GRACINDA E O MARIDO DESAGRADECIDO
De manhã, o marido ligou para Gracinda diretamente para o seu setor do trabalho e avisou que, ao sair, ia logo para casa dos Silvas celebrar o seu dia profissional.
Se quiseres, aparece, disse com aquela indiferença típica, seguro de que ela não iria, que preferia ler ou ficar diante do computador a noite inteira.
Está bem, respondeu ela no mesmo tom, mas, na hora do almoço, foi ao centro comercial procurar uma prenda para ele. O balcão de perfumaria estava repleto de mulheres à procura do presente ideal.
Gracinda logo reparou num frasco de colónia cara na caixa preta, brilhava a imagem de um homem elegante, de blazer jogado ao ombro, olhar trocista, sorriso meio atrevido. Era o retrato do seu Gregório.
A funcionária embrulhava pacotes com destreza, prateados, enfeitados com laços e fitas. Uma idosa aproximou-se e comentou:
Ai meninas, compram colónias para estes homens e quem vai cheirar depois são outras, quem aprecia a gravata também não costuma ser a esposa!
As outras ria-se, mas Gracinda ficou pensativa: sempre foi assim, ela fazia tudo pelo Gregórinho, mas ele gostava de se mostrar para os outros. Em miúda, amava-o sem reservas, ele aceitava com desdém. Entrou na faculdade em regime pós-laboral era ela que passava noites a fazer-lhe os trabalhos. Quando vieram os filhos, tomou conta de todos os assuntos da casa.
Ao início, sentia a gratidão do marido, mas aos poucos, ele habituou-se e já tomava por dado tudo o que ela fazia. Para quem visse de fora, a vida era perfeita: casa composta, paz doméstica e crianças bem comportadas. Mas os filhos cresceram e partiram. Gracinda ficou só com ele. Percebeu que faltava qualquer coisa.
Lembrou-se da mãe, há vinte anos atrás, a desaconselhar o casamento: «Olha bem, Gracinda, é um homem bonito, sabe-o e gosta de se admirar. Homem bonito é para todos, vais passar a vida a dividir atenções e receberes a menor parte.» Então ponto um: mulher pouco amada. Ponto dois: já soma quarenta e três primaveras. Ponto três: a quem é que ainda interessa?
Gracinda encostou-se à janela. O sol já queimava, em modo primavera. «Já vem aí o dia da mulher… E para quê? Outra vez sozinha… A vida quase passada… E o que virá?»
Lá de fora, ouviu-se o chilrear dos pardais, depois um toque insistente no vidro. Olhou: um pardal maltrapilho desfilava no parapeito, olhando-a de lado, com olho vivo.
«Isto é um sinal», pensou Gracinda. Logo de seguida, as badaladas profundas do relógio reafirmaram-lhe a ideia.
«Ainda há tempo. Ponto um: se não nos amam, tratemos nós de nos amar primeiro…» Batendo a porta, Gracinda desceu as escadas: primeiro cabeleireiro, depois loja…
Às seis e meia o espelho quase não a reconhecia: uma mulher misteriosa na cadeira do computador, vestida de preto justo, cabelo curto, franja moderna em três tons, olhos profundos com sombra e delineador, lábios só com um toque de brilho e lápis de repente, eram carnudos e atrevidos.
«E ponto dois: aos quarenta, a vida começa!»
Foi até à cozinha, voltou com um copo de vinho, brindou ao espelho: «Ponto três será que precisamos de um marido que não sabe dar valor a uma mulher destas?…»
Nem é preciso dizer: entrou em casa dos Silvas equilibrando-se nas saltos agulha, com um grande à-vontade. Todos ficaram espantados logo vários homens estenderam-lhe a mão: para ajudar com o casaco, oferecer um lugar, uma maçã ou um elogio. «Ah, pois… O meu marido? Não reparei se estava…»
Gregório ficou atordoado com a surpresa, completamente desarmado pela nova postura da mulher e pelo fascínio coletivo que ela provocava.
Na manhã seguinte, querendo recuperar o controlo, arriscou o tom habitual, descarado:
E o pequeno-almoço, vamos comer ou não?
Mas errou o alvo. Deitada a seu lado, ressonando suavemente, estava não a submissa de sempre, mas uma mulher confiante, segura de si e de cabelo colorido.
Sem sequer se virar, respondeu, matreira:
Já está preparado, amor?
E, ao espreguiçar-se para um novo sono, só pensou: «Ora bem, querido. Caso contrário voltamos ao ponto três.»
E assim percebeu Gracinda: antes de tudo, é preciso cuidar de si própria, para não viver a sonhar com a gratidão dos outros. Só nos valorizando, estaremos prontos para ser verdadeiramente felizes.







