher! Mas ao fechar a porta, Leonor puxou-me e beijou-me. Ganhei o dia. Pode não ser para sempre, mas em pensamento será sempre minha; ela vai pensar em mim enquanto acorda o marido, compara-o comigo e eu ganho. É minha, e ele um corno manso.
Depois de Diogo sair, a Leonor limpava a casa à pressa. O António telefonou de madrugada, ia chegar mais cedo. Homem educado. Não queria surpreendê-la. Ela, nervosa, abria logo as janelas, a ver se o cheiro se diluía. Mas António era raposa velha, percebia sempre.
Cheira mal aqui, Leonor! largou a mala ao chão.
Mal? A quê? disfarçou, puxando o robe.
Cheira-te a pecado? Andaste a fazer asneira sem mim? perguntou, perscrutando-a enquanto tirava os sapatos.
Do medo, mal respirava, mas sorria.
Que disparate! Foi do frango que assei, estava estragado. Vai lá lavar-te, António, eu preparo a mesa. Café já está, há almôndegas. Queres que aqueça? Deixa-me passar, anda, amor. Que saudades!
António puxou-a pelo cabelo, ficou a olhar para ela, libertou-a com um sorriso.
Trouxe-te um presente. Experimenta tirou do bolso umas argolas pesadas, com pedras rubras, já escuras. Queria ver-te a usá-las! berrou, ao ver que hesitava. Ela rodou-as, sentiu desconforto.
O que é isto, António?… pousou as joias, limpou as mãos ao vestido.
Parvoíces, experimenta! E depois vamos almoçar!
Ela tirou uns velhos brincos da mãe, meteu os novos, virou-se para ele. Ele acenou, satisfeito. Gostava de a exibir bem empiriquitada, com roupas e bugigangas caras. Às vezes até obrigava a dormir de pulseiras, deixando-lhe a pele marcada. Achava graça.
Fico uns dias, depois parto. Os meus negócios vão bons. Onde está o frango, Leonor?!
Hã? A mão dela tremeu, caiu cafe na toalha. António odiava nódoas lembrava-lhe a infância numa casa podre, com uma mãe viciada na pinga. Agora, queria luxo e tudo limpo. Ganhou-a por ser o melhor, custasse o que custasse. Leonor tinha noivo antes, um físico, já tinham a data do casamento. Mas ele morreu numa esquina, roubo ou acaso
Leonor ficou devastada, quis morrer. António aproximou-se, cativou a mãe dela, ajudou com dinheiro. Depois prometeu tudo e mais alguma coisa, resolveu problemas de família e, de repente, estavam casados. Mandou-a sorrir, porque assim se faz nos casamentos.
Agora, sorria de novo, tapando a nódoa com um guardanapo.
A galinha, a que cozinhavas. Não está no lixo disse António, olhos semicerrados.
Coisa nenhuma! Levei para fora, para não cheirar mentiu ela. Não se deixa lixo destes dentro de casa!
Ele acenou, satisfeito. O velho raposo percebia tudo.
Assim que António saiu, Leonor chamou-me. Telefonava ao trabalho no frigorífico da fábrica onde arranjava as máquinas dos gelados. Ela adorava gelado, da marca dos copos de bolacha. Eu trazia sempre, dava-lhe colheradas, beijava-lhe os lábios doces, sujos de migalhas.
Disse que estava doente, despedi-me a meio da tarde. Sentia-me estranho apaixonado como nunca. Era fogo, Leonor era chama, incinerava-me. Voltava a ser só minha.
Há três dias que não ia a casa, nem ligava ao pai ou à mãe. Tinha desaparecido, ninguém sabia de mim. Pacífico! Era jovem, precisava disto.
Saí do torpor quando, de manhã, vi o meu pai à porta da fábrica. Estava tão magro e cinzento, parecia fantasma.
Pai, o que fazes aqui? ralhei.
Levaram a tua mãe ao hospital, outra vez o estômago. Vai vê-la, filho suplicou, torcendo a boina velha entre as mãos.
Qual hospital? contrariado.
Ele deu-me o endereço. Prometi que passava lá, despedi-me. O pai chorava. Não dei valor. A mãe andava sempre entre hospitais.
Leonor relutou, mas preparou comida para eu levar. Anjo.
Encontrei a mãe no corredor, numa maca dura, porque não havia camas. Estava enjoada, ouvia a auxiliar a insultar-me, a mandar-me levá-la para casa.
Não posso! Precisa de tratamento, caramba! protestei. E veja lá como fala! Não se atreva a levantar a voz à minha mãe, percebeu?
A mãe aconselhava-me a não zangar-me, mas não conseguia. Que raio de hospital era aquele? Porque tinha eu que perder tempo com estes problemas? A mãe tinha cá a vidinha dela, voltou ao hospital cem vezes.
Ela comia devagar a sopa da Leonor, elogiava. Eu perdi a paciência, olhava para o relógio. Duas semanas e o António voltava, eu perdia a Leonor.
Mãe, consegues acabar de comer sozinha? levantei-me, deixei o saco ao pé da cama.
Vais embora, filho?… Está bem. Não venhas amanhã, o teu pai vem cá, sorriu, acariciando a minha mão.
Saí. Nem soube que a comida iria para o lixo, que ela ia continuar à espera, ali, num corredor frio a levar com os ralhetes da mulher da limpeza. Não quis saber, só pensava na Leonor.
Voltei à nossa toca e vi-a de rastos, sentada no chão, a chorar.
O que foi? parei à entrada. Que se passa?
Tremia, mostrava-me umas joias a brilhar no tapete.
O António trouxe-me isto da última vez. Queria limpá-las, estavam velhas E vi sinais. Sinais soluçava. São sujas. Sujas. Leva-as, Diogo, leva-as daqui! Não podem estar em casa, assusta-me!
Enrolou as joias num pano, deu-mas.
Vai! Deita-as fora, Diogo! O que vai ser de mim? chorava, a maquilhagem a desandar.
Vá, eu lavo-as. Se ele perguntar? O que é que há nelas?…
Percebi logo: o marido não tinha vergonha de trazer aquilo que sabia ser roubado. Já antes suspeitava, mas agora era indiscutível. As manchas negras pareciam sangue seco de ferida, daquelas que não saram. Mortais.
Senti-me nauseado, sujo como se rebolasse em lama.
Leonor, talvez fosse melhor avisar a polícia… arrisquei, mas percebia que era inútil. Ela jamais faria frente ao marido.
Saí, deitei o embrulho atrás da tipografia ao lado do prédio dela. Nem reparei num homem magro e curvado nos arbustos devia ter reparado Observava-nos há muito.
António e uns capangas apareceram de noite. Ainda nem dormíamos; tínhamos bebido e não demos pelos passos. Acordei com murros. Escuridão total, a Leonor gritava, depois calou-se.
Tentei defender-me, doíam-me a cabeça, o sabor a sangue na boca, esbracejei sem acertar. Tinha bebido demais.
Acenderam a luz. O senhor António no cadeirão, a Leonor de olhos fechados ao lado.
Desculpem o incómodo disse ele baixo. Só venho buscar umas coisas. Querida, dá-me um beijo, já cheguei!
Puxou-a para ele, beijou o rosto.
António Vê, ele Leonor indicou-me.
Não quero saber deu ordem com um aceno, bateram-me de novo. Quis reagir, estava acabado.
Pega as tuas coisas, Leonor. Preciso delas, querida.
António foi até mim. Via-lhe mal a cara, os olhos turvos, nem respirava, acho que tinha costelas partidas.
Agora, rasteja cá para fora, rapaz! ordenou.
António gemia ela junto à cómoda. Não lhe faças mal. Permitiste que ele cá estivesse Combinámos Porquê, António?…
Porque tocou no que não devia. Não gosto deste, Leonor. Perdoava-te tudo, até amar-te menos Mas este não. A mãe dele está no hospital, sabia? E ele aqui, na tua cama. Devias respeitar uma mãe. Eu odiei a minha, mas enterrei-a como uma rainha. E este abandona a mãe pela amante!
Como sabes disso?… tossi.
Tudo anda à minha mão aqui, Diogo. Esta cidade é pequena. Leonor, anda, entregaste mais um rapaz ao azar, parabéns!
Levantei a cabeça; a memória misturava tudo mãe, hospital, sopa, a noite com Leonor, depois o olhar azul gelado do António rente ao meu, a rir-se.
Devias ter ficado com a mãe. Agora não a vês mais sussurrou ele. Chorei. Era um falhado, miserável, e ia morrer ali…
E eu, que culpa tenho? perguntou, já dona de si, Leonor. Atirou uns brincos e um saco ao marido. Este rapaz entrou, não fui eu a chamar, tem idade para saber. Aqui tens, tudo teu.
Ele verificou, acenou.
Agora põe os brincos que te trouxe da última vez, Leonor.
Não combinam com nada, António! tentava agradar-lhe, suplicava. Eu nem respirei.
Eu disse que é para pôr! berrou, disparou à minha frente. O tiro fez um buraco no soalho, quase me arrancava um dedo.
Ela fez-se de confusa, remexia nas gavetas, procurava as peças.
Ela vai safar-nos! Vai arranjar solução! gritava-me o coração. A minha Leonor vai salvar-nos!
Não António, desapareceram! Deviam estar aqui! levantou as mãos, olhou para mim. Foste tu! Roubaste-me! Como pudeste? Eu fiz caldo para a tua mãe pobre, e tu roubaste-me? António, deita-me daqui o criminoso! Deus, nem os relógios estão! Aqueles da trisavó. Não, Diogo Podre, pensei que eras puro António
Esses relógios, na verdade, tinham pago o aborto de um filho nosso… O António queria filhos, mas não podia tê-los. Se soubesse… Mas Leonor preferia livrar-se do problema. Agora, a culpa era minha.
António Pires mandou-me pôr de pé à força. Pouco me lembro depois. Só lembro o rosto dela atrás dele mulher que amava e senti-me despedaçado
Não tolero ladrões, Diogo disse-me já na neve. Tudo entendo: paixão, asneiras, perdoo até traição. Pensa que não faço o mesmo? Há Leonores em cada esquina. Mas quem me tira o que é meu, não perdoo!
Fiquei deitado na neve gelada, o coração a arder, ouvi o carro a partir, só restava o vento, a soprar cristais de neve no rosto. Sobrava só a dor nos ouvidos. E a certeza que a mulher que mais amei me traiu. O coração arrefeceu. Ficou curado.
O resto já sabem…
Fiquei na cabana do caçador vários dias. Trouxe-me um médico, cuidaram das costelas felizmente não estavam partidas, só doía. Limparam-me, trataram-me, riam-se do meu ar miserável.
Vais-te pôr fino, rapaz! dizia o caçador.
Sai para o campo semanas depois, já em pé. O brilho do campo ofuscou-me, o campo era um mar de luz, como gema derretida espalhada, como aço incandescente numa fundição. A neve queimava-me os olhos. O caçador deu-me uns óculos escuros.
Vá, podes-te ir embora disse. Da próxima vez, não te metas em apuros destes, rapaz. Pode não correr sempre bem
Enquanto calçava as botas, ouvi-os discutir quanto é que António lhes tinha pago para me salvarem. Fiquei paralisado, larguei uma bota.
O quê? perguntei baixo.
Nada encolheram os ombros. O senhor António é generoso. Muito agarrado ao dinheiro, mas não guarda rancor. Agora, a mulher essa é mesmo cobra. Anda a vender em segredo as jóias dele, sonha que um dia há-de fugir. Mas quando é apanhada, entrega rapazinhos assim para lhes servir de lição. Não foste o primeiro, nem serás o último. Coisas de ricos, não ligues. Toma lá mas é juízo. Vai-te embora agora, Diogo. Está na tua hora bateram-me no ombro, sorriram.
Cheguei a Lisboa ao fim da tarde. Corri ao hospital. Talvez, talvez ainda visse a minha mãe…
Esse nome não consta aqui. Lamento. Fecharam-me a janela na cara. Assustei a rececionista, uma figura de mau bocado.
Por favor, veja outra vez! bati, insisti, depois fui-me embora.
O pôr-do-sol voltou avermelhado. Senti medo.
Cheguei a casa. As janelas estavam acesas. Respirei de alívio, corri mancando para o prédio. Toquei muitas vezes. Quando abriram, era a minha mãe, magra, frágil. Corri a abraçá-la, vi o pai na cozinha. Comecei a chorar…
Preocupámo-nos contigo, filho, repetia a mãe, enchendo-me o prato com batatas fritas. Mas depois ligou o senhor António, disse que tinhas tido um acidente, mas que logo recuperavas e voltavas, mas era melhor não apareceres por Lisboa por uns tempos, não fosse a polícia chatear…
António? caí da cadeira.
Sim. Era alguém do Ministério da Saúde, foi ver-me ao hospital, deu-me até um quarto só para mim. Obrigada, Diogo, por pedires ajuda para nós! Sem ele, não sei como teria sido…
Ela chorava, contava, passava-me a mão pela cabeça. O meu pai olhava-me em silêncio. Não aguentei o olhar, desviei-me
Anos depois, eu e a minha mulher, Filomena, andávamos pelo mercado à procura de um pinheiro-de-natal razoável. Ela adora cheirar o pinheiro, apanhar as agulhas pelo chão, sentir a resina brilhante.
Naquele ano havia muitos. Já quase tínhamos visto todos, sem encontrar o tal.
Vamos ver aquele canto? sugeriu a Filomena, indicando um espaço coberto de serapilheira. À luz do candeeiro, só se viam uns pinheiros desajeitados, restos amontoados.
Assenti. Entrámos. Filomena tocava os ramos, quando uma voz rouca e fumada saiu da penumbra:
Só se compra antes de mexer! Tire as mãos!
Saiu na luz uma mulher de casaco grosso e botas, lenço de lã na cabeça. Cara sem sombra de maquilhagem, olhar lutador e cansado.
Reconheci-a. Era a minha Leonor. O primeiro amor. A mulher que me deixara marcas que inventava como histórias parvas para a minha Filomena. Mentia-lhe, porque só queria protegê-la. A Filomena era real, genuína, bondosa; era a minha âncora. Veio da minha costela, enviada por Deus. Não queria magoá-la por nada.
Leonor fitou-me, depois cuspiu. Reconheceu-me.
O António obrigava-a a passar frio a vender árvores, enquanto ele bebia champanhe no restaurante. Não lhe batia, não berrava era só mais esperto. E ela perdeu tudo. Mais nenhum rapaz a salvava. Já não havia mais rapazes. A beleza desapareceu com o tempo e a vida trocou-lhe as voltas.
Vamos embora, Filomena, peguei-lhe na mão. Estas árvores estão mal paradas. Vou levar-te ao campo, vamos escolher e cortar a nossa árvore juntos.
A Filomena sorriu. Confiava em mim. Amava-me de verdade e eu nunca acreditei merecer tanto.
E quem diria seria ao António Pires que devia o pouco de felicidade que me restava? Agradecer-lhe por não me mandar matar naquela noite? Magro, curvado, venceu-me. Ficou a ganhar. Com justiça.







