O meu marido disse: «Não discutas». Eu não discuti — simplesmente deixei de concordar com tudo. E foi aí que tudo começou.

O meu marido ordenou: “Não discutas.” Eu não discuti simplesmente deixei de concordar com tudo. E foi aí que tudo começou.

Miguel entrou na cozinha com o ar de quem acabara de negociar um armistício entre planetas rivais, embora, na verdade, só tivesse comprado uma carcaça e um pacote de leite. A sua postura ganhou um ar monumental, quase de mármore. Desde que, há uma semana, foi nomeado “substituto interino do chefe de secção”, o meu marido deixou de andar agora desfilava.

Leonor, disse ele, olhando para o meu jantar (truta assada) com cara de fiscal sanitário.

Hoje estou exausto. Tive de tomar decisões estratégicas. Vamos combinar uma coisa: em casa quero silêncio absoluto e aceitação total. Não quero discussões. Quero que concordes sempre comigo. O meu cérebro precisa de descansar da oposição do mundo.

Congelei com o garfo na mão. Era ousado. Era novo. Tendo em conta que vivemos no meu apartamento e o meu salário de analista financeira nos permite ignorar a inflação, a sua declaração soou como se um hamster exigisse ao gato o direito a um quarto privado.

Ou seja, queres que eu seja o teu eco? perguntei, sentindo dentro de mim despertar a fera sensata pela qual os meus colegas me admiram e a minha sogra me receia.

Quero que reconheças a minha autoridade, declarou Miguel com solenidade, ajeitando a gravata que tinha posto para o jantar, não sei bem para quê. O homem é o vetor. A mulher é o contexto. Não distorças o meu vetor, Leonor.

Olhei para ele. Nos seus olhos havia aquela santa, inabalável certeza que só se vê em quem decide atravessar o Eixo Norte-Sul a correr fora da passadeira.

Como quiseres, querido, sorri, cortando um pedaço de peixe. Nada de discussões. Só concordância.

A partir desse momento começou o meu passatempo favorito: “Cuidado com o que desejas, porque pode realizar-se exatamente como pediste”.

O primeiro ato desta pequena ópera deu-se no sábado. Miguel ia a um team building da empresa chamava-lhe “cimeira de líderes” mas eu preferia “piquenique da malta do escritório”.

Rodopiava-se ao espelho com umas calças novas, que comprara sem eu saber. Eram de um amarelo mostarda que, a ele, parecia trendy, mas assentavam-lhe como se tivessem sido feitas para um canguru grávido. Bojudas nas ancas, coladas nas pernas, pareciam salsichas em película.

Então, o que achas? perguntou, peito feito. Estiloso? Realça o estatuto de chefe?

Normalmente, teria sugerido com tato que aquilo dava mais ar de palhaço de circo do que de chefe. Mas eu prometera.

Sem dúvida, Miguel, acenei, sem largar o livro. Muito arrojado. Vão logo perceber quem manda ali. Cor e corte só reforçam a tua personalidade.

Miguel iluminou-se.

Estás a ver! Antes começavas: “Tira isso, fazes figura de urso” Mas estás a melhorar, mulher!

Saiu de casa vaidoso como um pavão. Voltou à noite furioso, cor de tomate e, por algum motivo, com as calças de um colega. Aparentemente, durante o grandioso “Concurso da Corda do Sucesso”, o milagre mostarda rebentou pelo fundo, fazendo um som igual ao de uma vela a rasgar-se ao vento.

Porque não me disseste que estavam apertadas nos pontos estratégicos?! berrou, atirando os restos do luxo para o canto.

Querido, tu disseste que realçavam o estatuto. Eu não discuti. Parece que o estatuto era grande demais para o tecido.

O verdadeiro drama começou quando apareceu a artilharia pesada D. Rosalina, a mãe do “vetor”. Veio fazer uma visita de inspeção e, sabendo da minha nova postura submissa, Miguel achou que, agora, tudo lhe era permitido.

Estávamos sentados à mesa. D. Rosalina, senhora de penteado tipo “poodle” e olhar de auditora, analisava a minha sala.

Leonor, as tuas cortinas são deprimentes, disse, mastigando o meu bolo. E há pó nos varões. Uma boa dona de casa nem deixa o pó pousar, ele até tem medo! O Miguel precisa de conforto, aqui parece um escritório.

Miguel, sentindo-se apoiado, anuiu:

É verdade, Leonor. A mãe tem razão. Trabalhas demais, a casa ficou descuidada. Devias repensar as prioridades. Talvez passar para meio horário? O dinheiro agora chega, afinal estou numa posição superior.

Achei graça. O seu “acréscimo de chefia” mal chegava para os seus almoços e gasolina. Mas lembrei do meu voto: não discutir.

Tem toda a razão, D. Rosalina, disse calmamente. E tu também, Miguel. Realmente dedico tempo demais à carreira. As cortinas são o cartão de visita de uma mulher.

Ora aí está! comemorou a sogra. Estás a ganhar juízo.

Por isso, continuei, decidi despedir a empregada.

O silêncio caiu. D. Rosalina parou de mastigar.

Que empregada? franziu Miguel o sobrolho.

A que vem duas vezes por semana limpar tudo. Tu disseste que era preciso poupar para estar à altura do teu novo estatuto de bom chefe de família. E a mãe frisou que o conforto é trabalho da mulher. Concordo. Vou limpar tudo sozinha. Ao fim de semana.

E durante a semana? perguntou ele, receoso.

Durante os dias úteis, querido, vamos apreciar o desenrolar natural da entropia. Não vais querer que eu chegue exausta do trabalho, pois não?

As duas semanas seguintes foram uma descida aos infernos do realismo doméstico para Miguel. Chegava a casa, sorria, e ia ler. A loiça empilhava-se. O pó, antes eliminado pela fada da limpeza, instalava-se em todas as superfícies, feito neve na Serra da Estrela. As camisas, habitualmente imaculadas, pendiam agora como fantasmas tristonhos no armário.

Leonor, não há uma camisa engomada! queixou-se ele numa terça-feira.

Eu sei, querido. Ontem estive a olhar para cortinas, como recomendou a mãe. Passei o serão nos catálogos. Fiquei sem força para engomar. Mas tu és chefe, podes delegar a tarefa a ti mesmo.

Miguel pegou no ferro, queimou-se, fez um buraco na manga e, entre resmungos, vestiu uma camisola. Tinha ar de quem tentara vencer o sistema, mas o sistema tinha armadura.

O grand finale deu-se quando Miguel quis organizar um “jantar de negócios” em casa. Ia vir o verdadeiro chefe de secção, Sr. Victor Lourenço, e mais alguns colegas de peso.

Leonor, esta é a minha oportunidade, andava de um lado para o outro na cozinha. Preciso mostrar que tenho base sólida em casa, que mando aqui e sou respeitado. Quero uma mesa farta, mas tradicional! Nada desses teus pratos esquisitos. Os homens gostam é de carne. Ah, e nada de te meteres em conversas de homens, está bem? Só servir, sorrir e calar. O que penses sobre logística não interessa. Entendeste?

Perfeitamente, assenti com doçura. Tradicional, silenciosa, mesa farta.

Aproveita e põe algo mais feminino.

Como queiras, querido.

No fim do dia, preparei-me a rigor. Vesti aquela bata florida com folhos, prenda de D. Rosalina, guardada para o Carnaval. Na cabeça, improvisei um ninho que parecia uma Torre de Belém em miniatura.

Na mesa servi gelatina de porco comprada pronta (a tremer como o próprio Miguel antes do chefe), um monte de batatas cozidas e uma perna de porco assada tão grande e gorda que parecia ter morrido do próprio excesso de peso. Nada requintado. Nada de guardanapos com argolas. “Tradicional”, como pediram.

Os convidados chegaram. O Sr. Victor Lourenço, homem elegante de óculos, olhou para a minha bata com surpresa, mas ficou calado. Miguel ficou vermelho como as cortinas novas.

Façam favor de se sentar, meus senhores! entoei com espírito de tia da aldeia.

Começou o jantar. Miguel esforçava-se por manter conversa de negócios, mas o ambiente era espesso como calda de marmelada. Dizia disparates sobre “otimização de recursos”, usando termos que, claramente, não entendia.

Miguel, desculpe interromper, disse o Sr. Victor com gentileza. Mas se redistribuirmos recursos dessa forma, perdemos o contrato com os chineses. E a Leonor, o que pensa? Ouvi dizer que é analista principal na Soluções Financeiras Atlânticas?

Momento decisivo. Miguel parou, lançando-me olhares de laser: “Não te atrevas!”

Sorri e olhei para o meu marido com devoção.

Oh, Sr. Victor, sabe aqui em casa quem pensa é o Miguel. Ele é o vetor! Eu só dou o ambiente. O meu papel é cozer batatas e ouvir o marido. Até me proibiu de me meter nessas questões complicadas diz que faz mal à pele das mulheres.

O Sr. Victor engasgou-se. Os colegas trocaram olhares.

Miguel empalideceu. Uma gota de suor deslizou-lhe pela testa.

Mas é verdade, continuei, animada. O Miguel diz que as suas decisões valem milhões. E eu com os meus relatórios aliás, Miguel, conta ao Sr. Victor a tua sugestão inovadora de trocar o software todo por aquele Excel na nuvem, lembras-te?

Foi fatal. A ideia do Excel era motivo de chacota no escritório, mas em casa era apresentada como genialidade.

Miguel? O Sr. Victor tirou os óculos, olhando para ele como a um inseto raro. Propôs mesmo isso?

Eu era só uma hipótese balbuciou Miguel, tentando salvar-se, mas a compostura já tinha desaparecido dentro do prato de gelatina.

Oh, Miguel! continuei, ontem explicaste-me uma hora inteira que os chefes eram retrógrados e tu um visionário. Eu não discuti, só concordei!

Miguel agitou-se, esbarrou no molho e este começou a alastrar sobre a toalha, em direção às suas calças. Tinha o ar de capitão do Titanic que ele mesmo levou contra o iceberg.

Os convidados saíram 20 minutos depois, alegando urgências. O Sr. Victor, ao despedir-se, disse-me:

Dona Leonor, se um dia se cansar das batatas, há uma vaga de subchefe de estratégia no meu departamento. Acho que tem jeito para pôr tudo no sítio.

Quando a porta se fechou, Miguel tremia:

Tu destruíste-me! Fizeste de propósito! Fizeste-me parecer um idiota!

Eu? perguntei, já despindo a bata carnavalesca. Miguel, só fiz o que pediste: não discuti, silenciei a minha opinião, criei o “ambiente”. Se neste ambiente parecias um idiota, talvez o problema não seja o fundo, mas a figura.

Abriu a boca para protestar, mas levantei a mão.

Agora, querido, ouve-me. E por favor, não discutas. O meu cérebro precisa de descansar da tua parvoíce. As tuas coisas estão prontas. A mala está no corredor. O teu “vetor” agora aponta para casa da tua mãe em Chelas. Lá as cortinas são do agrado de todos e ninguém discute contigo.

Não te atrevas sou teu marido!

Foste meu marido enquanto foste meu parceiro. Quando quiseste ser patrão esqueceste que o trono está em terreno meu.

Olhei pela janela quando ele entrou no táxi com a mala. Não senti tristeza. Senti alívio. No apartamento cheirava a liberdade, e um pouco a porco assado, mas isso resolvia-se a arejar.

Lembrem-se, meninas: nunca discuta com um homem convencido que é mais esperto do que você. Apenas saia do caminho e deixe que ele próprio vá de cabeça contra a realidade. O estrondo da coroa a cair essa é a música mais doce aos ouvidos de uma mulher.

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O meu marido disse: «Não discutas». Eu não discuti — simplesmente deixei de concordar com tudo. E foi aí que tudo começou.