O meu marido ordenou: Não discutas. Eu nem sequer discuti só deixei de concordar. E aí é que a coisa ficou séria.
Carlos entrou na cozinha como se tivesse acabado de assinar um tratado de paz entre duas galáxias inimigas, embora na verdade só tivesse comprado uma carcaça e um pacote de leite. A postura dele tinha agora algo de monumental, quase de estátua. Desde que, há uma semana, foi nomeado substituto interino do subchefe de secção, o meu marido já não caminhava desfilava pela casa.
Teresa, disse ele, inspecionando o meu jantar (uma truta assada no forno) com olhar exigente.
Hoje cheguei exausto. Tomei decisões estratégicas. Então vamos combinar: em casa, silêncio absoluto e tudo aceite sem discussão. Não quero debates. Quero que apenas concordes. O meu cérebro precisa de descansar da resistência constante.
Fiquei imóvel com o garfo na mão. Aquilo era ousado. Era refrescante. Ainda mais considerando que vivemos no meu apartamento, e que o meu salário de analista financeira nos deixa à margem da inflação. O pedido soou como se um periquito pedisse ao cão direito a uma casa própria.
Portanto, queres que eu seja o teu eco? perguntei, sentindo despertar em mim aquela fera nobre que os meus colegas respeitam e que até a minha sogra teme.
Quero que reconheças a minha autoridade, declarou Carlos, pomposamente ajeitando a gravata, que inexplicavelmente tinha posto para o jantar. O homem é o vetor. A mulher é o ambiente. Não envies o meu vetor para curvas, Teresa.
Olhei para ele. Nos olhos dele brilhava aquela fé absoluta e inocente, igual à de quem decidiu atravessar a Segunda Circular a correr no lugar errado.
Está bem, querido, sorri, cortando um pedaço do peixe. Nada de discussões. Só concordância.
E aí começou o meu jogo preferido: Cuidado com o que desejas, porque pode realizar-se à risca.
O primeiro ato do baile aconteceu ao sábado. Carlos preparava-se para o teambuilding da empresa que chamava de cimeira de líderes, mas que para mim não passava de uma ida dos funcionários ao campo para uns grelhados.
Andava ele à roda diante do espelho com umas calças novas que comprou sem avisar. Eram de um amarelo mostarda que achava moderno, mas caíam-lhe como se fossem feitas para um canguru prenhe. Ficavam largas nas ancas e o tecido apertava as pernas como se fossem chouriços embalados.
Então? perguntou ele, com o peito empinado. Chefe a sério, não?
Normalmente teria sugerido com delicadeza que aquelas calças lembravam mais um palhaço de circo do que um líder. Mas afinal, prometi não discutir.
Sem dúvida, Carlos, acenei, sem tirar os olhos do livro. É uma escolha arrojada. Todos vão saber de imediato quem é o alfa. O tom e o corte são únicos.
Carlos sorriu de orelha a orelha.
Vês? Antes dizias logo tira isso que faz figura triste Estás a aprender, mulher!
Foi-se embora inchado de orgulho. Voltou à noite, irritado, encarnado, e de calças de ganga de um colega. Descobri que, no auge do concurso Puxar a corda do sucesso, o seu modelo mostarda rasgou-se num som mais dramático do que uma vela a rasgar-se na tempestade.
Porque não me avisaste que eram apertadas em zonas sensíveis?! gritou, lançando as calças para um canto.
Mas tu disseste que elas salientam o teu estatuto. Não discuti. Afinal, o estatuto era grande demais para tanto tecido.
A verdadeira peça dramática começou quando entrou em ação a artilharia pesada Dona Maria do Carmo, a mãe do vetor. Chegou para uma inspeção e, entusiasmado pela minha súbita submissão, o Carlos achou que era senhor e dono.
À mesa, Dona Maria do Carmo, senhora de penteado caniche e olhar de auditora, analisava a minha sala.
Teresinha, as tuas cortinas são sombrias decretou com a boca cheia do meu bolo. E há pó na prateleira. Uma dona de casa de verdade não deixa o pó repousar, ele nem se atreve a pousar! O Carlos precisa de aconchego, mas a tua casa parece um escritório.
Carlos, a sentir-se apoiado, acrescentou:
É verdade, Teresa. A mãe tem razão. Trabalhas demais, descuidas a casa. Devias reduzir o trabalho, podias ficar a meio tempo. O ordenado chega, agora que sou chefe.
Dei uma gargalhada por dentro. O tal bónus de chefe mal chegava para a gasolina e um almoço extra. Mas lembrei-me: não discuto.
Tem toda a razão, Dona Maria do Carmo, acenei docemente. E tu também, Carlos. Dedico demasiado à carreira. As cortinas são a identidade da mulher.
Vês, estás a ficar mais sábia! vibrou a sogra.
Por isso, continuei, vou despedir a senhora da limpeza.
Silêncio absoluto. Dona Maria do Carmo ficou engasgada.
Que senhora da limpeza? franziu o sobrolho Carlos.
Aquela senhora que vem duas vezes por semana limpar a casa. Como disseste que tínhamos de poupar para manter o teu estatuto de chefe sensato E a mãe diz que a mulher é que deve fazer o ninho. Concordo plenamente. Vou despedir a empregada. Fico eu a tratar da casa. Ao fim de semana.
E durante a semana? arriscou Carlos.
Durante a semana, querido, vamos todos apreciar o ritmo natural da entropia. Não quererás que me canse ainda mais a seguir ao trabalho, pois não?
As duas semanas seguintes foram um inferno doméstico para Carlos. Eu chegava, sorria, sentava-me a ler. A loiça acumulava-se. O pó, antes exterminado pela fada da limpeza, brilhava agora nas superfícies como geada em Trás-os-Montes. As camisas do Carlos, sempre impecáveis, pendiam agora murchas e amarrotadas.
Teresa, não tenho camisas limpas! gemeu ele numa terça de manhã.
Sei, querido. Mas ontem estive ocupada a ver cortinas, como sugeriu a mãe. Gastei-me toda a escolher tons. Para o ferro já não sobrava energia. Chefe que é chefe sabe delegar passa a ferro tu mesmo.
Carlos pegou no ferro, queimou o dedo, fez um buraco na manga e, a praguejar pelo nariz, vestiu uma camisola. Parecia alguém que desafiou o sistema e perdeu de forma épica.
O grande final chegou com um jantar de negócios em casa. Ia cá estar o verdadeiro chefe, o Dr. Vítor Manuel, cujo lugar Carlos aquecia temporariamente, e mais dois colegas importantes.
Teresa, esta é a minha hipótese andava ele num desassossego pela cozinha. Temos de mostrar que cá em casa há estabilidade. Que sou o chefe, que tenho respeito. Tem de estar tudo bem posto, mas tradicional, nada dessas tuas modernices. Homens querem carne. E nada de opiniões. Sorris, serves e calas-te. Ninguém quer saber do teu parecer sobre logística. Percebido?
Percebi murmurei. Farto, tradicional, calada.
E veste-te… feminina.
Como quiseres, amor.
Fiz tudo a rigor. Vesti o roupão ao gosto da sogra, cheio de flores e folhos, que guardei para festas temáticas. No cabelo, construí algo entre um ninho e a Torre dos Clérigos.
Na mesa, pus gelatina de porco (do supermercado, a tremer como o Carlos perante o chefe), montes de batatas cozidas e uma perna de porco enorme, reluzente, que parecia ter morrido feliz. Nada de exotismos. Nada de guardanapos com argolas. Tradicional, como o Carlitos queria.
Os convidados chegaram. O Dr. Vítor Manuel, senhor de óculos e ar distinto, olhou-me de alto a baixo, mas ficou calado. O Carlos ficou cor de cortinado de sala antiga.
Sirvam-se, caros amigos! entoei, como uma madrinha das aldeias de Trás-os-Montes.
O jantar começou. Carlos tentou conversar com brilho, mas o ambiente estava tenso como um fio prestes a partir. Disparava frases sobre otimização de fluxos com redistribuição de horas, usando palavras que, claramente, mal entendia.
Carlos, desculpe, interrompeu gentilmente o Dr. Vítor. Mas, se redistribuirmos assim, perdemos o contrato com os chineses. Teresa, qual a sua opinião? Ouvi que é analista principal na Luso Finanças
O momento da verdade. Carlos gelou. Os olhos suplicavam Cala-te!
Sorri largo e olhei para o meu marido com devoção.
Oh, Dr. Vítor, imagine! agitei o braço, tilintando pulseiras. Na nossa casa, quem manda na inteligência é o Carlos. Ele é o vetor! Eu faço de volta. Faço as batatas, escuto o marido. Diz que há assuntos, como estes, que me estragam a pele.
O chefe engasgou-se na batata. Os colegas trocaram olhares.
Carlos perdeu toda a cor, uma gota de suor desceu-lhe pela testa.
Não, é verdade, continuei, já embalada. O Carlos diz que as ideias dele valem milhões. Quem sou eu, com os meus relatórios? Aliás, Carlos, conta ao Dr. Vítor como querias trocar o software de gestão por como era? Excel na nuvem?
Foi o golpe fatal. Essa ideia tinha sido gozada por todos na empresa, mas em casa era apresentada como a descoberta do século.
Carlos? o chefe tirou os óculos e olhou para ele como se fosse um inseto raro e inútil. Sugeriu mesmo isso?
Era… foi uma hipótese… gaguejou Carlos, tentando manter a compostura, mas quase enfiando a cara na gelatina. A Teresa entendeu mal…
Como assim, querido? fiz-me desentendida. Ontem passaste horas a explicar que a tua chefia é retrógrada e que só tu vês o futuro. Eu não discuti, só concordei!
Carlos, nervoso, deu um encontrão no molho de piri-piri, e este espalhou-se pelo pano da mesa, escarlate, em direção às calças. Parecia o capitão do Titanic, que perfurou o navio com as próprias mãos.
Os convidados saíram vinte minutos depois. Assuntos urgentes, disseram. O Dr. Vítor despediu-se com um aperto de mão forte:
D. Teresa, se um dia se fartar de descascar batatas, tenho vaga de subchefe de estratégia. Parece-me que tem jeito para pôr as coisas nos devidos lugares.
Quando a porta bateu, Carlos virou-se para mim, a tremer.
Tu Tu arruinaste-me! Fizeste de propósito! Ridicularizaste-me!
Não entendo, disse, tirando o roupão ridículo. Carlos, fiz tudo o que pediste. Não discuti. Não dei opinião. Fui o cenário que pediste. Se nesse cenário parecias palerma talvez o problema não fosse do cenário, mas da personagem.
Ele abriu a boca para rebater, mas ergui a mão.
Agora, chega de discutir. O meu cérebro precisa de descansar da tua tontice. As tuas coisas já estão feitas. A mala está no corredor. O teu vetor segue agora para a casa da mamã na Amadora. Lá as cortinas são como gostas, e ninguém se atreve a discordar de ti.
Não tens coragem Eu sou o marido!
Foste marido, enquanto foste parceiro. Quando quiseste ser patrão, esqueceste-te que o trono assenta no meu apartamento.
Vi-o carregar a mala para o táxi pela janela. Não senti tristeza. Senti alívio. O apartamento cheirava a liberdade e, ainda, a pernil de porco mas isso areja-se facilmente.
Fiquem com este conselho, meninas: nunca discutam com um homem que se acha mais esperto do que vocês. Basta saírem do caminho e deixá-lo embater de frente na realidade. O som da coroa a cair é das músicas mais belas para os ouvidos femininos.






