O Livro Que Ficou Por Ler

Pronto, Inês, já vou andando! Nem te ponhas a acompanhar-me. Vou chegar tarde! Destapa já amanhã a camisa azul e as calças, não te esqueças! E não te esqueças de ir buscar à lavandaria! gritou Rui da entrada, enquanto atirava rapidamente o casaco aos ombros, parou para se ver ao espelho com olhar crítico, pegou no chapéu e saiu, batendo com a porta com força.

A porta bateu tão rijo que até as vidraças da janela aberta estremeceram.

É a corrente de ar, pensou Inês Maria, fechando a torneira, limpou as mãos ao avental e espreitou da cozinha. Tudo igual: o corredor inundado de sol, a terminar na entrada, as fotografias de família na parede, o papel de parede às riscas, duas largas, duas fininhas, num azul delicado; o casaco de Inês no cabide. E

Inês franziu o sobrolho.

O embrulho! O Rui esqueceu-se do embrulho, e lá estavam os pastéis! Foi ela própria que os fez, ainda nem o sol nascera, com cebola e ovo, como ele gosta. Fez de propósito, porque o Rui ia ao norte para uma intervenção no terreno e lá nem sítio há onde comer como deve ser e comida de casa é sempre a melhor!

Desatou rapidamente o avental, ajeitou o cabelo e, ainda de vestido simples de casa, com as mangas curtas em balão e uma nódoa de café na bainha, agarrou o embrulho quente e, aninhando-o ao peito como um bebé, saiu disparada de casa, lembrando-se ainda a tempo de levar as chaves, senão era ficar pendurada à porta! Desceu as escadas meio a correr, agarrada ao corrimão liso e envernizado, enrolado feito serpentina quarto andar, terceiro, segundo

Inês podia, como muitas outras senhoras ali do prédio, chamar pelo marido da janela, à espera que ele saísse do prédio, mas isso não lhe parecia elegante. Ela própria ia levar o embrulho, despedir-se, dar a face ao Rui, receber aquele beijo seco e apressado, e o aceno de cabeça, já vou tarde.

Com a correria até ficou ofegante, saiu para o pátio, a porta a fazer eco pela parede, pouco lhe importando que, a caminho dos cinquenta, correr já não é tão fácil.

Saiu e procurou logo com os olhos a figura do marido, no casaco de chuva cor de asfalto e o chapéu claro. Rui adorava sobretudos compridos, sempre abertos, a esvoaçarem com o vento, chapéu a condizer. Chapéus nunca lhe faltaram, para todas as estações. Inês era quem tomava conta, limpava e, se era preciso, comprava novos.

Chapéu é sinal de estilo! teimava Rui, sempre que o filho Ricardo, assim chamado em honra do avô, se ria das manias do pai. Vocês, desta geração, não percebem nada, são tudo fibra sintética e napa!

Onde raio está o Rui?

Lá vai ele, já a sair do portão do prédio, a misturar-se naquela rua cheia de luz e de ruído. Se Inês não se despachasse, o marido entrava no autocarro e depois

Dispara pelo pátio, vai acenando às vizinhas idosas, sentadas ao sol nos bancos do jardim. Elas, cada uma com as suas linhas e agulhas, seguiam o percurso da Inês como se festejassem o seu amor, aquele aconchego de quem tem a vida certa.

Que se passa, Inês? perguntou a Dona Rosalina, lançando olhares à figura apressada de Inês.

O almoço! O Rui esqueceu-se, e tenho aqui os pastéis! respondeu-lhe Inês com um sorriso.

Rosalina acenou, rindo: pastéis são coisa boa, e amor também. Só pode dar felicidade.

Nisto, Inês saiu pelo portão, pronta a chamar mas parou, ficou a olhar para o marido, os ombros a cair, quase como se de repente a luz se apagasse por completo e o ar lhe faltasse. Sentiu um enjoo agudo, apoiou-se ao cano da água.

Rui estava já na paragem do autocarro, de lado para ela, a segurar pelo braço uma mulher nova, exuberante, jovem. Ela ria, apertando os ombros com charme, e Rui olhava-a de cima e ria também. Depois a rapariga afasta-se com um ar de desdém, mas Rui, assustado e submisso, tenta agarrar-lhe a mão para beijar. Ela arranca-lhe o braço, como quem despacha um mendigo, até parece que lhe dá um estalo, Rui endireita-se como uma tábua, fulo, percebe Inês. Mas logo volta a ceder, acaricia as costas da rapariga, tira um rebuçado do bolso e estende-lho. Ela ri, abre a boca, a pedir o doce.

A Inês deu-lhe um nó no estômago. O Rui, um homem respeitável, adulto, quase idoso, a portar-se assim para uma miúda, sem ponta de vergonha!

A rapariga envergava um vestido azul de verão, com bolinhas brancas que até faziam doer a vista. Uma fita azul no cabelo, tudo direitinho, sapatos a condizer.

Inês sente-se perdida, a olhar para o embrulho na mão, sem saber o que fazer com ele, com os pastéis, ou sequer com a própria vida

O autocarro chegou, toda a gente a entrar, Rui ajuda a rapariga a subir, as portas fecham-se.

Quando o autocarro começa a afastar-se, Inês pensa que ele a olha diretamente, mas sente-se envergonhada com o vestidinho de casa, os chinelos gastos, o embrulho com pastéis.

Inês Maria vira costas de repente, caminha de volta para dentro, passa pelo jardim onde agora as vizinhas deitam fora as camisolas, saboreiam o calor. À beira da canteira de flores quase tropeça na Dona Rosalina.

Então e os potes, Inês? Não chegaste a tempo? pergunta ela, com ar sabichão e olhos postos no embrulho. Ela sempre chamou potes aos sachezinhos de comida, como se não aprovasse aquela mania da Inês de agradar tanto ao marido.

Não, já não deu, respondeu Inês, encolhendo os ombros.

Vai-se estragar a comida, comentou Rosalina. Mando cá o António mais tarde, sim? Ficas hoje por casa?

Inês abana a cabeça sem responder.

Está bem. Ele adora pastéis e eu não tenho paciência para massas. Pronto, fica combinado.

De repente Rosalina desata aos gritos para um trator que entra no pátio:

Vai embora daí, homem do diabo! Olha que me furas os vasos todos com as tuas rodas! Vira para trás, já te disse!

Inês nem ouve. Sobe para o prédio, a frescura do hall a engolir-lhe a alma. Os passos ecoam nas escadas de mármore, um soluço junta-se ao ranger da porta, perde-se lá dentro.

Pronto. Já está. Acabou-se a família, o calor, aquela certeza tranquila, acabou-se a confiança, acabou-se acreditar nas pessoas. Ai, deixemos lá os pessoas é demasiado vago. O marido… “Marido” é aquela âncora a quem um dia entregamos a vida, confiamos, mandam-nos cuidar dele. E agora isto? E agora, como é que vai ser?

Inês deixou-se cair na banqueta da entrada, o embrulho abriu-se, os pastéis a rolarem pelo chão. O gato Tobias veio roçar-se às pernas da dona, miando por comida, mas ela nem deu por isso. Ficou ali, parada, a recordar o vestido azul de bolinhas, aquela mulher, o Rui. E as lágrimas caiam-lhe quentes, aquelas lágrimas pesadas de mulher triste, até ficou a gostar de se sentar assim só a sentir pena de si, sem se endireitar, sem fingir o sorriso da esposa feliz, a viver ali o seu desgosto doce e amargo

Quanto tempo ficou assim, não se sabe. Até que alguém entrou à força pela porta, Tobias fugiu, assustado.

A porta, que Inês tinha deixado destrancada, range. É o senhor António, marido da Dona Rosalina. Nariz carnudo, bochechas marcadas, boca grande, caracóis de cabelo sempre oleosos, pescocito avermelhado era tudo nele demasiado, quase fora de lugar naquela casa de gente de outro meio. Mas António era também um dos nossos intelectual meio tresloucado, como dizia o Rui.

O homem é artista, Inês, explicava Rui. E além disso, dirige uma galeria! Gente criativa é tudo assim, meia passada. Senão não tinham talento nenhum

Inês Maria limpa as lágrimas, ergue o olhar para os olhos claros e azuis do visitante. Se não fosse artista tinha dado um bom padre, pensou de repente tem cara para isso e tudo.

Senhor António? O senhor? pergunta ela, atrapalhada.

Quem havia de ser? responde ele com ar simples, olhando-se. Eu, Inês. A minha Maria disse-me que tinhas pastéis a mais. E nós lá em casa, já vês, está tudo empacotado, a Maria anda a mudar os móveis suspirou António. Anda tudo de pernas para o ar, ela manda-me comer na tasca e eu já não posso com isso

Até parece que soluça, os caracóis mexem-se, o corpanzil avança e enche o espaço amarelo da luz solar.

Espera, que tiro os sapatos, disse António com aquele sotaque arrastado, quase dos confins do Alentejo. Estão molhados, pisei numa poça. E as meias também! apontou ele, e Inês baixou os olhos. Só umas meias, normais, com uma risquinha. Mas com um buraco enorme no dedo grande.

Inês apanha os sapatos, nem dá por si enquanto os leva para a varanda a secar.

Põe lá isso no chão! grita António, e ela pára, espantada.

Mas olhe que se não seca apanha uma gripe, faz-lhe falta! diz ela, baixinho.

O corpo é meu! Deixa estar isso aí! responde ele, a sacudir os caracóis.

Inês não lhe liga, claro. Convidado haver de sair dali com as botas molhadas? Nem pensar!

Enquanto ela trata do calçado, já António anda pela cozinha, a remexer, a provar coisas:

Oh Inês! Chega cá. Faz-me um chá! Já nem me lembro do sabor de um chá preto, forte, com limão! Vai daí, vizinha, prepara um para mim, sim? Estou morto de cansaço e estendeu as pernas pelo corredor, de modo que quase tropeçava nele.

Já vou! disse ela, ainda magoada, coloca a chaleira ao lume com movimentos automáticos, mas a cabeça anda noutro mundo.

Rui O Rui, logo ele… Como é que teve coragem? Mal vira costas e já anda com outras, sem um pingo de vergonha!

Inês ficou a ferver por dentro, mas depois pensou que aquilo devia ser só um mal-entendido, coisa de momento.

Não, isto não é nada! Devem ter-se encontrado por acaso, insignificante! Colegas, só isso!, pensava, tentando acalmar-se como a mãe lhe fizera sempre. Quando ele vier, não faças caso, trata dele, aquece-lhe o coração. Vai ver que esquece a outra!

Enquanto se perdia nestes pensamentos, António franzia a testa:

Vais dar-me chá velho?! Eu quero fresco, para visitas de respeito. Fora esse, faz novo! exclamou, deitando fora o bule com as mãos grossas, cheirou à tampa, torceu o nariz. Isto não! Para o lixo, menina!

Só o fiz de manhã! Está ótimo, prove ao menos! tenteou Inês, mas acabou por ceder.

Fazer um bule de chá era o menos; o que doía a sério era o resto.

A chaleira apitou, o aroma do chá negro, aquele do elefante, espalhou-se pela casa, sumptuoso.

Assim é que está bem! Mas quero aquela chávena de porcelana azul, com fio de ouro. Vais buscar, sim? Sempre bebi chá nelas. E quero pastéis, olha que eu não brinco! Os do Rui, se ele não os quiser, como eu! Põe num prato bonito. E enquanto como, cose-me estas meias. A Maria nem quer saber, está ocupada com móveis, mas a mim este buraco já me anda a magoar! e abanou a cabeça ao jeito de louco.

Inês Maria, respeitada, professora estimada, há muito tempo deixara de dar aulas para dedicar-se à casa e ao marido, uma mulher educada, culta, olhava com desdém as meias, mas os dedos não hesitaram em pegá-las para remendar.

Depois da primeira indecisão, António bate na mesa com um murro, cresceu e encheu a cozinha, soprando e gesticulando.

Ó Inês, tu já não te dás valor! Mandas em tudo e deixas-me mandar em ti? Tu eras um espanto! Os miúdos na escola seguiam-te, e tu firme! Até a mim, que nunca mais me esqueço, dávamos por ti a andar no pátio, até os pardais paravam para olhar! E agora? Agora dás a volta a toda a casa só para agradar ao Rui! Rui, o teu chapéu! Rui, os potes! Rui, não vás tu, vou eu buscar batatas! e imitava-lhe a voz.

Inês magoou-se, depois não conseguiu evitar o sorriso. Realmente, era mesmo assim que ela fazia.

Estou uma galinha, não é? Não me respondas. Sou mesmo uma galinha choca, admitiu baixinho. Mas gosto de cuidar, de proteger, de fazer tudo parece que

E eu digo que o Rui perdeu a força toda por isso! Nós, Inês, somos caçadores, predadores, queremos chama, não só meias quentinhas! Meias dão jeito, mas não exageres! O Ricardo saiu de casa, e tu atiraste tudo para o marido. Ficaste sossegada, mas ele foi atrás de outra, mais atrevida. Sente-se jovem com ela, percebes?

Inês não percebia nada, ou não queria perceber. Valeriam de quê tantos anos, tanto esforço, se a vida se virava do avesso? Perdeu-se de si própria

Deixou de dar aulas, só para poder tratar de tudo. Sem mais noites a corrigir cadernos, só silêncio e ordem. Depois eram alunos em explicações, mas o Rui adoeceu, perturbava-se com as visitas e ela despediu-os. Até cantar, já não cantava, nem rádio ligava, e pincéis e tintas tudo à prateleira porque ele não suportava o cheiro.

E pronto. Acabou-se.

Mas tu tens é de erguer a cabeça, mulher! Ainda és jovem! Flor, rosa, lira! Vai atrás de ti própria, ou o Rui continua nas aventuras. António bateu na mesa e suspirou. E olha, os teus pastéis são um regalo! Se tivesse vinte anos ai, Inês! Corria atrás de ti, juro!

E lá foi António. Ficou Inês sozinha.

O Rui chegou tarde essa noite, cheiro a whisky, traços do perfume de outra.

A reunião prolongou-se, atirou-lhe a pasta, torceu as costas, Faz-me chá, quero batatas fritas, com um copito! Então, ficas aí parada?

Inês não lhe pegou na pasta, mandou-o afastar-se para pôr o saco dela.

Vais aonde tu? O que é isto? espantou-se ele ao ver Inês arranjada, cabelo apanhado à concha, brincos, vestido novo, sandálias. Murchou logo.

Vou de viagem em trabalho. Arranja-te tu. Com lágrimas ou sem elas, mas é contigo.

E a batata? E a camisa? perguntou Rui, severo.

Ela hesitou, quase ia fazer-lhe a vontade, mas parou e acenou:

Arranja tu! Ou chama a tua amiga, se te apetecer. Estou-me a ir, Rui, já devias saber.

E saiu, demorando-se só para ajeitar a mala com a pega a magoar-lhe a mão. Mas logo os saltos batiam nas escadas, desapareceu de vestido elegante para dentro do táxi, tudo ficou em silêncio.

Rui ainda correu até ao patamar para chamar por ela mas só lhe saiu um gemido, um ganido de dor nas costas e lágrimas nos olhos.

I-nê-ê-ês só isto conseguiu dizer

Onde estavas tu, Inês?… Massajavas-lhe as costas, fazias chá, acrescentavas cachecol, aninhavas-te a ele

Sofia? És tu? sussurrou ao telefone Rui, Sim, eu sei que não era para ligar, mas Ai as minhas costas, Sofia! Não consigo ir à cozinha! Sempre fomos próximos O quê?

O telefone cortou, lá vêm os toques interrompidos. Sofia não vai vir, não massageia, não passa a camisa, não se deita ao lado. É altiva demais, independente demais. Não é a Inês, nunca será a Inês. Que horror.

Arrastou-se até à cozinha, viu os pastéis frios no prato. Isto já não era só tristeza, era desastre. E criou-o tudo sozinho! Ai

Inês Maria voltou a casa no dia seguinte, com um médico e um ramo de rosas. Ela própria comprou as flores, pô-las na jarra de cristal. Cheirava a perfume e, levemente, a tabaco. Sim, Inês fumava, às vezes, quando tudo pesava.

Espere, doutor, não injete já, pediu ao médico.

O marido gemia, sem alívio.

O que foi agora? perguntou o médico.

Só um minuto. Rui, o que prometeste tu àquela menina? Mulheres dessas aparecem assim do nada? Tu para ela já és velho, sabias? Inês inclinou-se sobre o rosto lívido do marido.

Não sou velho! Estou no auge

Reforma, completou o médico. Então, o que prometeste? Desembucha, que não tenho tempo!

Um cargo. E um título. Mas não vai receber nada! Juro! Eu errei, Inês, errei tanto! Só tu! Só preciso de ti!

Vai receber, sim. Um homem cumpre a palavra. E tu vais sair do teu emprego. Procura outro. E escuta: vou voltar ao trabalho para a semana. O ferro está ali, as camisas para lavar. Não gostas? Pede o divórcio. Entendeste?

Rui abanou a cabeça, suando frio, o médico ao lado da Inês a olhar severo, António no vão da porta com ar de quem viu tudo. Já só falta aparecer a Rosalina e o espetáculo está completo!

Entendi. Façam o que quiserem, que se não vou desta para melhor! murmurou ele.

Inês acenou, satisfeita. E o médico lá tratou do assunto

A Sofia, essa, estava de nuvens. A tese escrita à pressa foi aprovada em cheio, arranjou um bom emprego junto ao seu novo título. Tudo graças ao seu velho e querido Rui.

Agora nem lhe dava conversa, desviava o olhar, não devolvia cumprimentos. Para quê? A mulher dele deixou bem claro: o título pode sumir num instante! O emprego também! Sofia há-de meter-se com outro qualquer.

Rui despediu-se do trabalho. Ninguém entendeu, com tão bom emprego naquela instituição. Ele não explicou, só disse que deu a palavra. A quem e porquê, ninguém sabe.

Na despedida, ofereceu um jantar, levou a mulher nos seus melhores brincos, dançou com ela o tango e olhou-a duma maneira Duma maneira como nunca tinha olhado a Sofia.

Porquê? O que havia naquela Inês Maria?

Tinha tudo, simplesmente. Inês era o próprio ar que Rui respirava, sem dar valor até ao vazio. E só então percebeu o que perdera. Não eram só as costas e os mimos. Inês era ainda aquele livro por ler, misteriosa, feroz e doce como morangos de Julho, aqueles que ele dava à mulher nova junto ao mar. E nunca se chega à última página desse livro. Que assim seja

A Sofia, talvez um dia, também chegue lá. Ou talvez não. Ou só quando arranjar quem a saiba ler. A vida diráRui fechou os olhos, sentindo o rumor calmo da casa, a chávena morna entre as mãos, o cheiro a pastéis reheated e tabaco suave a pairar e, por fim, o perfume de flores frescas que Inês dispensara pela sala, numa alegria silenciosa que só ela sabia pôr nas pequenas coisas. Nos silêncios partilhados encontrou respostas, e nos gestos de Inês simples, mas certeiros , o peso da culpa esbateu-se devagar, como as pegadas das gaivotas na espuma.

Na varanda, ao lusco-fusco, Inês pôs um disco antigo a girar. Deixou-se embalar pela canção, olhos fechados, a cabeça recostada ao vidro fresco. O mundo rodava sem certezas, mas, ali, entre as rosas, os vestígios de dor e os restos de chá, havia espaço outra vez para si, e para coisas por acontecer não para o passado, não para aquilo que esperaram dela, mas para o que ela escolheria a partir dali.

Lá em baixo, Dona Rosalina ria-se alto, chamando pelo António, e o barulho dos meninos a jogar à bola misturava-se ao cheiro das tílias. Tudo parecia igual, e, no entanto, tudo era novo.

Inês levantou-se devagar, ajeitou um brinco, sorriu ao ver Rui sentado, humilde, sem suplicar, apenas ali, a olhá-la como quem pede ainda uma dança. Ela hesitou… mas ofereceu-lhe a mão, leve, como quem reinventa o gesto pela primeira vez. E ao entrelaçarem os dedos, no compasso incerto da valsa, Inês percebeu que nunca, mas nunca, seria só um nome na parede de casa, uma sombra atrás do marido, ou a dona dos potes esquecidos.

Afinal, pensou, até as flores renascem todos os anos, mesmo quando o inverno parece ficar para sempre.

E foi assim: naquela noite azul de verão, a casa encheu-se de música, cheiro doce e palavras baixas. Porque há partidas e regressos. Há mágoas. Mas, se o coração se abre, há sempre qualquer coisa, mesmo que pequenina, pronta para florescer outra vez.

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