O meu nome é Elias. Trabalho há vinte anos no balcão de bagagens perdidas e objetos achados da Estação Central. É um lugar barulhento e caótico

O meu nome é Elias. Trabalho há vinte anos no balcão de achados e perdidos e na zona de bagagens na Estação Central. Aquilo é um verdadeiro caos: gente apressada, avisos altos ao microfone, o cheiro a gasóleo misturado com pão quente da pastelaria.
Mas sou capaz de distinguir os Enraizados. São aquelas pessoas que nunca seguem viagem. Ficam sentadas nos bancos, com três ou quatro sacos de viagem pesados. Arrastam-nos para a casa de banho, arrastam-nos até à zona da restauração. Não têm casa, ou estão numa fase de transição, e tudo o que possuem vai dentro desses sacos. Não conseguem arranjar emprego porque ninguém aparece a uma entrevista com um saco-cama às costas. Não conseguem alugar casa porque não podem largar as coisas para ir às visitas. Os cacifos da estação custam 20 euros por dia. Para eles, parece que custam um milhão.
No inverno passado, apareceu por lá um rapaz novo chamado Martim. Estava bem barbeado, camisa decente, mas com duas malas grandes e uma mochila de montanha. Sentava-se ao pé do meu balcão todos os dias. Via-se que estava encurralado.
Tenho uma entrevista às duas da tarde, disse-me numa terça-feira, com ansiedade no olhar. Na zona industrial. Mas não posso levar isto tudo. E deu um pontapé na mala. Se deixo as coisas aqui, roubam-nas. Se levo, percebem logo que não tenho onde dormir e não me contratam.
Olhei para a sala dos achados e perdidos atrás de mim. Aquilo era suposto servir para chapéus-de-chuva esquecidos e casacos abandonados. Deixe-me os sacos, disse-lhe.
O quê?
Eu etiqueto como Achado A aguardar reclamação. Isso dá-lhe 24 horas. Vá à entrevista e volte antes do fim do meu turno.
Olhou para mim como se eu lhe estivesse a oferecer um transplante. Empurrou-me logo as malas por cima do balcão. Endireitou-se. Parecia logo mais alto sem aquele peso todo. Saiu a correr pela porta. Voltou às cinco da tarde a sorrir.
Chamaram-me para a segunda entrevista, contou ele, radiante.
Comecei a fazer o mesmo com outros. Arranjei um sistema. Sempre que via alguém a tentar arranjar-se na casa de banho, mas a lutar com as malas, fazia-lhe sinal: Etiquete. Está seguro. Tinha até um caderno especial a que chamava O Livro dos Enraizados. Não guardava objetos perdidos; guardava fardos, para que as pessoas pudessem ficar livres durante umas horas.
A administração apanhou-me passados três meses. O meu supervisor, Sr. Henriques, espreitou à socapa e encontrou seis malas não autorizadas na arrecadação.
Elias, estás a gerir um armazém gratuito, resmungou. Isto é um risco para a estação.
Não é armazenamento, respondi. É um programa de empregabilidade. Veja, aquele saco vermelho? É de uma senhora que está agora numa entrevista na pastelaria. E aquele azul? O rapaz foi fazer o exame do 12º.
Mostrei-lhe o caderno. O Martim voltou cá na semana passada. Já não precisou de guardar nada. Veio comprar um título de transporte. Já arranjou casa. Foi visitar a mãe, de comboio.
O Sr. Henriques olhou para as malas, depois para mim. Não me despediu. Em vez disso, mandou limpar um velho armário à entrada. Pôs lá uma placa: Cacifos Solidários. Gratuito para procura de emprego. Falar com Elias.
Agora, temos parceria com o centro de acolhimento local. Se tiveres entrevista marcada, dão-te uma ficha para cacifo. Tenho 62 anos. Continuo a etiquetar malas. Mas aprendi que ninguém consegue dar um passo em frente enquanto carrega o seu passado às costas. Às vezes, o maior presente que podemos dar não é dinheiro é simplesmente um sítio seguro onde pousar o que nos pesa, para podermos atravessar a porta de cabeça erguida.

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