O mais difícil de viver com um cachorro não é aquilo que a maioria das pessoas pensa.
Não é levá-lo para a rua quando chove, quando faz aquele frio cortante, quando não dormiste bem ou quando o coração te pesa no peito.
Não é recusar viagens ou convites quando te dizem: Vens, mas sem ele.
Não é o pelo espalhado pelos lençóis, pelas roupas, até na comida.
Também não é lavar o chão vezes sem conta sabendo que, dali a meia hora, vai estar igual.
Não são as contas do veterinário, nem o receio de falhares algo importante.
Também não é perder um pouco daquela liberdade, porque agora a liberdade é nós.
E não é o coração, que já não é só teu
Tudo isso, afinal, é amor.
É vida.
É uma escolha que fizeste de livre vontade.
O mais difícil chega devagar como aquela dorzinha nos ossos quando o tempo muda. Como o frio húmido de Lisboa no inverno, que primeiro mal se nota, mas depois entra até aos ossos.
Um dia, simplesmente, dás por ti a perceber:
já não consegue, como antes.
Tenta mas já não consegue.
Corre para ti, como sempre fez mas já não é igual.
Os olhos ainda brilham ao ver-te, mas neles acende-se aquele cansaço de quem te diz:
Estou aqui, mas todos os dias se tornam um pouco mais difíceis.
E tu lembras-te de como ele era.
E vês como está agora só teu, confiando até ao fim.
Ele sempre confiou em ti:
que estarias ao lado dele,
que o ajudarias,
que o salvarias.
E tu salvaste-o, tantas vezes.
Mas, desta vez, não o podes salvar da velhice.
A maior dor é perceber que, para ti, ele foi abrigo…
e para ele, tu foste TUDO:
a vida inteira,
todo o céu,
toda a esperança.
E tu não estás pronto.
Não estás pronto para o deixar ir.
Não estás pronto para ver apagar-se quem te ensinou a amar sem limites.
Depois, chega o silêncio.
Pesado.
O espaço vazio na almofada.
A taça, que já ninguém vem lamber.
E o coração partido em pedaços.
E voltas a sair à rua.
Mas já sem ele.
E dás por ti a sussurrar ao vento:
Vamos, meu pequenino
Mas se pudesse voltar atrás
Escolhia-o de novo.
Escolhia tudo: o cansaço, a tristeza, a entrega.
Porque este amor é verdadeiro.
Ter um cão é deixar entrar o fogo na nossa vida.
Um fogo que te aquece para sempre,
mesmo quando ele já se foi.
Porque o cão veio ao mundo só com uma missão:
dar-te o coração dele.







