O LADRÃO DAS CHOURIÇAS
Era impossível não notar aquele gato. Não só porque ele roubava chouriças na pequena mercearia do bairro, mas também pelo seu jeito irresistível de o fazer era tão engraçado que até dava dó ficar zangado, pelo contrário, até dava vontade de rir.
O dono, o senhor Manuel, aguardava ansiosamente pelo início do espetáculo. Gravava todos os assaltos no telemóvel e depois, à noite, mostrava-os à dona Teresa. Os dois fartavam-se de rir. E como isto funcionava? Já conto.
O gato, a quem Manuel pôs o nome de Gaspar, passava primeiro um bom bocado sentado à porta aberta da loja, fingindo que só ali estava a apanhar sol. Olhava para os lados, certificava-se de que o terreno estava livre e, sem saber, era filmado pelo senhor Manuel escondido atrás do grande frigorífico do fiambre.
Depois, Gaspar avançava devagarinho para dentro e marchava direto para o expositor das chouriças. Ali, acelerava o passo, agarrava uma salsicha ou uma farinheira, e zás, fugia dali apressado. Mas nem conseguia ir muito longe.
A fome era muita, por isso, dois metros bastavam até ele parar e começar a comer. Manuel saía à rua, parava a uma distância prudente e perguntava:
Está boa, Gaspar?
O felino levantava a cabeça, miava com aprovação.
Ainda bem, menino. Amanhã há mais, está descansado!
E pronto, assim se fazia este teatro. Agora, podem estar a perguntar: mas como é que as chouriças estavam logo ali à mão de semear, sem frigorífico, cortadas e separadas, quase a pedirem para serem afanadas? Ora, fácil de explicar.
O senhor Manuel tinha um coração maior do que o próprio estabelecimento. Gaspar apareceu-lhe um dia magro como um espeto, mas com atitude de senhor da rua. Nunca se deixava tocar, nem aceitava comida da mão de ninguém. Assim, Manuel lá inventou: começou por pôr salsichas mesmo à portinha da loja, para Gaspar sentir que estava a caçar a sua refeição, tipo Robin dos Bosques, versão felina.
E resultou! Aos poucos, Manuel foi colocando as iguarias cada vez mais lá dentro, num cantinho ao pé do chão, como quem monta um buffet para gatos malandros. Neste ponto, Gaspar já podia entrar, abastecer-se, e sair como se nada fosse, mas qual quê, o que tem piada e sabor nisto era mesmo a arte do roubo.
Depois, Manuel ainda colocou à porta uma tigela de água fresca, um prato cheio de comida de gato de marca e até uma caixa de areia. Até uma mini-casota de cão lá foi parar, forradinha com manta polar, pronta para noites frias. Gaspar, desconfiado como era, nunca dava confiança. Mas era falador e gostava de miar em resposta.
O dono saía atrás dele, depois de uma caçada, e metia conversa. Gaspar interrompia às vezes o banquete para responder. Só que ultimamente, Manuel topou que Gaspar andava mais rechonchudo, brilhante do pelo, e já não precisava de andar a roubar. Mesmo assim, não falhava, duas vezes ao dia, lá fugia com duas salsichas de cada vez.
Manuel, curioso, quis descobrir porquê e comprou uma microcâmara para espiar os crimes. Descobriu depressa o segredo de Gaspar: do buraco do rés-do-chão, ali ao lado, saltava um pequeno gato ruivo que, com mais fome ainda, devorava a salsicha que Gaspar lhe entregava.
Olha-me só este coração de manteiga, suspirou Manuel emocionado.
Chegou a contar à Teresa, que lavada em lágrimas, avisou:
Amanhã mesmo, ouviste? Amanhã trazes esses dois cá para casa!
Mas não era assim tão fácil. Apanhar Gaspar já era possível, que por essa altura até dormia em cima dos sacos de batatas na loja, mas o ruivinho era rápido como o vento.
Passaram-se os dias, e da câmara, Manuel via o pequeno ruivo, a quem chamou Faísca, beber água na tigela de Gaspar ou dormir na casota, sempre fugindo ao mínimo movimento humano.
Tudo mudou num certo dia: Manuel ouviu um miado estranho junto à porta. Sem nenhum cliente em loja, dirigiu-se ao som. Era o Faísca, bem no limiar da entrada, a miar aflito.
Que foi, pequenino?
Faísca saiu disparado, olhando para Manuel como quem lhe pede ajuda. E Manuel foi atrás. Virando a esquina, viu Gaspar deitado a lamber a pata traseira, ferido pela dentada de um cão. O pequeno Faísca cutucou o amigo com o focinho e voltou a miar.
Valha-me Nossa Senhora murmurou Manuel.
Despiu o casaco, enrolou Gaspar e pegou a Faísca, que não se importou nada, e meteu-o ao bolso do blusão. Fechou a loja e carregou ambos no carro até à clínica veterinária. Foram cinco longas horas entre soro, costuras e muita preocupação.
Nesse tempo todo, Faísca mostrou-se brincalhão e sociável com Manuel. E o laço estava selado. À noite, Manuel levou os dois felinos para casa, ainda a recuperar.
Dona Teresa ficou tão feliz que, como qualquer mulher portuguesa, pegou imediatamente no telemóvel para dar novidades a todas as amigas do bairro assunto que deu pano para mangas.
Quando acabaram as chamadas, Manuel, Gaspar e Faísca já roncavam todos juntos na cama matrimonial.
E eu, durmo onde? resmungou Teresa a sorrir.
Mas Faísca logo se chegou a ela, aconchegou-se e começou a amassar-lhe a barriga com as patinhas, reclamando o seu lugar.
E foi assim que encontraram o lar. Agora, com dois enormes e mimados gatos, já nem parecem os esfarrapados de antigamente.
Entre lambidelas nostálgicas e sestas intermináveis, a vida segue calma na casa de Manuel.
Enquanto isso, do outro lado da rua, junto à sapataria, apareceu uma gata cinzenta, que também tem direito a ração, graças à empregada da loja que, quem sabe, um dia poderá dar-lhe um lar.
Talvez, um belo dia, todos os gatos de rua sejam adoptados. E, de tão raros, os felinos passem a exigir fila de espera e curso obrigatório para ser digno de ter um.
Que acham, pode mesmo acontecer?






