O meu chefe foi a pessoa que me contou que o meu marido me estava a trair.
Sou casada e trabalho numa pequena empresa em Lisboa. O meu chefe, Afonso Barros, está divorciado, vive sozinho e já há muito tempo que tenta engatar-me. Eu nunca fui agressiva, mas mantive sempre distância. Várias vezes expliquei-lhe que tinha marido, pedi-lhe respeito e disse-lhe que a situação já me deixava desconfortável, até porque os colegas já começavam a reparar. Ele dizia que compreendia e continuávamos a trabalhar normalmente.
Um dia, chamou-me ao escritório dele. Fechou a porta e disse que tinha de me falar sobre algo pessoal. Perguntou-me se o meu marido ainda viajava aos fins de semana. Respondi que sim. E, de repente, ele disse sem rodeios:
Vi o teu marido com outra mulher.
Explicou que o adjunto dele tinha ido a um bar com amigos, o Afonso apareceu mais tarde, e foi lá que reconheceram o meu marido. Viram-no a beijar uma mulher. Eu disse que não acreditava. Então ele tirou o telemóvel do bolso e mostrou-me um vídeo.
O vídeo não era muito nítido. Estava escuro, cheio de música alta, filmado de longe. Mas reconheci logo o meu marido: a roupa, a maneira de andar, o perfil dele. Não havia dúvidas. Senti uma mistura de raiva, vergonha e uma impotência enorme. Saí do gabinete e fui diretamente para casa.
Nessa noite, confrontei-o. Primeiro, negou tudo. Depois disse que tinha sido um erro, só aconteceu uma vez. Mas não saiu de casa.
Foram seis meses de inferno. Não queria ficar mais com ele, mas recusava-se a sair. A casa era arrendada e ele dizia que tinha tanto direito como eu a ficar lá. Começou a fazer da minha vida um pesadelo: punha música aos altos berros logo de manhã, enchia a casa de gente sem avisar, deixava tudo sujo, fazia comentários desagradáveis, gozava comigo. Cada discussão era pior que a anterior. Não dormia bem, vivia num nervosismo constante.
Um dia fui ver o contrato de arrendamento e percebi que estava prestes a acabar. E caiu-me a ficha: aquela casa não era minha, eu não precisava de aguentar mais aquilo. Comecei a procurar um T1 para mim, sozinha. Em poucas semanas tinha as coisas preparadas, assinei novo contrato e fui-me embora. Não houve despedidas. Levei só o essencial, fechei a porta e deixei aquele capítulo para trás.
Neste tempo todo, o Afonso foi-me acompanhando. No início só como colega preocupado. Perguntava se estava bem, se precisava de ajuda. Fomos começando a falar fora do trabalho primeiro mensagens, depois cafés. Eu não queria nada com ninguém, só precisava de paz. Ele respeitou. Passaram meses até nos tornarmos mais próximos.
Entretanto, encontrei outro emprego. Não foi por causa dele simplesmente apareceu uma proposta melhor, com ordenado mais alto e mais responsabilidades. Saí da empresa. A nossa relação mudou. Ele já não era o meu chefe. Éramos dois adultos a saírem juntos.
Hoje faz um ano que estamos juntos.
O meu ex-marido ficou para trás. Perdi um casamento mas ganhei tranquilidade e um homem decente.







